sábado, 1 de setembro de 2018

Como Conhecer Deus !

Aforismos iogues de Patanjali 

1. A IOGA E SEUS OBJETIVOS

Ioga significa basicamente "união " . É o antecedente sânscrito da palavra inglesa yoke { jugo , par ,aquilo que une } . Daí , vem a significar método de união espiritual . A ioga é um método - um entre muitos - pelo qual a pessoa pode ligar-se à Divindade , à Realidade que subjaz ao universo aparente , efêmero . Atingir esta união é alcançar o estado da ioga perfeita . O cristianismo tem um termo equivalente , " a união mística " , que expressa idéia análoga .
Bhoja , um dos comentarista clássicos deste aforismo , define o uso da palavra ioga por Patanjali como " um esforço para separar o Atman ( a Realidade ) do não-Atman ( o aparente ) " .
Quem pratica a ioga chama-se ioguim .

2. A ioga é o controle das ondas de pensamento da mente .  

Segundo Patanjali , a mente ( chitta ) é formada de três componentes , manas , buddhi e ahamkar . Manas é a faculdade de registro que recebe as impressões captadas do mundo exterior pelos sentidos . Buddhi é a faculdade discriminatória que classifica estas impressões e reage a elas .
Ahamkar é o senso de individualidade que reivindica essas impressões como suas e as armazenas sob a forma de conhecimento pessoal . Por exemplo , manas diz : " Um grande objeto animado aproxima-se rapidamente " . Buddhi decide : " Aquilo é um touro . Está furioso . Quer atacar alguém " . Ahamkar exclama : " Quer atacar a mim . Patanjali . Sou eu quem vê este touro . Sou eu quem está apavorado . Sou eu quem está a ponto de fugir " . Mais tarde , dos galhos de uma árvore próxima , ahamkar talvez acrescente : " Agora eu sei que este touro ( que não sou eu ) é perigoso. Outros existem que não sabem disso ; é o meu conhecimento pessoal que me levará a evitar este touro no futuro " .
Deus , a Realidade subjacente , é onipresente por definição . Se a Realidade afinal existe , deve estar por toda a parte , deve estar presente em toda a criatura sensitiva , em todo objeto inanimado . O Deus que a criatura traz dentro de si é conhecido na língua sâncrita como Atman ou Purusha , o Eu real . Patanjali refere-se a todo momento a Purusha ( que significa literalmente " a Divindade que mora dentro do corpo " ) , mas nós , ao longo desta tradução , substituiremos este termo por Atman , usados nos Upanishads e no Bhagavad-Gita , sendo provável que os estudantes estejam mais familiarizados com ela . Segundo os Upanishads e o Gita , o uno Atman acha-se presente em todas as criaturas . Segundo a filosofia sanquia , Patanjali acreditava que toda criatura e objeto singular tem o seu Purusha específico , conquanto idêntico . Este ponto de desacordo filosófico não tem importância prática para o aspirante à vida espiritual .
A mente parece ser inteligente e consciente . A filosofia iogue ensina que ela não o é , que não possui mais que uma inteligência de empréstimo .
O Atman é a própria inteligência , a consciência pura . A mente apenas reflete essa consciência , parecendo assim ser consciente .
O conhecimento ou percepção é uma onda de pensamento ( vritti ) que vem à mente . Todo conhecimento é , pois , objetivo . Mesmo o que os psicólogos ocidentais chamam introspecção ou autoconhecimento vem a ser conhecimento objetivo , de acordo com Patanjali , visto que a mente não é o vidente , mas tão-só um instrumento de conhecimento , um objeto da percepção , tal como o mundo exterior . O Atman , o verdadeiro vidente , permanece desconhecido .
Toda percepção desperta o sentimento de individualidade , que diz : 
" Conheço isto " . Mas trata-se do ego falando , não do Atman , do Eu real .
O senso de individualidade é provocado pela identificação do Atman com a mente , os sentidos etc . É como se o bulbo de uma pequena lâmpada afirmasse : " Eu sou a corrente elétrica " , passando então a descrever a eletricidade como um objeto de vidro em formato de pêra , contendo filamentos de metal . Tal identificação é absurda - tão absurda quanto a pretensão do ego de ser o Eu real . No entanto , a corrente elétrica está presente no bulbo da lâmpada , e o Atman está em todas as coisas , em toda a parte . 
Quando um objeto ou um evento do mundo exterior é registrado pelos sentidos , uma onda de pensamento surge na mente . O sentimento de individualidade identifica-se com essa onda . Se a onda de pensamento é agradável , o senso de individualidade considera : " Sou feliz " ; se a onda é desagradável , " Sou infeliz " . Essa falsa identificação é a causa de toda a nossa aflição - pois , mesmo a sensação passageira de felicidade do ego traz ansiedade , um desejo de agarrar-se ao objeto do prazer , preparando assim as possibilidades futuras de sentir-se infeliz . O Eu real , o Atman , permanece para sempre fora do poder das ondas de pensamento , eternamente puro , iluminado e livre - a única felicidade verdadeira , inalterável . Segue-se portanto , que o homem jamais conhecerá o seu Eu real enquanto as ondas de pensamento e o sentimento de individualidade estiverem sendo identificados . A fim de nos tornarmos iluminados , devemos trazer as ondas de pensamento sob controle , de modo que essa falsa identificação possa cessar .
Ensina-nos o Gita que a " ioga " é a quebra de contrato com a dor .
Ao descrever a ação das ondas de pensamento , os comentaristas empregam uma imagem simples - a imagem de um lago . Se a superfície de um lago é varrida pelas ondas , a água toma-se lamacenta , não mais se vendo o fundo . O lago representa a mente e o fundo do lago , o Atman .
Quando Patanjali fala do " controle das ondas de pensamento " , não está se referindo a um controle momentâneo ou superficial . Muitas pessoas acham que a prática da ioga se relaciona com algo como " fazer da mente um vazio " - condição que , se fosse mesmo desejável , poderia ser muito mais facilmente alcançada , pedindo-se a um amigo que nos golpeasse a cabeça com um martelo . Jamais se obtém benefício espiritual algum pela auto violência . Não estamos tentando refrear as ondas de pensamento fazendo em pedaços os órgãos que as registram . Cumpre-nos fazer algo muito mais difícil - desaprender a falsa identificação das ondas de pensamento com o senso de individualidade . Este processo de desaprendizado implica uma transformação completa do caráter , uma " renovação da mente " , como afirma São Paulo .
O que a filosofia iogue entende por " caráter " ? Para explicá-lo , pode-se levar adiante a analogia do lago . As ondas não apenas perturbam a superfície das águas : por uma ação contínua , criam também bancos de areia ou calhaus no fundo do lago . Esses bancos de areia são , naturalmente , muito mais duradouros e sólidos do que as próprias ondas , podendo comparar-se às tendências , potencialidades e estados latentes que existem nas regiões subconscientes e inconscientes da mente . Em sânscrito , são chamados samskaras . Os samskaras são formados pela ação contínua das ondas de pensamento , e criam por sua vez novas ondas de pensamento - o processo funciona nos dois sentidos . Exponha a mente a pensamentos constantes de raiva e ressentimento e descobrirá que essas ondas de raiva formam samskaras de raiva , os quais acabarão por predispô-lo a encontrar motivo para a raiva em qualquer hora do dia . Diz-se que uma pessoa com samskaras de raiva bastante desenvolvidos tem " mau gênio " . A soma completa de nossos samskaras é , de fato , o nosso caráter - em determinado momento . Nunca nos esqueçamos , porém , de que , assim como um banco de areia pode alterar-se e transformar-se com a mudança da maré ou das correntes , também os samskaras podem ser modificados pela introdução de outros tipos de ondas de pensamento na mente .
Já que estamos tratando desse assunto , vale a pena nos reportarmos a uma diferença de interpretação que existe entre a ioga e a ciência ocidental . Nem todos os samskaras são adquiridos durante o curso de uma única existência humana . A criança já nasce com certas tendências presentes em sua natureza . A ciência ocidental tende a atribuir essas tendências à hereditariedade . A psicologia iogue postula que elas foram adquiridas em encarnações anteriores , como consequência de atos e pensamentos há muito esquecidos . Não importa realmente , em termos práticos , qual dessas duas teorias se venha a preferir . A " hereditariedade " , do ponto de vista da ioga , pode ser apenas outra forma de dizer que a alma individual é impelida pelos samskaras existentes a procurar um renascimento em certo tipo de família , de pais cujos samskaras sejam semelhantes aos seus , herdando assim as tendências que ela já possui . O ioguim iniciante não perde tempo querendo saber de onde vieram os seus samskaras , ou há quanto tempo já os possui : ele assume total responsabilidade pelos samskaras e propõe-se modificá-los .
Existem naturalmente muitas espécie de mentes que ainda não se acham preparadas para as práticas mais elevadas da ioga . Se você tiver um físico flácido e descuidado e tentar participar de uma aula para bailarinos , provavelmente causará grande dano a si próprio ; é preciso que comece com alguns exercícios leves . Há mentes que podem ser descritas " dispersas " ; são inquietas , impetuosas e incapazes de concentração .
Existem mentes indolentes , acomodadas , incapazes de pensamento construtivo . Existem ainda mentes que , embora possuam certo grau de energia , só conseguem deter-se no que é agradável : diante dos aspectos desagradáveis da vida , recuam . Mas , qualquer mente , seja qual for sua natureza , pode , em última instância , ser disciplinada e transformada , tornando-se na expressão de Patanjali , " voltada para um só ponto " e preparada para alcançar o estado da ioga perfeita .


3. Desse modo , o homem se conforma à sua natureza real .    

Quando o lago da mente se faz calmo e claro , o homem se conhece tal como realmente é , como sempre foi e sempre será . Reconhece que é o Atman . Sua " personalidade " , sua crença equivocada em si próprio como indivíduo singular , único , desaparece . " Patanjali " é apenas um invólucro externo , como uma capa ou uma máscara , que ele pode assumir ou pôr de lado , à vontade . Um homem assim é reconhecido como uma alma livre iluminada .


4. Em outras ocasiões , quando não se encontra no estado de ioga , o homem permanece identificado com as ondas de pensamento da mente .     

5. Existem cinco espécies de ondas de pensamento , algumas dolorosas , outras não 

Uma onda " dolorosa " , de acordo com a utilização do termo por Patanjali , não parece necessariamente dolorosa ao despontar pela primeira vez na mente ; é uma onda que traz consigo acentuado grau de ignorância , apego e sujeição . De igual modo , uma onda que a princípio parece dolorosa pode na verdade pertencer à categoria das " não dolorosas " , desde que ela estimule a mente no sentido de uma liberdade e conhecimento maiores . Por exemplo , Patanjali qualificaria de " dolorosa " uma onda luxuriosa de pensamento , pois a luxúria , mesmo quando agradavelmente satisfeita gera apego , ciúme e dependência em relação à pessoa desejada .
Uma onda de compaixão , por outro lado , seria qualificada de " não dolorosa "
, pois a compaixão é uma emoção altruísta que liberta os grilhões do nosso próprio egoísmo . Podemos sofrer intensamente ao ver o sofrimento alheio , mas a nossa compaixão nos ensinará a compreensão e , consequentemente , a liberdade .
Esta distinção entre dois tipos de ondas de pensamento é muito importante quando chega à prática efetiva da disciplina da ioga , pois as ondas de pensamento não podem ser controladas todas de uma vez .
Primeiro , temos de dominar as ondas de pensamento " dolorosas " gerando ondas " não dolorosas " . Aos nossos pensamentos de raiva , cobiça e decepção devemos opor pensamentos de amor , generosidade e verdade .
Só muito mais tarde , quando as ondas de pensamento " dolorosas " tiverem sido completamente apaziguadas , é que podemos passar à segunda etapa da disciplina , isto é , ao apaziguamento das ondas " não dolorosas " que criamos voluntariamente .
A ideia de que temos afinal de dominar mesmo aquelas ondas de pensamento que são " boas " , e " autênticas " pode parecer à primeira vista chocolate a um estudante acostumado com a concepção ocidental de moralidade . Mas um pouco de reflexão lhe mostrará que isso tem de ser assim mesmo . Até em suas aparências mais belas e em suas manifestações mais nobres , o mundo exterior é ainda superficial e efêmero . Não é a Realidade fundamental . Devemos olhar através dele , não para ele , a fim de divisarmos o Atman . Claro , é melhor amar do que odiar , é melhor partilhar do que acumular , é melhor dizer a verdade do que mentir . Mas as ondas de pensamento que motivam a prática dessas virtudes são mesmo assim distúrbios da mente . Todos conhecemos casos de homens enérgicos e valorosos que se envolvem bastante seriamente em grandes movimentos de reforma ou programas de ajuda social e que não conseguem pensar em nada além dos problemas práticos de sua atividade cotidiana . Falta-lhes serenidade de espírito . Ficam cheios de aflição e desassossego . A mente do homem verdadeiramente iluminado é serena - não porque ele demonstre indiferença egoísta diante das necessidades alheias , mas porque conhece a paz do Atman , em todas as coisas , até mesmo sob a capa da miséria , doença , da desavença e da penúria .


6. Eis os cinco tipos de ondas de pensamento : conhecimento certo , conhecimento errôneo , ilusão verbal , sono e memória .

7. Os tipos certos de conhecimento são : percepção direta , inferência e evidência das escrituras .


Tudo o que os nossos sentidos percebem é conhecimento certo , desde que não tenha havido nenhum elemento de engano . Tudo o que inferimos de nossa percepção direta também é conhecimento certo , se nosso raciocínio estiver correto . As escrituras baseiam-se no conhecimento superconsciente obtido pelos grandes mestres espirituais , quando em estado de ioga perfeita . Por conseguinte , são também conhecimento certo ..
Elas representam uma espécie de percepção direta muito mais imediata que a percepção dos sentidos , e as verdades que elas nos ensinam podem ser verificadas por quem quer que tenha alcançado esta visão superconsciente .


8. O conhecimento errôneo é o conhecimento falso e não alicerçado na natureza verdadeira de seu objeto . 

O exemplo clássico fornecido pela literatura iogue é o de um pedaço de corda que se toma por uma serpente . Neste caso , o conhecimento errado nos levará a temer a corda e a evitá-la .


9. A ilusão verbal surge quando as palavras não correspondem à realidade .  

Forma comum de ilusão verbal são as conclusões apressadas . Ouvimos alguém falando e fazemos uma imagem precipitada e inexata de suas intenções . Nos discursos políticos , encontra-se com frequência uma dupla ilusão verbal : o orador acredita que suas palavras correspondem a uma realidade ; a platéia as associa a outra - e ambos estão errados . Expressões como " o espírito da democracia " , " o modo de vida americano " e assim por diante , provocam uma rica safra de ilusões verbais todos os anos nos jornais e no rádio .

10. O sono é uma onde de pensamento acerca de nada .   

Em outras palavras , o sono sem sonhos não significa ausência de ondas de pensamento na mente , mas uma experiência positiva do nada .
Não há , portanto , como confundi-lo com o estado de ausência de ondas da ioga . Se não houvesse nenhuma onda de pensamento na mente durante o sono , não acordaríamos lembrando que nada sabíamos . Como observa S. Radhakrishnan em Indian Philosophy , fulano de tal , após um bom sono , continua a ser fulano de tal , na medida em que suas experiências se incorporam ao sistema que existia no momento em que ele foi dormir .
Elas se ligam ao seu pensamento e não saem voando atrás dos de outro qualquer . Essa continuidade de experiência força-nos a admitir um Eu permanente que subjaz a todos os conteúdos da consciência .


11. Quando os objetos percebidos não são esquecidos e retornam à consciência , tem-se a memória . 

A memória é uma espécie de onda de pensamento secundária . Uma onda de percepção direta produz uma ondulação menor ou uma série de ondulações . A onda de pensamento do sono também produz ondulações menores , que denominamos sonhos . Sonhar é recordar em meio ao sono .

12. As ondas de pensamento são controladas através da prática e do desejo .        
          

13. Prática é o esforço repetido de seguir os exercícios que proporcionam o controle permanente das ondas de pensamento da mente .

14. A prática assenta-se firmemente depois de cultivada por longo tempo , ininterruptamente , com dedicação intensa . 

15. Desapego é autodomínio ; é a libertação do desejo em relação ao que se vê ou se ouve .

Pode-se fazer as ondas da mente fluírem em duas direções opostas - ou rumo ao mundo objetivo ( " a vontade do desejo " ) , ou rumo ao auto-reconhecimento verdadeiro ( " a vontade de libertação " ) . Assim , tanto a prática como o desapego são necessários . De fato , é inútil e mesmo perigoso tentar uma sem o outro . Se tentarmos praticar os exercícios espirituais sem buscar o controle das ondas de pensamento de desejo , nossas mentes tornar-se-ão violentamente agitadas e talvez permanentemente desequilibradas . Se tentarmos apenas um controle negativo e rígido das ondas de desejo , sem despertar ondas de amor , compaixão e devoção que se lhes oponham , então as consequências podem ser ainda mais trágicas . É por isso que certos puritanos austeros suicidam-se inesperada e misteriosamente . De maneira fria , séria , empenham-se em ser " bons " - ou seja , em não alimentar " mais " pensamentos - e quando falham , tal como sói acontecer com todos os seres humanos , não conseguem encarar essa humilhação , que não é mais que o orgulho ferido e o vazio que trazem dentro de si . Nas escrituras taoistas , lemos : " As forças divinas dotam de compaixão aqueles que não gostariam de ver aniquilados " .
Os exercícios espirituais que deveremos praticar serão expostos oportunamente . São conhecidos como os oito " membros " da ioga . Neste contexto , a perseverança é muito importante . Nenhum malogro passageiro , por mais humilhante ou vergonhoso que seja , jamais deverá ser usado como desculpa para abandonar a luta . Se estamos aprendendo a esquiar , não nos envergonhamos de levar um tombo ou de sermos surpreendidos entalados numa posição de cômico embaraço . Damos a volta por cima e recomeçamos . Não devemos nos preocupar com o fato de as pessoas rirem ou zombarem de nós . A menos que sejamos hipócritas , não devemos ligar para a impressão que causamos aos que nos vêem . Malogro algum é na verdade um malogro , a menos que deixemos de uma vez por todas de tentar - pelo contrário , pode ser uma bênção na desgraça , uma lição mais do que necessária .
O desejo é a prática do discernimento . Aos poucos vamos ganhando controle sobre as ondas de pensamento " dolorosas " ou impuras , perguntando-nos : " Por que é mesmo que eu desejo este objeto ? Que benefício duradouro obterei com possuí-lo ? De que maneira sua posse me ajudará a conquistar maior conhecimento e liberdade ? As respostas a tais perguntas são sempre embaraçosas : fazem-nos ver que o objeto desejado não só é inútil como instrumento de libertação , mas é potencialmente prejudicial enquanto instrumento propício à ignorância e à sujeição ; e mais , que o nosso desejo não é na verdade pelo objeto em si absolutamente , mas apenas desejo de almejar alguma coisa , uma mera agitação da mente .
É muito fácil ponderar acerca de tudo isso num momento de calma .
Mas o nosso desapego é testado quando a mente de súbito é varrida por uma enorme onda de raiva , de cobiça ou de avareza . Então , somente através de um esforço decidido de vontade nos lembraremos daquilo que a nossa razão já sabe - que essa onda , o objeto sensorial que a suscitou , o senso de individualidade que identifica a experiência a si própria - são todos igualmente efêmeros e superficiais , não são a Realidade subjacente .
O desapego pode surgir muito lentamente . Mas mesmo seu estágio mais inicial é recompensado por uma sensação nova de liberdade e de paz .
Jamais se deveria concebê-lo como austeridade , espécie de autotortura , algo arbitrário e penoso . A prática do desapego confere valor e significado até ao iniciante mais banal do mais enfadonho dos dias . Ele elimina o aborrecimento de nossas vidas . E , à medida que progredimos e conquistamos crescente autodomínio , vemos que não estamos renunciando a nada de que realmente necessitamos ou queremos - e sim , estamos apenas libertando-nos de desejos e necessidades imaginários . Com esse espírito , a alma cresce até conseguir aceitar , serena e imperturbável , os piores reveses da vida . Cristo disse : " Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve " - querendo dizer a existência corriqueira e sem discernimento , de apego aos sentidos , é , de fato muito mais penosa , muito mais difícil de suportar do que as disciplinas que nos tomarão livres . 
Parece-nos difícil compreender essa passagem , porque temos sido habituados a conhecer a existência terrena de Cristo como trágica - uma gloriosa e inspiradora tragédia , por certo , mas que não obstante terminou numa cruz . Deveríamos antes nos indagar : " O que seria mais fácil , pender naquela cruz com a iluminação e o desapego de um Cristo , ou nela padecer na ignorância , na agonia e na sujeição de um pobre ladrão ? " E , seja como for , a cruz pode alcançar-nos , estejamos preparados e aptos a aceitá-la ou não .


16. Quando , mediante o conhecimento do Atman , deixa-se de desejar qualquer manifestação da Natureza , tem-se a mais elevada espécie de desapego .    

O desapego não é indiferença - nunca é demais repeti-lo . Muitas pessoas rejeitam as metas da filosofia iogue como " inumanas " e " egoístas ' , pois imaginam a ioga como um distanciamento frio e deliberado de tudo e de todos em prol da busca de salvação pessoal . A verdade é exatamente o oposto . O amor humano é a emoção mais elevada que a maioria de nós conhece . Ele nos liberta , em certa medida , do egoísmo que mantemos em relação a um ou mais indivíduos . Mas o amor humano ainda é possessivo e exclusivista . O amor pelo Atman não é uma coisa nem outra . Admitimos prontamente que é melhor amar as pessoas " pelo que elas realmente são " do que apenas por sua beleza , inteligência , força , senso de humor ou alguma outra qualidade - mas isso não passa de afirmação vaga e relativa . O que as pessoas " realmente são " é o Atman , nada mais nada menos .
Amar o Atman em nós mesmo é amá-lo em toda parte . E amar o Atman em toda parte é ir além de qualquer manifestação da Natureza até a Realidade interior da Natureza . Esse amor é por demais vasto para ser compreendido por espíritos vulgares ; no entanto , ele é simplesmente um aprofundamento e uma expansão infinita do pequeno e limitado amor que todos sentimos . Amar alguém , mesmo ao jeito habitual dos homens , é captar o aparecimento instantâneo e vago , dentro dessa pessoa , de algo formidável , que infunde respeito , eterno . Em nossa ignorância , achamos que esse " algo " é único . Ele ou ela , dizemos de todos .
Isso porque nossa percepção de Realidade é turvada e obscurecida pelas manifestações exteriores - o caráter e as qualidades individuais da pessoa que amamos - e pelo modo como a elas reage nosso próprio senso de individualidade . Entretanto , esse lampejo pálido é uma experiência espiritual válida e deveria encorajar-nos a purificar a nossa mente , preparando-a para aquela espécie infinitamente mais elevada de amor que está sempre a nos aguardar . Esse amor não é inquieto e efêmero , como o nosso amor humano . É firme , eterno e sereno . É absolutamente livre do desejo , pois amante e amado ter-se-ão tornado um só .
Observe esta passagem do Bhagavad Gita ;
                

               As águas fluem continuamente para o oceano .
               Mas o oceano nunca se perturba ;
              O desejo flui para a mente do vidente ,
              Mas ele nunca se perturba .
              O vidente conhece a paz . . .
              Conhece a paz aquele que esqueceu o desejo .
              Ele vive sem ansiedade :
              Livre do ego , livre do orgulho .


17. A concentração sobre um único objeto pode alcançar quatro etapas : exame , discernimento , harmonia radiante e consciência simples da individualidade .    

A fim de compreender este e os aforismos seguintes , devemos analisar a estrutura do universo conforme é exposta pela filosofia Vedanta ( Vedanta é a filosofia que se baseia na filosofia dos Vedas - as mais antigas escrituras hindus ) . Primeiramente , consideremos a realidade básica .
A Realidade , considerada como o Eu mais íntimo de toda criatura ou objeto individualizados , é denominada Atman - como já vimos . Quando a Realidade é referida em seu aspecto universal , denomina-se Brahman .
À primeira vista , isso pode parecer confuso aos estudantes ocidentais , mas o conceito não lhes deve ser estranho . A terminologia cristã emprega duas expressões - Deus imanente e Deus transcendente - que operam distinção semelhante . Muitas vezes , nas literaturas hindus e cristã , encontramos reafirmado este paradoxo : que Deus está tanto dentro quanto fora , instantaneamente presente e infinitamente em toda parte , habitante do átomo e morador de todas as coisas . Mas essa é a mesma Realidade , a mesma Divindade , considerada em suas duas relações com o cosmo .
Essas relações são designadas por duas palavras diversas somente para nos ajudar na reflexão sobre elas . Não implicam qualquer espécie de dualismo . Atman e Brahman são um só .
O que vem a ser este cosmo ? Do que é feito ele ? A filosofia vedanta ensina que o cosmo é feito do Prakriti , substância elementar , indiferenciada , da mente e da matéria . Define-se o Prakriti como a faculdade ou o efeito de Brahman - no mesmo sentido que se diz que o calor é uma faculdade ou um efeito do fogo . Assim como o calor não pode existir separado do fogo que o produz , o Prakriti também não pode existir separado de Brahman . Os dois são eternamente inseparáveis . O último manifesta e produz o primeiro .
Patanjali divergia da Vedanta quanto a isto , acreditando que Purusha ( ou Atman ) e Prakriti fossem duas entidades distintas , ambas igualmente reais e eternas . Uma vez , porém , que Patanjali acreditava também que a Purusha individual podia libertar-se e isolar-se completamente do Prakriti , estava na verdade inteiramente de acordo com a Vedanta , quanto ao propósito e finalidade da vida espiritual .
Por que Brahman produz o Prakriti ? Eis uma pergunta que provavelmente não pode ser respondida com base em nenhuma filosofia elaborada pelo homem . Pois o próprio intelecto humano acha-se contido no Prakriti e , por conseguinte , não pode compreender sua natureza . Um vidente notável pode experimentar a natureza da relação Brahman - Prakriti enquanto se encontra no estado de ioga perfeita , mas não pode comunicar-nos seu conhecimento , usando da linguagem e da lógica porque , de um ponto de vista absoluto , Prakriti não existe . Não é a Realidade - e , contudo , não é outra coisa senão a Realidade . É a Realidade tal como se mostra a nossos sentidos humanos - a Realidade deformada , limitada , mal-interpretada .
Podemos aceitar , como hipótese de trabalho , a garantia do vidente de que isto é assim , mas nosso intelecto vacila , diante do mistério formidável . Carentes de experiência superconsciente , temos de contentar-nos com a linguagem figurada . Voltamo-nos de bom grado aos famosos versos de Shelley :         




     
 Life , like a dome of many coloured-glass ,
Stains the white radiance of etemity .
[ A vida , como cápsula de vidro multicor ,
Macula o alvo esplendor da eternidade ]   

Autor : do livro Como Conhecer Deus 
Aforismos iogues de Patanjali 
Editora : PENSAMENTO       

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

O CAMINHO DA MEDITAÇÃO E DO SAMADHI

   O caminho da meditação , raja yoga , baseia-se no Yoga Sutra , de Patanjali , que ensina o controle psí quico ( Taimni 1961 ) . Yoga chittavrittinirodhah , escreveu Patanjali : " A ioga é o controle das tendências exteriorizantes ( o apego a objetos por exemplo ) da mente . " Controle , aqui , não implica necessariamente controle ativo , e decerto não significa remoção forçada dos pensamentos e de outros objetos de percepção interior . Não prestar atenção nos pensamentos , conforme eles vão surgindo controle passivo - faz maravilhas . De acordo com Pantanjali , o pleno controle psíquico requer oito passos de autodisciplina , incluindo as posturas e práticas respiratórias hatha yoga , o afastamento dos órgãos sensoriais em relação ao mundo exterior , a meditação e o samadhi .
O que é meditação ? Quando nos identificamos com o nosso ego , nós ficamos permanentemente nos agarrados à alguma coisa que nos mantenha ocupados . Pode ser um estimulo externo que capte nossa atenção , ou pode ser um pensamento , uma fantasia . Mas o resultado é o mesmo : ação condicionada . A meditação é um modo de intervir em nossos padrões condicionados . Nós direcionamos nossa atenção a uma palavra ou frase ( mantra ) repetida silenciosamente , ou a um estimulo externo , como a chama de uma vela .
Por que a meditação : um procedimento tão simples - funciona ? Já vimos que o principio da incerteza se aplica aos pensamentos - à complementariedade de seu contexto , ou teor ( análogo á posição dos objetos materiais ) , e á sua direção ( análoga á velocidade do objeto ) . Na meditação , nós ficamos atentos ao teor , perdendo , assim , o controle sobre á direção do pensamento . Quando estamos inteiramente concentrados no teor , e conseguimos perder por completo a direção , nós nos centramos no presente . Esse centramento no presente nos impede de seguir nossas tendências condicionadas exteriorizantes , orientadas para o futuro ou para o passado .
É importante reconhecer que , embora esse tipo de meditação nos ajude a chegar á revelação , ela sozinha , não basta . O sábio budista Hui Neng viu um monge meditando . Imediatamente apanhou duas pedras e começou a fricciona-las com força . De inicio , o monge tentou ignorar o som . Mas , depois de algum tempo , desistiu , abriu os olhos e perguntou ; " Por que você está fazendo esse barulho ? " Hui Neng respondeu : " Estou fazendo um espelho polido . " O monge retorquiu , incrédulo : " Você nunca vai fazer um espelho com essas pedras " Hui Neng disse gravemente ; " Você nunca vai atingir a iluminação meditando . "
Hui Neng tem razão . A forma de meditação que o monge estava praticando , chamada de meditação por concentração , é uma luta . É um trabalho . Para completar o processo criativo , nós precisamos suplementa-la com o relaxamento . Há uma outra forma , á meditação por percepção , que pode nos ajudar a fazer isso . Na meditação por percepção , nós tomamos consciência de nosso pensamentos sem nos prender a nenhum deles isoladamente . Perceba a natureza complementar da meditação por percepção e da meditação por concentração , mais uma vez nos termos de principio da incerteza . Na meditação por percepção , nós atentamos para a direção do pensamento , desprezando o contexto de todo e qualquer pensamento especifico . Permitindo que os pensamentos desfilem em nosso campo mental , nós simplesmente testemunhamos sua passagem , sem " pular para dentro do trem " e sem nos ocupar de seu significado . Quando nos tornarmos testemunhas perfeita , o conteúdo se torna completamente incerto , e o apego ao pensamento cai por terra .
Portanto , assim com a criatividade exterior , a criatividade interior também se condensa numa pratica . Como mencionamos anteriormente , o aspirante espiritual deve , de modo alternado , sondar o pensamento inconsciente , que é uma forma de não-fazer , e lutar pelo insight , que é um fazer . Como cantava Frank Sinatra , " do-be-do-be-do . "
Como a meditação pode nos ajudar a fazer isso ? A luta pelo insight criativo é auxiliada pelo centramento no presente que a meditação por concentração vai erigindo aos poucos , mesmo quando não estamos meditando ativamente . E a meditação por percepção nos ajuda com o ser , ou com o não-fazer . Há um versículo na Bhagavad Gita que sugere que pode haver inação na ação e ação na inação . A pratica do não-fazer da meditação por percepção ( inação ) nos mostra que ainda existe ação condicionada , mesmo quando não fazemos coisa alguma .
Quando nos centramos plenamente no não fazer , subtraindo-nos , assim , ao condicionamento , nós nos tornamos livres para agir criativamente .
Trabalhar regularmente com ambas as meditações , por percepção e por concentração , nos abre para a experiência do fluxo , que Pantanjali denomina Diana , fluxo único ( ekatanata , em sânscrito ) . Nós nos tornamos capazes de fixar nossa atenção durante períodos prolongados ; os pensamentos aparecem , mas circulam inofensivamente em torno do centro de nossa atenção , e a paz e a calma vem permear nosso estado de espirito .
Patanjali fornece também descrições detalhadas do Samadhi - a revelação obtida na meditação , que é a porta que conduz , para além do ego , ao despertar do buddhi . Existem dois tipos de Samadhi . O primeiro , o savikalpa , conduz á algo cada vez mais próximo da experiência de percepção primaria do eu quântico - mas a divisão sujeito-objeto sempre permanece , embora se torne cada vez mais implícita . Varias experiências místicas - o satori no zen , á " visão da luz interior " dos quakers , a experiência budista do não-eu , a experiência de pico da psicologia transpessoal - incluem-se nessa categoria . No segundo e relativamente raro tipo de Samadhi , denominado Nirvikalpa , a separação sujeito-objeto desaparece por completo .
Patanjali enumera vários Samadhi diferentes , de diversos níveis de beatitude , em cada uma dessas duas categorias .
Utilizando as revelações do quadro quântico desenvolvido neste livro , é possível explicar melhor os processos cognitivos que ocorrem quando sondamos o domínio dos fenômenos de colapso da percepção secundaria - domínio que os psicólogos denominam pré-consciente . Em toda experiência comum do ego , os vários fenômenos de colapso de percepção secundarias anteriores ( reflexos no espelho da memória ) apagam toda e qualquer descontinuidade . A experiência do ego , portanto , é continua . Quando se penetra no pré-consciente , pela meditação e prática do fluxo , é possível entrar repentinamente num fenômeno de colapso secundário onde existe um certo reflexo da memória , mas o eu quântico também brilha .É o Savikalpa Samadhi , e suas marcas são a espontaneidade , a beatitude e a unidade com o eu quântico . Depois de mais algum esforço , mas uma vez de modo espontâneo , pode-se entrar em estados de percepção secundaria cada vez mais próximos da experiência de percepção primaria - são estados progressivamente mais elevados do Savikalpa , acompanhados de níveis crescentes de beatitude . Além disso , existe a possibilidade de entrar no intervalo entre dois colapsos de percepção secundaria , no processamento inconsciente , o que é o Nirvikalpa Samadhi .
De especial importância é o próprio estado de colapso de percepção primaria , em que o eu quântico brilha plenamente , e aquele que conhece , aquilo que é conhecido e o campo do conhecimento convergem . Nesse estado não há reflexos da memória passada , de modo que ele é experimentado como dinâmico , sempre novo e mesmo assim atemporal , pois , sem a memoria , não existe tempo . Nesse estado , há a sabedoria que a tradição denomina turiya , a suprema e inefável sabedoria da consciência em si mesma . A turiya não é uma experiência , porque não há divisão sujeito-objeto . Mas , como a sabedoria ocorre no fenômeno de colapso de percepção primaria , o sábio se refere a ela como " o quarto " .
Em que o nirvikalpa samadhi difere de sono profundo , sem sonhos ? Para entender isso , vamos investigar mais uma vez a diferença entre vigília , sonho e sono sem sonhos . No estado de vigília , a divisão sujeito-objeto esta presente e existe percepção exterior e interior . Durante o sonho , existe somente percepção interior , mas não exterior , embora a divisão sujeito-objeto permaneça . No sono profundo , não existe percepção sujeito-objeto , seja interior , seja exterior .
No sono profundo existe consciência , *mas não percepção ?* Sim , existe consciência . A pessoa que desperta do sono profundo diz prontamente " eu dormi bem " , o que sugere uma consciência .
O processamento inconsciente no sono profundo e a consciência que o acompanha são condicionados pela inclinação probabilística das possibilidades quânticas do complexo pessoal mente-corpo . Portanto existe prazer no sono , mas o "eu " que dorme não muda . No nirvikalpa samadhi , esse processamento inconsciente de probabilidade inclinada processamento condicionado pelo samskaras ( as propensões adquiridas ) do passado dá lugar , cada vez mais , a uma liberdade pura e livre de inclinações . Por isso o nirvikalpa samadhi é chamado de ritambhara , em sânscrito - tão cheio de verdade que a verdade transborda dele , e é transformador . O " eu " que desperta do nirvikalpa samadhi nunca é o mesmo " eu " que entrou nele .
Os pesquisadores hindus chegam a quantificar a diferença entre o samadhi e o sono profundo em termos do nível de beatitude experimentada . De acordo com tratados hindus , o nível de beatitude do nirvikalpa samadhi é várias ordens de magnitude maior que o do sono profundo comum . Medir níveis de beatitude não é tão inviável quando parece ; um dos critérios de meditação , por exemplo , é o período de tempo que perdura a beatitude . Com o sono profundo , é apenas alguns minutos . Mas a beatitude de samadhi , mesmo de um savikalpa samadhi , pode durar dias .
Certa vez pratiquei japa ( repetição interior de um mantra ) durante sete dias e fui recompensado com uma percepção da unidade com o eu universal ( savikalpa samadhi ) ; foi minha nuance , meu ponto de entrada na jornada da criatividade interior . A experiência real durou apenas uma fração de segundo . Mas a beatitude que se seguiu perdurou , com plena força , por dias inteiros , se desvaneceu gradualmente durante os dias seguintes . O filosofo Franklin Merrell Wolff escreveu que , quando teve sua primeira realização mística ( também uma savikalpa samadhi , embora mais profunda do que o que experimentei ) , a beatitude durou mais de noventa dias ( Merrell-Wolff 1955 ) . Ramana Maharshi atingiu a turiya com a idade de 16 anos , a beatitude daquele acontecimento esteve ao seu alcance durante a vida inteira .
Ioga , disse Patanjali , é controle psíquico , controle das tendências exteriorizantes da mente .
Uma outra definição seria : " ioga é aquietar a mente " . Mas você não consegue controlar , ou aquietar a mente lutando ; uma estratégia melhor seria alternando a determinação e a resignação até tornar-se uma testemunha desinteressada . Quando a mente de fato se esvaziar , você transcende a mente comum discursiva comum , tornando-se sensível à realidade criativa primaria do eu quântico . Ou , melhor ainda , você entra no nirvikalpa samadhi , transcendendo completamente a percepção sujeito-objeto . E então a sua vida espiritual floresce .
Acontece quando você menos luta , quando você menos espera , como na história de Subhuti , um discípulo de Budha . Subhuti estava meditando debaixo de uma árvore quando começaram a cair flores sobre ele e vozes começaram a cantar . " Nós vos louvamos pela vossa exposição sobre o vazio da mente . " " Mas eu não disse nada " , respondeu Subhuti , surpreso . " Vós não disseste nada , e nós ouvimos nada ; esse é o verdadeiro vazio " , retrucaram as vozes . E as flores continuaram caindo .


Texto : Marcos Modesto        

domingo, 25 de junho de 2017

a evolução futura do homem

A ASPIRAÇÃO HUMANA

A mais alta aspiração do homem - sua busca de perfeição , seu anseio de liberdade e maestria , sua procura da verdade pura e deleite não-misto - está em flagrante contradição com sua existência presente e sua experiência normal .

A mais remota preocupação do homem em seus pensamentos despertos e , ao que parece , sua preocupação inevitável e última - pois ela sobrevive aos mais longos períodos de ceticismo e volta após cada banimento - é também a mais alta que seu pensamento pode conceber . Ela se manifesta no prenúncio da Divindade , no impulso rumo à perfeição , na procura da Verdade pura e Alegria não-mista , no sentido de uma secreta imortalidade . As antigas auroras do conhecimento humano deixaram-nos seu testemunho a esta constante aspiração ; hoje vemos uma humanidade saciada , mas não satisfeita , pela análise vitoriosa das exterioridades da Natureza , preparando-se para retornar a seus anseios primevos . A fórmula mais remota da Sabedoria promete ser a última - Deus , Luz , Liberdade , Imortalidade .
Estes ideais persistentes da espécie são ao mesmo tempo a contradição de sua experiência normal e a afirmação de experiências mais alta e mais profundas , que são anormais à humanidade e só podem ser atingidas em sua inteireza organizada através de um esforço individual revolucionário ou de uma progressão geral evolucionária .
Conhecer , possuir e ser o ente divino em sua consciência animal e egoística , converter nossa mentalidade física crepuscular ou obscura na plena iluminação supramental , erigir a paz e uma alegria auto-existente onde há somente compulsão de satisfações transitórias assediadas por dor física e sofrimento emocional , estabelecer uma liberdade infinita em um mundo que se apresenta como um conjunto de necessidades mecânicas , descobrir e realizar a vida imortal num corpo sujeito à morte e constante mutação - isto é oferecido a nós como a manifestação de Deus na Matéria e a meta da Natureza em sua evolução terrestre . Para o intelecto material comum , que toma sua presente organização de consciência como o limite de suas possibilidades , a contradição direta dos ideais não realizados com o fato realizado é um argumento final contra a validez daqueles . Mas se adquirimos uma visão mais deliberada dos trabalhos do mundo , esta oposição direta se apresenta antes como parte do método mais profundo da Natureza e sinal de sua mais completa sanção .

                             Tal contradição faz parte do método geral da Natureza ; é 
                             um sinal de que ela trabalha em direção a uma harmonia 
                                maior . A reconciliação é alcançada através de um pro-
                                gresso evolucionário .

Pois todos os problemas da existência são essencialmente problemas de harmonia . Eles surgem da percepção de um desacordo não solucionado e do instinto de um acordo ou unidade não descobertos . Contentar-se com um desacordo não solucionado é possível para a parte prática e mais animal do homem , mais impossível para sua mente totalmente desperta , e , comumente , mesmo suas partes práticas só escapam da necessidade geral ou excluindo o problema ou aceitando um compromisso grosseiro , utilitário e não iluminado. 
Pois , essencialmente , toda a Natureza busca uma harmonia , tanto a vida e a matéria em sua própria esfera quanto a mente no arranjo de suas percepções . Quanto maior a aparente desordem dos materiais oferecidos ou a aparente dessemelhança , mesmo ao ponto da oposição írreconciliável , dos elementos que têm que ser utilizados , mais forte é o estímulo , e ele impele rumo a uma ordem mais sutil e possante do que normalmente pode ser o resultado de um empenho menos dificultoso . A concordância da Vida ativa com um material de forma no qual a condição da própria atividade parece ser inércia , é um problema de opostos que a Natureza resolveu e procura resolver sempre melhor com maiores complexidades ; pois sua solução perfeita seria a imortalidade material de um corpo animal inteiramente organizado , sustentando uma mente . A concordância da mente consciente e vontade consciente com uma forma e uma vida , em si não manifestamente autoconscientes , e capazes , quando muito , de uma vontade mecânica ou subconsciente , é um outro problema de opostos em que ela produziu resultados espantosos , e visa sempre maravilhas mais altas ; pois aí , seu milagre último seria uma consciência animal não mais procurando a Verdade e a Luz , mas possuída por elas , com a onipotência prática que resultaria da posse de um conhecimento direto e aperfeiçoado . O impulso ascendente do homem em direção à concordância de opostos ainda mais altos não é então somente racional em si , mas é a única complementação lógica de uma regra e de um esforço que parecem ser um método fundamental da Natureza e o real sentido de seus esforços universais .


                                              A vida evolui a partir da Matéria , a Mente , a partir da

                                         Vida , porque elas já estão involuídas lá : a Matéria é uma 
                                         forma da Vida que está velada , a Vida , uma forma da 
                                            Mente que está velada . Não pode a Mente ser forma e
                                            véu de um poder mais alto , o Espírito , que seria , em sua 
                                            natureza , supramental ? Então a aspiração mais alta do
                                            homem só indicaria o desvendamento gradual do Espírito 
                                           dentro , a preparação de uma vida mais alta sobre a terra .

Falamos da evolução da Vida na Matéria , da evolução da Mente na Matéria ;mas evolução é uma palavra que meramente enuncia o fenômeno , sem explicação . Pois parece não haver nenhuma razão por que a Vida deva evoluir a partir de elementos materiais ou a Mente a partir de uma forma viva , a não ser que aceitemos a solução vedântica de que a Vida está já involuída na Matéria e a Mente na Vida , porque em essência a Matéria é uma forma da Vida que está velada , a Vida , uma forma da Consciência que está velada . E então parece existir pouca objeção com relação a um passo a mais na série e à admissão de que a consciência mental possa , ela mesma , ser apenas uma forma e um véu de estados mais altos que se encontram além da Mente . Neste caso , o invencível impulso do homem em direção a Deus , à Luz , à Bem-aventurança , à Liberdade , à Imortalidade , se apresenta em seu lugar certo na cadeia como simplesmente o impulso imperativo pelo qual a Natureza está buscando evoluir para além da Mente , e parece ser tão natural , verdadeiro e justo como o impulso em direção à Vida , que ela implantou em certas formas da Matéria , ou o impulso em direção à mente , que ela implantou em certas formas da Vida. Tanto lá como aqui , o impulso existe , mais ou menos obscuramente , com uma série sempre ascendente no poder de seu querer-ser , nos diferentes recipientes da Natureza ; tanto lá como aqui , ele está gradualmente evoluindo , e inteiramente obrigado a evoluir , os órgãos e faculdades necessários . Assim como o impulso em direção à Mente se estende desde as reações mais sensíveis da Vida no metal e na planta até sua plena organização no homem , também no próprio homem há a mesma série ascendente , a preparação , no mínimo , de uma vida mais alta e divina . O animal é um laboratório vivo no qual a Natureza , como se diz , elaborou o homem .
O próprio homem bem pode ser um laboratório pensante e vivente em quem e com cuja cooperação consciente ela quer elaborar o super-homem , o deus . Ou não devemos antes dizer - manifestar Deus ? Pois se a evolução é a manifestação progressiva , pela Natureza , daquilo que dormia ou operava nesta , involuída , ela é também a realização revelada daquilo que a Natureza secretamente é . Não podemos então solucionar dela uma pausa num determinado estágio de sua evolução , nem temos o direito de condenar , juntamente com o religioso fanático , como perversa e presunçosa , ou , juntamente com o racionalista , como uma doença ou alucinação , alguma intenção que ela possa evidenciar ou esforço que ela possa fazer para ir além .
Se é verdade que o Espírito está involuído na Matéria e a Natureza visível é Deus secreto , então a manifestação do divino no homem e a realização de Deus dentro e fora são o mais alto e mais legítimo fim possível ao homem sobre a terra .
Assim , o eterno paradoxo e eterna verdade de uma vida divina num corpo animal , uma aspiração ou realidade imortal habitando uma morada mortal , uma consciência singular e universal representando-se em mentes limitadas e egos divididos , um Ser transcendente , indefinível , sem tempo e sem espaço , que , unicamente ele , torna possível tempo e espaço e cosmos , e , em todos estes , realizável a verdade mais alta pelo termo mais baixo , justificam-se à razão objetiva , bem como ao persistente instinto ou intuição da espécie humana .



O LUGAR DO HOMEM NA EVOLUÇÃO 

                                    Uma evolução de consciência é o motivo central da exis-
                                    tência terrestre . O trabalho evolucionário da Natureza 
                                    tem um duplo processo : uma evolução de formas , uma 
                                    evolução da alma .

Uma evolução espiritual , uma evolução de consciência na Matéria em constante autoformação em desenvolvimento até que a forma possa revelar o espírito que nela habita , é . . . a nota-chave , o motivo significativo central da existência terrestre . Este significado é ocultado no início pela involução do Espírito , a Realidade Divina , em uma densa Inconsciência material ; um véu de Inconsciência , um véu de insensibilidade da Matéria encobre a Consciência-Força universal que trabalha dentro dela , de modo que a Energia , que é a primeira forma de criação assume no universo físico , parece ser ela própria inconsciente , e no entanto faz os trabalhos de uma vasta inteligência oculta . A obscura e misteriosa criadora termina realmente por libertar a secreta consciência de sua espessa e tenebrosa prisão ; mas ela a liberta lentamente , pouco a pouco , em minúsculas gotas infinitesimais , em finos jatos , em pequenos e vibrantes concreções de energia e substância , de vida , de mente , como se isto fosse tudo que ela pudesse fazer sair do grosso obstáculo , o opaco meio relutante de um estofo inconsciente de existência . Primeiro ela se aloja em formas da Matéria que parecem ser completamente não-consciente , depois esforça-se em direção à mentalidade sob o disfarce da Matéria viva , e a alcança imperfeitamente no animal consciente . Esta consciência é inicialmente rudimentar , quase sempre um instinto semi-subconsciente ou quase consciente ; ela se desenvolve lentamente até alcançar , em formas mais organizadas da Matéria viva , seu clímax de inteligência , excedendo a si mesma no homem , o animal pensante que se desenvolve até o ser mental que raciocina , mas carrega adiante consigo , mesmo até sua mais alta elevação , o molde da animalidade original , a carga morta da subconsciência do corpo , o puxar-para-baixo da gravitação em direção à Inércia e Inconsciência original , o controle de uma Natureza material inconsciente sobre sua evolução consciente , seu poder para limitação , sua lei de difícil desenvolvimento , sua força imensa para retardamento e frustração . Este controle da Inconsciência original sobre a consciência que dela emerge toma a forma geral de uma mentalidade que se esforça em direção ao conhecimento , mas sendo ela mesma , no que parece ser sua natureza fundamental , uma Ignorância . Assim ,estorvado e sobrecarregado , o homem mental tem ainda que evoluir a partir de si mesmo o ser plenamente consciente , uma natureza-homem divina ou uma natureza super-homem espiritual e supramental , que deve ser o próximo produto da evolução . Esta transição marcará a passagem da evolução na Ignorância para uma maior evolução no Conhecimento , fundada e prosseguindo na luz do Supraconsciente , e não mais na escuridão da Ignorância e Inconsciência .
Este trabalhar evolucionário terrestre da Natureza a partir da Matéria até a Mente , e para além desta , tem um duplo processo : há um processo visível exterior de evolução física , com o nascimento como seu mecanismo - pois cada forma de corpo evoluída , contendo seu próprio poder evoluído de consciência , é sustentada e mantida em continuidade pela hereditariedade ; há , ao mesmo tempo , um processo invisível de evolução de alma , com o renascimento para dentro de graus ascendentes de forma e consciência como seu mecanismo . O primeiro , por si mesmo , significaria apenas uma evolução cósmica ; pois o indivíduo seria um instrumento que rapidamente perece , e a espécie - uma formulação coletiva mais duradoura - seria o passo real na manifestação progressiva do Habitante cósmico , o Espírito universal : renascimento é uma condição indispensável para uma duração e evolução longas do ser individual na existência terrestre . Cada grau de manifestação cósmica , cada tipo de forma que pode conter o espírito nela habitante , é transformado pelo renascimento em um meio para a alma individual , o ente psíquico , manifestar cada vez mais de sua consciência encoberta ; cada vida se torna um passo e uma vitória sobre a Matéria , através de uma progressão maior da consciência nela , que deve finalmente tornar a própria Matéria um meio para a plena manifestação do Espírito .


                                       O homem ocupa a crista da onda evolucionária . Com ele 
                                       ocorre a passagem de uma evolução não-consciente para
                                       uma evolução consciente .

Deve-se observar que o aparecimento da mente e corpo humanos sobre a terra marca um passo crucial , uma mudança decisiva no curso e processo ; não é meramente uma continuação das velhas linhas . Até este advento de uma mente pensante desenvolvida , na Matéria , a evolução tinha sido efetuada não pela auto-consciente aspiração , intenção , vontade ou busca do ser vivo , mas , subconscientemente ou subliminarmente , pela operação automática da Natureza . Isto foi assim porque a evolução começou a partir da Inconsciência , e a secreta Consciência não tinha emergido dela o suficiente para operar através da autoconsciente vontade individual participadora , de sua criatura viva . Mas no homem a mudança necessária foi feita - o ser tornou-se desperto e consciente de si mesmo ; foi tornada manifesta na Mente sua vontade de desenvolver-se , de crescer em conhecimento , de aprofundar a existência interior e alargar a exterior , de aumentar as capacidades da natureza . O homem viu que pode haver um estado de consciência mais alto que o seu próprio ; o estro evolucionário existe em suas partes de mente e vida , a aspiração a exceder a si mesmo é libertada e articulada dentro dele : ele se tornou consciente de uma alma , descobriu o si e espírito . Nele , então , a substituição de uma evolução subconsciente por uma evolução consciente tornou-se concebível e praticável , e pode-se perfeitamente concluir que a aspiração , o anseio , o esforço persistente nele é um sinal seguro da vontade da Natureza por um modo mais alto de cumprimento , o aparecimento de um status maior .

                                           A cada passo recebe-se uma indicação do que será o passo
                                           seguinte .

Já naquilo que parece ser inconsciente na Vida , são visíveis os sinais de sensação vindos em direção à superfície ; na vida que se move e que respira é evidente o aparecimento da mente sensória , e a preparação da mente pensante não está de todo oculta , enquanto na mente pensante , quando ela se desenvolve , aparecem num primeiro estágio os esforços rudimentares e , mais tarde , o buscar mais desenvolvido de uma consciência espiritual . Assim como a vida da planta contém em si a obscura possibilidade do animal consciente , assim como a mente animal fica excitada com os movimentos de sentimento e percepção e os rudimentos de concepção que são o primeiro solo para o homem , o pensador assim também o homem , o ser mental , é sublimado pelo esforço da Energia evolucionária para desenvolver a partir dele o homem espiritual , o ser plenamente consciente , o homem excedendo seu primeiro si material e descobrir de seu verdadeiro si e sua mais alta natureza .

                                         A natureza do próximo passo é indicada pelas profundas 
                                             aspirações que estão despertando na raça humana .
                                             
A ação da Natureza evolucionária em um tipo de ser e consciência é primeiramente desenvolver o tipo até sua capacidade extrema , justamente por uma extrema sutilização e crescente complexidade , até que esteja pronto para ela fazer explodir a dura casca , para emergir decisivo amadurecido , a inversão , a virada da consciência sobre si mesma , que constitui um novo estágio na evolução .
Se se supõe que o próximo passo dela é o ser espiritual e supramental , a compulsão da espiritualidade na espécie pode ser tomada como um sinal de que esta é a intenção da Natureza , e também o sinal da capacidade do homem para operar a transição em si mesmo , ou ajudá-la a operá-la . Se o aparecimento no ser animal de um tipo semelhante em alguns aspectos à espécie macaco , mas já desde o início dotado dos elementos de humanidade , foi o método da evolução humana , então o aparecimento no ser humano de um tipo espiritual assemelhando-se à humanidade animal-mental , mas já destacado com a marca da aspiração espiritual , seria o método óbvio da Natureza para a produção evolucionária do ser espiritual e supramental .
Sugere-se apropriadamente que se uma tal culminação evolucionária é intentada e o homem deve ser meio , serão somente uns poucos seres humanos especialmente evoluídos que formarão o novo tipo e se moverão rumo à nova vida ; uma vez feito isto , o resto da humanidade recairá de uma aspiração espiritual não mais necessária para o propósito da Natureza e ficará inativa em seu status normal .
Pode-se igualmente argumentar que a escala humana deve ser preservada se há realmente uma ascensão da alma pela reencarnação , através dos graus evolucionários , em direção ao cume espiritual ; senão o mais necessário de todos os passos intermediários estará faltando .
Deve-se admitir logo que não há a menor probabilidade ou possibilidade de que toda a espécie humana se erga em bloco para o nível supramental ; o que é sugerido não é nada de tão revolucionário e assombroso , mas somente a capacidade na mentalidade humana quando ela atingiu um certo nível ou um certo ponto de tensão do ímpeto evolucionário , de pressionar em direção a um plano mais alto de consciência e de incorporá-lo no ser . Por esta incorporação , o ser necessariamente sofrerá uma mudança da constituição mental , emocional e sensorial , e também , em ampla medida , da consciência-corpo e do condicionamento físico de nossa vida e energias ; mas a mudança de consciência será o fator principal , o movimento inicial ; a modificação física será apenas um fator subordinado , uma consequência .
Esta transmutação da consciência será sempre possível para o ser humano quando a chama da alma , o abrasamento psíquico , se torna potente no coração e mente e a natureza está pronta . A aspiração espiritual é inata ao homem ; pois , ao contrário do animal , ele é consciente de imperfeição e limitação , e sente que há algo a ser atingido além do que ele é agora : é pouco provável que este ímpeto para exceder-se a si mesma se extinga um dia totalmente na espécie .
O status mental humano estará sempre aí , mas ele estará aí não apenas como um degrau na escala do renascimento , mas como um passo aberto , rumo ao status espiritual e supramental .

                                                      Uma mudança de consciência é o fato principal da pró-
                                                      xima transformação evolucionária , e a consciência , por
                                                      sua própria mutação , vai impor e efetuar qualquer mu-
                                                      tação do corpo que for necessária .

Nos estágios anteriores de evolução , o primeiro cuidado e esforço da Natureza tinha que ser dirigido para uma mudança na organização física , pois só assim podia haver uma mudança de consciência ; esta foi uma necessidade imposta pelo fato de a força de consciência já em formação ser insuficiente para efetuar uma mudança no corpo . Mas no homem uma inversão é possível , e mesmo inevitável ; pois é através de sua consciência , através da transmutação desta , e não mais através de um novo organismo corpóreo como uma primeira instrumentação , que a evolução pode e deve efetuar-se . Na realidade interior das coisas , uma mudança de consciência foi sempre o fato principal , a evolução sempre teve uma significação espiritual , e a mudança física foi somente instrumental ; mas esta relação pelo equilíbrio anômalo inicial dos dois fatores , o corpo da Inconsciência externa a sobrepujar e obscurecer em importância o elemento espiritual , o ser consciente . Mas , uma vez que o equilíbrio foi retificado , não é mais a mudança do corpo que deve preceder a mudança de consciência ; a própria consciência , por sua mutação , vai exigir e operar qualquer mutação necessária ao corpo . Deve-se notar que a mente humana já deu mostras de capacidade para ajudar a Natureza na evolução de novos tipos de planta e animal ; ela criou novas formas de seu ambiente , desenvolveu pelo conhecimento e disciplina mudanças consideráveis em sua própria mentalidade . Não é uma impossibilidade o homem poder ajudar conscientemente a Natureza na evolução e transformação espiritual e física de si próprio . O impulso para isto já está aí e já é parcialmente efetivo , embora ainda incompletamente compreendido e aceito pela mentalidade de superfície ; mas um dia ela pode compreender , ir mais fundo no interior de si mesma e descobrir o meio , a secreta energia , a operação intencionada da Força-Consciência dentro da qual está a oculta realidade do que chamamos Natureza . 
Tudo isto são conclusões que podem ser inferidas mesmo da observação dos fenômenos externos da progressão da Natureza , sua evolução de superfície , do ser e da consciência do nascimento físico e no corpo . Mas há o outro fator , invisível ; há o renascimento , o progresso da alma por ascensão de grau para grau da existência que evolui , e , nos graus , para tipos cada vez mais altos de instrumentação corpórea e mental . Nesta progressão , mesmo no homem , o ser mental consciente , o ente psíquico está ainda velado por seus instrumentos , pela mente , a vida e o corpo ; ele está impossibilitado de manifestar-se plenamente , impedido de vir para a frente onde pode sobressair como o mestre de sua natureza , obrigado a submeter-se a uma certa determinação por parte dos instrumentos , a uma denominação do Purusha pela Prakriti .  
Mas no homem a parte psíquica da personalidade é capaz de se desenvolver com rapidez muito maior do que na criação inferior , e pode chegar uma hora em que a entidade de alma esteja rente ao ponto em que ela emergirá de sob o véu para dentro do aberto , e se tornará mestre de sua instrumentação na Natureza . Mas isto significará que o secreto espírito que nela habita , o Daemon , a Divindade interior está a ponto de emergir ; e , quando ela o fizer , dificilmente se pode duvidar de que sua exigência será , como de fato já é na própria mente quando esta se submete à influência psíquica interior , por uma existência mais divina , mais espiritual . Na natureza da vida na terra , onde a mente é um instrumento da Ignorância , isto só pode efetuar-se por uma mudança de consciência , uma transição de uma fundação na Ignorância para uma fundação no Conhecimento , da consciência mental para uma consciência supramental , uma instrumentação supramental da Natureza .





                                                 Não há razão alguma para supor que essa transformação 
                                                 seja impossível sobre a terra . Na realidade , ela daria o 
                                                 significado mais verdadeiro à existência terrestre .

Não há nenhuma validez conclusiva no argumento de que , por este mundo ser um mundo de Ignorância , uma tal transformação pode apenas ser realizada por uma passagem para um céu além , ou não pode ser realizada em absoluto , e a exigência do ente psíquico é ela mesma ignorante e deve ser substituída por uma fusão da alma no Absoluto . Esta conclusão só poderia ser a unicamente válida se a Ignorância fosse o inteiro significado , substância e poder da manifestação-mundo , ou se não houvesse nenhum elemento na própria Natureza-Mundo através do qual pudesse haver um exceder da mentalidade ignorante que ainda oprime nosso status atual do ser . Mas a Ignorância é somente uma porção desta Natureza-Mundo ; não é o todo dela , não é o poder ou criador original ; ela é em sua origem mais alta um Conhecimento autolimitador , e , mesmo em sua origem mais baixa , sua emersão da mera Inconsciência material , ela é uma Consciência reprimida trabalhando para descobrir , para recuperar a si mesma , para manifestar Conhecimento , que é seu verdadeiro caráter , como a base da existência . Na própria Mente universal , há extensões acima de nossa mentalidade que são instrumentos do conhecimento-verdade cósmico , e o ser mental pode certamente erguer-se até estas ; pois ele já se ergue rumo a elas , em condições supra-normais , ou recebe delas , sem ainda conhecê-los ou possuí-los , intuições , indicações espirituais , influxos vastos de iluminação , ou capacidade espiritual Todas estas extensões são conscientes do que está além delas , e a mais alta está diretamente aberta à Supramente , com percepção da consciência-Verdade que a excede . Além disso , aqueles poderes de consciência maiores estão aqui no próprio ser que evolui , suportando a verdade-mente , apoiando sua ação , a qual os oculta ; esta Supramente e aqueles poderes-Verdade sustentam a Natureza através de sua secreta presença : mesmo a verdade da mente é resultado seu , uma operação reduzida , uma representação em figuras parciais . É , portanto , não apenas natural , mas parece inevitável , que estes poderes mais altos da Existência devam manifestar-se aqui na Mente , como a própria Mente se manifestou na Vida e na Matéria .
             

                                         
         

    

            
    

                                                O anseio do homem pela espiritualidade é uma indicação 
                                                 incontestável da íntima propensão do Espírito interior 
                                                para emergir , sua insistência rumo ao próximo passo de
                                               sua manifestação . 

Se um desdobramento espiritual sobre a terra é a oculta verdade de nosso nascer na Matéria , se é fundamentalmente uma evolução da consciência o que tem ocorrido na Natureza , então o homem , tal como ele é , não pode ser o último termo desta evolução : ele é uma expressão demasiadamente imperfeita do espírito , e a própria mente é uma forma e instrumentação demasiadamente limitada ; a mente é apenas um termo médio de consciência , o ser mental pode ser apenas um ser de transição . Se , então , o homem é incapaz de exceder a mentalidade , ele deve ser superado , a supramente e o super-homem devem manifestar-se e assumir a liderança da criação . Mas se sua mente é capaz de abrir-se àquilo que a excede , então não há nenhuma razão por que o próprio homem não deva chegar à supramente e à super-humanidade , ou ao menos oferecer sua mentalidade , sua vida e seu corpo a uma evolução daquele termo maior do Espírito manifestando-se na Natureza .


do livro : a evolução futura do homem ( Sri Aurobindo )