sábado, 7 de fevereiro de 2015

" A JOIA SUPREMA DA SABEDORIA "

VIVEKA-CHUDAMANI-SANKARA 

1- Eu me prostro diante do verdadeiro Instrutor - diante daquele que é revelado pelas conclusões de todos os sistemas da filosofia Vedanta , mas que em si é desconhecido . Govinda a suprema bem-aventurança .
COMENTÁRIO - Neste primeiro versículo , Sankarãchãrya mostra a importância do verdadeiro instrutor , daquele que nos poderá levar ao que é desconhecido : Ananda , a verdadeira bem-aventurança . Aquela paz fundamental que mora no âmago de toda criatura , mas que não é percebida em virtude da superficialidade e automatismo em que vivemos nossas vidas .
Reverencia o seu Guru : Govinda , que lhe abriu o caminho da Libertação .
2- Dentre as criaturas sensíveis é difícil alcançar o nascimento como ser humano ; dentre os seres humanos , nascer homem ; quando homem , ser um Brãhmana ; sendo um Brãhmana , desejar seguir a senda do dharma védico e entre esses aprender verdadeiramente . Mas o conhecimento espiritual que discerne entre o Espírito e o não espírito , a realização prática da fusão com Brahmãtman e a emancipação final dos grilhões da matéria são inatingíveis , exceto por um karma de centenas de milhões de encarnações.
COMENTÁRIO -  Reflitamos sobre a imensa qualidade de seres visíveis e invisíveis que existem nos inumeráveis mundos que constituem o Universo . Como é difícil ser humano ! Mas o fato de sermos seres humanos não significa que alcançamos a plenitude desse estado , que , no dizer do psicólogo Carl Gustav June , chegamos à " individualização " . Pouquíssimos são os que conseguem esse objetivo , pois a imensa maioria constitui o " rebanho " que é tocado pelos acontecimentos , vive e age em função de reflexos condicionados . Simples marionetes manipuladas pelas circunstâncias . Ainda é mais difícil ser um Brahmana , alguém que alcançou a mais elevada estatura espiritual . As quatro castas tradicionais da Índia estão vinculadas não às circunstâncias do nascimento , mas à essência do ser de cada um . Mesmo para os que sejam realmente Brahmanas há a dificuldade de desejar efetivamente seguir o dharma como expresso nos Vedas . O dharma é Lei , Ordem , Justiça . É a linha de menor resistência que , uma vez seguida , nos permite alcançar a libertação dos laços do karma . Mas o texto nos adverte da dificuldade do verdadeiro aprendizado . A fusão com a centelha suprema que está dentro de nós , o Brahmãtman , é algo de suprema dificuldade , pois depende fundamentalmente do karma de cada um . E para que isso ocorra são necessárias centenas de milhões de encarnações .
3- Humanidade , desejo de emancipação e orientação espiritual de grandes Homens são muito difíceis de alcançar , pois são adquiridos somente pela bondade dos Deuses (Devas).
4- Aquele que com dificuldades adquiriu uma encarnação humana e nela a plena maturidade como homem , o que lhe permite o conhecimento das Escrituras , e que , devido às ilusões , não trabalha pela emancipação , é um suicida , autodestruindo-se ao tentar alcançar objetos ilusórios .
COMENTÁRIO - As ilusões dificultam a concretização daquilo que é fundamental : a libertação . O homem que se deixa envolver por elas é um verdadeiro suicida , ao se destruir na tentativa de alcançar algo puramente ilusório .
5- Quem nesta terra tem a alma mais morta que aquele que , tendo obtido uma encarnação humana e um corpo masculino , luta loucamente para alcançar objetos de maneira egoísta?
COMENTÁRIO - São muitos os " mortos " em vida . Verdadeiros zumbis da tradição do Haiti , que perdem a grande oportunidade oferecida por uma encarnação humana na busca ilusória de prazeres fugazes . Reflitam sobre isso profundamente .
6- Ele pode estudar as Escrituras , invocar com sacrifícios os deuses , executar cerimônias religiosas ou oferecer devoção aos deuses e , todavia , não alcançar a salvação mesmo durante a sucessão de centenas de Brahmayugas . Isso só se dará pelo conhecimento da união com o Espírito .
COMENTÁRIO - Não é através da simples repetição mecânica de atos religiosos desprovidos de conteúdo que alguém alcança a libertação . O simples frequentar assíduo a templos , igrejas , mesquitas não leva a lugar algum . Só a união , a experiência direta , a vivência , a percepção do Espírito , nascida do que está além da memória , da mente e suas artimanhas , dos castelos de nuvens dos pensamentos , permitem alcançar o grande objetivo .
7- A imortalidade alcançada através da obtenção de qualquer condição objetiva ( tal como a de um deus ) está sujeita a findar , pois está claramente estabelecido nas Escrituras ( Shrutí ) que o karma nunca é causa da emancipação .
COMENTÁRIO - A condição de um deus é alcançada pelo longo processo evolutivo através da obtenção de um certo tipo de karma . Convém esclarecer que a Teosofia - a Filosofia Perene - admite uma infindável sucessão de seres resultantes de causas e efeitos sucessivos ( karma ) . Esse karma - energia acumulada - é uma hereditariedade , uma predeterminação que leva a certos estados de ser . Ser deus ( com letra minúscula ) é ser uma força da Natureza , uma lei , parte do grande conjunto da Lei Suprema . Os hindus denominam essa Lei de Dharma , os chineses , de Tao . Mas fique claro que não é através do karma que se alcança a emancipação . O karma está sujeito ao tempo , enquanto que a libertação é atemporal .
8- Portanto , o homem sábio luta para alcançar a salvação , renunciando ao desejo de desfrutar os objetos externos , recorrendo a um verdadeiro e grande Instrutor e aceitando seu ensinamento com a alma inabalável .
COMENTÁRIO - O abandono , a renúncia aos objetos externos é fundamental . A grande questão é encontrar o verdadeiro Mestre , o Diretor espiritual que nos dará auxílio e inspiração para que caminhemos com nossos próprios meios . É Ele que dá o " toque " transformador e produz a introspecção que nos leva ao Reino de Deus . Mas se não quiserem usar a palavra Deus , fortemente contaminada por conotações psicológicas de todos os tipos , usem em seu lugar o Real , o Absoluto ou Aquilo , como dizem os hindus . 
9- E pela prática do reto discernimento alcançado na senda do Yoga , ele salva a alma - a alma afogada no mar da existência condicionada [ samsára ] .
COMENTÁRIO - A alma está afogada , impregnada , imersa , contaminada pelo condicionamento resultante do processo de vir-a-ser , do samsára , como dizem os hindus . O Nirvana é a libertação desse processo , e só pode ser alcançado pelo correto discernimento . Discernir é perceber o erro , a ilusão , a ignorância que nos impede de perceber o que É , chamado por Jiddu Krishnamurti de " presente ativo " . É a percepção do aqui e agora , do atemporal , do Eterno que está na " caverna " do nosso coração , como dizem os místicos de todas as épocas e raças .
10- Após abandonarem todo o karma com a finalidade de remover os liames da existência condicionada , esses homens sábios , com mentes resolutas , podem tentar alcançar o conhecimento de seu próprio Átman .
COMENTÁRIO -  Átman é a centelha , a mônada , o centro mais sutil em torno do qual tudo o mais se congrega . Átman é idêntico ao Absoluto ( Brahman ) onde tudo está enraizado . Só o abandono - a extinção ou a rápida fruição - de todo karma ( energia acumulada em incontáveis encarnações ) pode produzir o Conhecimento . Entende-se por Conhecimento a identificação total da criatura com Aquilo de onde se origina .
11- As ações são para a purificação do coração e não para a conquista da Substância Real . A Substância pode ser alcançada pelo reto discernimento e não por qualquer porção de karma .
COMENTÁRIO - A ação tem uma importante função no processo de purificação do coração ( do âmago , do recesso ) , mas , diz o texto , a substância não pode ser alcançada pelo karma . O discernimento reto é o único meio que pode permitir essa conquista .
12- A percepção do fato de que o objeto visto é uma corda removerá o medo e o sofrimento que resultam da ideia ilusória de que é uma serpente .
COMETÁRIO - Essa pequena estória do pedaço de corda que é identificado pelo observador apressado como sendo uma serpente está repleta de sabedoria . A maioria das coisas não é o que pensamos ser . O elevado nível de condicionamento , produto da educação , do hábito , da cultura em que estamos inseridos , nos faz perder a " visão direta " da coisa observada .
Daí , ao vermos uma sombra , nasce o medo e o sofrimento .
13- O conhecimento de um objeto é conquistado somente pela percepção , investigação ou instrução , e não através de banhos purificadores , de dar esmolas ou de centenas de retenções da respiração [ pranayamas ] .
COMENTÁRIO - O conhecimento é algo que decorre da percepção direta - o contato com a essência da " coisa " em si . Para isso de nada servem os puros exercícios externos . O processo de onde decorre esse mergulho na Realidade transcendente não é lógico , nem decorre de ações puramente mecânicas . O Budismo Zen , ao mencionar Satori ( Iluminação ) , está apontando para algo que está além da mente conceitual . Igual posição tem o Budismo da Terra Pura ( Jodo Shinshu ) quando menciona " ocho " - o " salto transversal " , súbito e direto para a coisa em si .
14- O alcançar do objeto depende da qualificação daquele que o deseja alcançar . Todos os artifícios e contingências que surgem das circunstâncias do espaço e do tempo são meramente acessórios .
COMENTÁRIO - A palavra chave deste versículo é " qualificação " . Subentende-se a posse de condições intrínsecas que permitirão alcançar o objetivo primordial a que todos os seres tendem desde o momento que deixaram o seio do Absoluto e se particularizaram como seres aparentemente separados dos outros .
15- Portanto , aquele que deseja conhecer a natureza de seu próprio Átman , após ter encontrado um Guru que obteve o conhecimento do Absoluto ( Brahmajñãna ) e seja de uma bondosa disposição , deve prosseguir com sua investigação .
COMENTÁRIO - Nem todos os seres desejam conhecer a natureza de seu próprio Átman ( Espírito ) . Só muito poucos atingiram esse estágio onde se manifesta Vairãgya ( desgosto profundo pela vida comum na qual estamos envolvidos ) . A grande maioria continua sendo impelida pelo vento das paixões e pela falsa ilusão advinda dos sentidos e se consome no sofrimento . A presença de uma alma-guia é muito importante ; de alguém que possui revelado em si o conhecimento do Absoluto e manifestada aquela Compaixão que é o Amor infinito por todos os que sofrem nas malhas da ignorância . Dessa alma-guia advém a inspiração , o entusiasmo , para os que vêm se libertar da grande ilusão ( mãyã ) .
16- Aquele que possui um forte intelecto , que é instruído e que tem os poderes da compreensão , é um homem qualificado para tal investigação .
COMENTÁRIO - Nem todos estão qualificados para essa profunda investigação . É necessário que o indivíduo que se dispõe a atingir tal objetivo supremo - a libertação das malhas da ilusão ( mãyã ) e da ignorância ( avidyã ) - se prepare com muito empenho .
17- Somente é considerado digno de inquirir sobre o Espírito [ Brahman ] aquele que tem discernimento , não tem apegos ou desejos , tem shama e as outras qualificações , e que possui a vontade de emancipar-se .
COMENTÁRIO - Uma série de qualificações foram alinhadas . São condições indispensáveis para o aspirante ao mundo do Espírito . Sem elas nada será possível , a não ser o contínuo borboletear nas malhas de samsãra ( vir-a-ser ) . Mas , acima de tudo , é indispensável uma firme determinação ( desejo ) para alcançar a meta suprema . É ela que nos dá a força interior para vencer o desânimo e os obstáculos materiais que atingem o cansado viajante . Essa determinação é como um pavio que mergulha no combustível da lamparina . Sem ele não haveria a luz .
18- Com essa finalidade há quatro espécies de treinamentos preparatórios , diz o sábio . Com eles a tentativa terá sucesso ; sem eles não haverá êxito .
COMENTÁRIO - Na vida espiritual , assim como no caso dos atletas físicos , há uma série de treinamentos preparativos que servem para lançar os fundamentos para o futuro . Esse treinamento prévio é importantíssimo para que alcancemos a meta suprema .
19- Viveka é reconhecido como sendo o discernimento do eterno em relação ao transitório , então , segue-se vairãgya , a renúncia do desejo de usufruir dos frutos da ação aqui e agora .
COMENTÁRIO - Discernimento significa a capacidade de distinguir o eterno do transitório . Algo muito difícil para os que estão presos na rede do pensamento , da memória e do hábito repetitivo . Só os que se libertarem dos véus de mãyã ( ilusão ) poderão renunciar ao desejo de fruir os frutos da ação .
20/21/22- Em terceiro lugar , shatsampatti , as seis possessões , que se iniciam com shama ; e quarto , mumukshutva , a aspiração pela emancipação , Brahman é verdadeiro , o mundo transitório é uma ilusão ; tal é a forma da conclusão final que se diz ser o discernimento entre o transitório e o eterno . A renúncia do desejo consiste em abandonar os prazeres da visão , audição etc , e também , em abandonar todos os prazeres derivados de todos os objetos transitórios do prazer , desde o corpo físico até Brahmã o Criador , após ter meditado inúmeras vezes a respeito dos seus defeitos e limitações .
COMENTÁRIO - Todo o sentido de posse tem de ser abandonado , bem como todos os prazeres advindos do mundo dos sentidos . Enquanto houver um resquício de apego , a libertação final não será alcançada , e o homem continuará preso ao seu pequenino mundo de faz-de-conta .
23/24- Shama é a imperturbável concentração da mente sobre o objeto de percepção . Dama diz-se ser o confinamento , às suas próprias esferas , dos órgãos de ação e de percepção sensoriais , após tê-los feito desprender dos objetos dos sentidos . Uma condição não relacionada com ou dependente do mundo externo é o verdadeiro uparati .
COMENTÁRIO - Nestas três qualificações mencionadas , shama , dama e uparati , há uma preparação gradual para um alargamento de consciência onde o eu isolado desaparece para emergir o Todo . No primeiro , shama , há uma ininterrupta concentração da mente no objeto observado . Algo que ocorre muito raramente no homem comum , que simplesmente " pousa " nos objetos contemplados sem " perfurá-los " com a compreensão . No segundo , dama , há a volta aos órgãos dos sentidos , desprendendo-os dos objetos observados . Por fim surge , uparati , um estado onde há uma total ausência dos objetos externos .
25- Titikshã é o suportar de toda dor e sofrimento sem nenhum pensamento de retaliação , sem abatimento e sem lamento .
COMENTÁRIO - Titikshã é paciência infinita , equanimidade , equilíbrio , o corajoso suportar de todas as situações as quais a vida nos submete , sem reclamações ou lamentos .
26- Uma meditação fixa sobre os ensinamentos de Shastra ( Escrituras ) e do Guru ( Mestre ) , com uma firme fé neles , por meio da qual o objeto do pensamento é realizado , é descrito como shraddhã .
COMENTÁRIO - A fé ( shraddhã ) é um sentimento além das palavras , uma vivência de algo imensamente valioso para nós e que começamos a perceber em nossas vidas . É como a sensação nascida da certeza da presença do Sol ainda em plena noite . Uma noite que parece nunca acabar para quem sofre .
27- O fixar constante da mente no Espírito puro é chamado samãdhãna , a não distração da mente com objetos puramente ilusórios .
COMENTÁRIO - Observem agora os pensamentos que fluem em nossas mentes . Sintam a superficialidade do processo , a enorme mistura de memórias , sensações , emoções , medos que vêm na avalanche dos pensamentos . Parem ! Focalizem o Espírito puro que está no coração de todas as coisas . Aprofundem essa percepções e estarão gradativamente se estabelecendo no estado de samãdhãna .
28- Mumukshutva é a aspiração à libertação , através do conhecimento de nosso verdadeiro Ser , de todos os elos criados pela ignorância , começando pelo sentimento da personalidade e terminando com a identificação de si mesmo com o corpo físico .
COMENTÁRIO - São inúmeros os laços que nos prendem ao ilusório .
A sensação de que somos um eu separado , com uma identidade , uma posição social , atributos , um corpo físico etc . , alimenta a ideia de separatividade , de um isolamento ilusório . Sankara , em A Joia Suprema da Sabedoria , procura despertar os seres humanos de um profundo sono , libertando-os da Grande Ilusão .
29- Mesmo que as qualificações enumeradas sejam possuídas em pequeno ou moderado grau , ainda assim serão fortalecidas e melhoradas pela ausência de desejo , por shama e outras qualidades e pela bondade do Instrutor ; e darão frutos .
COMENTÁRIO - Não devemos nos desesperar se o nosso caminho for pedregoso. Com fé e trabalho constante ele poderá ser preparado . A ausência de desejos e as qualificações mencionadas anteriormente , mais a compaixão do instrutor , produzirão resultados . Não esperem que isso ocorra imediatamente , pois o processo é lento . Mas há casos em que subitamente a emancipação é alcançada , e acabam-se todos os problemas naquele instante mágico . Não fiquem na expectativa dessa emancipação , pois isso gera desejo , tensão , sofrimento e a deformação do Real .
30- Naquele em quem a ausência de desejo [ vairãgya ] e a aspiração pela emancipação [ mumukshutva ] são proeminentes , shama e outras qualificações produzirão grandes resultados .
COMENTÁRIO -  A ausência de desejos é fundamental no processo liberatório . À proporção que isso ocorre , as qualificações já mencionadas ( shama , dama , uparati , titikshã , shraddhã , samãdhãna ) produzirão ,na medida de sua intensidade , grandes resultados . A retirada da erva daninha dos desejos é fundamental para que a terra torne-se produtiva .
31- Quando a ausência do desejo e a aspiração pela emancipação são fracas , haverá apenas indicações de shama e das outras qualificações , tal como [ ver ] a água em uma miragem .
COMENTÁRIO - Mais uma vez a ausência de desejos e a aspiração pela emancipação são fundamentais . Se forem de pouca intensidade , todas as qualificações indispensáveis para que a libertação seja alcançada serão fracas , e pouco , ou nada , será obtido . Devemos meditar profundamente no sentido deste versículo , até que a resposta sem palavras sobrevenha .
32- Dentre os instrumentos de emancipação , o supremo é a devoção [ bhakti ] . A meditação sobre a verdadeira forma do Ser real diz-se ser devoção .
COMENTÁRIO - A devoção é um ato de dedicação a algo . No versículo anterior esse objeto é o Ser real . Entende-se por Ser real aquele que está por trás , no âmago , do ser ilusório . A devoção não é um processo intelectual e sim o alvorecer de um consciência , de uma Realidade que está além das palavras e das formas . A devoção é auto-alimentada quando se amplia o canal de ligação com o atemporal . Então começa a florescer uma paz que ultrapassa todo entendimento humano . Uma felicidade transcendente que pode se transformar em supremo êxtase , quando a gota mergulha de volta no Oceano .
33- Outros dizem que devoção é a meditação na natureza de nosso Atman . Aquele que possui todas essas qualificações é o que está apto a conhecer a verdadeira natureza de Atman .
COMENTÁRIO - Esse conhecimento ou identidade com a verdadeira natureza de Atman exige toda a série de qualificações indicadas nos versículos anteriores , algo quase impossível para quem não se predispuser a romper com a sua vida comum , a dar aquele salto transversal ( ocho ) que nos fala , entre outras , a Escola da Terra Pura do Budismo .
O preço a pagar é muito grande , mas o resultado tem um valor imensurável .
34- Tal pessoa tem que se aproximar do Guru , através do qual a libertação da escravidão é alcançada ; alguém que seja sábio , bem versado nas Escrituras , sem pecados , livre do desejo e conhecedor da natureza de Brahman .
COMENTÁRIO - Há um dito hindu : " Com o Guru todas as trevas são dissolvidas . O Guru lá está , em qualquer ponto que nos voltemos " . Ele pode ser visível ou algo que surge em nós e inspira e ilumina as nossas vidas , pois é alguém que conhece por experiência própria a verdadeira natureza do Supremo ( Brahman ) .
35- Alguém que atingiu o repouso no Espírito , como uma chama que se extinguiu quando o combustível foi consumido . Alguém cuja bondade não é influenciada por considerações pessoais , e que está ansioso por auxiliar àqueles que buscam ajuda .
COMENTÁRIO - O Mestre ( Guru ) é totalmente desprendido no seu Amor Supremo . Está sempre pronto a derramar a sua benéfica influência sobre todos os seres , visíveis ou invisíveis , principalmente para aqueles que já despertaram de certa forma e buscam desesperadamente por ajuda .
Deixem de lado o orgulho , os desejos , os projetos sem base . Abram os corações à Graça Suprema , e o auxílio virá imediatamente .
36- Tendo obtido a orientação de um tal Preceptor através da devoção , da atitude respeitosa e do serviço , o objeto de vossa busca deve ser-lhe dirigido quando Ele não estiver de outra forma ocupado .
COMENTÁRIO - Cada um de nós tem de se qualificar para receber orientação de um Guru . Sem essa preparação prévia a sintonia entre o Mestre e o discípulo não é possível .
37- " Eu te saúdo , Oh Senhor , pleno de compaixão . Oh amigo daqueles que se curvam diante de Ti . Eu caí no oceano do nascimento e renascimento . Salvai-me com o Teu olhar que nunca falha , que faz cair sobre nós a chuva de ambrosia da sinceridade e misericórdia " .
COMENTÁRIO - Neste versículo dá-se a completa entrega ao Mestre .
Dele virá o auxílio que extinguira nossos sofrimentos e paixões . Sem essa abertura não é possível que recebamos auxílio . A carapaça tem de ser rompida . O orgulho e a autossuficiência , desarmados .
38- " Proteja da morte àquele que está aquecido pelo trovejante fogo selvagem da mutável vida que é tão difícil de extinguir , aquele que está sofrendo as rajadas do infortúnio , pois não conheço outro refúgio " .
COMENTÁRIO - Só há um refúgio onde todo o sofrimento nascido da infindável sucessão do karma pode ser extinto . O Guru pode nos ajudar a encontrá-lo . Ele é a porta que nos conduz ao Eterno . A paz infinita que está em nós desde todo o sempre , mas que não percebemos . Mergulha no texto que estás lendo , e o momento para a tua transformação pode ser agora ! 
39- " Os grandes Seres pacificados vivem regenerando o mundo como a primavera que se aproxima e , tendo cruzado o oceano da existência corporificada , auxiliam aqueles que tentam fazer o mesmo , sem qualquer motivo pessoal " .
40- " Este desejo é espontâneo , pois a tendência natural das Grandes Almas é remover o sofrimento dos outros , assim como os raios de ambrosia da Lua esfriam a Terra aquecida pelos fortes raios de Sol " .
COMENTÁRIO - As Grandes Almas , os Seres que vivenciam o Eterno , pacificam os que estão tomados pelas paixões . São como a brisa fresca que irrompe subitamente num dia de verão ardente . As suas ações são constantes em todos os momentos . A paz que deles emana é constante e reconforta os que estão esmagados pelo sofrimento . Aquilo que é grande demais para ter nome envolve todas as coisas . Entretanto , não podemos senti-Lo até que o contactemos . Está sempre auxiliando , à disposição dos que O buscam .
Aqueles que O tocam , no dizer do místico kirpal Singh , " são as crianças da Luz e vêm para dar essa Luz a um mundo que está em treva profunda " .
41- " Oh Senhor , aspergi-me com as gotas da tua fresca água de compaixão , pois estou aquecido pelo fogo da floresta do nascer e do renascer ; gratifica meus ouvidos com as palavras de ambrosia , à medida que elas fluem do receptáculo de tua experiência , da felicidade procedente de Brahmajñãna ( conhecimento do Supremo ) , sagrado e reanimador . Felizes são aqueles que são vistos por Ti , mesmo que por um momento , pois eles se tornam em aptos receptores e são aceitos como discípulos " .
COMENTÁRIO - O Guru está presente em todos os momentos da nossa vida . Não é entretanto percebido enquanto o discípulo ( o recipiente ) não estiver pronto . Mas , mesmo por um momento , o discípulo pode ser aceito pelo compassivo Mestre e então receberá , por seu intermédio , a suprema ventura ( Brahmajñãna ) , advinda do contato com a eterna bem-aventurança . Uma paz infinita que mora nos nossos corações , mas que não temos ainda a sensibilidade para perceber .
42- " Como cruzarei o oceano do nascimento e renascimento ? 
Qual é o meu destino , o que significa existir , Oh Senhor , eu não sei . Oh Senhor , bondosamente me protegei , aliviai as dores procedentes do nascer e renascer " .
COMENTÁRIO - A grande maioria dos seres humanos vive impelida pelos acontecimentos , sem saber como sair do processo do vir-a-ser ( samsãra ) e nem tem a menor ideia de qual seja o objetivo último desse processo ou o que significa existir . No instante em que temos consciência plena do problema , é indispensável a entrega à ação de algo que está acima , dentro de nós .
O tom de súplica deste versículo é pungente . Nascida de um coração que sinceramente deseja uma saída que nunca será encontrada pelo intelecto .
43- A Grande Alma , observando com os olhos umedecidos pela misericórdia o buscador do refúgio que , aquecido pelo fogo da floresta do nascimento e do renascimento , chama por Ele , instantaneamente lhe diz que nada tema .
COMENTÁRIO - Karuna ( compaixão ) , segundo os budistas , é uma característica do Ser Iluminado . A Grande Alma , o ser tocado pelo Supremo , o homem-deus , como dizem os místicos sufis , está sempre atento aos que sofrem . Quando o sofredor dá as condições necessárias , o auxílio é imediato . - aquela sensação de que , apesar de tudo , não devemos ter medo de nada .
44- Aquele ser sábio misericordiosamente instrui na Verdade o discípulo que chega até ele desejoso de emancipação , praticando os retos meios para a sua conquista , de mente tranquila e pre-enchida por shama .
COMETÁRIO - O Guru , o Mestre , está sempre alerta para auxiliar o discípulo que se predisponha a isso . É necessário que cada um de nós trabalhe consigo mesmo , preparando o terreno onde brotará a semente da emancipação .
45- O Mestre diz :
Nada temas , homem sábios , não há perigo . Há um meio para se cruzar o oceano do nascimento e renascimento - aquele que os Yoguis usaram . Eu te mostrarei qual é .
COMENTÁRIO - Não tenhas medo , pois há uma saída ! O aparente e infindável processo do vir-a-ser pode ser interrompido . Inúmeros seres que alcançaram o equilíbrio perfeito conseguiram isso . O caminho está , pois , aberto . Somente depende de cada um de nós terminar o martírio .
46- Há um meio efetivo para a destruição do nascimento e renascimento , pelo qual , cruzando o oceano da mutável vida [ samsãra ] , atingirás a suprema bem-aventurança .
COMENTÁRIO - A paz infinita pode ser alcançada nesta vida . Essa certeza o Viveka-Chudãmani nos dá . Surge então a esperança de nos libertarmos do sofrimento de vidas sucessivas . À medida que nos aproximamos do Supremo , sentimos a Sua presença em nossas vidas e tudo começa a mudar . É como um alvorecer depois da espessa noite .
47- Um excelente conhecimento é alcançado pela compreensão da finalidade da Vedanta . Com ele termina a grande miséria do nascimento e renascimento .
COMENTÁRIO - A finalidade suprema da Vedanta é permitir que os seres humanos alcancem a libertação do sofrimento . Um sofrimento que resulta dos efeitos acumulados do karma ( lei de causa e efeito ) .
48- As Escrituras demonstram diretamente que shraddhã ( fé ) , bhakti ( devoção ) , dhyãna ( meditação ) e yoga ( união ) são as causas que trazem a emancipação da servidão da existência encarnada [ a libertação das ligaduras do corpo , que são obra da magia de avidyã ] .
COMENTÁRIO - Observem a ordem mencionada . Em primeiro lugar está a fé . Entende-se por fé o percebimento de " algo " , a sensação de uma " presença " . Não é a fé supersticiosa de algo que é aceito porque está contido em um livro considerado sagrado ou que foi escrito por alguém que , segundo a tradição , deve ser respeitado . Quando esse primeiro ponto de contato é estabelecido , segue-se a devoção , um sentimento interior que nos impele para a raiz das coisas . Então , estão lançados as bases para o estabelecimento do processo da meditação que levará a um gradual aprofundamento em direção às raízes do Ser , nascendo a condição para que o próximo estágio , o yoga ( união ) , se manifeste . A viagem de volta terá assim terminado , encerrando-se definitivamente o ciclo do vir-a-ser.
49- Devido à ignorância se produz uma conexão entre vós , que sois Paramãtman , e aquilo que não é Ãtman , surgindo a roda da existência corporificada . A ignorância [ avidyã ] é queimada até as raízes pelo fogo da sabedoria surgido do discernimento .
COMENTÁRIO - Paramãtman é o Supremo , a fonte e origem de onde procedem todas as coisas . Ãtman é uma centelha desse Supremo , sendo , portanto , idêntico a Ele . É a ignorância que impede a percepção deste fato e faz com que sintamos a sensação de isolamento , de solidão .
50- O Discípulo diz :
" Oh Senhor , por misericórdia , ouça-me ! Estou fazendo uma pergunta e , quando ouvir uma resposta de tua própria boca , atingirei meu objetivo " .
COMENTÁRIO - Na vida de todos nós chega um momento em que se dá uma total rendição , uma entrega , um angustioso pedido de auxílio . Só então virá a resposta . Mas para que isso ocorra é necessário que o canal seja preparado .

Texto : do livro ( A JOIA SUPREMA DA SABEDORIA ) Continua .
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" A JOIA SUPREMA DA SABEDORIA "

VIVEKA-CHUDAMANI-SANKARA

51- O que é a escravidão ? Qual sua origem ? Como ela é mantida ? Como pode ser removida? O que é o não espírito ? Qual é o Espírito Supremo ? Como se pode discernir entre eles ? "
COMENTÁRIO - Aqui estão as dúvidas fundamentais , as perguntas para as quais não temos respostas . Quando as transcendermos , iremos por fim encontrar a paz fundamental onde sempre estivemos mergulhados .
52- O Mestre responde :
Tu és feliz , obtivestes teu objetivos . Por ti tua família tem sido santificada , à medida que desejastes te tornar Brahman , libertando-te da escravidão imposta por avidyã .
COMENTÁRIO - À medida que um de nós decide se unir a Brahman ( o Supremo ) e se libertar da ignorância , todos à nossa volta são beneficiados e , de certa forma , santificados . Há uma influência , uma aura que se irradia dos que começam a se realizar , idêntica ao perfume das flores recém desabrochadas .
53- Os filhos e outras pessoas podem saldar os débitos de seus pais , mas ninguém , exceto o próprio indivíduo , pode libertar a si mesmo da escravidão .
COMENTÁRIO - Depende de cada um de nós quebrar os grilhões que nos escravizam . O karma tem que ser resgatado individualmente , pois advém de causas passadas .
54- Os outros podem remover a dor ( causada pelo peso ) das cargas colocadas sobre a cabeça , mas a dor ( que surge ) da fome e outras não podem ser removidas a não ser pela própria pessoa .
COMENTÁRIO - Há coisas que só cada um de nós pode remover .
E para isso temos de trabalhar com afinco , pois só depende de nós . Não adianta esperar por soluções mágicas ou pelo auxílio externo .
55- Vemos que o doente somente se recupera se ele próprio utilizar os medicamentos e uma dieta adequada , e não por esses atos executados por outros .
COMENTÁRIO - É indispensável que tomemos certas medidas para nos curarmos da doença . O Senhor Buda dizia que quando alguém está morrendo devido a uma flecha envenenada , o essencial é removê-la imediatamente sem qualquer cogitação quanto à sua natureza , quem a disparou e em quais circunstâncias . Qualquer segundo perdido pode significar a morte .
56- A natureza da Realidade única tem de ser conhecida pela nossa clara percepção espiritual e não através de um pandir ( um erudito ) ; a forma da Lua tem de ser conhecida através de nossos próprios olhos ; como poderia ser conhecida através de outros meios ?
COMENTÁRIO - Em cada um de nós está a solução , a resposta que dará fim às nossas angústias . Não esperem que ela caia do céu ou venha da erudição de alguém . É algo que só se consegue pela vivência e experiência . Nunca será obtida de segunda mão . Isso poderá ocorrer , leitor amigo , agora ! O instante mágico de uma explosão de onde nascerá uma nova Consciência .
57- Quem a não ser o Si mesmo ( Átman ) é capaz de remover a escravidão de avidyã , kãma e karma ( ignorância , paixão e ação ) mesmo em um bilhão de kalpas ?
COMENTÁRIO - Um kalpa equivale a um dia de Brahmã - um dia de atividade cósmica que na tradição antiga da Índia corresponde a 432 milhões de anos . Esse tempo imensurável para os nossos padrões humanos produz efeitos que resultam da ignorância , paixão e ações e que poderão ser eliminados instantaneamente , pondo-se fim à escravidão ocorrida ao longo de infindáveis vidas sucessivas .
58- A libertação somente pode ser alcançada pela percepção direta da identidade do indivíduo com o Ser Universal ; e nunca pelo yoga [ hatha-yoga ] , nem pela Sãmkhya ( filosofia especulativa ) , pela prática de cerimônias religiosas ou pelo mero conhecimento .
COMENTÁRIO - A percepção direta é fundamental para a Libertação .
Sem ela isso jamais ocorrerá , e o indivíduo continuará escravo de sua pequena existência aparentemente isolada da Existência Universal . A parte negando-se a unir-se com o Todod a que sempre pertenceu . A gota julgando-se isolada do oceano .
59- A forma e a beleza de uma vinã ( instrumento de cordas da Índia ) e a perícia ao soar suas cordas são para o entretenimento das pessoas e não para o estabelecimento de um império .
COMENTÁRIO - Aqui está exposta a diferença marcante entre duas coisas . Uma visa somente a diversão , o passar do tempo , o enlevo passageiro , enquanto a outra objetiva o estabelecimento de um " império " , de uma conquista , de algo perene na vida da criatura - a transformação final .
60- A boa pronúncia , domínio da linguagem , perícia , esclarecimento e o aprendizado são mais para o deleite dos letrados e não para a obtenção da Libertação .
COMENTÁRIO - Aqui estão claramente delineadas as coisas que são apenas superfíciais e que refletem o grau de " educação " do indivíduo , não sendo essenciais para a conquista da libertação do processo da ignorância .
61- Se a suprema Verdade permanece desconhecida , o estudo das Escrituras é inútil ; quando a suprema Verdade é conhecida , o estudo das Escrituras é inútil ( o estudo somente da letra é inútil , o Espírito tem de ser buscado pela intuição ) .
COMENTÁRIO - Deixemos de lado a forma , o conhecimento acumulado , a memória que deixa traços e partamos para o que está além do intelecto , da mente , do conhecido , do que resulta das marcas do passado . Além do tempo , além deste momento em que escrevo estas linhas está o Eterno , atemporal , bem-aventurança , a paz eterna desde a origem das coisas , desde o momento em que a parte julgou-se diferente do Todo .
62- Em um labirinto de palavras a mente se perde como um homem no meio de um espessa floresta ; e , portanto , com grandes esforços , aquele que conhece a Verdade deve conhecê-La acerca de Si mesmo [ da Real natureza do Ser ] .
COMENTÁRIO - Neste versículo enfatiza-se mais uma vez a necessidade de se conhecer a Verdade , algo que nos aponte a saída do infindável processo do vir-a-ser , do labirinto das palavras .
63- Qual a utilidade dos Vedas para quem foi picado pela serpente da ignorância ? Excetuando a medicina do supremo conhecimento , ( de que servem ) as Escrituras , encantamentos ou qualquer remédio ?
COMENTÁRIO - Só a Sabedoria cura . Só ela nos liberta . Tudo o mais é sem importância e a nada nos leva a não ser aos abismos mais profundos da ignorância .
64- Não se cura uma doença apenas pronunciando o nome do remédio sem tomá-lo ; a libertação não é alcançada sem a percepção direta , ( nem ) pela mera pronúncia da palavra Brahman .
COMENTÁRIO - A percepção direta é o estabelecimento do contato com Aquilo que está em nós desde o sempre , que mora eternamente em nossas raízes mais profundas . Dele advém a paz , a harmonia , o equilíbrio que só raramente sentimos .
65- Sem dissolver o mundo dos objetos , sem conhecer a Verdade espiritual , onde está a libertação eterna ? As meras palavras externas não têm quaisquer resultado além de sua mera elocução .
COMENTÁRIO - Conhecer é estabelecer a ligação direta com o fato , identificar-se ponto a ponto com o objeto do conhecimento . Então não há mais sombra de dúvidas . O desconhecido é revelado de súbito e o mistério desvendado .
66- É impossível tornar-se um rei pela mera afirmação " eu sou um rei " . É necessário a conquista dos inimigos e o controle do tesouro de todo um país .
COMENTÁRIO - As meras palavras de nada valem quando não existe por trás delas o sentido que nasce da presença daquilo que elas exprimem .
As palavras que não estão revestidas deste algo mais são meros sons que se misturam aos ruídos ambientais . A mera afirmação não significa a posse do que foi afirmado .
67- Um tesouro oculto não aparece pela enunciação da palavra " apareça " , pois tem de haver uma informação confiável , escavação e remoção de pedras . De maneira similar , a Verdade pura que transcende a operação de mãyã ( mãyã aqui significando a força da evolução ) não é obtida sem a instrução dos conhecedores do Supremo , juntamente com a reflexão , meditação e assim por diante , e nem por inferências ilógicas .
COMENTÁRIO - A procura do tesouro demanda esforço , determinação , vontade para vencer obstáculos e sobrepujar as limitações pessoais . É indispensável a informação dos que já se viram diante de tal tarefa e conseguiram atingir o Supremo , o Inominável . Deles nos vêm a inspiração , o entusiasmo para que prossigamos na busca que irá nos libertar das garras da ilusão .
68- Portanto , os homens sábios devem se esforçar de todas as formas para se libertarem dos grilhões da existência condicionada da mesma maneira que fazemos todos os esforços para nos curarmos das doenças .
COMENTÁRIO - Estamos doentes . Este é um fato . Doentes pela ilusão e ignorância que nos envolve e nos possui . É fundamental que tenhamos consciência desse fato para que lutemos desesperadamente em busca da cura . Assim procedem os sábios . Ainda há tempo nesta fugaz existência para esse grande propósito .
69- A excelente questão que propusestes deve ser respondida por aqueles que estão desejosos de libertação . Como uma sábia frase , está de acordo com as Escrituras , pois é breve e plena de significado .
COMENTÁRIO - Ouvir é penetrar na essência , estabelecer contato , atingir a " veia " . Penetrar no mistério que está além da mente , das palavras , da memória , do tempo . É como dizem os budistas : " alcançar o corpo da Lei , a essencialidade que preenche os corações e as mentes de todos os seres " .
70- Ouça atentamente , Oh homem sábio , minha resposta , pois ouvindo serás libertado da escravidão à existência condicionada [ samsãra ] .
COMENTÁRIO - Volte a ler o comentário anterior , feche o livro e medite no seu conteúdo . A realidade última expressa a essência , as coisas tais como são : livres da escravidão da vida e da morte . Despertar a realização direta de algo que existe na eternidade , mas que nossa ignorância não nos permite ver .
71- Diz-se que a causa principal da libertação é o completo desapego da mente dos objetos transitórios . Em seguida , a aquisição de shama , dama , titikshã e a completa renúncia de todo karma ( atos religiosos e outros com a intenção de conquistar qualquer objeto do desejo pessoal ) .
COMENTÁRIO - Shama é o imperturbável domínio da mente . Dama é a volta aos órgãos dos sentidos depois de desprendê-los dos objetos .
Titikshã é a paciência infinita para suportar o que quer que venha a acontecer , e a esperança de que , por pior que seja , nunca irá durar para sempre .
Esse estado de equanimidade , de silêncio dos sentidos , é fundamental para o que irá ocorrer a seguir .
72- Então o sábio estudante ( deve se devotar ) diariamente , sem interrupções , ao estudo das Escrituras , à reflexão e meditação nas verdades ali contidas . E , assim , tendo se libertado da ignorância , o homem sábio goza a bem-aventurança do Nirvana mesmo estando ainda na Terra .
COMENTÁRIO - O estabelecimento de uma prática diária , de um ritmo , é fundamental . A maioria de nós vive de uma forma desordenada , sujeita a uma série de embates . Essa agitação predispõe à superficialidade .
Estudar profundamente , refletir e meditar significam perda de tempo , algo inútil que deve ser posto de lado num contexto social onde só é valorizada a acumulação de riquezas materiais . Entretanto , neste versículo , Sankara lembra-nos de que só adotando o estudo , a reflexão e a meditação podemos nos libertar da ignorância e sentir a bem-aventurança .
73- O discernimento entre o Espírito e o não espírito que precisas agora compreender está sendo por mim relatado . Ouça atentamente e o realize em ti mesmo .
COMENTÁRIO - A perfeita distinção entre o Espírito e o não espírito é fundamental . Temos de vivenciá-la .
74/75- O sábio chama a isso de corpo denso , que é a combinação de tutano , osso , gordura , carne , sangue e sêmen e é constituído de pés , tronco , costas , cabeça , membros e órgãos .
É ele a causa que dá nascimento à ignorância e a ilusão do " eu " e do " meu " . Os elementos sutis são ãkãsha , ar , fogo , água e terra ( entendendo-se aqui os princípios mais elevados destes elementos ) .
COMENTÁRIO - A ignorância da verdadeira realidade nasce da limitação imposta pelos " véus " dos sentidos . O corpo denso escraviza , limita , dificulta a percepção do sutil . É como um denso nevoeiro que impede a chegada até nós dos raios benfazejos do Sol . Mas , apesar das limitações dessa armadura medieval que vestimos , é possível encontrar o caminho para o que está na nossa essência e que é idêntico ao universal . É isso que Sankara nos propõe neste texto .
76- Pela mistura de uns com os outros eles se tornam os elementos densos e as causas do corpo denso . Suas funções são a produção dos cinco sentidos , e esses destinam à experiência de quem os possui .
´COMENTÁRIO - Os sentidos são as portas de comunicação com o mundo externo . É deles que nos advém a experiência do eu isolado do resto . Deles nasce a sensação do isolamento , da separatividade . Mas é também através de sua ação que o homem realizado atua no mundo .
77- Os seres iludidos , que estão presos a objetos mundanos pelos laços de um forte desejo difícil de ser quebrado , são forçosamente arrastados pelo mensageiro [ samskaras ] - o seu próprio karma - para o céu ( svarga ) , a Terra e o inferno ( naraka ) .
COMENTÁRIO - O desejo amarra-nos aos objetos e é difícil de ser quebrado . Os objetos causam-nos enorme sofrimento quando , pela força das circunstâncias , nos são retirados . Quando não nos libertamos , somos arrastados , em função de nosso próprio karma , para o céu , a Terra ou o inferno , e o aparente e interminável ciclo dos nascimentos e mortes continuará a nos manter escravos nas barreiras do tempo e do espaço .
78- Atraídos de várias maneiras pelas qualidades dos cinco sentidos , o som e os outros , cinco criaturas encontram sua morte . São elas : a gazela , o elefante , a mariposa , o peixe e a abelha negra . O que dizer então do homem que está preso conjuntamente por todos os sentidos ?
COMENTÁRIO - A música exerce uma grande atração sobre as gazelas . Na Índia , os caçadores utilizavam a música suave da flauta para atraí-las . O mesmo ocorre com o elefante em relação ao sentido do tato . Ele é facilmente capturado quando se esfrega de encontro a uma árvore . A atração da mariposa pela chama leva-a à destruição . Ela , o peixe e a abelha são respectivamente atraídos pela visão , gosto e olfato .
79- Quanto à virulência , os objetos dos sentidos são mais fatais do que o veneno da serpente negra ( naja tripudians ) . O veneno só mata aquele em quem é injetado , mas os objetos dos sentidos podem " matar " até pela sua própria aparência externa ( literalmente : pela mera visão deles ) .
COMENTÁRIO - Muitas ordens religiosas recomendam que os praticantes , aqueles que realmente estão dispostos a encontrar o caminho de volta ao Absoluto , evitem os encantamentos advindos dos sentidos . Os grandes chapéus usados pelos monges mendicantes do Budismo japonês protegem quem os utiliza da visão dos que oferecem alimentos . Da mesma maneira , no Budismo antigo Hinayana , não é permitido o contato físico com outras pessoas . O mesmo ocorre em ordens monásticas cristãs , entre elas a dos Trapistas . Mas os seres humanos comuns , que são obrigados a levar uma vida intensa de relacionamento , devem adotar técnicas que permitam neutralizar os efeitos do contato direto com os objetos dos sentidos .
Isso é possível graças à meditação , que gera um estado de consciência que minimiza ou anula os efeitos dos sentidos .
80- Somente aquele que está livre da grande servidão dos desejos , tão difícil de evitar , é capaz da libertação . Ninguém mais , mesmo que versado nos seis sistemas de filosofia .
COMENTÁRIO - O seis sistemas de filosofia indiana ( Darsanas ) apresentam uma visão abrangente da realidade . Aparentemente conflitantes , eles são complementares e se integram numa unidade de ordem superior .
Mesmo os que profundamente conhecem esses sistemas não são capazes de alcançar a libertação - aquele instante em que se quebram os laços do karma ( da lei de ação e reação ) e se extingue subitamente o mecanismo repetitivo do vir-a-ser .
81- Aqueles que estão somente sentimentalmente desejosos de libertação e apenas aparentemente livres da paixão , buscando cruzar o oceano da existência condicionada [ samsãra ] , são capturados pelo " tubarão " do desejo , seguros pelo pescoço e forçosamente tragados e afogados .
COMENTÁRIO - É preciso estar atento à superficialidade com que de hábito consideramos os fatos da vida , a tônica aparentemente sentimental com que tratamos as coisas . Entretanto , a libertação é algo muito sério e profundo que exige de nós uma total dedicação .
82- Somente aquele que mata o " tubarão " do desejo com a espada do supremo desapaixonamento atinge , sem obstáculo , o outro lado do oceano da existência condicionada .
COMENTÁRIO - O desejo deve ser morto com a espada do desapaixonamento . Esta é uma condição essencial . Aquele que deseja atingir o alto pico de uma montanha tem de se aliviar de todo o peso desnecessário . Só a extinção do desejo permitirá que alcancemos a outra margem , onde encontraremos a paz profunda . Enquanto estivermos presos pelo desejo ao objeto dos sentidos , estaremos irremediavelmente escravos do ilusório .
83- A mente daquele que trilha a áspera senda dos objetos sensoriais torna-se turva , e a morte espera por ele a cada passo . Mas aquele que trilha a reta senda , sob a instrução de um Guru , um bom homem que cuida de seu bem-estar espiritual , obterá por sua própria intuição a conquista do seu objetivo . Saiba que isso é verdade .
COMENTÁRIO - Sankara afirma a necessidade de um Guru , de um instrutor espiritual visível ou invisível , de alguém que venha em nosso auxílio , nos inspire , para que tenhamos a energia necessária para levar até o fim o nosso propósito de atingir a libertação.
84- Se o desejo pela libertação existe em ti , os objetos sensoriais têm de ser mantidos à grande distância , como se fossem veneno .
Deves constante e fervorosamente buscar a alegria como se fosse ambrosia , bem como a bondade , o perdão , a sinceridade , a tranquilidade e o autocontrole .
COMENTÁRIO - Exercita constantemente a tua vontade , deixando de lado aquilo que desejas . O desprendimento aumenta à medida que começamos a ver mais nitidamente os perigos do apego aos objetos dos sentidos . Ao mesmo tempo procura estimular a alegria , sorrindo para os teus interlocutores ou apresentando uma face tranquila para o mundo ; cultiva a alegria , a bondade , o perdão , a sinceridade , a tranquilidade e o autocontrole . Aos poucos as sementes florescerão e transformarão a tua vida e os que estão à tua volta . Transformamo-nos em um centro de paz e equilíbrio no meio da convulsão que caracteriza a nossa época . Veremos então que tudo se torna diferente .
85- Mata a si mesmo quem atende somente às necessidades de seu próprio corpo , nada fazendo de bom para os outros , constantemente evitando o seu próprio dever e não buscando a liberação da servidão causada pela ignorância .
COMENTÁRIO - O suicídio não é somente o término abrupto da vida pelas próprias mãos . Esse nasce do desespero dos que perderam a esperança de encontrar uma saída . O pior suicídio é o espiritual , quando definhamos interiormente devido a nossa própria ignorância , quando não encontramos o nosso dever , a nossa vocação . Todos os seres possuem em si , muitas vezes de forma indistinta , esse dever que nos levará até uma plenitude que existe potencialmente em tudo . Quando não permitimos que esse potencial se expresse em nossas vidas , estamos nos suicidando e cada vez mais submersos na ignorância que , por sua vez , produz mais sofrimento .
86- Quem vive somente para nutrir seu próprio corpo é como alguém que atravessa um rio montado num crocodilo pensando que seja um tronco de árvore .
COMENTÁRIO - A nutrição do próprio corpo não é só de alimentos mas de sensações , prazeres , estímulos excitantes , desejos , ideais , enfim , de tudo o que faz crescer o eu , que estimula a segregação e gera mais cedo ou mais tarde o sofrimento .
87- Para aquele que está desejoso da libertação , os desejos pertencentes ao corpo levam à grande morte . Somente aquele que está livre desses desejos está apto a ganhar a libertação .
COMENTÁRIO - Todos os desejos que sejam procedentes do corpo físico bem como das emoções e dos pensamentos irão levar à grande morte .
Entende-se por " grande morte " a perpetuação de uma vida envolvida pela ignorância e pelo erro . A grande libertação só ocorre quando esses desejos estão transcendidos .
88 - Vence a grande morte : o desejo pelo corpo , pela esposa , pelo filho e assim por diante . Tendo-a vencido , os ascetas ( muni ) entram na suprema morada de Vishnu ( ou seja , alcançam a união com o Logos que reside no seio de Parabrahman ) .
COMENTÁRIO - Todas as coisas têm as suas raízes , a sua essência , em Parabrahman , como dizem os hindus ; em Deus , segundo os cristãos ; em Tatatha , como falam os budistas ou em Allah , de acordo com os islamitas .
Ou de acordo com inúmeros outros nomes que identificam o Absoluto , como meras placas indicativas escritas nas mais diversas línguas . O que importa é o fato de que Aquilo é uma Realidade última para todas as coisas .
E não importa qual seja o caminho , nós iremos encontrá-Lo um dia . Esta união é um fato que irá se consumar . Sankara , que a sentiu , quer abrir o caminho para bilhões de criaturas que sofrem nas malhas da ignorância .
89- Este corpo grosseiro que condenamos é feito de pele , carne , sangue , nervos , gordura , tutano , ossos etc , e está repleto de impurezas .
90- Este corpo grosseiro , produzido pelos cinco elementos densos - que por sua vez originam-se do processo quíntuplo [ de união dos elementos sutis ] através do karma prévio - é o veículo dos gozos terrenos . É no estado de vigília desse corpo que são percebidos os objetos densos .
COMENTÁRIO - A manifestação da energia universal faz-se segundo um processo cíclico de densificação e sutilização de acordo com a antiga tradição da Índia . Esse processo repete-se infindavelmente até que se atinja Moksha ( libertação ) .
91- As diversas formas grosseiras são percebidas pelo ego corporificado através dos órgãos externos , assim como são percebidos os buquês de flores , a madeira do sândalo , as mulheres e tudo o mais .
Assim é a percepção consciente do corpo no estado de vigília .
COMENTÁRIO - É através dos órgãos dos sentidos que percebemos a realidade que nos cerca . Na verdade só percebemos um simples fragmento do Real , pois a capacidade de percepção é muito limitada . Pode-se então afirmar que tudo é ilusão .
92- Este corpo grosseiro do qual dependem todas as manifestações externas de Purusha ( Espírito ) é como a casa em que moramos .
COMENTÁRIO - Nosso corpo é a casa em que moramos - o veículo que nos servimos para o relacionamento com as coisas externas . Purusha significa o residente na cidade .
93- O corpo grosseiro ( denso ) passa pelos estágios da infância , decadência e morte. O corpo está sujeito a doenças , às condições da vida , à honra , desgraça , adulação etc .
COMENTÁRIO - As quatro condições da vida ( asrama ) para os hindus são : estudante , chefe de família , vida religiosa e o que renunciou a tudo em busca da iluminação . Temos de aceitar tudo o que nos ocorre com resignação , sabendo que são inevitáveis para o nosso processo de consciência .
Devemos estar prontos para enfrentar os altos e baixos , os dias de Sol e de tempestade com a mesma corajosa determinação , ( viryã ) pois , no final do processo tortuoso , a paz suprema está à nossa espera .
94- A visão , a audição , o tato , o olfato , o paladar e o intelecto são os chamados sentidos . Por intermédio deles nos chegam as percepções dos objetos densos . É através dos órgãos de ação - a língua , as mãos , os pés , o corpo etc . - que os atos são executados .
COMENTÁRIO - Cada ser possui um sistema de referência em função do qual se relaciona com o Universo . Desse sistema de referências surgem as diversas imagens do mundo que nos cerca . A nossa consciência é função do território coberto pelos nosso sentidos .
95/96- Manas , buddhi , ahamkrti e citta , com suas funções , são chamados os instrumentos internos [ antahkarana ] , Manas pela razão de postular e duvidar ; Buddhi devido à sua propriedade de chegar a um julgamento claro sobre os objetos ; Ahamkrti surge do egoísmo [ " eu " ] ; Citta , é assim chamado devido à sua propriedade de [ relembrar ] concentrar a mente em seu próprio interesse .
COMENTÁRIO - Além dos sentidos e dos órgãos de ação , analisados no versículo anterior , possuímos uma série de instrumentos internos através dos quais construímos uma realidade interior que é um pálido reflexo da realidade exterior . A coisa percebida e julgada pelo nosso condicionamento é completamente diferente da coisa real . À medida que o ser humano começa a despertar para uma consciência mais elevada , há uma total mutação nos modelos de avaliação até então adotados .
97- A vitalidade ( prãna , o segundo princípio ) , como acontece com o ouro , a água etc . , devido à diferença de suas funções e modificações torna-se prãna , apãna , vyãna , udãna e samãna .
COMENTÁRIO - O ouro pode ser trabalhado numa infinidade de formas ; a água pode ser transformada em gelo , vapor etc . . . Da mesma maneira a vitalidade que nos alimenta apresenta-se de diferentes formas segundo a função que assume : prãna , apãna , vyãna , udãna e samãna .
98- O corpo sutil chamado sukshma é constituído : 1) das cincos faculdades , começando com a fala ; 2) dos cinco órgãos , começando pelo ouvido ; 3) dos cinco ares vitais , começando com prãna ; 4) dos cinco elementos , começando com ãkãsha ; 5) de budhhi e o restante ; 6) de avidyã ( ignorância ) ; 7) kãma ( desejo ) e 8) karma ( ação ) - [ chamadas as oito " cidades " ] .
COMENTÁRIO - Neste versículo é feito o exame dos elementos constitutivos do corpo sutil que impregna o corpo denso . A visão hindu nos apresenta uma série de densificações progressivas da energia mais sutil impregnando corpos de densidade crescente .
99- Ouça ! Este corpo produzido de cinco elementos sutis é chamado sukshma , bem como linga sharira . É o campo dos desejos [ latentes ] onde se experimentam as consequências do karma ( experiência anterior ) ; é ignorante ( juntamente com o kãrana sharira ) , não tem princípio e é um upãdhi ( veículo ) de Atman .
COMENTÁRIO - Atman , o Espírito , a mônada , a essência , é envolvido numa série de corpos ( veículos ) através dos quais atua . Com isso é criada uma barreira que dificulta o contato direto com a realidade transcendente de sua natureza .
100- A condição característica deste corpo é o estado de sonho ; esse estado é distinto do estado de vigília em virtude da maneira peculiar pela qual os sentidos trabalham . No estado de sonho a mente revive a condição criada pelos desejos do estado de vigília .
COMENTÁRIO - Os desejos são um estado de tensão que se reflete no sonho . Quando dormimos profundamente , sem sonhos , mergulhamos no Atemporal , naquilo que não tem imagens . À medida que o estado de libertação se aproxima , diminui gradativamente a presença de sonhos , de projeções de tensões provocadas pelos desejos .

Texto : do livro ( A JOIA SUPREMA DA SABEDORIA ) 
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domingo, 2 de novembro de 2014

" A DOMA DO TOURO "

Os Dez Quadros de Iluminação Através do Zen

1 - Introdução 

Uma das mais significativas e pictóricas interpretações da Mente Búdica e das diferentes etapas que precedem seu brusco despertar , é encontrada numa série de gravuras executadas por um pintor - calígrafo chinês , há vários séculos .
É verdade que a ideia original não lhe pertence . Parece haver existido precursores , que aplicaram o mesmo tema com finalidade idêntica . Porém , nesse caso , aliás como sempre , a retomada de um ponto focal de ensinamento , de uma concepção artística genial , de um " achado " valioso não significa necessariamente plágio ou cópia servil . Trata-se de um enfoque diferente de algo tão importante e tão representativo do sentir e do pensar humano , que são inesgotáveis e diversificadíssimas suas formas de expressão .
As variáveis de autor para autor ainda mais lhe realçam o valor , ajuntando mais vida ao tema retomado .
Já Racine , referindo-se ao aproveitamento temático das tragédias sofoclianas feito pelos clássicos renascentistas , dizia que os gregos já haviam teatralizado toda a imensa gama de paixões humanas . A seus pósteros , Racine inclusive , só resta revestir o mesmo assunto de uma nova roupagem mais de acordo com a atualidade do momento histórico em que o novo autor vive e age .
Da criatividade do reformulador depende ; é claro , fazer de um assunto antigo , talvez desgastado por usos menos brilhantes , uma obra-prima que , sem de leve empanar o brilho das originais , torna ainda mais viva e eloquente a ideia-fonte .
As tragédias de Racine nada ficam a dever às escritas pelos gregos , cujos personagens e enredos ainda inspiram autores modernos mais ou menos hábeis na difícil arte de transpor , para o teatro do final do segundo milênio , os temas tão bem urdidos pelos clássicos .
Assim também tem acontecido com os famosos quadros do Touro Selvagem . A eterna atualidade do tema , sua profunda significação humana , somente captável através de estímulos intelectivos , capazes de revolucionar conceitos e conhecimentos arraigados há milênios , fascinam o homem tecnológico e prosseguirão atraindo a imaginação criativa de autores excelsos ou medíocres .
Sentimos o mesmo impulso , experimentado por tantos contemporâneos , de também apresentar uma versão do universal texto . O fundo permanecerá inalterado , a forma modernar-se-á , ocidentalizando-se nos pobres versos de sabor tupiniquim , ilustrados por imagens diferentes das primitivas , pois as desconhecemos ou delas não nos recordamos suficientemente , para reproduzi-las com fidelidade .
Há em nós uma vaga reminiscência perdida num passado longínquo . Vimos , não sabemos onde , nem como , nem por que , uma série de antigas gravuras japonesas com textos aparentemente curtíssimos , pintados sobre cetim amarelecido pelo tempo .
Vimo-las mesmo , ou trata-se apenas de uma armadilha da memória ? Talvez seja assim ; uma falsa recordação de algo que objetiva , intuitiva ou mediunicamente tenhamos contemplado um curto instante , mas que se gravou indelevelmente em nossa memória física ou não .
Dissemos de forma indelével porque , no primeiro momento em que nos deparamos com alusões , fragmentos poéticos ou reproduções modernas dos Quadros , instantaneamente os identificamos como um " haver " nosso , reencontrado , ressurgido , não o objeto de um primeiro contato .
O fascínio , experimentado nos momentos da redescoberta , ainda perdura . Quanto mais nos é dado estabelecer interligações novas e mais esclarecedoras , maior é nossa afinidade com este símbolo tangível do transcendente eclodir da iluminação humana .
Estabelecida a comunicação dos motivos determinantes da confecção do presente estudo , só nos cabe iniciar os comentários didáticos sobre o que nos dado entender por " Doma do Touro Selvagem " .


2 - Histórico e Significado 


Há entre os autores que nos servem de fonte de consulta , uma enorme discrepância sobre a origem e a data do nascimento do mais significativo intérprete do Dez Quadros ; o pintor-calígrafo que acrescentou as duas pinturas finais à anterior série de oito habitualmente apresentada por seus inúmeros antecessores .
A série provém da China e já visava ao mesmo propósito retomado por todas as interpretações posteriores , inclusive as mais recentes que nada mais acrescentaram aos Dez Quadros .
O que se observa apenas é um toque mais ou menos pessoal em relação ao desenho , ou uma adaptação também mais ou menos livre dos poemetos originais no sentido de traduzi-los para idiomas diferentes , mantendo o quanto possível o conteúdo semântico oriental . Assim o exige evidentemente o contexto , pois ele apresenta um cunho filosófico-religioso , apesar de tal adjetivação ser repelida pela fonte zen-budista donde os versos provêm .
Mas , em termos ocidentais , parece-nos ser o modo mais apropriado para dar uma ideia geral do sentido profundo implícito no conjunto texto-gravuras .
A série decimal é atribuída ao monge Kakuan Shien , que viveu na China no século XII , fazendo parte , portanto , da plêiade de pintores zen da dinastia Sung ( 959-1279 ) . Pertencendo ou sendo descendente espiritual dos paisagistas Sung , o certo é que os quadros obedecem ao mesmo despojamento característico das pinturas Zen .
O equilíbrio da forma com o preconcebido espaço vazio , que parece fazer parte integrante da pintura e jamais um fundo deixado ainda para ser pintado , leva o artista a preencher somente uma pequena porção da tela , transmitindo , não obstante , intensa vida a toda a área pintada ou não .
É o " pintar através do não pintar " , o " tanger do alaúde sem cordas " tão comunicativa , que prescinde de quaisquer comentários intelectuais , ou excesso de detalhes perturbadores do impacto estético e da mensagem Zen implícita na obra de arte .
A figura é intimamente ligada com seu espaço em branco , provocando a sensação do " Maravilhoso Vazio " , donde todo e qualquer acontecimento vital jorra espontaneamente .
trata-se de um domínio integral do pincel , a técnica do denominado estilo " zenga " . As pinceladas potentes , espontâneas , rápidas sugerem , em seus traços , uma vitalidade expressiva , isenta de tateios , hesitações ou inibições . Tais contornos exuberantes provocam , no espectador , a sensação estranha de que o desenho mantém seu movimento mesmo após o término do ato de pintar .
É uma espécie de " obra aberta " , não no sentido usual de provocar e estimular uma interpretação individualista , subjetiva mas sim um choque suficientemente forte para abalar as concepções estético-filosóficas do contemplador interessado ou inadvertido .
O oitavo quadro é nitidamente característico do estilo zanga de caracteres chineses , vigente ainda entre os adeptos do Zen .
A presença do círculo isolado é a prova cabal . A ausência de simetria , a evidente despreocupação em traçar formas geométricas e regulares produzem um círculo solitário , levemente excêntrico , numa fuga propositada à rigidez formal . Tal figura é , porém tão cheia de vida e energia , que se mostra aos olhares do espectador como é um si mesma e como deve expressar a " verdadeira talidade " , espontânea e natural , jamais ordenada , regular mensurável , geométrica .
Pintura e poema , compostos simultaneamente em estilo caligráfico de pintura , são realizados com a tradicional tinta negra da China sobre papel ou seda com o auxílio de um pincel de ponta fina montado num cabo de bambu .
O toque do pincel , leve e fluído , permite à tinta que apresenta um número imenso de qualidades e " cores " de preto , escorrer com tal regularidade sobre o material , que o movimento de mão e do braço sugere evoluções de uma dança descontraída , não um mero ato de escrita ou desenho . Jamais uma interpretação posterior poderia exprimir a totalidade do estado interior de Hakuan em seu crucial momento criativo . Tudo o que se pode fazer é tentar projetar um vislumbre do momento vivo de participação em que mundo novo surgiu da contemplação da série por ele idealizada , momento em que se tornou possível captar , no conjunto pintura-poema , o conteúdo espiritual nele habilmente subentendido .
As referências à iluminação Zen , a seus princípios brotam não do dito verbal ou da ilustração pictórica , mas do " espaço vazio " destinado a provocar um silêncio da mente , no qual não há possibilidade de " pensar sobre " algo estranho e misterioso , mas de senti-lo no mais recôndito do ser .
É experimentada a visão interior evocadora do que é sugerido , não dito em palavras , acontecido por " si próprio " . É a espontaneidade do desabrochar natural dos estados de consciência propícios ao autoconhecimento e sua posterior autoconfirmação .
É , em outras palavras , a visão do mundo em sua totalidade ( tal como é ) , sem comentários , sem verbalizações , sem filosofar ; o " sono-mana " dos japoneses .
" Assim mesmo " deve ser o resultado da silenciosa e atenta contemplação dos Dez Quadros . O apascentar do Touro deve emergir tão natural como a semente do solo fecundo , um trabalho da Natureza , uma maturação despojada de artifícios , de propósitos , sem vitória a ser arquitetada , alvo a ser atingido , mente a ser domada .
Consciência superficial e " Mente Original " são uma e inseparável coisa , pois a primeira nada mais é que " uma atividade especializada da outra " , um instrumento a ser manejado , uma alavanca para levantar o Cosmos .
A consciência superficial pode acordar para o eterno agora da iluminação tão espontaneamente como olhos abertos absorvem , por si próprios , sem necessidade de " tentar ver " , todos os detalhes que podem ser vistos num objeto qualquer , quando a luz é favorável ao ato normal para quem tem o sentido da visão em boas condições .
Cônscio de ser o próprio processo de sua auto-realização , o aspirante-aprendiz , jardineiro de seu jardim , domador de seu Touro , fator de sua iluminação não pára de podar , aparar , arrancar ervas , encaminhar suas plantas , mas o faz dentro do espírito de " ser o próprio jardim " , não um agente externo a interferir com a Natureza , a dominá-la , a torturá-la .
O Touro ( Mente Iluminada ) e o pastor ( consciência superficial ) são Um , sempre o foram e o serão . Saber isso é libertar-se da ignorância cósmica , é conhecer quem se é , é voltar à fonte original , à Morada donde nunca se saiu , é perceber a interdifusão do mundo do Vazio com o mundo da forma , é agarrar o Touro , a aquisição da Sabedoria fundamental , a verdadeira e única realização do Caminho .
A um golpe de vista superficial , podemos estabelecer uma inversão de valores ao tentar interpretar o significado real do " apascentar do " Touro selvagem " .
Pode parecer-nos mais provável que o animal bravio represente o ser humano revestido de seus corpos materiais ; ao domador , cabe , então , o papel da Mente Búdica . Assim seria , se a pintura em questão se reportasse ao estabelecimento de uma autodisciplina Yogue em que o praticante busca , por todos os meios a seu dispor , dominar sua mente para alcançar os mais excelsos graus de espiritualização . O Touro seria o Ego inferior e seu amo , a Mente Original , pura e eterna .
O enfoque dos quadros é , porém , diferente . O que o autor da série pretende ilustrar , em versos e desenhos , é o ser humano aparentemente divorciado de sua Verdade essencial , onipresente e oniatuante , mas oculta e difícil de ser percebida pelo seu estado de profunda ignorância .
O Touro simboliza tal Verdade , isto é , a Mente Original . Embora potencialmente em estado de latência em todas as criaturas humano-terrestre , a Mente Búdica não é um estado de consciência ordinário e de fácil constatação . Ao contrário , a maioria da raça vive e renasce no plano físico sem jamais ter a ocasião e o desejo de contactar essa transcendência . A minoria que atinge o estado probatório e almeja inserir-se entre os iluminados , deve enfrentar um esforço estrênuo , continuado e , às vezes , de resultados insignificantes .
Foi esse o motivo que levou os Mestres antigos a conceber o domínio do Touro como uma série de investidas gradualmente mais gratificantes , até que surja , repentino e abrupto , o estado de consciência iluminada e tudo siga seu curso , fluindo de forma tão natural como o rio que busca o Oceano , sem indagar de onde veio e para onde irá , nem qual o fim de seu peregrinar .


3 - Captação Intuitiva 

Os Dez Quadros oferecem a um observador desavisado uma aparente dicotomia de enfoques , sendo ambos , porém , essencialmente Um . A contraparte exotérica não implica um velar do significado único ; é apenas uma decorrência obrigatória da própria forma de comunicação alegórica . Ao contrário , o símbolo possibilita a captação de algo , cuja visão ainda somente é perceptível a uma pequena parcela de seres humanos .
Este novo " ver " é mais do que transcendência estética , embora com ela se interligue intimamente , conseguindo mesmo extrapolá-la , gerando assim um maior grau de intuição metafísica , finalidade subjacente em toda pintura Zen .
A série de gravuras pode ser considerada como :
1) Obra de arte portadora de um valor intrínseco envolvendo uma captação direta ( domínio da axiologia ) . Nesse caso , ela se inclui no estilo zenga da pintura Zen , na qual o interesse artístico decorre não da pintura em si , mas de seu vínculo com a poesia , a cujo valor literário se acrescenta a beleza da caligrafia ideográfica , obra-prima de um genuíno manejador de pinceis ;
2) Conteúdo universalizador , que ultrapassa a época da sua criação , projetando-se num futuro longínquo como expediente de iluminação e exploração das mais recônditas regiões da alma humana .
A poesia , veículo dos ideais e da correspondência da sensibilidade entre artista e obra , revela qualidades formais imprescindíveis à transposição pictórica , expressando assim os sentimentos mais íntimos do autor e servindo de fonte de comunicação com os interessados na contemplação dos quadros e leitura dos versos .
Tal comunicação não pode ser objeto de ensino ; seu significado deve ser sentido , vivido , experienciado pelo receptor , nele despertado uma emoção suficientemente forte para pôr em jogo , aspirações latentes , anseios que sempre jazem como arquétipos no imo do ser e se manifestam como intuição especial . Essa é evidentemente uma capacidade particular de penetração integral no sentido emprestado pelo artista a seu trabalho . É intransferível , embora haja , em todo ser humano , a potencialidade da compreensão intuitiva .
Trata-se de símbolos característicos destinados a atuar como complexo de estímulos visual-auditivos ( os versos escritos conservam a ressonância da palavra -voz ) , com vistas a uma possível captação intuitiva . O que importa não é o jogo de palavras , mas a probabilidade de suscitar um estado no qual se processe a dissolução da personalidade superficial , que oculta o fundo do Eu , oportunizando-se a experiência transcendental da Iluminação .
Tal estado de plenitude consciente , criador e organizador de uma visão cósmico-individual inteiramente inédita , deriva do papel construtivo assumido pelo silêncio provocado pelo impacto inicial , anunciador da penetração profunda no âmago da mensagem implícita no contexto poema-caligrafia-pintura . Mensagem pressentida , intangível , pois não foi expressamente concebida pelo emissor que apenas usou de sua criatividade e de sua arte como um expediente para exprimir sua própria maneira de auto confirmação em um estado de consciência inequivocadamente iluminado .
É relevante a correção estabelecida entre o espaço vazio do quadro , a aparente ausência de significado simbólico-místico dos versos que se referem apenas a uma situação existencial corriqueira ( perda , reconquista , doma de um fugidio animal selvagem ) e o silêncio . O silêncio não é a ausência de pensamento , assim como o espaço vazio não é fundo inacabado de pintura , nem os versos aí estão para expressar um fato banal , duvidosa fonte de inspiração criadora . O silêncio constitui mesmo o marco inicial do Pensamento-chave , que dele brota e a ele retorna . É a pausa que delimita , separa , mas serve também para unir , conectar , promover a captação intuitiva exatamente como alguns musicólogos registram ao tratar de pausa em termos musicais . Sem ela , a expressividade não alcançaria o ponto máximo , onde alma humana , beleza , harmonia se fundem , se equilibram num frêmito sublime , cuja marca intemporal assusta e fascina quem sabe ouvir o silêncio e dele extrair a essência da Verdade . 


4- Tipologia dos Espectadores    

Baseada na tipologia idealizada por Hyers ao procurar classificar ouvintes musicais , tentamos obter alguns dados interessantes sobre respostas comportamentais não desejáveis , mas presentes na maioria dos admiradores dos Dez Quadros .
A originalidade única dessa expressão artístico-religiosa ( religião-união com a Mente Búdica ) evita , como também o faz o Zen budismo , as seguintes manifestações :
a) a intra-subjetivação que desperta experiências sensoriais emotivas ou de ordem afetiva , provocadoras de uma possível identificação pessoal com o símbolo não com o substrato espiritual contido no mito . Essa experiência frustrada pode induzir o espectador a visões nas quais ele se torna o personagem central das cenas , caso aliás bastante comum entre aspirantes ávidos de ativa participação nos " meios " usados para atingir o objetivo principal e exclusivo ;
b) a associação - que busca ligar a experiência atual com o acervo anterior de imagens ou ideias , ensejando o desvio da identidade característica da nova impressão minimizando-se , por conseguinte , o impacto previsto para uma súbita tomada de consciência de uma inesperada e nove dimensão do ser . Fatalmente as antigas crenças , superstições , filosofias impulsarão o contemplador e leitor a encontrar pontos de intersecção , analogias , ideias e valores interativos , o que constituirá um empecilho para o fim almejado .
c) a objetividade - que leva às críticas , às análises extremadas do conteúdo superficial simbólico sem nada assimilar do significado profundo , sempre oculto e impermeável ao cartesianismo analítico exclusivo do intelecto . Tal significado transcende ao racionalismo por ser uma faculdade da alma humana , puramente intuitiva ;
d) a animização - que conduz o espectador a personificar a obra artística , atribuindo-lhe qualidades caracteristicamente humanas ; santidade , misticismo , religiosidade , sacralidade . Aí ocorre o risco de envolvimento em aspectos irrelevantes , inadequados , incompatíveis com os objetivos do artista , retirando-se mesmo a possibilidade de captação do verdadeiro sentido , que o mito encobre e apenas deixa entrever aos mais atentos . Os Quadros são um " meio " não um fim especifico em si mesmos . Sua contemplação pode complementar um processo já em vias de amadurecimento , induzindo a " este passo mais além " que faz o " insight " transmutar-se na legitima experiência da iluminação sempre auto-confirmatória . Nada há na série de triste , alegre , sagrado , solitário , benéfico , angustiante , positivo , tranquilizador ou qualquer outra qualidade das inúmeras com que é dotado o ser humano . Tal como se apresentam , a olhos capazes de perceber o lado não transparente da alegoria , os Dez Quadros são a simples expressão poético-pictórica de um estado de alma de alguém que , tendo penetrado no silêncio eloquente da verdadeira transfiguração humano-divina , desejo ver outros seres também realizar o autoconhecimento , perscrutando sua própria e única natureza íntima .
Isso é agarrar o Touro e viver a Vida sem medo , deixando-a fluir livre e tranquilamente , nela própria encontrando o princípio e o fim do ato existencial sem preocupar-se em defini-la , rotulá-la , atribuir-lhe um sentido misterioso ou decifrável .
Empregamos termos de significação graduada " perceber , ver , perscrutar " para expressar o momento de visão na natureza intima de cada um . E daí provém a grande dificuldade sentida por todos os comentaristas Zen , sábios ou de poucas luzes ; a natureza consciente dessas atividades está sempre subentendida quando a mencionamos a alguém . Faltam-lhes sempre palavras para referir-se a processos inconscientes , isto é , aos que se posicionam " à margem da consciência ou , ainda melhor , essa deles não tem a menor ideia " . O paradoxo é o seguinte : tal tipo de percepção não é , de fato , inconsciente , apesar de revelar características fora do comum , inusitadas , pois dispensa o onipresente confronto entre o sujeito ( eu ) e o objeto ( o tal-qual-ismo ) de todas as coisas . Inexistência do eu-agente psicologicamente considerado acarretará o desaparecimento do objeto confrontante . O aparente absurdo dessa afirmativa só é superado pela experiência .
E é aí que as palavras falham , pois não existe , nem em nosso nem em qualquer idioma falado , um termo justo capaz de tornar viável a explicação de como pode ocorrer um ato perceptual sem eu dualístico , já que eu - não eu e sujeito-objeto " são tão inseparáveis como os dois pólos de um imã " . Nos estudos referentes à Cosmogonia , a noção do Eu ( Ahamkara ) marca o ponto crucial onde a experiência individual as bifurca em dois setores intimamente entre si : o universo subjetivo ( eu-agente ) e o universo objetivo ( isso ) . Libertar-se da ignorância advinda dessa separatividade individualizadora é o objeto de todos os ensinamentos , práticas , interiorizações Yogues .
Entretanto , os inúmeros testemunhos dos seres que atingiram instantaneamente semelhante experiência - surgida por si mesma , sem nenhum esforço específico , sem escopo direto - provam a possibilidade da " percepção " , quando o eu pessoal discriminativo é por fim minimizado , quiça anulado . Para tanto , mister se faz que a pessoa toda , seu intelecto incluído , esteja tão impregnada da natureza íntima ( Mente Búdica ) , que se torne possível à natureza búdica ser consciente de si mesma , sem interferência cognitiva através da sabedoria emanada da intuição ( prajna ) .
" Quando o homem é instantaneamente despertado , ele retorna à sua mente original " . ( Vimalakirti )
Instantaneamente e retorno são as palavras-chave dessa afirmação . Tais termos implicam a recusa de explicações intelectuais e uma experiência intransferível , o que confirma a originalidade da experiência e obstaculiza sua realização universal . Todos os homens são aptos potencialmente para tal cometimento , raros , raríssimos em nossos dias , conseguem revelar sua verdadeira natureza , desligando-se dos liames da ignorância fundamental e continuando a viver a experiência terrena como um simples estágio precursor da libertação .
Sete são os tipos humanos apontados pelos esoteristas como candidatos prontos ou não para atingir a iluminação . Há a considerar que a classificação revela , de maneira insofismável , uma evolução progressiva , o que pressupõe a possibilidade da mudança de tipo e alcance próximo ou remoto do estado ideal característico do perscrutador de sua própria natureza íntima . Em todos os casos , o interessado deve abrir mão de seu pequeno eu como sujeito de busca de um centro .
Se assim não o fizer , será incapaz de sair do estado de rigidez vital a que o impele o próprio ego . Só aprendendo a meditar conscientemente , pode vencer tal rigidez e experimentar um novo centro do ser , sempre muito maior do que o próprio ego , maior que " ele mesmo " .
1) O Instinto - aquele em que predominam , de forma acentuada e continua , os instintos como condutores de atos , palavras e pensamentos . Os tipos pertencentes a esta categoria , em relação à harmonia de seu modo de vida com seu ser essencial , são considerados " excêntricos " , pois carecem das condições minimas para encontrar o centro dentro de si próprios , o que pressupõe o término da habitual vivência em que o ego está sempre a afirmar-se como sujeito .
Impetuosos , sensuais , violentos , egoístas , egocêntricos , possessivos , os instintos , mesmo em culturas civilizadas , estão sempre prontos a adotar comportamentos regressivos , possessivos , os quais se coadunam com suas tendências materialistas .
É óbvio que a parte instintiva continua presente em todas as pessoas iluminadas ou não . É o tributo natural à vida terrena .
Só pode ser minimizada na etapa suprema , onde o predomínio da própria razão cede lugar à sabedoria intuitiva .
2) O Emocional - apesar da sensibilidade um pouco mais desenvolvida , os emotivos ainda estão longe de superar a afirmação do ego como agente , isto é , a divisão em sujeito e objeto só passível de desaparecimento quando o homem escuta seu mundo interior e considera corretamente o mundo externo . Guiado pelas emoções - sua capacidade de reflexão é limitada - os tipos humanos aqui catalogados se enternecem com a perspectiva de autoconfirmação , mas lhes falta a estabilidade imprescindível para transmutar suas emoções primárias na quietude e serenidade propicias ao despertar búdico . O ser emocionalmente maduro autocontrola sua sensibilidade , indo buscar suas motivações na vida interior , alcançando então o domínio do corpo e do ego , a tranquilidade da mente , que promove sua verdadeira identificação com a natureza universal de todas as coisas .
3) O Intelectual - o egocentrismo aumenta-lhe a tendência a tudo intelectualizar , tornando-o inapto para a transcendência .
Se tentar ousar ultrapassar seu intelecto para atingir uma experiência além do âmbito reflexivo , sua capacidade intelectual o impedirá de fazê-lo . Prevalecerá sempre a necessidade de analisar esmiuçadamente todos os pensamentos , fatos e emoções . A auto-análise , como elemento isolado e dominante , é um empecilho , não a fonte que poderia tornar-se a aliada da intuição . A parte intelectiva dá ênfase à perfeita manifestação individualista , não ao retorno à Unidade original . Somente escapando às faculdades racionais , poderá ser despertada a consciência de uma vida mais profunda , a abertura para a percepção do Um Supremo , única fórmula capaz de unir o homem à sua origem .
4) O Intermédio - alguém que se posiciona num certo grau de harmonia , buscando o equilíbrio entre os extremos . Apesar de ainda usar excessiva lógica formal , já observa suas emoções e consegue dominá-las , não se deixando levar pelo primitivismo instintivo . Porém , sendo sua harmonia por conflito , o equilíbrio é relativo : o ego continua a imperar , defendendo com vigor suas derradeiras cidadelas , sempre considerando-se como separado do resto das coisas , apesar de já vislumbrarem-se os indícios prenunciadores de uma possível abertura para estados mais aprimorados de subjetivismo .
5) O Esclarecido - já em vias de tornar-se autoconsciente e realizar a equação primordial ; ser-conhecer . Manifesta pendores para a prática do Ynana-yoga , procurando a sabedoria pelo uso adequado de seu intelecto . É um estudioso aplicado , cônscio do objetivo a alcançar , esforçando-se para tanto . Busca estabilizar-se , avançar além da reflexão intelectiva , mas malgrado seu poder de discriminação , ainda lhe resta transmutar conhecimento em Sabedoria . É lhe difícil o mergulho total na Luz Imanente , pois não conseguiu superar o conceito de que a Iluminação é algo a ser atingido , e não inerente e inseparável de si mesmo . É o praticante que sabe : o Reino está em seu interior ; e suplica que " venha " a ele .
6) O Lúcido - a clarividência intuitiva , ainda incipiente e esporádica , lhe permite atingir a compreensão nirvânica . Sente a atração abissal da vidência da natureza íntima , mas hesita em dar o grande salto no momento em que está prestes a fazê-lo .
É ainda o discípulo avançado a quem o Mestre guia , estimula , incita a voar por seus próprios meios , a fazer , da fugaz intuição , a alavanca que o levantará à experiência definitiva . É o praticante assíduo e promissor do zazan , do sesshin , do Koan , mas que ainda não recebeu a autoconfirmação nem a troca de olhares com o Mestre , sinal de que ambos partilham de identidade da Luz Inata .
7) O Iluminado - a meditação e a auto-análise tornaram-no plenamente cônscio de sua realidade . Sabe e vive de acordo com a plenitude de seu desabrochar . Nada o identifica como cósmico nem o distingue de seus companheiros de jornada , a não ser a tranquilidade e a serena visão do mundo e de si próprio .
" Aprendeu a viver um dia de cada vez e a estar sempre consciente " . As tensões , os desgostos , os prazeres mundanos , as recaídas nos antigos deslises , a ilusão de não ter ilusões , nada mais o perturba ou distrai .
É pensamento puro a fluir no Universo , flutuando como a Nuvem Branca ao sabor do vento , sem inquietações , cuidados , temores ou mesmo desejos de saber para onde vai , qual é seu destino . A despaixão e o desapego são seus pontos fortes , mas , se o sente , não se deixa impressionar . Vive no eterno Aqui e Agora , desapegado de toda temporalidade .
É o próprio momento eterno no qual todos os tipos se integram , se conjugam , se identificam para o existir no Universo , permanecendo ainda na vivência terrena até o esgotar supremo do Karma ainda em seu derradeiro movimento vibratório .
É Luz , sabe-o e deixa-A vibrar para iluminar o mundo - assim é a experiência do iluminado Os sete tipos relacionam-se evidentemente com as ilustrações e os poemas da série dos Quadros da Conquista do Touro .
É a marcha evolutiva dentro do processo centrípeto , no qual as vibrações periféricas sentem a atração do centro e a ele tentam retornar . O que poderia ser conhecimento , é experiência : a proposição , o testemunho e a busca mostraram ser apenas a obra criativa de um artista , cujo instrumento de expressão é o próprio corpo , a própria mente , a própria alma . Sua obra-prima é a construção de sua própria realidade existencial .
Esculpiu em si mesmo o Homem : esse já pode testemunhar-se perfeito e divino .

Texto : do livro A Doma do Touro ( RAMANADI ) Continua 
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