domingo, 2 de novembro de 2014

" A DOMA DO TOURO "

Os Dez Quadros de Iluminação Através do Zen

11- Caminhos da Iluminação 

Há inúmeras formas ou meios de tornar-se Iluminado e assim ver simultaneamente extinguir-se a ignorância , raiz de toda experiência vital dos Universos e do sentimento de separatividade , que individualiza e egocentriza as forma viventes .
Vencer a dualidade é atingir a transcendência , é conscientizar-se da unidade da Vida , é integrar-se no Todo , sabendo com todas as partes do ser , que é o co-participante e herdeiro da Luz Inata .
Não há padrões mágicos para atingir-se tal estado de consciência . A Medicina proclama que não há propriamente doenças , mas doentes . Também os Mestres julgam que cada ser humano é um mundo particular , um centro do Universo . E daí se infere a validade do axioma hermético : " O centro está em toda a parte e a circunferência em nenhures " .
Por ser o exclusivo centro de sua intransferível Iluminação , cada um deve auscultar suas próprias aspirações , seus ideais , suas possibilidades e capacidades reais a fim de que o caminho escolhido seja verdadeira e seguramente o seu .
Por mais maravilhosa que seja a Trilha seguida por um Iluminado , ela lhe pertence tão completamente , que não poderá jamais ofertar ou compartilhá-la com outrem , mesmo com o discípulo mais amado .
É por esse motivo que se ensina ser o genuíno guia o apontador do Caminho , o alento nos momentos de crise , o incentivador de seu aluno . O modelo , o é somente como alguém capaz de perscrutar , a fundo , a alma do discípulo , avaliar suas legítimas potencialidades na ocasião , vigiar seus desfalecimentos , dissipar suas dúvidas . Não é um programador de robôs , nem o estêncil do qual o mimeógrafo extrai " n " cópias idênticas xeroquizadas .
A atuação do mentor , por mais direta que pareça aos olhos do discípulo , é sempre a de uma mãe que coloca suas mãos ao redor do corpo do filhinho , mas o deixa aprender a caminhar apoiado unicamente em suas frágeis e bamboleantes perninhas .
Um ato natural deve ser desempenhado naturalmente por quem o deve efetuar sem ajuda O apoio fictício é necessário , muitas vezes , para que o pequenino se sinta seguro , amparado pelas mãos capazes de prever e evitar a queda inibidora de novas experiências . Essas lhe pertencem , são o privilégio e a herança da raça , devem ser realizadas na hora oportuna ; exatamente como o eclodir da Iluminação .
Há uma gravura antiga muito expressiva , que exemplifica visualmente o presente postulado . Representa uma alta montanha , cujo topo resplandece de Luz branca e ofuscante . Há várias trilhas e atalhos contornando-a e ligando algumas partes do trajeto até um determinado ponto já bem próximo do cume . Até aí , os caminhantes realizam a escalada em trilhas diversificadas , representativas dos ensinamentos das diferentes doutrinas praticadas no Planeta . Ao atingir o citado ponto , há uma convergência de todos os atalhos e um só caminho leva os que o atingiram , ao cimo iluminado , como se fossem afluentes provindos de lugares diversos para desaguar em um mesmo rio .
É a tomada integral da Luz que faz com que os praticantes de todos os sistemas e cultos demonstrem uma identidade completa ao impregnar-se do sentido profundo e divino de sua fé agora lúcida , despida de personalismo egoísta , de vanglória , de sentimentos de superioridade e de elitismo . É ela , é a fé que lhes permite compreender que a beleza , a harmonia , a perfeição , a Luz são o denominador comum a unir todas as religiões dignas de assim serem chamadas por provocarem a união , o religamento à Fonte Original universalizada e divina .
A coexistência pacífica , o ecumenismo leal , a aceitação plena da diversidade na Unidade fazem de um Buddha , um Cristo-Jesus , um Maomé , um Ramakrishna , um Inayat Khan , um Francisco de Assis , um Tomás Merton , um Mestre Eckart , um D. Suzuki um vero Enviado Divino , aquele que vem trazer a Verdade , acender a Luz em si mesmo e irradiá-la para todos os Homens , naqueles que podem ostentar , em sua humildade modesta e sincera , honesta e genuína o H maiúsculo antes do nome indicador de sua condição existencial cósmico-terrestre .
Cristãos comungando a hóstia-pão e meditantes unificados com a Consciência Cósmica durante a Meditação se equivalem em termos de fé e realização espiritual . A diferença é marcada pela capacidade individual de poder ou não desligar-se de intermediário e de rito tangível entre a própria pessoa e a Luz , o que se liga a uma série de circunstâncias kármicas , ao grau de evolução conquistado através de inúmeros renascimentos , ao meio familiar e social , a predisposição inatas , ao desejo de apoio inter-humano , ao temor de heresia e até à preguiça mental .
Todos os sistemas religiosos admitem a possibilidade devocional da entrega do ser ao Mestre ( Bhakti Yoga ) como um encontro unificador com a Base Divina , precursor do estado máximo da consciência em que o Princípio Divino é procurado e achado interiormente . Os ensinamentos da Terra Pura contém , ao lado dos preceitos iluminatórios de Buddha , a crença no encontro da libertação por meio da recitação do mantra Amida Butsu .
Baseiam-se os seguidores de tal seita no cumprimento de uma promessa formal de um Dhyani Buda ( Jina ) que jurou só atingir a Perfeição Suprema depois de libertar consigo todos os seres que O evocassem . Como naturalmente é Perfeito , sua promessa deve continuar válida .
Óbvio é , entretanto , que nosso estudo se relaciona inteiramente com o despertar da intuição discriminadora ( conhecimento intrínseco da realidade última - Jñana ) através da qual se pode transferir o centro de gravidade do mundo manifestado para o próprio coração do homem .
É o apontar direto para sua natureza intima , para o centro onde a tomada da Luz implica uma visão realística final do relacionamento homem-Cosmos , uma nova ideia do que seja participar do poder de manifestação e um desfazer-se da confusão reinante entre tal poder e a Base Imutável .
Apesar de o calcar sobre os comentários relativos à conquista do Touro , nosso ensaio visa a realçar o ponto comum e inseparável de todas as doutrinas ocultas tão difundidas no início da Era de Aquário : a ênfase sobre a revelação da Luz Interior .
Atingir , viver , saber e ser Gota no Oceano da Luz ( conhecer-se como Imanência Divina ) , com plena certeza de que há o Oceano a considerar em sua Totalidade Transcendental , é ser Iluminado de sua própria Luz e captador da Luz Cósmica Única .


12- A Unidade no Diverso    

" Só Shiva é Guru " . " Todos os seres viventes são aptos para a kulachara " .
Que palavras´chave de extremada sabedoria e ânimo consolador !
Saber de uma tal possibilidade é perceber e sentir a esperança de algum dia infalivelmente chegar à Iluminação implícita nas duas proposições .
Quem ou o que é Shiva ? Ao familiarizar-se com o sentido dos termos sânscritos , o aluno compreende que somente os termos da Absoluta Realidade lhe podem ser atribuídos , Shiva é Aquilo , o Imutável , o Incognoscível , o Uno , a Testemunha , Brahmam , o Todo-Poderoso . São apenas nomes inadequados , imperfeitos , incompletos , humanos tentando designar o Inominável .
Assim somos obrigados a fazer , pois nos movemos dentro do Universo Manifestado , que é , em si mesmo e em cada um de nós , Verbo , Som , Vida , Mutável , Conhecido , Isso .
O Todo-Poderoso ( Shiva ) é impensável . Para poder ser pensado é necessária a implicação óbvia de Seu Poder ( onipotência volitiva ) a Mãe dos Dez Mil Nomes ( Shakti - Fogo Criador - o Espírito Santo ) . " Os dois tal como são neles mesmos são UM " .
Mas nós , em nosso Universo dual , não temos condições de conceber o aspecto estático da Realidade Ultérrima sem seu aspecto de movimento , sua inteligência ativa . Somos parte ínfima dessa Manifestação Vital , nela vivemos , atuamos , pensamos , nos movemos É dela que nos vem a Energia e a forma humana , é com ela , nela , através dela que podemos ir além do pensamento material e chegar ao limite extremo , ao domínio da Impensável Imutabilidade Onipotente , do Todo do qual tudo pode ser retirado sem que sua Totalidade seja tocada .
Atingir a Iluminação é libertar-se do poder da limitação ( Maya ) , da ignorância da natureza real do Todo-Poderoso , sempre associado a seu poder de Manifestação , a sua Shakti . É a Identificação máxima e perfeita com a Fonte , o reabsorver-se , reintegrar-se no Imutável Todo , restando então a única Realidade .
Afirmar que Shiva é o único Guru é reconhecer e confirmar o ato final da Iluminação , o incomparável , perfeito , supremo contacto com o cerne em que todos os ensinamentos , todos os mestres , todos os " dados " tornaram-se supérfluos , dispensáveis . É o coroamento do longo processo de evolução centrípeta durante o qual a criatura se debateu em incertezas , desviou-se reintegrou-se , necessitou vitalmente da presença , assistência , ensinamentos , vigilância de um guia espiritual , humano ou intuído ( astral ) .
Anunciar também que , a todos os seres viventes , está destinada tal realização é a mais sublime esperança e certeza que podem ser despertadas em nossa existência , cuja tônica é a falta de discernimento de seu verdadeiro ser , de sua essência final , de tudo quanto a recobre e oculta .
O mistério dos mistérios é essa contingência cósmica em que o ser humano se encontra e permanece mergulhado por Kalpas imensos . A razão do aprisionamento no ciclo contínuo de nascimentos e mortes terrenos , na indiscriminação e na ignorância do Princípio só é do conhecimento do Misterioso dos Misteriosos .
Toda e qualquer especulação a esse respeito representa perda , desgaste inútil de energia . Tudo o que nos é dado saber é da possibilidade de transcender da atividade , de " forma particular do Ser " e retomar nosso genuíno e perfeito estado do Ser em si mesmo , de Repouso ( Vazio ) .
O escapar da dualidade , por incrível que isso soe a nossos ouvidos incrédulos , é realizável em vida terrena . Muitos são os que alcançaram tal estado de consciência . O interessante é que tais " compreendedores " da Verdade Suprema apresentam , entre si , um elo de ligação : todos , sem exceção , místicos ou não , ocidentais ou orientais , pela meditação bem efetuada , pela fé expectante , pela força de vontade chegaram ao mesmo estado natural de compreensão simples e espontânea .


13- Os Obstáculos    

Todos também experimentaram uma dificuldade insuperável ao tentar traduzir em palavras esses estados íntimos .
Não importa qual seja o caminho trilhado , sempre a descrição , apesar de todos os seus inúmeros pontos comuns , idênticos , é decepcionante para quem ouve o relato desses estados . Dizer que atingiu a " tranquila serenidade da alegria indizível " não satisfaz nem ao relator que imediatamente acrescenta " não é só isso " , há algo mais inexprimível , imensurável . Há , no entanto , uma ressalva feliz : um Mestre verdadeiro percebe e confirma ao discípulo que ele é um Iluminado autêntico . Para tais guru , cada discípulo é um caso à parte , exigindo toda a atenção e devotamento de seu instrutor .
O método varia de Mestre para Mestre , mas subentende sempre um período de isolamento durante o qual o discípulo deve encontrar-se com seu próprio Ser , buscando , ou deixando de fazê-lo , a aprovação ou confirmação após o término de sua Meditação solitária .
Existem vários estados preliminares ; o discípulo é incentivado a ir ainda mais além apesar de ter tido a impressão de haver atingido o objetivo magno .
Mesmo no Zen , os exercícios preparatórios podem prolongar-se por longos períodos , dependendo sua duração do próprio aspirante . O momento da Iluminação , voltamos a insistir , é sempre eclosivo e abrupto . Independe de todos os preparativos , alguns dos quais são bastante originais , senão excêntricos e , às vezes , bem longos .
No Budismo tibetano , o candidato é submetido a uma série de provas iniciatórias programadas por seu Mentor . Indagado como justifica tal paradoxo , o Mestre simplesmente dá de ombros , alegando que tudo não é necessário , pois tudo deve ser abandonado como inútil e improfícuo no momento em que o praticante , deixando a sós consigo mesmo , penetra no imo do próprio Ser e então passa a iniciar-se sozinho , sem o auxílio de nenhuma muleta .
O despertar verdadeiro apresenta semelhanças com o insight descrito no processo ensino-aprendizagem normal . O professor oportuniza todos meios cabíveis ao caso , cria situações propícias , utiliza material variado , mas quem experimenta o " Estalo " indicador de que houve mudança no padrão de comportamento ( sinal de aprendizagem efetiva ) é o aluno . Ninguém aprende por ninguém . Cada qual é o único agente de sua educação .
Temos continuamente necessidade de apelar para metáforas , comparações , símiles para procurar explicar o que seja o pleno desabrochar do Ser .
Isso é bastante temerário e perigoso , assim o reconhecem todos os instrutores antigos e atuais .
Os discípulos têm a tendência de " agarrar o dedo que aponta " e não olhar a Lua . A dependência do Mestre , mesmo ao mais insignificante instrutor , se torna danosa e impede o progresso de ambos .
Outro obstáculo surge no aparecimento de certos estados de percepção paranormal , manifestados durante a Meditação e que , em si mesmos , carecem de significação , nada adicionando ao processo de auto-iluminação .
É evidente que nos movemos em um mundo povoado : cada criatura humana , constituindo uma unidade-síntese em si e por si mesma , não sobrevive o convívio , o auxílio , a interação cooperativa de seres de sua espécie . O " Inferno é o outro " , proclamou Sartre , pois como ninguém , ele compreendeu que o espelho de outrem nos mostra nossa verdadeira face , a que , muitas vezes , abominamos e não desejamos ostentar sem para nós próprios .
Todos os espiritualistas ampliam seu universo humano , admitindo a existência de seres viventes atuando em mundos ou planos paralelos , alguns imbricados totalmente no nosso plano físico .
Esse ato de existir não se limitará a uma observação telescópica ou microscópica daquilo que lhes for permitido ou possível perceber em nosso ambiente . A interferência também é uma possibilidade admissível em circunstâncias propiciadas pelos seres viventes terrestres.
O estado de Meditação é , sem dúvida alguma , uma dessas situações peculiares .
Visões luminosas , cores de fulgurações diferentes em tom e intensidade do espectro habitual , aparecimentos de seres benévolos , sons variados , suaves , estridentes , melodiosos ou não podem ser , entre outras manifestações menos agradáveis , percebidos pelo praticante . 
A estes chamados poderes ( siddhis ) se ajuntam as imagens fantásticas emanadas da própria mente do discípulo incauto ( animismo ) , desejoso quase sempre de intensificar ou provocar fenômenos extra-sensoriais . " Imaginazione " , alertava Ouespenky , ao escutar o relato de tais experiências . Se algumas provêm realmente de um universo paralelo , a maior parte se origina na fantasia criadora , desenfreada , às vezes , do praticante desavisado .
Não nos esqueçamos , porém , de recordar o que é afirmado em alguns tratados ocultistas : " Nada é pura ficção , pois tudo o que perpassa pela imaginação humana é apenas um reflexo de algo , uma réplica existente em outro plano formal não denso " .
Se assim é , o que convém aconselhar é o seguinte : o praticante não se deve deixar empolgar nem seduzir pelo fenômeno , o qual se esvaece e dissipa em seguida , caso não seja bem acolhido e alimentado pela mente consciente do aprendiz .
Em que termos nos cumpre cortar radicalmente ou desautorizar tais informações feitas de boa fé e que talvez marquem o estágio probatório vivenciado pelo discípulo ? É uma pergunta para a qual nos falta a adequada resposta .
Procuramos somente contornar e refrear o exagero prejudicial , mas nos guardamos bem de tudo condenar , por que quem jamais pode verdadeiramente penetrar na consciência alheia e demarcar os limites entre uma experiência meditativa de ordem superior e um simples exagero de uma imaginação criativa ?
Somente podemos julgar e avaliar o que sentimos e provamos , deixando aos legítimos e sábios instrutores o poder de decisão final . O que nos compete , em tais casos , é controlar os ensinamentos propostos , talvez não inteiramente adequados ao nível das pessoas que de nós se acercam para receber instruções básicas destinadas a auxiliá-las na procura da sua própria Luz Interior .
Aí a humildade e a auto-análise rigorosa e objetiva do professor devem estar vigilantes . Evitar que as metáforas usualmente empregadas se transformem em falsas experiências concretas , muitas vezes absurdas ou irrealizáveis , é nosso dever primeiro .
Sem magoar ou criticar acerbamente , com paciência e jeito , talvez possamos contornar o excesso de fantasia , o personalismo exagerado , mostrando que um símbolo não é a realidade abstrata .
É um elo ligando o pensamento objetivo a sua outra face imaterial , é o apoio visível para o invisível .
Na realidade abstrata não há produção de sons , luzes , imagens , projeções , os quais fazem parte integrante do plano fenomênico , do universo egóico que deve ser ultrapassado , se houver a intenção de fazer fulgurar a Luz Interior , não nela permanecer , usufruindo suas manifestações agora dispensáveis em confronto com o fim em vista .
Também Luz Interior , adverte o Bhagwan , constitui " um símile poético " , uma outra metáfora para o Indizível . Por não dispor de outro meio a não ser a " poesia religiosa " , temos de contentar-nos em transmitir o intransmissível , nomeando este estado transcendente de Luz Inata , Infinita , Eterna ou ainda , no pleonasmo reforçador , de Luz Divina .
Não é possível impedir que , em face de certos movimentos inéditos , o candidato pense que já atingiu todos os degraus , sinta-se Luz . Aí entra o aviso de bom-senso , a chamada à vida concreta , a orientação segura a indicar que a transfiguração , quando parcial , é intelectualizada , produto da mente . Convém acalmar o vôo da imaginação , esperar que exista na experiência não somente a autoconfirmação almejada , como também a fase de disciplina espiritual transparecendo , impregnando todos os atos da vida quotidiana .
À exaltação , mesmo a genuína , deve seguir-se a busca intensa que conduz a " permanecer em pé no alto da montanha em perfeita harmonia e completa solidão " ( Kevalya ) até obter a segurança interior , prenúncio do ideal de trabalhar para salvar todo ser humano , sem o mínimo anseio de aplauso , complacência , reconhecimento de mérito ou satisfação própria .
É então que-enfim-Shiva é o único Guru .
O Mestre humano ou astral desaparece ; seu lugar é agora ocupado pela Voz Interior , a " luz do único Mestre , a única , eterna Luz dourada do Espírito " , isto é , a própria Luz do candidato .
Assim fala a Voz do Silêncio : " Vê ! tornaste-te aluz , tornaste-te o som , és o teu Mestre e o teu Deus . Tu próprio és o objeto da tua busca . . . "
A consciência plena dessa experiência jamais deve ser objeto de relato confidencial ou público . É tão maravilhosa em sua integral transcendência , tão cósmico-pessoal , tão intensa e tão absoluta , que comunicá-la a outro ser humano é retirar-lhe a sublimidade .
Alvo de chacota , dúvida , comiseração , suspeita de desequilíbrio mental , a afirmação torna-se falsa , ridícula , incompleta , inoperante . . . 


14- A Solidão Construtiva 

A solidão do instante supremo é inseparável do secreto , do mistério que ele encerra . O fato dos circunstantes o reconhecerem ou deixarem de fazê-lo é totalmente irrelevante . É , para quem o vive , o grande momento impartilhável . Até o espelhar-se no outro , para certificar-se de sua humana , não oferece mais o mínimo interesse . Até então dependíamos dos outros para que eles autenticassem nossas tentativas bem , mal ou parcialmente sucedidas no Caminho que sentíamos estar a percorrer . Doravante até isso é abandonado como inutilidade ou empecilho .
Não se cogita , é claro , da solidão-espantalho , que apavora e deprime as almas imaturas , ainda incapacitadas ao confronto com elas mesmas , com receio de detectar a imperfeição reinante no âmago de sua realidade .
É a solidão-chamamento para a consecução do instante da plenitude da Luz . Por ele , com ele , para ele , a vida terrena com todas as suas implicações e ausência de sentido , seu absurdo irremovível , sua imposição a um existencialismo pragmático , ao hedonismo revela-se o que verdadeiramente é : uma maravilhosa aventura , uma busca incessante , um episódio único no desenrolar do drama cósmico , do qual cada ser é um participante insubstituível , um protagonista sem doublé , um ator , um diretor e espantosamente o próprio autor .
Consciente de seu papel , entregue a seu desempenho com uma visão agora inteiramente diferente , impessoal , o homem-espectador não mais se inquieta , angustia ou desespera . Não mais formula perguntas irresponsáveis , não mais se julga marionete , robô , um amaldiçoado .
Sente-se como a onda , sem a qual a existência do Oceano seria um despropósito . Na crista da onda ou em seu movimento descendente , entrega-se à Vida Una sem preocupar-se com o fluxo e o refluxo . Com eles se confunde e identifica de forma tão completa , que o Universo é sua pátria , o Cosmos , sua verdadeira dimensão , o Um , seu destino e sua eternidade .
Os ensinamentos da Nuvem Branca , atribuídos pelo Bhagwan ao próprio Buddha , apontam , de forma insofismável , para este estado natural de plenitude do existir : flutuar , deixar-se levar pelo vento sem revoltas inúteis , inquirições sem respostas viáveis , embates perdidos de antemão . Vogar ao sabor do vento é modelar a vida diária sem tensões , sem desesperos , sem bloqueios , sem frustrações , sem complexos de culpa , permitindo-se que a Verdade essencial do Universo , que se situa além do domínio do intelecto discriminador , jorre no indivíduo .
O Universo jorra jovialmente sem propósito definido a não ser a Vida , o existir perpétuo em causa , tempo , espaço , perenemente transmutáveis em novas energias até a inevitável reabsorção na Fonte onde desaparecem todos os conceitos de causa , efeito , tempo , espaço . " Esse jorrar jovial " encerra o mistério maior : é aí que se pode buscar o sentimento de alegria de viver sem cogitar de encontrar um sentido onde não há sentido algum , uma finalidade prática no que escapa a toda medida humana , uma contingência cientifica na Natureza , única legisladora de seus próprios fenômenos .
Somente consegue impregnar-se dessa espécie peculiar de sentimento quem ultrapassa o desejo de qualquer tipo de felicidade mundana permanente , de glória e sucesso perenes , quem se identifica , de corpo e alma , com a Origem do Ser .
A dimensão humana se esvai diante da expansão cósmica , estado de consciência no qual se efetiva a auto-realização capaz de tornar o ser novamente " criança " . O retorno à infância não implica alienação da existência tangível , do cumprimento exato dos deveres inerentes ao meio social . Trata-se de uma interdifusão natural , um viver espontâneo e fluente que tem no vôo do pássaro e no nadar do peixe seu exemplo mais significativo .
Nem ave , nem peixe preocupam-se com a dimensão infinita do espaço a percorrer e menos ainda em traçar objetivos rígidos e angustiantes a ser atingidos em determinado tempo . Voam e nadam libertos de qualquer condicionamento externo , simplesmente , naturalmente vivos , executando atos de Vida , deixando-se levar pelo fluir da existência no gozo inefável e integral de participar da Energia Una , donde provieram e na qual " são " . A verdade da ave é voar , a do peixe é nadar . A verdade do homem é conhecer-se como Luz Imanente e irradiá-la para seu mundo , sem sobressaltos , apegos , desamor a si mesmo .
Para o homem que deixou de preocupar-se em procurar , longe de seu próprio centro , a solução para o mistério indecifrável de seu peregrinar ainda agora terreno , findaram-se as miragens e sua observação minuciosa , que as impedem de ser tomadas pelo que verdadeiramente são .
Ouvindo o apelo para que olhe primeiro para dentro de si , o " observador e fabricante de ilusões " está apto para saber que é ele , somente ele , " a fonte " das ilusórias aparências a seu próprio respeito ( antropocentrismo ) , quem deve ser observado e conhecido . Não é fácil , não é agradável , não é cômodo realizar tal cometimento sem o amparo , a ajuda , a guia de um líder religioso , um psicanalista , um Guru providencial , um pai zeloso .
" Resta saber se o caminho do autoconhecimento é largo bastante para nele caber mais alguém , além do próprio interessado " . ( L.C. Lisboa ) 
A resposta já está pronta há séculos : os exemplos do " fio da navalha " , " da porta estreita " , " do furo de agulha " estão ao dispor de todos .
Para o ser liberto das autolimitadoras contradições íntimas , de aparente falta de um sentido para a vida e seu fatal termo na morte do corpo , da insegurança provocada pela transitoriedade e impermanência , para esse tipo de autoconhecedor , torna-se clara a positividade e a vitalidade do Vazio donde brotam todas as coisas sem cessar e para onde elas refluem continuamente .
Desaparecido todo o sentimento de separação ou oposição dualista , há o " absorver do Universo " , a entrada na consciência da natureza - Buda fulgurante , a glória infinita de sentir a Eternidade do Eu Supremo no Aqui e no Agora , na transitoriedade e no amargor inerentes à condição existencial . É ser homem e saber-se divino .
Esse explodir de realização-satori acarreta inevitavelmente uma nova vivência de fraternidade e de responsabilidade para com a família , a comunidade , a raça humana , abrangendo todo o meio natural com seus três reinos .
O egoísmo retrocede pela presença atuante do altruísmo , o mal cessa pela prática espontânea do Bem , a personalidade continua a viver , mas seus laços , com toda a Humanidade são reais e interativos . Humanidade não é mais uma simples palavra oca , vazia de sentido , uma abstração em nome da qual se esquece , tortura , menospreza o homem comum . É uma unidade-síntese da qual cada ser é uma parte componente , um elo indissolúvel e vital , uma gotícula entre as incontáveis gotas sem as quais não haveria Oceano , uma luzinha a unir seu brilho a onifulgurante Luz ; e captar e projetar a Energia para o Planeta e amor para além de todos os limites da nossa galáxia .
Quando um pequeno , obscuro e insignificante ponto humano começa a tornar-se um foco irradiador de sua própria Luz , todos os homens , todo o Planeta , todo o Cosmos faz-se um Sol radiante , a enviar seus Raios em todas as direções , doando Vida para tudo e para todos .
Tornar-se não é ser " como " um Iluminado , é em verdade e derradeiramente " ser " um Iluminado . Então não há mais necessidade de seguir um outro Iluminado , seja ele quem for . Amá-lo , somente amá-lo , unificar-se a Ele pelo Amor e pela Luz , identificar-se com Ele na Harmonia e na Paz , sendo no entanto , seu próprio e único Mestre , sem intermediários , sem medianeiros , sem muros , sem véus entre si mesmo e a Divindade . Isso é " ver diretamente " , " viver diretamente " , " luzir diretamente " .

Texto : do livro ( A Doma do Touro ) Ramanadi 
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" A DOMA DO TOURO "

Os Dez Quadros de Iluminação Através do Zen

15- Os Dez Quadros 

" Todos os seres são dotados de uma natureza-Buda desde o mais remoto princípio " .
Sabedores de que nunca nos separamos de nossa natureza-Buda essencial quer tenhamos ou não sido iluminados , estamos prontos para explorar , perceber , compreender , assimilar o conteúdo intrínseco da série do Touro .
Num primeiro momento , ao dar-nos conta de que somente descobrimos que nunca estivemos separados da nossa natureza-Buda imaculada , entramos em êxtase . Quando o deslumbramento cessa , verificamos nada ter adquirido de extraordinário , nada de surpreendente , nada de particular . Tudo se torna , então inteiramente " natural " como sempre fora . É a identidade ou indiferenciação total .
É irrealizável tentar penetrar no sentido dos Quadros ( abordagem do Zen ) através de hipótese ou pontos de vista lógicos .
A Iluminação não se subordina a nenhuma forma de pensamento , jamais é alcançada através de interferência , cognição ou elaborações de conceitos . Só quando a mente se esvaziar das abstrações , haverá a chance do olhar livre , independente , espontâneo , natural , característico do genuíno espectador , daquele que já compreendeu , com clareza , o mundo da Iluminação .
Sem uma pré-existente fé , uma certeza inabalável de que a verdadeira natureza-Buda fundamental é uma potencialidade humana , a contemplação dos Quadros e a leitura dos poemas ilustrativos não passarão de um espetáculo não muito diferente do oferecido por qualquer ilustrador de qualquer época . É um exercício mais confirmatório que introdutório ou ilustrativo de um tema invulgar .
O impacto de singeleza dos desenhos provirá , com mais força , do espaço vazio ; as figuras são apenas a pedra-de-toque , o esboço do que está implícito no verso , não das palavras , das rimas nele contidas . É o desejo intenso de autoconhecimento que pode levar alguém a compreender a natureza da mente e o significado dos Quadros , pois ambos são indissoluvelmente unificados ; o símbolo concreto , o mito como a outra face da moeda , a que fica oculta até o levantar da peça .
O ser essencialmente perfeito - sem mácula - jorrará do imperfeito espectador . Revelada , a imperfeição simultaneamente cria a determinação de removê-la : é a prova da autêntica experiência , da Iluminação válida .
Há duas possibilidades , além da mais provável de inocuidade total consequente da visão exterior de uma série de desenhos e versos mais ou menos interessantes , não artísticos , nem belos no sentido mais geral do termo :
a) alguns apenas verão " as pegadas " do Touro ;
b) outros " agarram " verdadeiramente o Touro ;
Existe uma distância imensa entre uma percepção superficial e outra profunda . Os diferentes níveis de percepção constituem mesmo a sequência dramatizada das Dez Figuras Apascentando o Touro .


16- Quadro I : Procurando o Touro 


Onde está o seu Touro , onde , onde ?
Em que secreto lugar , ele se esconde 
Do amo aflito que , a esmo vaga ?
Longe de casa , cumpre triste saga :
Ossos moídos , coração pesado ,
Pés doloridos , aterrorizado ,
Em sonhos , vai lançando mil amarras :
Só lhe responde o canto das cigarras .

Explicação I :

A procura é realmente inútil , pois o homem persegue o Touro ( a Mente Búdica ) que jamais dele se extraviou . É uma busca de algo que nunca irá encontrar , pois é ele próprio quem volta as costas à sua Verdadeira-natureza .
As palavras traduzem o desatino , a desdita , o extremo cansaço físico e emocional do peregrino em seu jornadear ( saga ) longe de sua verdadeira morada , onde sua mente buscadora ( a que deseja saber " quem é " ) e sua natureza-Buda habitam inseparavelmente juntas - O lugar secreto é seu próprio centro , sua Vida Interior , somente aí , ele encontrará o Touro e com ele se identificará .
É uma realização solitária : o contraste entre o desespero da busca e a suave tranquilidade do canto das cigarras marca a solidão do homem que busca o encontro com o Divino e não deve esperar nenhuma ajuda externa .
1º estágio : O paçu , o homem até então preocupado com a vida material , com a autopreservação , com o culto da mentalidade objetiva , manifesta os primeiros lampejos de transcendência e inicia a busca que agora sente , de maneira confusa , deve culminar na própria experiência de plenitude da Vida , no encontro de seu " centro " .

17- Quadro 2 : Rastreando o Touro   


Olhando o solo , consultando os astros , 
Busca encontrar , nos almejados rastros ,
O Touro fugitivo . Matos densos ,
Lagos profundos , desertos imensos ,
Lá vai ele à procura do seu Touro ,
Aqui e Agora seu maior tesouro ,
Tão forte , tão potente , o bicho seu ,
Patas na Terra , focinhando o Céu .

Explicação II :

O pastor tentar achar o fugitivo não fujão nos mais diversos lugares , usando todos os meios a seu alcance .
A ciência humana ( solo-sua origem carnal ) é tão inoperante como a Astrologia representando as crenças , os dogmas , já subentendidos nas " amarras " do poema 1 , que simbolizam os ritos , magias , os meios ilusórios ineficazes para a obtenção do verdadeiro conhecimento da Vida Única .
Algumas palavras elucidam o sentido budista do poema :
a) Aqui e Agora - o tesouro - a Mente-Búdica - está sempre ao alcance de qualquer um ; independe de tempo e espaço , porque ela está presente em cada momento eterno , neste próprio envolutório carnal , na experiência diária ;
b) O último verso traduz a própria e essencial dualidade do amo do Touro : corpo preso à matéria , mente alçada ao Divino .
É no corpo humano que se obtém a Iluminação . É obra terrena .
2º estágio : Ainda se trata de uma etapa inicial ; houve um ligeiro grau de progresso , pois através dos sutra e dos ensinamentos , o homem já compreendeu que , seguindo as pegadas de seus impulsos mais elevados , talvez as informações recebidas o levem a distinguir o falso do verdadeiro .



18- Quadro III : Vislumbrando o Touro  





Seu mundo todo , pequeno atalho ,
Suave brisa balançando um galho ,
Manhã serena , radiante Sol ,
Cantar sonoro do par-rouxinol 
Que faz do frágil ramo do salgueiro , 
O início-fim do próprio cativeiro ,
O Touro ali está , ele o vislumbra :
Com tão parco poder já se deslumbra . . .

Explicação III :

O cenário todo faz apelo ao uso dos seis sentidos ( o discernimento é o sexto ) com a intenção de enfatizar não serem os mesmos diferentes da Fonte Original , sempre a manifestar-se em qualquer atividade corrente . A " plena atenção dirigida " é uma forma de percepção de sons naturais e da visão correta das coisas .
Nos versos concernentes ao par-rouxinol , existe uma alusão clara ao Bhagavad Gita . São símbolos os dois pássaros idênticos ; a mente individual é o que come os frutos da árvore ( gratificação material dos sentidos ) ; a Mente Búdica é o que apenas observa o outro , testemunhando as atividades de sua réplica . Se o comedor volver sua face para seu reflexo , liberta-se do apego pelos frutos da matéria e de todas as ansiedades daí oriundas . A rendição voluntária suscita o término da dualidade . É na vivência terrena , onde teve início a ilusão da separatividade , que o cativeiro terminará : Vazio e forma não são diferentes um do outro .
3º estágio : O que ocorre , neste estágio , é apenas a captação de um lampejo da região além da forma . Há o risco de perder a Iluminação de vista , se não houver continuidade no treinamento , ou uma avaliação exagerada . O " Insight " não oportunizou a melhora da interação característica de um ser Iluminado .

19- Quadro IV : Agarrando o Touro  


O Touro corcoveia , vai bufando 
E triste , os verdes prados vai deixando 
Com pesar tão sentido , tão profundo ,
Como chegado fosse o fim do mundo .
O laço deve estar firme e seguro ,
Pois o Touro , temendo seu futuro ,
Livrar-se tenta do feroz cabresto 
E o fará , se o amo não for lesto .

Explicação IV :

Os velhos hábitos dificilmente são abandonados : o sentimento ilusório , durante inúmeras experiências terrenas , manteve a Mente Original , em aparência , dissociada do ego pensante . Enquanto esse último persistir vinculado à vida material , seus contatos com a natureza-Búdica permanecerão esporádicos , fugazes , existindo a impressão de que ela se revelará arredia , inacessível , difícil de ser atingida . Na verdade , quem se abriga , em seus derradeiros redutos , é o ego relutante em face da mudança profunda a ser enfrentada : só o desaparecimento da tensão , pela morte do ego , permitirá o domínio pleno da Luz . A reconstrução da personalidade para dar lugar ao nascimento de um ser próximo da Perfeição é tarefa hercúlea , que demanda tempo , paciência , perseverança , fé , treino constante , disciplina irrestrita , autocontrole contínuo . Qualquer descuido , a obra fica comprometida . Daí as imagens evocadas pelos termos que compõem esta etapa muito importante , senão decisiva .
4º estágio : Sua importância decorre do fato de que até agora o pastor " não possui " , não é o amo do Touro . Mas agarrá-lo já é indicio seguro da aquisição da Sabedoria fundamental ( volta à própria Morada , a verdadeira realização do Caminho ) . Progredir um pouco mais é penetrar em uma Sabedoria mais profunda .

20- Quadro V : Amansando o Touro    

O bicho segue o amo passo a passo 
Mas pode ainda tentar romper o laço 
Que o retira das poças lamacentas 
Puxado por um fio preso nas ventas .
O pelo negro , branco vai ficando ,
O Touro , pouco a pouco , se tornando
Manso , limpo , gentil e paciente .
Ao dono fiel é , e obediente .

Explicação V : 

A tensão entre o ego-pensante ( pastor ) e a natureza Iluminada ( Touro ) impedia a unissonância harmônica entre ambos . Com o Touro já parcialmente domado , o amo vai poder aquietar as emoções conflitantes , as imagens e pensamentos desconexos , provocados por essa tensão entre sujeito e objeto , que o induzem a pensar que a vida é irreal . Os pensamentos , porém , não irreais , nem provém do mundo objetivo : enquanto a ilusão de separatividade atuar , não pode existir a compreensão de que eles brotam da nossa Verdadeira-natureza .
Focando no seu ponto exato nossa visão interior distorcida , a Iluminação dissipa a ilusão de que o Vazio ( Touro-Mente-Búdica ) e o mundo da forma são separados , ao invés de um indivisível Todo . A mútua interpenetração entre os dois é caracterizada , no símbolo , pela alteração da cor no pelo do animal e pelas qualidades aí evidenciadas totalmente opostas às observadas antes . Há a notar a alusão feita ao valor do processo respiratório : o Touro cede ao dono que o leva pelo fio preso nas narinas .
5º estágio : Apesar da série pertencer à corrente sino-japonesa do Budismo , o símbolo do Touro está ligado aos ensinamentos Shivaistas , nos quais o Touro Branco ( Neti ) é a montaria ( força feminina ativa-Shakti ) do Imutável Shiva . O negro simboliza a ignorância dual . A tomada da consciência da Luz dissolvendo a bifurcação eu-não eu , repõe a Unidade , faz a Mente mostrar-se branca .


21- Quadro VI : Cavalgando o Touro  

Do Touro faz perfeita montaria 
Para levá-lo ao fim da romaria ,
Montado no animal , ao Lar regressa ,
Tão livre como o ar , trota sem pressa ,
Nem olha para trás ; o céu fitando ,
Suaves melodias vai tocando 
Na flauta , que compassa o trote-trote 
Do Touro que prescinde de chicote 

Explicação VI : 

A luta findou ; surge agora o estado de absoluta naturalidade : as tentações não mais o fazem voltar a cabeça , também não mais o afetam as influências externas de " ganho " ou " perda " , pois todas as coisas estão como elas são . O pastor é um ser maduro estabelecido em seu verdadeiro elemento : fundiu os instintos e os sentidos , a alma e a mente , o ego e o mundo numa Unidade básica , fonte máxima de tranquilidade e aceitação da Vida tal como ela é .
A Mente-Buda , cujo símbolo é o Touro , é neste estágio inteiramente suficiente a si mesma . A profunda serenidade , experimentada pelo buscador , é traduzida pela sensação de liberdade , de alegria de viver , da ausência de pressa que marcam o regresso ao Lar , o universal anelo do homem ( o repouso da alma em Deus - a volta do filho à Morada do Pai ) . A sintonia entre o corpo e a Mente Original ressalta do abandono da coerção inicial . Existe agora um estado de consciência em que Iluminação e ego são idênticos .
6º estágio : Somente o Touro pode levar o pastor de volta à Casa , de onde aliás jamais os dois se ausentaram . Era a turbulência do ego , o antagonismo existencial que provocaram as tentações ilusórias , a dicotomia , a desarmonia . Estimulado pela fé em seu verdadeiro Eu , ele " foi para onde não conhecia , por um caminho que lhe era desconhecido " .

22- Quadro VII - Esquecendo o Touro 

O Sol ainda luz no alto céu ,
O Touro já se foi . O amo esqueceu 
O laço inútil , o cabresto duro ,
Seu sonho nada tem de mau ou puro .
Sentado tão tranquilo , tão sereno ,
Aguarda o fim do dia longo-ameno ,
A chegada da Luz na escuridão 
Harmoniosa , doce solidão !

Explicação VII :

Tudo parece estar em seu lugar certo . O pastor se sente " completo " , experenciando o gozo perfeito da Unidade que lhe é inerente . A questão básica " Quem sou eu " não mais o perturba . O Touro desapareceu quando ele o reconheceu como a Natureza-Primária , o que permite sentar sozinho ( a solidão lhe é grata ) , usufruir o Sol , o mundo fenomênico , aguardando tranquilamente o " fim do dia " . Havendo transcendido a dualidade , a morte não mais o apavora , pois agora sabe , reconhece e sente-se como parte indestrutível e inseparável da Vida Maior , eterna e luminosa . Vive o momento crítico em que a Sabedoria e a ignorância se defrontam , antes que a primeira domine , e a outra se esfume como a treva ante a vitória da Luz . Por estar além do vício e da virtude , seu sonho ( a vida transitória ) não é puro ou impuro . De posse de Grande Pureza , o homem perfeito não pratica nenhuma virtude , nem comete pecado : os conceitos de bem e mal foram ultrapassados , só resta a Luz .
7º estágio : A importância desta etapa ressalta por si mesma .
A ênfase sobre a solidão construtiva ( a ser recolocada posteriormente ) é vital , pois é somente sozinho que o homem pode olhar para o seu próprio ser , escutar a própria harmoniosa melodia , sempre maior que sons isolados , que suas notas componentes , e só perceptível em sua " totalidade " .

23- Quadro VIII : Desapegando-se de si mesmo  

Silente já do Touro esquecido .
Ele se une ao luar embevecido ;
Não mais importam os dias tormentosos 
A vagar pelos ermos pantanosos ,
Onde , perdido , caminhava a esmo 
À procura do Touro , de si mesmo ,
Tão humilde , tão simples , tão sozinho . . .
Não cogita em seguir nenhum Caminho .

Explicação VIII :

Esquecer o Touro não basta : é preciso que o pastor se esqueça de si mesmo em todos os sentidos , sobretudo das ideias de santidade . Se " Eu sou um Buda " prescinde da autoconfirmação , o mesmo deve ocorrer com o estágio de " Estou purificado do orgulhoso sentimento de ser Buddha " . A pureza inerente à Mente macula-se com a ponta de orgulho espiritual acarretada pela última afirmação , o que impede a conquista da Paz suprema e da Libertação .
" Apegar-se à própria Iluminação é tão doentio quanto apresentar um eu com loucura ativa " , reza um antigo aforisma Zen .
Libertando-se do pressuposto de que o mundo do Vazio é diferente do mundo da forma , o iluminado desapega-se do gosto da própria Iluminação . Essa última e a ilusão de separatividade são igualmente danosas . O crescimento da Iluminação não está condicionado a ser ou não budista ou seguir regras religiosas . O " não cogitar em seguir nenhum Caminho " reporta-se aos diversos " ismos " espalhados pelo mundo .
8º estágio : Aqui terminava a primitiva série chinesa . O círculo vazio representa nada mais haver para diferenciar o homem do Todo . Ele é tão puro e natural , que somente a Lua Cheia ( a plenitude da Luz brilhando na escuridão da noite da ignorância ) , o espaço vazio corresponde a este grau de Iluminação perfeita , sem jaça , sem névoas de orgulho .

24- Quadro IX : Retornando à Fonte 


 A Roda gira sem nada mover :
Ouvir é não ouvir , ver é não ver .
Voltou à Origem , retornou à Fonte ;
O Sol sempre a seguir no horizonte ,
Fluindo , a fonte cristalina espelha 
A flor , naturalmente flor vermelha . . .
Sozinho , na cabana , em paz viceja .
O que existe lá fora não deseja . . . 

Explicação IX : 

Incerteza e confusão desvaneceram-se ; sua ausência permite a Paz , o retorno à Fonte , donde a Vida jorra plena , espontânea , natural , sem pedir licença a ninguém para apresentar-se tal como é em seu esplendor , em suas miríades de formas , sejam elas agradáveis ou não ao homem . Nele , agora , o êxtase da Iluminação desapareceu . Liberto dos objetos dos sentidos , esquecido de si mesmo , absorve-se tão intensamente no que ouve e vê , que seu ouvir é " não ouvir " , seu ver é " não ver " , pois seu ato é perfeito , isento de todas as artificialidades , plenamente natural . É , e o sabe , parte da Verdade Única , que abarca o Cosmos como um todo , fazendo-o ser vida menor dentro da Vida Maior .
Não mais sente necessidade de justificar sua presença na Vida através do trabalho árduo , projeção social , num interminável ir e vir sem meta definitiva e feliz . A solidão lhe apraz ; nela viceja , floresce , vive o " adequado uso da Sabedoria " , o TAO .
9º estágio : Está enfim apto para viver a vida menor no seio da Vida Maior em todas as situações , em todos os lugares , em todos os estados de consciência . Sua intrínseca Pureza jamais fora maculada por grãos de poeira : não há nenhum espelho a espanar . Compreendendo que sua pessoa abrange o Universo , que poderá almejar que não seja sua Herança Divina ?

25- Quadro X : Convivendo na Praça do Mercado 

Com mãos que abençoam , ele vem à cidade .
Fechada está a porta de sua velha choça .
Nem mesmo do mais sábio a extrema acuidade ,
Vê algo diferente no homem que o roça 
E segue sorridente sua própria estrada ,
Sem pisar de algum Buddha a divina pegada .

Cedo co'a tigela na mão , ele vai ao mercado ,
Tarde retorna à casa , ao bordão arrimado .
Faz de quem bebe vinho com alegria 
Uma fraterna , dileta , grata companhia 
Que partilha também com qualquer açougueiro ;
Ele , em todos , percebe o Buddha Verdadeiro .
Descalço , peito nu , na Praça do Mercado ,
De cinza recoberto , de lama salpicado ,
Ri : um riso franco , livre , aberto . . .
Os místicos poderes dos Devas , ele os esquece ,
Mas , a seu toque , a árvore seca - é certo -
Toda verde se faz e , terna , refloresce . . .

Explicação X :

Tornou-se finalmente o seguidor de seu próprio Caminho , sem tentar seguir os passos dos antigos e sábios Mestres . Nele não são mais visíveis os sinais de perfeição ( nem cheiro de santidade nem aura de Iluminação ) . Contudo , sua pureza e realização espiritual lhe permitem passear pela Praça do Mercado , o imperfeito e poluído convívio mundano , trazendo paz e esperança ao coração dos homens imersos na escuridão , no desespero , no vício , guiando-os para o Caminho de Buddha . A fim de ajudar os homens a dominar suas ilusões , liberá-los de suas loucuras e de seus apegos , o ser de mais elevada espiritualidade não hesita em saborear com eles a bebida alcoólica , de conviver com açougueiros , infringindo assim postulados básicos do Budismo : a proibição do álcool , a profissão não correta por comerciar com o sofrimento animal . Nada tem o poder de macular sua pureza : como o Lótus , símbolo budista da pura perfeição , ele tem suas raízes na lama , sem que ela macule as alvas pétalas , onde fulge a Gota de Orvalho , a jóia da Iluminação .
10º estágio : Sua simples presença entre os homens é uma bênção para o mundo . Sua alegria franca e natural prova que toda a sua personalidade está impregnada de uma tal força de irradiação interior que , mesmo sem recorrer aos " poderes " ( siddhis ) , decorrentes de seu elevado grau de Iluminação , a própria Natureza já o tem " por um de seus criadores " , abrindo " de par em par diante dela , as portas de suas câmaras secretas , desnudando ao seu olhar os tesouros ocultos nas profundezas do seu seio virgem " .
Seu estágio atual não lhe permite renunciar ao mundo , ser um escapista , abandonando assim ao desamparo todos os angustiados ignorantes que devem haurir conhecimento de seu Saber , paz de sua Harmonia , verdade de sua Compaixão .
Se não houver dedos a apontar para a Iluminação , como podem os sencientes transformarem-se em pastores capazes de apascentar o Touro ?
Tornar-se a Compaixão Absoluta não é um alvo a atingir , um programa a cumprir , um atributo a conquistar . É ser " a Lei das Leis - a harmonia eterna , o próprio ser de Alaya , uma essência universal sem praias , a luz da justiça eterna , o acordo de tudo , a lei do eterno amor " .
Assim sendo , a solidão-afastamento do borborinho comunal é um contra-senso . O fato de estar sempre centrado em si mesmo , propicia ao Iluminado um outro tipo de solidão-paz em que , vivo e alerta , no meio do turbilhão , ele encontra mais silêncio , mais vida .
Solitário , ele o será sempre porque é um religioso , um anagarika , um sem lar . Sua consciência é um oásis solitário , onde ele se refugia quando , no meio da multidão a quem distribui amor , ele permanece consciente , vivaz , alerta , mas só , inteiramente só no santuário iluminado de seu próprio Ser . Então ele " é " o Homem solitário porque é único , é integro , é todo Luz . Sua solidão é bela , suave , silente Paz .
É o ser humano liberto , iluminado , bendito ! o Buddha compassivo foi , é e será sempre ele mesmo ; ele o sabe , porque assim o sente e vive Aqui e Agora .
Fina jóia preciosa , gema pura ,
já consegue brilhar em plena lama ,
como ouro de lei , também , fulgura 
no ardente esplendor da própria chama .
Assim também tu podes vir a ser , leito amigo . . .
Haja Luz em teu coração .
Bênçãos sobre todos os seres .


   

Texto : do livro A Doma do Touro ( Ramanadi )
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domingo, 10 de agosto de 2014

" A NÃO MENTE "

Osho , como o observar conduz à não-mente ? Eu estou conseguindo cada vez mais observar o meu corpo , os meus pensamentos e sentimentos e isso é lindo . Mas os momentos sem pensamento são poucos e distantes entre si . Quando eu ouço você falando " meditação é testemunhar " , eu sinto que eu entendo . Mas quando você fala sobre não-mente , isso não parece ser fácil , de jeito algum . Você poderia comentar " Prem Anubuddha , meditação abrange uma peregrinação muito longa . Quando eu digo ' meditação é testemunhar ' , isto é o começo da meditação . E quando eu digo ' meditação é não-mente ' , isto é o encerramento da peregrinação . Testemunhar é o começo e não-mente é a realização . Testemunhar é o método para alcançar a não-mente . Naturalmente você sente o testemunhar mais fácil , pois ele está próximo de você .
Mas testemunhar é como uma semente , existe um longo período de espera . Não apenas espera , mas confiança de que a semente vai brotar , que ela vai se tornar um arbusto , que um dia a primavera virá e o arbusto irá florescer . Não-mente é o último estágio do florescimento .
Semear as sementes , naturalmente é muito fácil , está em suas mãos . Mas fazer com que as flores apareçam está além de você . Você pode preparar todo o solo , mas as flores surgirão por elas mesmas ; você não consegue forçá-las a aparecer . A primavera está além do seu alcance , mas ela vem , isso é absolutamente garantido ; e se a preparação for perfeita . . .
É perfeitamente bom o jeito como você está indo . Testemunhar é o caminho e você está começando a sentir , uma vez ou outra , momentos sem pensamentos . Esses são vislumbres de não-mente . . . mas , só por uns momentos .
Lembre-se de uma lei fundamental ; aquilo que pode existir por um momento também pode se tornar eterno . Você não dispõe de dois momentos juntos , mas sempre de um momento . E se você puder transformar um momento em um estado de não pensamento , você está aprendendo o segredo . Então não haverá obstáculos , nenhuma razão para que você não possa mudar o segundo momento que também virá sozinho , com o mesmo potencial e a mesma capacidade .
Se você conhecer o segundo , você terá a chave mestra que poderá abrir qualquer momento para vislumbres de não-mente . Não-mente é o estágio final , quando a mente desaparece para sempre e o espaço sem pensamento se torna a sua realidade intrínseca . Se esses poucos vislumbres estão chegando , eles mostram que você está no caminho certo e que você está usando o método certo .
Mas não seja impaciente . A existência precisa de imensa paciência . Os mistérios maiores são abertos apenas para aqueles que têm imensa paciência . ( . . . ) 
Uma vez que um homem esteja em um estado de não-mente , nada pode desviá-lo de seu ser . Não há poder algum maior que o da não-mente . Nenhum mal pode ser feito a tal pessoa .
Nenhum apego , nenhuma cobiça , nenhuma inveja , nenhuma raiva , nada pode surgir nele . A não-mente é absolutamente um céu puro , sem qualquer nuvem .
Anubuddha , você diz , ' como o observar conduz à não-mente ? '
Existe uma lei intrínseca : pensamentos não têm vida própria . Eles são parasitas ; eles vivem na sua identificação com eles . Quando você diz , ' eu estou com raiva ' , você está despejando energia vital na raiva , porque você está ficando identificado com ela .



Meditation - Transformation Tarot 

Mas quando você diz ' eu estou observando a imagem da raiva na tela da mente dentro de mim ' , você não está mais dando qualquer vida , qualquer alimento , qualquer energia à raiva .
Você será capaz de vê-la porque você não está identificado , a raiva é absolutamente importante , não tem qualquer impacto sobre você , não muda você , não afeta você . Ela é absolutamente oca e morta . Ela passará e deixará o céu limpo e a tela da mente vazia .
Aos poucos você começa a livrar-se de seus pensamentos . Esse é todo o processo de testemunhar e observar . Em outras palavras , George Gurdjieff costumava chamar isso de não-identificação , você não está mais identificando-se com seus pensamentos . Você está simplesmente parado , desinteressado e distante , indiferente como se eles pudessem ser pensamentos de outra pessoa . Você quebrou a sua conexão com eles . Somente então você pode observá-los .
A observação necessita de uma certa distância . Se você está identificado , não existe distância , eles estão muito próximos .
É como se você estivesse colocando um espelho muito próximo de seus olhos : você não consegue ver o seu rosto . Uma certa distância é necessária ; somente então você consegue ver o seu rosto no espelho .
Se os pensamentos estiverem muito próximos , você não consegue observá-los . Você se torna impressionado e influenciado pelos seus pensamentos : a raiva torna você raivoso , a ambição torna você ambicioso , a luxúria torna você luxurioso , porque não existe distância alguma . Eles estão tão próximos que você facilmente pensa que você e seus pensamentos são um .
A observação destrói essa ligação e cria uma separação . Quanto mais você observar , maior será a distância . Quanto maior a distância , menos energia seus pensamentos estarão levando de você . E eles não têm outra fonte de energia . Logo eles começarão a morrer , a desaparecer . Nesses momentos de desaparecimento , você terá os primeiros vislumbres de não-mente .
Isso é o que você está experienciando . Você diz : ' Eu estou conseguindo cada vez mais observar o meu corpo , os meus pensamentos e sentimentos e isso é lindo . ' Isso é apenas o começo . É mesmo o começo é tremendamente lindo . Só por estar no caminho certo , mesmo sem dar um simples passo , isso já lhe traz uma imensa alegria , sem que haja qualquer motivo .
E uma vez que você começa a se mover no caminho certo , o seu êxtase , a suas belas experiências vão se tornar mais e mais profundas , mais amplas , com novas nuances , novas flores , novas fragrâncias .
Você diz : ' Mas os momentos sem pensamento são poucos e distantes entre si . ' Isso é uma grande conquista , porque as pessoas nem mesmo conhecem uma simples pausa . Os seus pensamentos estão sempre na hora do rush , pensamentos e mais pensamentos , pára-choques se chocando , numa sequência contínua , esteja você acordado ou dormindo . O que você chama de sonhos , nada mais são do que pensamentos em forma de imagens . . . porque a mente inconsciente não conhece linguagem alfabética . Não há escolas nem institutos que ensinem a linguagem inconsciente . ( . . . ) 
Anubuddha ,o que você está percebendo é uma grande indicação de que você está no caminho certo . O buscador sempre traz esse questionamento : se ele está se movendo no caminho certo ou não . Não há segurança , nem seguro , nem garantia . Todas as dimensões estão abertas ; como você escolherá a direção certa ?
Esses são os caminhos e o critério de como escolher ; se você se move em algum caminho , usa alguma metodologia e isso lhe traz alegria , mais sensitividade , torna-o mais observador e lhe dá uma sensação de imenso bem estar , esse é o único critério de que você está indo no caminho certo . Se você estiver se tornando mais miserável , mais raivoso , mais egoísta , mais ambicioso , mais luxurioso , estas são as indicações de que você está se movendo num caminho errado .
No caminho certo , a sua felicidade irá crescer dia após dia e suas experiências de belas sensações irão tornar-se tremendamente psicodélicas , muito coloridas , com cores que você nunca viu no mundo , com fragrâncias que você nunca experimentou . Então você poderá seguir no caminho sem qualquer medo de que possa estar indo errado .
Essas experiências internas irão mantê-lo sempre no caminho certo . Basta lembrar-se de que se elas estiverem crescendo , isso significa que você está se movendo . Agora você tem apenas alguns poucos momentos de nenhum pensamento . . . isso não é uma realização simples , isso é uma grande conquista porque as pessoas por todas as suas vidas não conhecem sequer um simples momento onde não haja pensamentos .
Na medida que você se tornar mais centrado , mais observador , essas pausas começarão a crescer e tornar-se-ão maiores . E se você continuar se movendo sem olhar para trás , sem se perder , se você continuar indo em frente , chegará um dia , e não está muito distante , quando você irá sentir pela primeira vez que as pausas se tornaram tão grandes que horas estarão passando e nem mesmo um simples pensamento surgirá . Você estará então tendo experiências maiores de não-mente .
A conquista maior será quando você estiver cercado por não-mente vinte e quatro horas por dia .
Isso não quer dizer que você não possa usar a sua mente . Essa é uma mentira usada por aqueles que nada sabem de não-mente . Não-mente não significa que você não possa usar a mente ; ela simplesmente significa que a mente não pode usar você .
Não-mente não significa que a mente está destruída . Não-mente significa apenas que a mente foi colocada de lado . Você pode acioná-la a qualquer momento em que você precisar se comunicar com o mundo . Ela será sua serviçal . Neste exato momento , ela é a sua patroa.
Mesmo quando você está sentado só , ela segue com seu blá-blá-blá , e você nada consegue fazer , você está totalmente impotente .
Não-mente simplesmente significa que a mente foi colocada em seu devido lugar . Como uma serviçal , ela é um grande instrumento ; como uma patroa , ela é muito inconveniente . Ela é perigosa . Ela destruirá toda a sua vida .
A mente é apenas um meio para quando você quiser se comunicar com os outros . Mas quando você estiver só , não há necessidade da mente . Assim , sempre que você quiser usá-la , você poderá .
E lembre-se de uma coisa mais : quando a mente permanece silenciosa por horas , ela se torna mais fresca , jovem , mais criativa , mais sensitiva , rejuvenescida através do descanso .
Em geral , a mente das pessoas tem início por volta dos três ou quatro anos de idade , e a partir daí , ela vai continuando por setenta , oitenta anos sem férias . Naturalmente ela não consegue ser muito criativa . Ela está completamente cansada , cheia de lixo . Milhões de pessoas no mundo vivem sem qualquer criatividade . Criatividade é uma das experiências mais felizes . Mas as mentes estão tão cansadas . . . elas não estão num estado de energia transbordante .
Um homem de não-mente mantém a mente em descanso , cheia de energia , imensamente sensitiva , pronta para entrar em ação no momento em que for ordenada . Não é uma coincidência entre as pessoas que têm experienciado não-mente , que suas palavras começam a ter uma magia em si mesmas . Quando elas usam suas mentes , há um carisma e uma força magnética . Há uma tremenda espontaneidade e o frescor de gotas de orvalho de uma manhã antes do sol nascer . E a mente é o meio de expressão e criatividade mais evoluído da natureza .
Assim , o homem de meditação , ou em outras palavras , o homem de não-mente , muda até a sua prosa , em poesia . Sem qualquer esforço , suas palavras se tornam tão cheias de autoridade , que elas não precisam de qualquer argumentação . Elas se tornam seus próprios argumentos . A força que elas carregam se tornam uma evidência da verdade . Não há necessidade alguma de qualquer outro apoio da lógica ou das escrituras . As palavras de um homem de não-mente carregam uma certeza intrínseca a respeito de si mesmas . Se você estiver pronto para receber e ouvir , sentirá isso em seu coração : a verdade auto evidente .
Veja ao longo das eras : Gautama Buda nunca foi contestado por quaisquer de seus discípulos , nem Mahavira , nem Moisés , nem Jesus . Havia algo em suas palavras , em sua presença que o convencia . Sem qualquer esforço de convertê-lo , você era convertido . Nenhum dos grandes mestres foram missionários , eles nunca tentaram converter ninguém , mas eles converteram milhões .
Isso é um milagre , mas o milagre consiste numa mente descansada , numa mente que está sempre cheia de energia e que é usada somente de vez em quando .
Quando eu falo com vocês , eu tenho que usar a mente . Quando eu estou sentado em meu quarto por quase todo o dia , esqueço tudo a respeito de mente . Eu sou apenas um silêncio puro . . . e enquanto isso a mente está descansando . Os únicos momentos em que eu uso a mente , é quando eu falo com vocês . Quando eu estou só , eu fico completamente só , e não há necessidade de usar a mente .



  

       
THE GREATEST MIRACLE TRANSFOMATION TAROT


  
     



   
Anubhudda , você diz , ' Quando eu ouço você falando ' meditação é testemunhar ' , eu sinto que eu entendo . Mas quando você fala sobre não-mente , isso não parece ser fácil , de jeito algum . '
Como isso pode parecer fácil ? Considere que essa é a sua possibilidade futura . Você já começou a meditação ; ela pode estar nos estágios iniciais , mas você já tem uma certa experiência nisso , o que faz com que você me entenda . E se você pode entender meditação , então não se preocupe com mais nada .
A meditação com certeza leva à não-mente , assim como todo rio se move em direção ao mar , sem qualquer mapa , sem qualquer guia . Todo tio , sem exceção , finalmente alcança o oceano . Toda meditação , sem exceção , finalmente alcança o estado de não-mente .
Mas naturalmente , quando o Ganges está no Himalaia , perambulando entre montanhas e vales , ele não tem qualquer ideia sobre o que é o oceano , ele não consegue conceber a existência do oceano . Mas ele está se movendo em direção ao oceano , porque a água tem a capacidade intrínseca de sempre procurar pelo plano mais baixo . E o oceano está no plano mais baixo . . . Assim , os rios nascem nos picos do Himalaia e começam imediatamente a se moverem em direção a espaços mais baixos e finalmente eles acabam encontrando o oceano .
Exatamente o oposto é o processo da meditação : ele se move para cima , para os picos mais altos e o pico mais alto é a não-mente . Não-mente é uma palavra simples , mas ela significa exatamente iluminação , libertação , liberdade de todas as escravidões , experiências de imortalidade .
Essas são palavras grandiosas e eu não quero que você fique assustado , por isso eu uso uma palavra simples , não-mente . Você conhece a mente . . . e você consegue conceber um estado em que essa mente esteja sem funcionamento .
Uma vez que esta mente esteja sem funcionamento , você se torna parte da mente do cosmos, da mente universal . Quando você é parte da mente universal , a sua mente individual funciona como uma bela serviçal . Ela terá reconhecido a mestra e ela trará novidades da mente universal para aqueles que ainda estão presos à mente individual .
Quando eu estou falando para vocês , é na verdade o universo que está me usando . As minhas palavras não são minhas palavras , elas pertencem à verdade universal . Esse é o poder , o carisma e a magia delas . "

Texto : OSHO - Satyam , Shivam , Sundram 
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