sexta-feira, 18 de junho de 2010

" As Injunções "

Em resumo , todas as formas válidas de conhecimento têm uma injunção , uma iluminação e uma confirmação ; e isso é verdade tanto se estamos olhando para as luas de Júpiter , para o teorema de Pitágoras , para o significado de Hamlet ou ... para a natureza do Absoluto .
E enquanto as luas de Júpiter podem ser desvendadas pelo olho da carne ( pelos sentidos ou suas extensões - sensibilia ) , e o teorema de Pitágoras pode ser desvendado pelo olho da mente e suas apreensões interiores ( intelligibilia ) , a natureza do absoluto só pode ser desvendada pelo olho da contemplação e seus referentes diretamente desvendados - sua trancendelia , seus dados espirituais , os fatos reais do universo espiritual .
Mas para ganhar acesso a qualquer um desses modos válidos de saber , devo estar adequado a injunção - devo completar com sucesso a etapa injuntiva . Isso é verdade nas ciências físicas , nas ciências mentais e nas ciências espirituais . Se queremos saber isso , devemos fazer isso . E se o exemplar nas ciências físicas é um telescópio , e nas ciências humanas uma interpretação linguística , nas ciências espirituais o exemplar , o paradigma , a pratica é : meditação ou contemplação . Elas também tem suas injunções , suas iluminações e suas confirmações , todas perfeitamente repetíveis , verificáveis ou refutáveis . - todas constituindo , portanto , um modo perfeitamente válido de aquisição de conhecimento .
Em todos os casos , porém , temos de usar a injunção . Temos de adotar a prática exemplaria , e isso certamente é verdade também para com as ciências espirituais . Se não adotarmos a prática injuntiva , não teremos um paradigma genuíno , e nunca vamos chegar a ver os dados do universo espiritual . Na verdade , não seremos diferentes dos sacerdotes que se recusaram a seguir a injunção de Galileu e dar uma espiada pelo telescópio .
E é aqui que começa o beco sem saída .

O Olho da Comtemplação

Nas páginas seguintes , vou apresentar meu argumento de que não se pode resolver o problema do absoluto/relativo utilizando o olho da carne , ou o olho da mente . Esse mais profundo de todos os problemas e mistérios submete sua resolução diretamente apenas ao olho da contemplação . E , como tanto Kant quanto Nagarjuna demonstraram com veemência , se tentarmos colocar essa solução em termos intelectuais ou racionais , vamos gerar apenas antinômios , paradoxos , contradição .
Em outras palavras , não se pode resolver o problema do absoluto/relativo empiricamente usando o olho da carne e sua sensibilia : nem se pode resolve-lo racionalmente , usando o olho da mente e sua inteligibilia . A solução , em vez disso , implica a apreensão direta da trancendelia , que é desvendada apenas pelo olho da contemplação , e é completamente verificável nessa esfera , usando o que na verdade , são procedimentos bastantes públicos - isto é , públicos para todos os que completaram a injunção e desvendaram a iluminação .
E o mesmo acontece , de novo , com o destino e o livre-arbítrio , o uno e o múltiplo , número e fenômeno , mente e cérebro . Eye to Eye argumenta que apenas nos estágios mais altos do desenvolvimento da consciência - parte essencial do desenvolvimento meditativo ou contemplativo - soluções para esses dilemas ficam òbvias . Mas isso é uma descoberta empírica , nem uma dedução racional ; é uma apreensão contemplativa .
As típicas respostas ocidentais à questão de qual é a relação entre mente e corpo - ou entre mente e cérebro - , incluem a tese da identidade ( são dois aspectos da mesma coisa ) , o dualismo ( são duas coisas diferentes ) , o interacionismo ( são diferentes mas mutuamente causais ) , o paralelismo ( duas coisas diferentes que nunca se comunicam ) , epifenomenalismo ( uma é subproduto da outra ) . E a despeito do que seus adeptos afirmam , nenhuma dessas posições conseguiu levar a melhor , simplesmente porque todas elas , todas , estão cheias de imperfeições de algum tipo .
A razão pela qual todas elas são inadequadas , segundo uma filosofia mais integral , seria que o problema mente/corpo não pode ser resolvido satisfatoriamente com o olho da carne nem com o olho da mente , já que esses são exatamente os dois modos que precisam ser integrados , algo que nenhuma delas poderia fazer por si mesma .
Desse modo , a única resposta aceitável à questão de qual é a relação entre a mente e o corpo é explicar com cuidado as injunções contemplativas em si - as práticas ou paradigmas ou exemplares contemplativos - e convidar os questionadores a experimentar a prática , e ver por si mesmos . Se você quer conhecer isto , precisa fazer isso . Ainda que nem o empirista nem o racionalista considerem essa resposta satisfatória - eles gostariam de usar somente seus próprios paradigmas e exemplares - ainda assim essa é a única resposta e o único curso de ação tecnicamente aceitáveis .
Tanto o racionalista quanto o empirista nos pressionam : eles querem que apresentemos nossas conclusões contemplativas e deixemos que eles a examinem contra suas próprias injunções . Isto é , eles querem nossas palavras despidas e divorciadas de suas próprias injunções reais e específicas . Eles querem tentar seguir nossas palavras sem a dor de seguir nossos exemplares . Assim , devemos lembra-los de que ; palavras sem injunções não tem sentido . Palavras sem injunções não tem nenhum meio de verificação . Palavras sem injunções são a substância da demagogia , do dogma e das fraudes . Nossas palavras e nossas conclusões realmente podem ser cuidadosamente justificadas - verificadas ou rejeitadas - , mas apenas se as injunções forem empregadas .
Desse modo , então , quando os empiristas e os racionalistas exigem nossas conclusões sem as injunções , é fatal que recebam uma resposta sem sentido - e eles nos culpam por essa falta de sentido ! Nossos dados não podem ser engendrados pelos seus paradigmas e exemplares particulares , e eles então ficam quebrando a cabeça . Eles não farão isso , e portanto não saberão isso . Ficam girando na órbita de sua cegueira auto-imposta , e chamam essa cegueira de realidade .
Texto : Ken Wilber
( do livro : Olho do Espírito - pag. 84 , 85 , 86 )
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segunda-feira, 14 de junho de 2010

" AUSÊNCIA DO EGO "

Justamente porque o ego , a alma e o Eu ( Self ) podem estar presentes ao mesmo tempo , não será difícil entender o sentido verdadeiro de " ausência do ego " - expressão que tem causado imensa confusão . Ausência do ego não significa a ausência de um eu ( self ) funcional ( o que seria próprio de um psicótico e não de um sábio ) ; significa que não estamos mais exclusivamente identificados com aquele eu .
Um dos muitos motivos de não sabermos lidar com a noção de " ausência do ego " é que desejamos que nossos " sábios sem ego " satisfaçam às nossas fantasias relativas a " santidade " ou " espiritualidade " , o que , habitualmente , significa que essas pessoas estejam mortas do pescoço para baixo , livres das vontades ou desejos da carne , eternamente sorridentes .
Desejamos que esses santos não passem por todas as coisas que nos incomodam - dinheiro , comida , sexo , relacionamentos , desejos . " Sábios sem ego " estão " acima de tudo isso " - assim desejamos . Queremos cabeças que falem . Acreditamos que a religião bastará para livrá-los de todos os instintos básicos , de todas as formas de relacionamento , considerando a religião , não como orientação para viver a vida com entusiasmo , mas , sim , como guia para evitá-la , reprimi-la , negá-la , fugir dela .
Em outras palavras , o homem típico espera que o sábio espiritual seja " menos que uma pessoa " , de alguma forma liberto dos impulsos confusos , difusos , complexos , pulsantes , compulsivos , que guiam a maior parte dos seres humanos . Esperamos que nossos sábios sejam a ausência de tudo o que nos impulsiona . Queremos que não sejam sequer tocados por todas as coisas que nos atemorizam , que nos confundem , que nos atormentam , que nos atordoam . É a essa ausência , a essa falta , a esse " menos que uma pessoa " que , frequentemente , chamamos " sem ego " .
Entretanto , " sem ego " não significa " menos que uma pessoa " ; significa " mais que uma pessoa " . Não pessoa menos , mas pessoa mais - isto é , todas as qualidades normais da pessoa mais algumas transpessoais . Pensemos nos grandes iogues , santos e sábios - de Moisés a Cristo , a Padmasambhava . Não foram desfibrados maneirosos , mas dinâmicos e instigantes - desde o episódio dos vendilhões do Templo até a imposição de novos rumos a nações inteiras .
Lidaram com o mundo em seus próprios termos , não em termos de uma piedade melosa ; muitos deles provocaram revoluções sociais significativas , que se estenderam por milhares de anos . E assim fizeram , não porque tivessem evitado as dimensões físicas , emocionais e mentais da humanidade , e o ego , que é o veículo de todas elas , mas porque as assumiram com tal garra e intensidade que sacudiram as próprias fundações do mundo . Indiscutivelmente , estavam também intimamente ligados com a alma ( o psiquismo profundo ) e o espírito ( o Eu informe ) - fonte última de sua força - mas expressaram essa força e tiraram dela resultados concretos , exatamente porque assumiram , decididamente , as dimensões menores através das quais ela poderia expressar-se de modo a ser sentida por todas as pessoas .
Esses grandes mobilizadores e agentes de mudança não foram egos pequenos ; foram , na mais completa acepção do termo , grandes egos , justamente porque o ego ( veículo funcional do domínio da mente ) pode existir e de fato existe com a alma ( veículo do sutil ) e o Eu ( veículo do causal ) . Na mesma medida em que esses grandes mestres mobilizaram o domínio da mente , eles mobilizaram o próprio ego , porque o ego é o veículo dess reino . Entretanto , não se identificavam meramente com seu ego ( isso seria narcisismo ) ; simplesmente perceberam seu ego conectado a uma fonte Kósmica radiante . Os grandes iogues , santos e sábios conseguiram tanto , exatamente porque não foram tímidos bajuladores , mas grandes egos ligados ao seu Eu superior , animados pelo puro Atman ( o puro Eu - eu ) que é um com Brahman ; abriram a boca e o mundo estremeceu , caiu de joelhos e pôde ver face a face o Deus radioso .
Santa Teresa não foi uma grande contemplativa ? Sim , e Santa Teresa foi a única mulher que reformou uma tradição monástica inteira ( pensemos nisso ) . Gautama Buda sacudiu a Índia nos seus fundamentos . Rumi , Plotino , Bodhidharma , Lady Tsogyal , Lao Tsé , Platão , o Baal Shem Tov - estes homens e mulheres deram início a revoluções no mundo que duraram centenas , às vezes milhares de anos - coisa que nem Marx , nem Lenin , nem Locke , nem Jefferson , poderiam afirmar ter conseguido . E não agiram assim porque estivessem mortos do pescoço para baixo . Não , eles eram fantasticamente , divinamente grandes egos , ligados profundamente ao psíquico , que estava diretamente ligado a Deus .
Existe certa verdade na noção do transcender o ego : não significa destruir o ego , mas sim , conectá-lo a alguma coisa maior . Como afirma Nagarjuna , no mundo relativo , atman é real ; no absoluto nem atman nem anatman são reais . Assim , em nenhum caso annatta corresponde a uma descrição correta da realidade . O pequeno ego não se evapora ; permanece como o centro funcional da atividade no domínio convencional . Como eu disse , perder esse ego significa tornar-se um psicótico , não um sábio .
" Transcender o ego " , significa , pois , em verdade , transcender mas incluir o ego num envolvimento mais profundo e mais elevado , primeiro na alma ou psiquismo mais profundo , depois na Testemunha ou Eu superior e , então , após a absorção nos níveis precedentes , envolver-se , incluir-se e abraçar-se na radiância do Um Sabor . E isto não significa , portanto , " livrar-se " do pequeno ego , mas , ao contrário , habitar nele plenamente , vivê-lo com entusiasmo , usá-lo como veículo necessário , através do qual as grandes verdades podem ser transmitidas . Alma e espírito incluem o corpo , as emoções e a mente ; não os eliminam .
Grosseiramente , podemos dizer que o ego não é uma obstrução ao Espírito , mas uma radiosa manifestação do Espírito . Todas as Formas não são senão o Vazio , inclusive a forma do próprio ego . Não é necessário livrar-se do ego , mas , simplesmente , vivê-lo com certa intensidade . Quando a identificação transborda do ego no Kosmos em geral , o ego descobre que o Atman individual é , de fato , da mesma espécie de Brahman . O Eu superior não é , em verdade , um pequeno ego , e , assim , no caso de estarmos presos ao nosso pequeno ego , a morte e a transcendência são necessárias . Os narcisistas são , simplesmente , pessoas cujos egos não são ainda suficientemente grandes para abraçar o Kosmos inteiro e , para compensar , tentam tornar-se o próprio centro do Kosmos .
Não queremos que nossos sábios tenham grandes egos ; sequer desejamos que exibam qualquer característica evidente . Sempre que um sábio se mostra humano - a respeito de dinheiro , comida , sexo , relacionamentos - sentimo-nos chocados , porque estamos planejando fugir inteiramente da vida e o sábio que vive a vida nos ofende . Queremos estar fora , queremos ascender , queremos escapar , e o sábio que assume a vida com prazer , vive-a totalmente , pega cada onda da vida e surfa nela até o fim - nos pertuba e nos assusta intensamente , profundamente , porque significa que nós , também , deveríamos assumir a vida com prazer , em todos os níveis , e não simplesmente fugir dela numa nuvem etérea , luminosa .
Não queremos que nossos sábios tenham corpo , ego , impulsos , vitalidade , sexo , dinheiro , relacionamentos ou vida , porque essas são coisas que habitualmente nos torturam e queremos vê-las longe de nós . Não queremos surfar as ondas da vida , queremos que as ondas desapareçam . Queremos uma espiritualidade feita de fumaça .
O sábio completo , o sábio não-dual está aqui para mostrar-nos o contrário . Geralmente conhecidos como " tântricos " , estes sábios insistem em transcender a vida , vivendo-a . Insistem em procurar libertação no envolvimento , encontrando o nirvana no meio do samsara , encontrando a libertação total pela completa imersão . Passam com consciência pelos nove círculos do inferno , certos de que em nenhum outro lugar encontrarão os nove círculos do céu .
Nada lhes é estranho porque nada existe que não seja Um Sabor .
Na verdade , o segredo consiste em estar inteiramente à vontade no corpo e com seus desejos , com a mente e suas idéias , com o espírito e sua luz . Assumi-los interiramente , plenamente , simultaneamente , uma vez que todos são igualmente manifestações do Um e Único Sabor .
Vivenciar a paixão e vê-la funcionar ; penetrar nas idéias e acompanhar seu brilho ; ser absorvido pelo Espírito e despertar para a glória que o tempo esqueceu de nomear . Corpo , mente e espírito , totalmente contidos , igualmente contidos , na consciência eterna que é a essência de todo o espetáculo .
Na quietude da noite , a Deusa sussura . Na luminosidade do dia , Deus amado brada . A vida pulsa , a mente imagina , as emoções ondulam , os pensamentos vagam . O que são todas estas coisas senão movimentos sem fim do Um Sabor , eternamente jogando com suas próprias manifestações , sussurando mansamente a quem quiser ouvir : isto é você mesmo ?
Quando o trovão ruge , você não ouve o seu Eu ? Quando irrompe o raio , você não vê o seu Eu ? Quando as nuvens deslizam mansamente no céu , não é o seu próprio Ser ilimitado que está acenando para você ?
Texto : Ken Wilber
( do Livro One Taste de Ken Wilber )
Tradução : Ari Raynsford .

quarta-feira, 9 de junho de 2010

UMA ESPIRITUALIDADE QUE TRANSFORMA !!!

Hal Blacker , editor consultivo de What is Enlightenment ? ( O que é Iluminação ? ) , descreveu o tema desta edição especial da revista do seguinte modo ( embora repita afirmações feitas em outras partes desta edição , vale a pena apresentar a citação completa simplesmente pela sua eloquência , fraqueza e indiscutível bom senso ) :
Tencionamos explorar uma questão sensível , mas que precisa ser tratada : a superficialidade que permeia a maior parte do discurso e da exploração espirituais atualmente no Ocidente , e , em particular , nos Estados Unidos . Frequentemente , ao traduzir-se doutrinas do Oriente ( e de outros lugares ) para o idioma americano , sua profundidade é aplainada , sua exigência radical é diluída e seu potencial para transformação revolucionária é abrandado . Uma vez que as palavras dos ensinamentos são quase sempre as mesmas , isto se dá de maneira sutil . Através de uma aparente prestidigitação envolvendo , talvez , seu contexto e , consequentemente , seu significado , a mensagem das maiores doutrinas , muitas vezes , parece transmutar-se do crepitar do fogo da libertação para algo que mais se assemelha ao borbulhar calmante de um banho quente de banheira . Embora haja exceções , as implicações radicais dos grandes ensinamentos são , desse modo , frequentemente perdidas . Desejamos investigar esta diluição da espiritualidade no Ocidente e analisar suas causas e consequências .
Baseado nesta declaração , gostaria de ressaltar seus pontos básicos e comentá-los da melhor maneira que puder , porque , considerados em conjunto , eles realçam o verdadeiro âmago da crise americana de espiritualidade .

Interpretação versus Transformação

Numa série de livros ( e .g . , Um Deus Social , Up from Eden e The Eye of Spirit ) tento mostrar que a religião sempre cumpriu duas funções muito importantes , mas muito diferentes . Em primeiro lugar , ela age de modo a criar significado para o ego alienado : oferece mitos , histórias , contos , narrativas , rituais e revivescências que , em conjunto , ajudam o ego a entender e suportar as pedras e flechas do destino implacável . Normamente , esta função da religião não necessariamente altera o nível de conciência da pessoa ; não provoca transformação radical . Nem provoca , tampouco , uma libertação definitiva do ego alienado . Ao contrário , ela consola o ego , fortalece o ego , defende o ego , promove o ego . À medida que o ego alienado acredita nos mitos , executa os rituais , balbucia as orações ou aceita os dogmas , então crê fervorosamente que será " salvo " - ainda nesta vida , pela glória da salvação de Deus ou da proteção da Deusa , ou na vida após a morte , quando ser-lhe-à assegurada felicidade eterna .
Mas , em segundo lugar , a religião cumpre - usualmente para uma muito , mas muito pequena minoria - uma função de transformação radical e de libertação . Esta função da religião não fortalece o ego alienado ; ao contrário , despedaça-o completamente - não consolação mas devastação , não entrincheiramento mas esvaziamento , não complacência mas explosão , não conforto mas revolução - em síntese , não fortalecimento convencional da consciência mas transmutação e transformação radicais nas profundezas da própria consciência .
Há algumas diferentes maneiras para explicar essas duas importantes funções da religião . A primeira função - criação de significado para o ego - é um tipo de movimento horizontal ; a segunda função - transcendência do ego - é um tipo de movimento vertical ( para cima ou para o fundo , dependendo da sua metáfora ) . Denominei a primeira interpretação ; a segunda , transformação .
A interpretação simplesmente dá ao ego uma nova maneira para pensar ou sentir a realidade . O ego passa a ter uma nova crença - talvez holística ao invés de atomística , talvez perdão no lugar de acusação , talvez relacional ao invés de analítica . Assim , o ego aprende a interpretar seu mundo e seu ser em termos desta nova crença , ou nova linguagem , ou novo paradigma , e esta nova e encantadora interpretação age , pelo menos temporariamente , para aliviar ou diminuir o terror inerente ao coração do ego alienado .
Mas com a transformação , o próprio processo de interpretação é desafiado , interpelado , minado e , finalmente , desmantelado . Com a interpretação , é dado ao ego ( ou sujeito ) um novo modo de pensar sobre o mundo ( ou objetos ) ; mas com a transformação radical , o próprio ego passa a interrogar-se , a olhar para dentro de si , a estrangular-se e , literalmente , a sufocar-se até a morte .
Colocado de uma última maneira : com a interpretação horizontal - que é de longe a dominante , a mais difundida e largamente compartilhada função da religião - o ego , pelo menos temporariamente , sente-se feliz com seu entendimento , contente com sua escravidão , complacente em face do terror gritante que é , de fato , sua condição mais íntima . Com a interpretação o ego torna-se sonolento no mundo , tropeça entorpecido e com a visão curta no pesadelo do samsara , recebe um mapa amarrado com um laço de morfina para encarar o mundo . E esta é , na verdade , a condição normal da humanidade religiosa , precisamente a condição a ser desafiada e , finalmente , desfeita pelos ativistas da transformação espiritual .
Porque a transformação autêntica não é uma questão de crença , e sim de morte do crente ; não uma questão de interpretar o mundo , mas sim de transformá-lo ; não uma questão de encontrar alívio , mas sim de encontrar o infinito no outro lado da morte . Não é dada importância ao ego ; ele é cremado .
Agora , embora obviamente eu venha favorecendo a transformação e minimizando a interpretação , o fato é que ambas as funções são incrivelmente importantes e inteiramente indispensáveis . A maioria das pessoas não nasce iluminada . Elas nascem em um mundo de pecado e sofrimento , esperança e medo , desejo e desespero . Nascem como um ego ávido e pronto para contrair-se ; um ego prenhe de fome , sede , lágrimas e terror . E , bem cedo , aprendem várias maneiras de interpretar seu mundo , de fazer com que passe a ter sentido , de dar-lhe um significado e de defender-se do terror e da tortura que nunca estão suficientemente distantes da superfície feliz do ego alienado .
E , apesar de nós , você e eu , podemos estar desejando transcender a simples interpretação e encontrar a transformação autêntica , a interpretação , por si só , é uma função absolutamente necessária e crucial na maior parte de nossas vidas . Aqueles que não conseguem interpretar adequadamente , com uma boa dose de integridade e precisão , caem rapidamente em sérias neuroses ou mesmo psicoses : o mundo pára de fazer sentido - os limites entre o ego e o mundo não são transcendidos ; ao contrário , começam a esfarelar-se . Não é uma descoberta importante ( " breakthrough " ) e sim um colapso ( " breakdown " ) ; não é transcendência , mas desastre .
Mas em algum ponto do nosso processo de amadurecimento , a própria interpretação , não importa quão adequada ou confiável , simplesmente cessa de consolar . Nenhuma nova crença , nenhum novo paradigma , nenhum novo mito , nenhuma nova idéia estancarão a angústia que se instala em nós . Aí , o único caminho que resta não é uma nova crença para o ego , mas sim a transcendência do próprio ego .
Mesmo assim , o número de pessoas que estão prontas para este novo caminho foi , é e sempre será muitíssimo pequeno . Para a grande maioria , algum tipo de crença religiosa aparecerá na qualidade de consolação : será uma nova interpretação horizontal que apresentará algum sentido para este mundo monstruoso . E , na maior parte do tempo , a religião tem sempre cumprido esta primeira função e se saído bem .
Assim , também uso palavra legitimidade para descrever esta primeira função ( a interpretação horizontal e a criação de significado para o ego alienado ) . E muito da importante missão da religião é dar legitimidade ao ego - legitimidade para suas crenças , seus paradigmas , suas visões de mundo , e seu caminho no mundo . Esta função da religião de prover legitimidade para o ego e suas crenças - não importa quão temporária , relativa , não-transformadora ou ilusória - tem sido , todavia , a principal e mais importante função das tradições religiosas de todo o mundo . A capacidade de a religião prover significado horizontal , ligitimidade e sanção para o ego e suas crenças - esta função da religião , historicamente , tem sido a maior " cola social " de qualquer cultura .
E não se mexe facilmente , ou suavemente , na cola básica que mantém juntas as sociedades . Porque , na maioria das vezes , quando essa cola se dissolve , o resultado , como já dissemos , não é uma descoberta importante , mas um colapso , não libertação , mas caos social . ( Voltaremos a este ponto crucial mais adiante . )
Enquanto a religião interpretativa oferece legitimidade , a religião transformadora oferece autenticidade . Para aquelas poucas pessoas que estão prontas - isto é , fartas do sofrimento do ego alienado e que não mais aceitam a visão do mundo legítima - então uma abertura transformadora para a verdadeira autenticidade , para a verdadeira iluminação , para a verdadeira libertação torna-se cada vez mais premente . E , dependendo da sua capacidade para sofrer , você , mais cedo ou mais tarde , responderá à chamada para a autenticidade , para a transformação , para a libertação no horizonte perdido do infinito .
A espiritualidade transformadora não procura dar suporte ou legitimar nenhuma visão de mundo atual ; ao contrário , ela provê a verdadeira autencidade estilhaçando aquilo que o mundo considera legítimo . A consciência legítima é sancionada pelo consenso , adotada pela mentalidade de rebanho , aceita tanto pela cultura como pela contracultura , promovida pelo ego alienado como o caminho para que este mundo tenha sentido . Mas a consciência autêntica sacode tudo isso de suas costas e , em substituição , fixa o olhar numa visão que vê somente um infinito radiante no coração de todas as almas e inspira em seus pulmões a atmosfera de uma eternidade muito simples de acreditar .
Assim , a espiritualidade transformadora , a espiritualidade autêntica é revolucionária . Ela não legitima o mundo ; ela rompe com ele . Não consola o mundo , ela o estilhaça . E não dá importância ao ego ; ela o desfaz .
E esses levam a diversas conclusões .

Quem Realmente Quer Transformar-se ?

Há uma crença muito difundida de que o Oriente está imerso em espiritualidade autêntica e transformadora , enquanto o Ocidente - historicamente e mesmo na " new age " atual - não apresenta nada além do que uma espiritualidade horizontal , interpretativa , meramente legítima e , portanto , morna . Ainda que haja alguma verdade nisso , a situação real é muito sombria , tanto para o Oriente quanto para o Ocidente .
Primeiro , embora seja verdade que o Oriente venha produzindo um maior número de iluminados autênticos , mesmo assim , a percentagem real da população oriental que está engajada em autêntica espiritualidade transformadora é , e sempre foi , extremamente pequena . Uma vez perguntei a Katigiri Roshi , com quem consegui minha primeira experiência de iluminação ( espero não ter sido um colapso ) , quantos grandes mestres Ch'an ( China ) e Zen ( Japão ) verdadeiramente existiram . Sem hesitar , ele respondeu " Talvez mil no total " . Perguntei a outro mestre Zen quantos mestres Zens verdadeiramente iluminados - profundamente iluminados - estão vivos hoje , e ele respondeu " Não mais do que uma dúzia . " Vamos considerar para efeito de argumentação que essas sejam respostas não muito precisas . Vejamos os números . Mesmo que considerássemos que só existiu um bilhão de chineses ao longo da história ( uma estimativa extremamente baixa ) , isto significa que apenas mil em um bilhão atigiram a espiritualidade autêntica , transformadora . Para aqueles sem uma calculadora , isto significa 0,000001 da população total . E isto quer dizer , com certeza , que o resto da população estava ( e está ) envolvido , na melhor das hipóteses , em vários tipos de religião legítima , horizontal , interpretativa : envolvido em práticas mágicas , crenças míticas , egóicas orações petitórias , rituais mágicos etc . - em outras palavras , caminhos interpretativos para dar sentido ao ego alienado , uma função interpretativa que , como dissemos , é , até hoje , a maior cola social da cultura chinesa ( e de todas as outras ) .
Então , sem querer de modo algum minimizar as excepcionalmente belas contribuições das gloriosas tradições orientais , a conclusão é simples e direta : a espiritualidade transformadora radical é extremamente rara , em qualquer tempo da história , em qualquer lugar do mundo . ( Os números para o Ocidente são ainda mais deprimentes . Encerro meu caso . )
Assim , embora possamos lamentar o pequeno número de pessoas no Ocidente que estão envolvidas , hoje , num processo espiritual de transformação radical , não façamos uso do falso argumento que tenha sido dramaticamente diferente no passado ou em outras culturas . Ocasionalmente , pode ter sido um pouco melhor do que hoje no Ocidente , mas a realidade persiste : a espiritualidade autêntica é um pássaro incrivelmente raro em qualquer lugar , a qualquer tempo . Então , vamos partir do fato indiscutível que a espiritualidade autêntica , vertical , transformadora é uma das mais preciosas jóias de toda a tradição humana - exatamente porque , como todas as jóias preciosas , é incrívelmente rara .
Segundo , mesmo que você e eu acreditemos profundamente que a mais importante função que podemos exercer é oferecer espiritualidade transformadora autêntica , o fato é que o melhor que podemos fazer em nossa capacidade de trazer espiritualidade decente para o mundo é oferecer mais modos de interpretação úteis e benignos . Em outras palavras , mesmo que estejamos praticando , ou oferecendo , espiritualidade transformadora autêntica , de qualquer modo , muito do que devemos primeiramente fazer é prover para a maioria das pessoas um meio mais adequado para interpretar sua condição . Devemos começar com interpretações úteis antes que , efetivamente , possamos oferecer transformações autênticas .
A razão para isso é que se tirarmos do indivíduo ( ou da cultura ) muito rapidamente , muito abruptamente ou de maneira inepta a interpretação , o resultado , mais uma vez , não será conquista mas derrota , não libertação mas colapso . Deixe-me dar dois rápidos exemplos .
Quando Chogyam Trungpa Rinpoche , um importante ( embora polêmico ) mestre tibetano veio pela primeira vez a este país , ele ficou conhecido por sempre repetir , quando perguntado sobre o significado de Vajrayana , " Há somente Ati " . Em outras palavras , há somente a mente iluminada , não importa para onde você olhe . Ego , samsara , maya e ilusão - não temos que livrar de nenhum deles , porque , em realidade , não existem : há somente Ati , há somente Espírito , há somente Deus , há somente Consciência não-dual em qualquer parte da existência .
Virtualmente ninguém entendeu - ninguém estava pronto para essa compreensão radical e autêntica , embora verdadeira - e , assim , Trungpa finalmente introduziu toda uma série de práticas " menores " que levavam a esta radical e definitiva " não-prática " . Ele apresentou as Nove Yanas como a base da prática - isso é , apresentou nove estágios ou níveis de prática , culminando no último - " não-prática " - do eterno-agora Ati .
Muitas dessas práticas eram simplesmente interpretativas e algumas , poderíamos dizer , " menos transformadoras " : transformações em miniatura que tornam a mente-corpo mais suscetível a atingir a completa iluminação radical . Essas práticas interpretativas e menos transformadoras levavam à " prática perfeita " da não-prática - ou à compreensão radical , instantânea e autêntica que desde o início só existe Ati . Assim , embora a transformação última fosse o objetivo primordial e sempre presente , Trungpa teve de introduzir práticas interpretativas e menores a fim de preparar as pessoas para a obviedade do que é .
Exatamente o mesmo aconteceu com Adi Da , outro influente ( e igualmente polêmico ) mestre ( embora , desta vez , americano ) . Inicialmente , ele só ensinava " o caminho da compreensão " : não um modo de chegar à iluminação , mas um questionamento de por que você quer chegar à iluminação , em primeiro lugar . O próprio desejo de procurar a iluminação nada mais é do que a tendência ambiciosa do ego em si e , assim , a simples procura pela iluminação evita que ela aconteça .
Portanto , a " prática perfeita " não é procurar atingir a iluminação , mas sim questionar o motivo da procura . Você obviamente a procura para para evitar o presente e , no entanto , somente o presente possui a resposta : procurá-la para sempre é errar o alvo para sempre . Você já é , desde sempre , Espírito iluminado e , portanto , buscar o Espírito é simplesmente negar o Espírito . Você não pode alcançar o Espírito do mesmo modo que não pode ganhar seus pés ou adquirir seus pulmões .
Ninguém entendeu . Assim , Adi Da , exatamente como Trungpa , apresentou uma série completa de práticas interpretativas e menos transformadoras - de fato , sete estágios - levando ao ponto em que se podia abandonar a procura e abrir-se para a eterna-agora verdade da sua própria condição eterna e atemporal , que estava completa e totalmente presente desde o início , mas que era brutalmente ignorada devido ao enlouquecido desejo da busca .
Agora , qualquer que seja sua opinião sobre esses dois mestres , a realidade é a seguinte : eles realizaram talvez os dois primeiros grandes experimentos neste país de como apresentar a noção de " Há somente Ati " . - há somente Espírito - e , então , concluir que a busca do Espírito é exatamente o que não permite a sua realização . E ambos descobriram que , por mais que estejamos ligados a Ati , ligados à verdade transformadora radical deste momento , práticas interpretativas e práticas transformadoras menores são quase sempre pré-requisitos para esta última e derradeira transformação .
Meu segundo ponto , então , é que , além de oferecer transformação autêntica e radical , devemos ser sensíveis , e cuidadosos , a numerosos modos benéficos de práticas interpretativas e transformadoras menores . Portanto , esta postura mais generosa pede uma " abordagem integral " para a completa transformação , uma abordagem que aceite e incorpore muitas práticas interpretativas e menos transformadoras - cobrindo os aspectos físico , emocional , mental , cultural e comunitário do ser humano - como preparação e como expressão da suprema transformação no estado do eterno-agora .
E assim , no mesmo momento em que criticamos a religião meramente interpretativa ( e todos os estados menores de transformação ) , devemos entender que uma abordagem integral para a espiritualidade combina o melhor do horizontal e do vertical , interpretativo e transformador , legítimo e autêntico - e , então , concentrar nossos esforços numa visão global sã e equilibrada da condição humana .

Sabedoria e Compaixão

Mas esta minha visão não é terrivelmente elitista ? Santo Deus , espero que sim ! Quando vai a um jogo de basquete , você quer ver Michael Jordan ou eu ? Quando está interessado em música popular , quem pagaria para ouvir ? Eu o Bruce Springsteen ? Quando quer boa literatura , quem preferiria passar a noite lendo ? Eu ou Tolstoi ? Quando você paga sessenta e quatro milhões de dólares por um quadro , será uma pintura minha ou de Van Gogh ?
Toda excelância é elitista . E isto inclui também a excelência espiritual . Mas a excelência espiritual é um elitismo para o qual todos estão convidados . Vamos primeiro aos grandes mestres - Padmasambhava , santa Teresa de Àvila , Buda Gautama , Lady Tsogyal , Emerson , Eckhart , Maimônides , Shankara , Sri Ramana Maharshi , Bodhidarma , Garab Dorje . Sua mensagem é sempre a mesma : que esta consciência que está em mim esteja em você . Você sempre começa elitista ; você sempre termina igualitário .
Mas , em algum ponto do caminho , há a furiosa sabedoria que grita do fundo do coração : devemos , todos nós , prestar atenção ao radical e supremo objetivo transformador . Assim , qualquer tipo de espiritualidade autêntica ou integral também envolverá sempre um grito crítico , intenso e ocasionalmente polêmico do campo transformador para o campo meramente interpretativo.
Se usarmos as percentagens do Ch'an chinês como exemplo genérico , isso significa que se 0,000001 da população está realmente envolvida em espiritualidade autêntica ou genuína então , 0,999999 da população está envolvida em sistemas de crenças horizontais não-transformadores , inautênticos , meramente interpretativos . E isto significa , sim , que a grande maioria dos " buscadores espirituais " deste país ( como de qualquer outro ) está envolvida em algo muito menor que acontecimentos autênticos . Sempre foi assim e ainda o é hoje . Este país não é exceção .
Mas na América atual isto é muito mais preocupante , porque a grande maioria dos adeptos da espiritualidade horizontal frequentemente afirma estar representando a vanguarda da transformação espiritual , o " novo paradigma " que transformará o mundo , a " grande transformação " da qual são os líderes . E , na maioria das vezes , eles absolutamente não são profundos transformadores ; são meros , mas agressivos , interpretativos - não oferecem meios efetivos para desmontar completamente o ego , mas simples caminhos para que o ego pense de maneira diferente . Não modos de transformação , mas simplesmente novos modos de interpretação . Em realidade , o que a maioria oferece não é uma prática ou uma série de práticas ; não é sadhana , ou satsang , ou shikan-taza , ou ioga . O que a maioria oferece é simplesmente a sugestão : leia meu livro sobre o novo paradigma . Isto é profudamente pertubador e profudamente preocupante .
Os buscadores espirituais autênticos dedicam-se de corpo e alma às grandes tradições transformadoras ; mesmo assim , deverão sempre fazer duas coisas ao mesmo tempo : analisar e engajar-se em práticas interpretativas e menores ( das quais , normamente , depende seu sucesso ) , mas também dar um tonitruante grito do coração de que somente a interpretação não é sufiente .
Assim , todos aqueles que tiveram suas almas sacudidas pela transformação autêntica , acredito , devem lutar com a profunda obrigação moral e gritar do fundo do coração - talvez mansa e gentilmente , com lágrimas de relutância ; talvez com agressiva paixão e furiosa sabedoria ; talvez com lenta e cuidadosa análise ; talvez com inquebrantável exemplo público - pois a autenticidade sempre , e absolutamente , carrega uma exigência e um dever : você deve falar claramente , com o melhor do seu talento , sacudir a árvore espiritual e jogar seus faróis nos olhos dos complacentes .
Você deve deixar o entendimento radical vibrar em suas veias e sacudir os que estão a sua volta .
Ah ! Se você não age , está traindo sua própria autenticidade . Está escondendo seu verdadeiro tesouro . Você não quer aborrecer os outros porque não quer aborrecer-se . Você está agindo de má-fé , o sabor de um infinito ruim .
Porque , entenda , o fato alarmante é que qualquer entendimento profundo carrega uma terrível responsabilidade : aqueles a quem é permitido ver , simultaneamente estão encilhados no dever de comunicar a visão em termos bem claros ; esta é a troca . Foi-lhe permitido ver a verdade com a condição que você a comunicaria a outros ( este é o sentido último do voto do bodhisattva ) . E , portanto , se você viu , deve falar . Fale com compaixão , fale com furiosa sabedoria , ou fale habilmente , mas fale .
E esta é , verdadeiramente , uma carga terrível , uma carga horrível , porque em nenhuma situação há lugar para timidez . O fato de que você possa estar errado não é desculpa ; você pode estar certo em sua comunicação , ou pode estar errado , mas isto não importa . O que importa , como nos lembrou secamente Kierkegaard , é que somente investindo e relatando sua visão com paixão , a verdade pode penetrar , de uma maneira ou de outra , na relutância do mundo . Se você está certo ou errado , somente sua paixão forçará a descoberta . É seu dever promover esta descoberta e , portanto , é seu dever disseminar sua verdade com toda paixão e coragem que puder encontrar em seu coração .
Você deve gritar como puder .
O mundo comum já está gritando , e com tal ira roufenha que as verdadeiras vozes mal podem ser ouvidas . O mundo materialista já está cheio de publicidade e fascinação , gritos de atração e brados de comércio , acenos de saudação e convites para achegar-se . Não quero ser duro aqui pois devemos honrar nossos engajamentos menores . Entretanto você deve ter notado que a palavra " alma " é agora o item mais quente nos títulos de livros à venda , mas na maioria desses livros " alma " realmente significa ego arrastado . " Alma " vem denotando , neste frenesi alimentador de entendimento interpretativo , não o antemporal em você mas sim aquilo que se agita mais intensamente ao longo do tempo , e , assim , " cuidado com a alma " significa , incompreensivelmente , focar-se intensamente em seu ardende ego alienado . Do mesmo modo , " espiritual " está na boca de todo mundo , mas normalmente o que realmente significa é qualquer intenso sentimento egóico , assim como " coração " passou a significar qualquer sentimento sincero do ego .
Em verdade , tudo isso é simplesmente o mesmo antigo jogo interpretativo , de roupa nova , indo à cidade . E , mesmo assim , poderia ser aceitável se não fosse pelo fato alarmante de que esta manobra interpretativa é agressivamente denominada " transformação " , quando , obviamente , nada mais é que uma nova série de ariscas interpretações . Em outras palavras , infelizmente parece estar ocorrendo uma profunda hipocrisia oculta no jogo que considera qualquer nova interpretação como sendo uma grande transformação . E o mundo em geral , Leste ou Oeste , Norte ou Sul , está , como sempre esteve , na maioria das vezes , completamente surdo a esta calamidade .
Assim , em função da medida de sua realização autêntica , você está realmente pensando em sussurrar gentilmente no ouvido deste mundo quase surdo ? Não , meu amigo , você tem que gritar .
Gritar do fundo do coração o que você viu , gritar o mais que puder .
Mas não indiscriminalmente . Prossigamos cuidadosamente com o grito transformador . Que pequenos grupos de espiritualidade transformadora radical foquem seus esforços e transformem seus estudantes . E que esses grupos lentamente , cuidadosamente , responsavelmente , humildemente comecem a irradiar sua influência , adotando uma tolerância absoluta com todas as visões , mas tentando , todavia , defender uma espiritualidade verdadeira , autêntica e integral - pelo exemplo , por irradiação , por divulgação óbvia , por libertação inequívoca . Que esses grupos de transformação gentilmente convençam o mundo e seus relutantes egos , desafiem sua legitimidade , desafiem suas interpretações limitadoras e ofereçam um despertar que se contraponha ao entorpecimento que assombra o mundo em geral .
Comecemos aqui e agora - você e eu - o nosso compromisso de respirar ao infinito até que apenas o infinito seja o único estado que o mundo reconhecerá . Deixemos que a realização radical brilhe em nossas faces , ruja em nossos corações e troveje em nossos cérebros - o simples fato , o fato óbvio : você , no imediatismo da sua consciência presente , é na realidade , o mundo inteiro , em toda sua paixão e sua indiferença , em toda sua glória e sua graça , em todas suas vitórias e suas lágrimas .
Você não vê o sol , você é o sol ; você não ouve a chuva , você é a chuva ; você não sente a terra , você é a terra . E nesta simples , clara , inequívoca consideração , a interpretação cessará em todos os domínios , você transformar-se-á no próprio Coração do Kosmos e aí , exatamente aí , muito simplesmente , muito tranquilamente , tudo será desfeito . Então , maravilha e remorso serão estranhos a você , você e os outros ser-lhe-ão estranhos , fora e dentro não terão o menor sentido . E num óbvio choque de reconhecimento - onde meu Mestre é meu EU , o EU é o Kosmos e o Kosmos é minha Alma - você andará muito suavemente na bruma deste mundo e o transformará inteiramente não fazendo absolutamente nada .
E então , e então , e somente então , você - finalmente , claramente , cuidadosamente e com compaixão - escreverá na lápide de um ego que nunca existiu : Há somente Ati .
Texto : Ken Wilber
( Tradução Ari Raynsford )
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quinta-feira, 6 de maio de 2010

" O IDEAL DA DEVOÇÃO " Parte I

Devoção é um intenso amor por Deus . Amor , em sua imensidade impessoal é devoção . Devoção é amor por Deus , somente por Deus . Não existe devoção pelo lar , família , amigos , riqueza , nome ou fama ; nem pelo mundo inteiro com todos os seus encantamentos e prazeres ; nem pela própria existência ; mas só amor por Deus . Que tudo do mundo seja negado ; que a alegria e a felicidade sejam proscristas ; que a morte seja um visitante frequente ; a doença , uma compania constante e a pobreza resida no lar ; ainda assim , o amor por Deus permanecerá absoluto . Isto é devoção .
O devoto da Bhakti Yoga não deseja nada , a não ser Deus . Ele anela por Deus , Trabalha por Deus , vive para Deus e morre no amor de Deus . Deus é a sua inspiração , orientação e a razão de ser de sua vida . Toda a sua existência está em Deus . No sucesso , ele glorifica Deus ; no fracasso é atraído para perto de Deus ; nos momentos de alegria , dedica sua felicidade em adoração e orações ao SENHOR ; nas horas de sofrimento , eleva sua visão de homem a Deus , alcançando a consciência de compaixão e força divina , considera-se co-participante da carga de sofrimento com outro filho de Deus . Ele não se dobra sob a pressão do sofrimento angustiante , permanecendo imóvel , aceitando-o e conquistando-o com a ralização de que cada sofrimento é apenas um fragmento de alegria .
Em todas as condições de sofrimento , sua atitude em relação à vida é de que Deus o enviou a Terra para aliviar o sofrimento dos outros , repartindo-o com ele , e para ensinar ao homem , com seu exemplo , a aproximar-se de Deus nos dias de agonia . Prazer e dor são de igual importância .
Não que sejam iguais , mas ele as faz de igual valor . Utiliza ambos para realizar Deus . As dualidades nunca podem ser idênticas em sua natureza ou em seus efeitos , mas há uma unidade na diversidade . Devemos realizar esta unidade que tudo penetra , e deste modo usar o relativo para realizar o absoluto . Usar a criação para tornarmo-nos uno com o Criador .
Um devoto permanece pronto para receber o sofrimento de todo mundo , para que possa levar alegria para todos .
Ele desenvolve infinita força em seu amor pelo Todo Poderoso , e eterna felicidade em seu amor pelo Todo Bem-aventurado . Ele enche o coração jubiloso com a felicidade de sua Alma e inspira fé , força , esperança e paz na tristeza . " Regojiza-se com aqueles que têm felicidade e chora com aqueles que choram . " Compartilhando do sofrimento dos outros , não é afetado por este , inspirando sabedoria , fé , coragem , compreensão e alegria ao sofredor . Um devoto dedica sua vida à felicidade e proteção de todos . Ele é um Buddha , oferecendo sua própria cabeça à faca assassina para salvar a vida do gamo recém-nascido . É um Cristo , sempre a amar um lebroso com todo seu coração . Ele é um verdadeiro amante . Ama a Deus incondicionalmente . Ama a Deus com todo seu corpo , mente e Alma e a Criação de Deus como uma parte de sua própria Alma .
No nosso amor por Deus não somos omissos com a Criação de Deus . Devemos amar todos os objetos do Universo . Todos os seres , homem e animal , devem compartilhar igualmente de nosso amor . Uma folha de grama sem vida deve despertar dentro de nós o mesmo amor , alegria e elevação do que o deslumbrante sol ou o imponete cume da montanha . Devemos amar o Universo do princípio ao fim , e não há nenhum fim . Amar a tudo como manifestação de Deus , pois tudo é manifestação de Deus .
O amor universal é o ideal . Não alcançamos este objetivo começando por amar cada objeto separadamente . Será impossível , tanto do ponto de vista qualitativo quanto quantitativo . Os seres individuais são tão diferentes uns dos outros , em seu pessoal modo de procedimento , que não podemos examinar estas divergência na tentativa de amá-los .
Muito frequentemente , o modo de proceder de um individuo está tão longe de uma justificável expectativa , que não podemos dela nos aproximar com um coração amoroso . Surge a consciência de diversidade invocando o pensamento de comparação e não há lugar para o amor no coração que atende o chamado da comparação . Por esta razão reporto-me ao conceito de amor absoluto .
É óbvio que existe uma pluralidade de objetos . Ela é tão variada , que não podemos imaginar em conhecer cada objeto para amar a todos . Suponha que desejamos amar todos os homens , e comecemos amando cada um separadamente . Você acha que poderemos amar cinco bilhões de pessoas que habitam as várias regiões do planeta , separadas por terras , águas e montanhas ?
Há ainda outra dificuldade . Em nosso esforço para amar cada homem separadamente , nossa mente estará concentrada no aspecto externo de cada um que escolhêssemos para amar . E quando o amor olha o exterior do amado , pode transformar-se em ódio . Nenhum homem é física , mental e espiritualmente perfeito . Há sempre algum defeito em cada homem . O amor que busca o exterior começa antes de tudo a focalizar-se nas características físicas , peculiaridades mentais e na ausência da perfeição espiritual do amado , terminando por transformar o amor em um sentimento repulsivo .
Não podemos nos esquecer que somos seres humanos . Estamos ainda muito limitados em nosso desenvolvimento espiritual para não vermos imperfeição nos outros .
A humanidade é apenas uma parte do Universo manifestado . Ainda temos os animais , as plantas , árvores , flores , frutas e muitos outros objetos criados de variedade ilimitada . Alguns nos fazem reagir agradavelmente , outros não .
Deste modo , em nosso amor universal , desejamos amar a todos igualmente ; a uma cobra venenosa e a um objeto petrificado deve ser dado um lugar ao lado de um salvador e de uma bela flor , em nosso amor por tudo . Disto não somos capazes no nosso atual estágio de realização espiritual . Amor universal é raramente conseguido amando cada objeto do Universo separadamente . Há outra maneira .
Embora existindo diferenças externas entre vários objetos da natureza , ainda existe uma fundamental união em todos eles . Desde o mais baixo estado de manifestação ao mais alto estado de realização , no Universo criado , todos estão ligados por esta realidade . Para desenvolver o amor universal , devemos começar amando esta união fundamental , realidade eterna , presente em tudo . Deus é a realidade que une toda a criação . Para amar toda a criação precisamos amar Deus . Deus está presente em tudo . O Espírito infinito penetra cada objeto deste Universo . Este Espírito eterno temos que amar sempre . Devemos amar Deus independentemente de condições objetivas . Deus está em tudo mas não é limitado por coisa alguma . Ele é livre , eterno , infinito , puro , bem-aventurado . Primeiro ame a Deus , e depois realize-O em tudo . Reconheça sua imortalidade , pureza , amor , felicidade e divindade permeando tudo e ame esta divindade em tudo .
Primeiro , não veja todas as imperfeições que um individuo possa ter , e aprenda a amar Deus nele . Quando estiver seguro deste amor , a divindade em tudo , as diferenças externas não abalarão seu amor por eles . Todas as diferenças são externas . Todas as imperfeições estão na superfície das objetos da natureza , mas todos os objetos em sua essência natural e perfeição são uno . O amor une e aperfeiçoa tudo . Assim você chegará ao amor universal . O amor revela a realidade universal .
Podemos perguntar : Como podemos amar a Deus independente e separadamente de sua Criação ? Parece ser quase impossível . Julgamos sermos incapazes de separar nossa consciência de Deus de suas manifestações objetivas .
Na realidade não é impossível , entretanto pode ser difícil na primeira tentativa .
Se formos um pouco introspectivos , realizaremos que nosso amor por Deus , uma realidade independente , eterna , bem-aventurada e onipresente , é inteiramente subjetiva . É intuitivo. Está dentro de nós . Não necessitamos de nenhum fenômeno objetivo para termos consciência deste amor . Só realizamos este amor puro com a mente tranquila , impossível com a mente agitada pelo turbilhão dos pensamentos . A mente é agitada porque está sempre projetada para fora , e estabeleceu , em todos , o hábito de " pensar para fora " . Fomos acostumados a perceber nossa qualidades subjetivas reflitidas no mundo objetivo . Este modo de pensar se tornou tão poderoso em nossa vida , que não o aceitamos como sendo uma fraqueza de nossa mente . Dependência é fraqueza . É escravidão . Liberdade é nossa verdadeira natureza .
Como podemos provar que o amor é puramente uma qualidade subjetiva , que não necessita de nenhum objeto exterior para revelar-se , e que é independente de todas as condições objetivas ? Duas são as provas . A primeira é subjetiva : aquele que alcança a tranquilidade mental por seu próprio esforço de meditação e autocontrole realiza que o amor é sua natureza . À sua vontade ele projeta seu amor em qualquer objeto e pode realizar este amor em sua transcendental perfeição . Neste estado ele realiza que ele , em si mesmo , é o amor .
A segunda prova é objetiva : Nós sabemos como transferir nosso amor de um objeto para outro . O que amamos hoje , podemos não amar amanhã . Isto prova que o amor não está limitado nem identificado com qualquer objeto . O amor possui a habilidade de livrar-se de qualquer objeto à sua escolha . Independe de qualquer objeto .
Você pode argumentar que quando o amor livra-se de um objeto transferindo-se para outro não prova sua independência de todos os objetos . Sempre se identifica com um objeto quando se livra de outro . Livrar-se de um objeto não significa que é possível livrar-se de todos . Isto é verdade .
Estou plenamente de acordo . Mas , também sei que o amor é absoluto , conquanto seja extremamente difícil provar , objetivamente , a natureza transcendental do amor . Este particular estado do amor só é realizado subjetivamente . Estamos tão identificados com os objetos do amor , que não conseguimos realizar o amor absoluto que está presente dentro de nós .
Apesar disto , mencionarei um estado de realização no amor que dará um vislumbre da verdade sobre a natureza transcendental do amor . Acredito que todos nós , alguma vez , alcançamos um estado de tanta felicidade no amor que esquecemos do objeto do nosso amor . Nosso amor se completa tanto , que livra-se de todas as condições objetivas ; e neste amor total ou transcendental estamos absorvidos na felicidade . Esta felicidade que nos absorve totalmente é o resultado do estado de amor no qual readquirimos a liberdade absoluta de todas as limitações objetivas . Na felicidade plena do amor realizamos a natureza transcendental do amor . O amor é a união auto-revelante .
" Busque o reino de Deus e a sua pureza e todas as coisas lhe serão acrescentadas " , como nos disse Jesus . Devemos , primeiro despertar o desejo de amar e realizar nossa união com Deus e então amar e realizar Deus em tudo . A intricada pergunta que vem a nossa cabeça é : O que quis Jesus dizer com a frase : " E todas as coisas lhe serão acrescentadas " . Que receberíamos toda a sorte de bens materiais se amássemos a Deus ? Certamente que não . O contexto desta expressão de Jesus revelará a qualquer astuto estudante de espiritualidade seu verdadeiro significado . O que realmente Jesus disse foi : Se você aprendeu a amar e realizar sua união com Deus , então , e somente então , realizará a presença de Deus em tudo e sua união com todo o Universo . Sentirá a mão protetora de Deus em sua vida diária como o caçador pressente a presença da caça . Realizará amor , felicidade e beleza em seu interior e igualmente numa folha de grama . O amor é revelador .
Revela a perfeição . Torna a vida completa .
O amor não é uma barganha . Amar a Deus por interesse material é um erro . Alguns rezam a Deus por bens materiais . Nada é mais degradante em nossa vida espiritual do que isto . Devemos amar a Deus unicamente por desejar realizar Deus . Amamos Deus para que possamos desenvolver e manifestar sua divindade . Em nossas orações a Deus devemos buscar sabedoria , bem-aventurança e universalidade . O ideal do amor é a realização de perfeição espiritual . Amar é tornar-se um com o amado na vida e realização . Quando o pensamento de posses materiais se instala na nossa mente , o amor por Deus voa para longe . O verdadeiro amor por Deus destrói todas as outras considerações . Quando o amor por Deus desperta dentro de nós , todos os outros desejos perdem sua força . Neste amor nos esquecemos de nós ; ficamos completamente absorvidos em Deus .
Um verdadeiro amante de Deus não busca nada para ele . Não é um pedinte . Um pedinte não pode ser um devoto . Um amante só pode dar . Não pede nada em recompensa .
Um devoto se dá completamente a Deus , e nesta resignação se sente feliz . Quando o pensamento de perda ou ganho nasce , o amor morre . Encontramos prova deste fato em nosso dia a dia neste mundo . Se o amor está baseado em riqueza e posses , então não é amor ; é exploração ; é fraude ; é iniquidade . Amor é devoção . Devoção é amor puro . Um devoto nem mesmo busca a salvação em Deus . Ele deixa que Deus o faça . Deus concederá a salvação quando desejar . O devoto vive contente no seu amor pelo SENHOR . É feliz no amor de Deus . É paciente . O tempo não mede sua vida e progresso , pois ele está sempre com Deus no amor .
Devoção é um poder purificador . O amor remove todas as impurezas . Para um devoto cada coisa é santa porque aprendeu a perceber santidade em tudo . Ele vê Deus em todos os lugares . Sim , " o chão onde você pisa é santo " , igualmente , o chão onde o lixo é jogado é um lugar santo .
Um devoto sempre pensa sobre si mesmo como sagrado e puro , porque sabe que Deus está em seu interior . Ele sente , vê e vive em santidade . Se uma igreja , um templo , uma mesquita ou qualquer casa de oração é considerada santa porque um símbolo de Deus está colocado em seu interior , muito mais santificado deve ser um homem no qual reside o Deus vivo !
( do livro : O PODER MAGNÉTICO DO AMOR )
Texto : Swami Premananda
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" O IDEAL DA DEVOÇÃO " Parte II

Se nos consideramos pecadores , falhamos em amar Deus . Deus está sempre dentro de nós . Como podemos ser eternamente pecadores ? Se o templo não está cônscio da presença do SENHOR , faz com que o templo seja profano ?
Se a tempestade derrubou a porta do templo , devo recusar-me a orar ao SENHOR , que espera minha chegada para adorá-lo ? Então por que devo chamar um homem de pecador quando ele não está consciente da presença da divindade no seu interior ? Por que , tolamente , devo negar-me a alegria de rezar ao SENHOR no homem que falhou em proteger seu corpo-templo da devastação pelos desejos sensoriais ? A divindade está em tudo . Um devoto realiza a divindade universal . Nega Deus , aquele que pensa de si mesmo como sendo mau e pecador . Pronuncie o nome de Deus uma vez e desperte para sua divindade , realizando que você é sagrado . Se você pronunciou o nome de Deus uma vez , você se torna sagrado . O poder espiritual do nome de Deus é tremendo . Mas não se esqueça : " Não tome o nome do SENHOR , teu Deus , em vão " . Estes pensamentos não têm significado para um devoto da Bhakti Yoga . Como alguém pode usar o nome de Deus em vão ? Cada vez que pronunciamos o nome de Deus nos tornamos mais sagrados , mais divinos . Fique com o nome de Deus noite e dia , e sentirá sua divindade dentro de você .
Em seu amor , desperte para o mais elevados princípios de vida . No lugar de pensar sobre coisas mundanas , todo o tempo , pense em Deus frequentemente . Em vez de conversar sobre fatos engraçados do dia a dia , converse sobre Deus . Quando falar dos seus vizinhos , reconheça o que há de bom neles e fale bem deles . Pense em DEUS , o EU , o ideal de vida , o significado do nascimento e da morte , a essência da existência humana . Procure descobrir sua origem e qual o seu fim , ou melhor , de onde vem e para onde vai . Se estas coisas não interessa saber , não somos melhores do que o mais baixo animal . Se vivemos nossos dias pensando em comida , vestuário e como obtê-los , nosso desenvolvimento não é muito superior ao dos animais . Estas criaturas passam a vida inteira lutando para manter seus corpos vivos . O homem é mais do que um corpo . Ele é a Alma . É o espírito eterno . Uma divindade absoluta . Ele precisa realizar sua divindade meditando na divindade absoluta . Deve pensar e conversar com Deus . Não pode haver devoção suficiente , amor bastante e espiritualidade completa . São eternas . O amor é eterno .
Medo e amor são incompatíveis . Não podemos amar a Deus , temendo-O . Se você sente medo de Deus , não pode amá-lo . Não há lugar para o medo no amor . Onde surge o medo , o amor desaparece . O medo a Deus nasce da ignorância . O medo a Deus vem da ignorância , de sua perfeição e da inata divindade do homem . Aqueles que temem Deus não sabem o que Deus verdadeiramente é . Quando pensamos que Deus é um ser antropomórfico , tendo em sua mão o açoite para punir , olhando os seres por ELE criados com olhar de vingança , então temos medo . Este é o " background " psicológico daqueles que temem Deus . Pode-se negar isto , mas a simples negativa não é uma prova . O fato é que é verdade . Às vezes somos solicitados a ter medo de Deus para obter sua graça . Também somos solicitados a temer Deus para que possamos ser espirituais . Qualquer doutrina que crie dentro de nós a consciência do medo , para nos tornarmos religiosos é a mais cruel forma de religião . É a mais degenerada de todas as formas de oração ; adorar a Deus com medo e ansiedade . Deus não deve ser temido , mas sim amado . Deus não busca nenhuma vingança , mas inspira , orienta e ajuda . Ele não pune ninguém . Ele protege e dá paz . Sofremos por causa de nossa ignorância . Com amor , chegamos mais perto de Deus . Com medo , DELE nos afastamos . Não podemos ser espirituais por temor a Deus , mas amando-O .
Deus não deseja que tenhamos medo DELE . ELE deseja nosso amor , nossa devoção . Por que deveríamos temê-lo ? ELE é bondoso , carinhoso , compreensivo e ama toda sua Criação . ELE é a beleza . Se temos medo de Deus , a quem deveremos amar ? O amor destrói o medo . No amor , encontramos felicidade , força , segurança e nele nos completamos com a paz . O medo é resultante da consciência de separação .
Quando nos sentimos separados de Deus , ficamos com medo . Na realização de que ELE está conosco , e nós estamos com ELE , tornamo-nos tão corajosos quanto ELE é poderoso . O amor não é inpirado pelo medo , mas somente pelo amor . Quanto mais amamos a Deus , maior é o nosso desejo de amá-lo . Esta é a lei do amor . Os devotos realizam esta verdade : quanto mais amamos a Deus , mais abundante torna-se seu amor . Deus dá seu amor infinito ao seu devoto . No amor sem limites , ficamos mais perto de Deus .
Nossa crença é o reflexo de nosso desenvolvimento .
Refletimos aquilo que possuímos . Se acreditamos num Deus vingativo , significa que nosso coração está cheio de desejo de vingança . Nossa concepção a respeito da natureza de Deus e a nossa crença NELE é o critério do nosso desenvolvimento espiritual . Tanto quanto imaginamos Deus como sendo um super-homem , nossa visão ainda está limitada ao plano humano . Se está desejoso de descobrir o desenvolvimento espiritual de uma pessoa , pergunte qual o seu conceito de Deus . Deus é perfeição absoluta . ELE é Consciência-Existência-Bem-aventurança Absoluta .
Cada homem nasce um devoto , do mesmo modo que cada homem nasce divino . Que outra qualidade , a não ser amor , demonstramos desde o começo de nossa vida na Terra ? À que respondemos mais alegremente do que ao amor ?
Cada Alma está saturada com amor . Nosso ideal é manifestar este amor em sua universalidade e perfeição . Por que desperdiçamos amor com a aparência externa ? Neste desperdício somos punidos com a tristeza . Desperdiçar amor é dar origem ao sofrimento . Ame todos os objetos do mundo realizando a presença , a inteligência , a beleza e a vida de Deus em todos eles . Ame Deus em tudo e tudo em Deus .
O amor é uma qualidade espontânea do homem . Nunca nos é imposto . Nós o desenvolvemos de dentro para fora .
Livros não dão origem ao amor . As escrituras não fazem de ninguém um devoto . Pode ler todas as histórias de amor do mundo , e mesmo assim permanecerá duro como uma rocha e seco como uma folha morta , se não encontrar amor dentro de você . Conheço pessoas que são ávidas leitoras de histórias de amor e mesmo assim são insensíveis e cruéis . Podemos ler todas as palavras de amor , bondade e compaixão nas escrituras , e podemos ouvir estas qualidades exaltadas em sermões e conferências , mas todas essas leituras e pregações não terão nenhum efeito para que sejamos amorosos e bondosos , se não tocarmos a fonte do amor dentro de nós .
Em cada homem existe uma eterna fonte de amor .
Não me interprete mal . Não estou querendo dizer que não deve ler boas histórias de amor , poemas e escrituras .
Deve fazê-lo . O que quero enfatizar é que estas leituras não vão originar amor dentro de você . Elas nos ajudam a despertar o amor que está dentro de nós , se fizermos o uso certo destas leituras , caso contrário , nos fará apenas emocionais .
Emoção é um excitamento psicofísico . Amor é a realização feliz da união na Alma .
Para que possamos desabrochar o amor dentro de nós são necessárias duas coisas : primeiro , devemos ter absoluta confiança em Deus , inquestionável fé no seu amor , misericórdia , justiça , eternidade e compreensão . Segundo , precisamos viver conscientemente estas qualidades realizando-as e manifestando-as .
O devoto não questiona sobre Deus . Ele crê em Deus e silenciosamente vive com ELE . Um devoto é muito tranquilo , despretencioso e humilde . Recebe o amor de Deus em seu coração , aperfeiçoa-se interiormente e oferece seu amor para todos como uma graça divina de felicidade . Um devoto ama todas as deidades e os deuses de todos os povos .
Ele vê Deus em tudo . Não sente ódio por coisa alguma .
Em todas as religiões , ele entende o esforço do homem em amar e orar a Deus . Ele respeita , compreende e aprecia todas as religiões . Todas as pessoas são seus devotos companheiros . Ele ama deuses , religiões e os homens , todos em um único Deus . Só um devoto pode ser verdadeiramente tolerante . Tolerância não é a aquiescência superficial e apressado reconhecimento . Tolerância é amor , respeito e glorificação . Eu tenho tolerância pelo cristianismo : Eu o amo , respeito e prego a sua glória . Se você tem tolerância , amará a religião vedanta dos Hindus , a respeitará e corajosamente afirmará suas sublimes verdades .
Amar o seu Deus e odiar o de outra pessoa é amor canino ; é animalesco , cego e degradante . Um cão pode amar seu dono excluindo qualquer outra pessoa , o que é correto do ponto de vista do cão . Portanto , quando um homem ama seu Deus e não tem amor e respeito pelo Deus de outra pessoa , ele não alcançou um estado de desenvolvimento muito mais alto do que um cão . Saiba que o Deus de um adorador de pedra é tão divino e santificado , como o meu Deus impessoal , sublime , onisciente , onipresente , bem-aventurado . Não devemos subestimar o valor da divindade colocada na pedra por seu adorador . É preciso ver a divindade em tudo . Isto não quer dizer que limitarei minha visão e realização de Deus dentro de uma pedra ou de uma árvore , mas também devo amar Deus nelas , se estou desperto para o amor de um Deus universal . Ódio é ignorância , é perversidade . Dá origem a um enorme isolamento da divindade universal . Um devoto não é contra qualquer religião . Ele ajuda as outras pessoas a amar e adorar através de suas religiões , o mesmo Deus universal que ele realiza e adora .
Proclame o Deus universal perante a humanidade , e não o Deus que você criou em suas crenças dogmáticas . Em sua crença limitada e sectária , o homem molda um Deus que atende seu ideal individual . Se um búfalo tivesse uma filosofia e quisesse fazer um deus , seu deus seria um enorme búfalo apenas . Deus não está limitado dentro de qualquer homem ou de qualquer imagem feita por ele . Deus é universal . ELE está no homem , nas imagens , e em tudo mais , ainda que transcenda tudo . Este é o Deus que eu e você amamos . Somos devotos de um Deus universal . Bem-aventurança absoluta vem com tal devoção . Nela não há medo da morte , doença ou pobreza . Devoção nos dá paz , traz a realização de nossa inerente imortalidade e nos inspira a união universal .
Um devoto ama todos os salvadores . Não tem interesse com os aspectos físicos de suas vidas . Ele não tem tempo , nem preocupação com estas superficialidades . Ama os salvadores , acata seus ensinamentos e procura com entusiasmo viver como eles viveram . Um verdadeiro devoto cristão não está interessado no lugar e as circunstâncias do nascimento de Jesus , mas sim em seu desejo de realizar as verdades ensinadas pelo Santo da Galiléia . Não se interessa em saber se Jesus nasceu em Belém ou na Índia , se Ele era filho de José ou de um nascimento supernatural . Deixa estes assuntos para os historiadores decidirem e os teólogos discutirem . Ele ama Jesus , acredita em seus ensinamentos , compreende a perfeição de sua realização e empenha-se em seguir o exemplo do Nazareno , o grande devoto de Deus . Um devoto aplica em sua vida as verdades sublimes reveladas por todos os homens de realização espiritual .
Um dia , um certo mestre mandou dois serventes ao seu pomar de pêssegos e autorizou que comessem o fruto que fosse mais apetitoso . Obedecendo à ordem , ambos embrenharam-se no pomar . Um deles , imediatamente , iniciou vigoroso trabalho para descobrir o número de fileiras e árvores , a qualidade das frutas e mais um sem-número de detalhes . Ora expressava com grande emoção sua imensa alegria ao ver uma fruta perfeita , e no momento seguinte caía em profunda tristeza e pesar quando encontrava um espécime seco . Assim , gastou todo o seu tempo examinando o pomar e falando consigo mesmo sobre os aspectos externos de tudo que via . O outro servente foi , sem perda de tempo , encontrar uma árvore com bons frutos , e saboreou um belo pêssego com grande alegria e agradecimento . Ele não tinha tempo para falar nem para indagar sobre as condições exteriores das árvores , das frutas e do pomar . Quando regressaram do pomar , o segundo estava satisfeito , feliz e agradecido , enquanto que o primeiro estava com fome , zangado e reclamando .
Um devoto é como o segundo servente . Não está interessado em questões como " quem criou o mundo " ? Como e quando foi criado ? De que elementos originais são feitos todos os objetos da criação ? Deus existe ? Ele crê em Deus .
Aceita a verdade que Deus é o criador de tudo . Deus é causa eficiente como também a causa material de todos os seres . Todos são essencialmente divinos . Tudo tem sua origem em Deus , existe em Deus e retornará a Deus . Estas verdades ele não questiona . Acredita nelas . Intuitivamente realiza a profundidade destas verdades . Ele vive com Deus .
Ele sempre vê , sente e desfruta Deus em todos os lugares .
E assim é feliz .
Não é melhor amar e viver com Deus do que questionar sobre ELE ? Um devoto sabe a verdade disto . É a devoção um sentimentalismo barato , privado da razão ? Oh , não !
De maneira nenhuma ! Sentimentalismo é emoção . É uma reação sensorial . Sentimentalismo e emoção pertecem à natureza física do homem . Devoção é uma qualidade da Alma .
Está baseada na razão pura , perfeito entendimento e consciência vigilante . Realizemos a verdade sobre a devoção . Devoção está alicerçada na realização absoluta em tudo e o reconhecimento de que tudo é manifestação desta divindade . Tudo é parte de um grande todo .
Esta filosofia é irracional ou facciosa ? Nada pode ser mais racional do que ela . Procuremos entender o " back-ground " filosófico da devoção . O Universo inteiro , com todos os seus detalhes , está ligado com uma eterna , infinita , consciente e bem-aventurada realidade , Deus . Considere dentro de você a racionalidade desta verdade . Argumentos pedantes não têm força frente à devoção . Sentimentalismo tolo e vaidosas bobagens falham em realizar a racionalidade do amor . Devoção é impossível sem razão . Amor sem racionalidade é atração sensual . A devoção transcende a consciência sensorial .
A devoção é praticável ? Tudo depende do padrão pelo qual você julga seu valor de utilidade . Se , iludir os outros com manobras inteligentes e acumular riqueza , é o que se deve praticar , então , a devoção como um princípio a ser aceito e aplicado nas ações da vida , é totalmente impraticável . Se dar a si mesmo todos os prazeres e luxúrias da vida e ser indiferente às necessidades e ao direito de felicidade dos outros é o padrão e ideal de uma vida com sucesso , então , devoção é uma ilusão . Não obstante , a devoção inspira o homem a ajudar sua própria vida em harmonioso relacionamento com todos os seres e com a Divindade Suprema . Se a explicação intelectual é considerada o caminho prático de apresentar as verdades metafísicas e transcendentais , então , a devoção não tem utilidade . Aprender sem devoção é mera aquisição de palavras . Uma biblioteca guarda livros dentro de suas quatro paredes , mas não tem devoção . Do mesmo modo , podemos encher nosso cérebro com idéias e expôlas em eloquentes frases , mas , a menos que estejam temperadas com o amor , são como o som de um gongo rachado , incomoda e irrita .
Se tenho alguma coisa de valor intelectual a oferecer e se o faço sem amor , eu o estou enganando . Eu o desaponto .
Traio a sua confiança . Amor não é uma análise e síntese intelectual . Amor é realização . Amor é a realização da união espiritual . Como é possível ensinar sem a realização da união espiritual com o estudante ? Como ousa falar com seu semelhante sem realizar que ele é parte do seu próprio ser , o seu EU ? Com que direito você toca uma pequena flor , se não realiza Deus nela ? Tire suas mãos impuras desta divina manifestação de Deus !
O que liga a mãe ao seu filho e o filho a sua mãe ? O que une o homem com seu semelhante , o amigo com outro amigo ? O que mantém a sociedade unida ? É o amor . Destrua o amor em seu lar e ele se tornará o vale da morte . A mesma verdade se aplica à nossa vida social , nacional e internacional . O amor une o Universo . O amor une o homem com Deus . Cada objeto é uma pérola ; o amor é o fio que as une . A Criação é um colar que adorna a beleza de Deus .
O amor , a razão e o trabalho precisam estar sempre juntos para fazer a vida do homem abençoada e feliz . Um sem os outros dois faz a vida incompleta . Vou dar um exemplo que explica claramente esta idéia . Um pássaro precisa duas asas e uma cauda para voar e com isto consegue viver .
Sem este equilíbrio perfeito , cairia no chão e lá permaneceria até morrer . Do mesmo modo , precisamos da devoção para balancear nossa razão e atividade . O amor dá o equilíbrio que suavemente orienta nossa vida em direção à perfeição espiritual .
Sem a razão nos tornaremos cegos seguidores . A não ser que nossa razão seja testada em sua aplicação prática , seremos fanáticos . Razão sem amor é crueldade . Trabalho sem amor e razão é caótico . O amor se pudesse existir sem se manifestar seria egoísmo extremado . O amor desaparece com o egoísmo . Amor é altruísmo . O amor tem que se manifestar . Amor sem razão é emoção . A emoção é destrutiva e degradante . O amor eleva . Para a vida ter valor , o homem precisa pensar , trabalhar e amar . O verdadeiro amor não está separado da razão e da ação ou aplicação . O amor puro está protegido pela razão e universalizado pela ação .
O devoto não sabe nada , apenas conhece Deus . Sua única posse é o amor . Em seu amor , ele se entrega a Deus , o Eu Absoluto ; Deus que penetra tudo e que inclui tudo , é o ideal de devoção .
QUE O SENHOR DO AMOR ORIENTE AS ALMAS ENLEVADAS NA DEVOÇÃO ...
Texto : ( do livro : O PODER MAGNÉTICO DO AMOR )
Swami Premananda
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sábado, 27 de março de 2010

" Era pelo ano 2000... "

Andava a humanidade inteira numa atividade febril , com grandiosos preparativos para celebrar condignamente o ocaso do segundo e a alvorada do terceiro milênio da era cristã .
Eis senão quando , de improviso , corre por todos os recantos do globo terráqueo a inaudita notícia do próximo reaparecimento do Cristo sobre a face da terra ! Ninguém compreendia bem o processo como essa mensagem do além fora captada pelos laboratórios eletrônicos do fim do século XX ; somente um pugilo de cérebros privilegiados estava a par do enigma e afirmava com certeza categórica que o Cristo voltaria ao mundo , visivelmente , no início do terceiro milênio , a fim de verificar o que os homens que se diziam discípulos dele haviam feito do seu divino Evangelho .
Mal fora essa alarmante notícia divulgada pela imprensa , pelo rádio e pela televisão , quando os chefes civis e religiosos do ocidente cristão se reuniram em assembleia extraordinária , na Capital Planetária , para deliberar o que convinha fazer em face de tão inesperado acontecimento . Todos concordaram em que a situação era sumamente crítica , espécie de terremoto , que poderia vir a abalar os alicerceres de instituições milenares .
Após prolongados debates , decretou-se por unanimidade de votos que , pelo bem da paz e da ordem mundiais , fosse impedida a invasão do Cristo em nosso mundo civilizado , sobretudo no ocidente cristão , onde o perigo se apresentava mais agudo e funesto . No caso , porém , que fosse de todo impossível frustrar essa entrada do Cristo em nosso mundo - pois ninguém ignorava as forças estranhas de que ele dispunha - seria nomeado um corpo de polícia e de detetives especiais para vigiar rigorosamente todos os passos do perigoso intruso , a fim de evitar que pusesse em perigo , com suas ideias revolucionárias , as respeitáveis instituições civis e religiosas da civilização ocidental .
Mas , a despeito de todas as medidas de precaução - eis que , na madrugada do dia 1 de Janeiro do ano da redenção 3000 , aparece , em plena praça pública da Capital Planetária , um personagem estranho que sem tardança , foi preso pela polícia especializada e levado às barras do Supremo Tribunal Mundial para o competente interrogatório .
Exigiram do incógnito invasor a exibição da competente carteira de identidade ou passaporte , mas ele não possuía documento nenhum que não fosse ele mesmo . Interrogado pelo Presidente do Supremo Tribunal se ele era Jesus , o Cristo , fundador do cristianismo , respondeu o recém-chegado :
- Sim , sou Jesus , o Cristo , mas não sou fundador do cristianismo a que aludes .
Perguntaram-lhe se ele era o líder espiritual dos cristãos , ao que o prisioneiro replicou , com a mesma calma e precisão :
- Eu sou o Cristo , mas não sou cristão .
- Que vens fazer aqui na terra ?
- Vim reafirmar o que afirmei no primeiro século .
A essa resposta , um frémito de horror e indignação perpassou as linhas dos delegados dos Estados e das Igrejas cristãs , que integravam a Assembleia Planetária .
- Mas não sabes , porventura - exclamou um dos ministros religiosos - , que não estamos mais no primeiro século ? Não compreendes que as tuas ideias de então foram , há muito tempo , superadas e modificadas pela civilização cristã de vinte séculos , e que nenhum cidadão esclarecido da Era Atómica reconhece a praticabilidade das máximas do teu Evangelho ?
- Passarão os céus e a terra - respondeu calmamente o interpelado - , mas não passarão as minhas palavras . Veio ao mundo a luz verdadeira , mas os homens amaram mais as trevas que a luz , porque as suas obras eram más ...
Ouviram-se no seio da preclara assembleia frêmitos de indignação , seguidos por um longo silêncio embaraçado . Finalmente , um Promotor Público ornado de venerada cabeleira e barba branca adiantou-se e , em tom amigável , disse ao Nazareno :
- Sugiro um acordo . Proclamarás novamente o teu Evangelho , naturalmente sob o controle da nossa Comissão , mas não repetirás nada daquilo que disseste no chamado Sermão da Montanha .
Compreenderás que esse documento é por demais incompatível com os elevados padrões da nossa cultura e civilização ocidental .
Se bem me recordo , exigiste dos teus discípulos , entre outras coisas estranhas e revoltantes , que amassem os seus inimigos e fizessem bem a seus malfeitores ; chegaste ao ponto de dizer que , se alguém nos ferisse numa face , lhe apresentássemos também a outra ; e que o homem , em vez de reclamar pelas vias legais uma túnica roubada , cedesse ao ladrão também a capa . ( Risada sutis na assembleia . ) Ora , Jesus , todos nós sabemos que tu és um homem inteligente e bem capaz de compreender que semelhante filosofia é por demais fantástica , para não dizer positivamente deletéria , não podendo ser divulgada em pleno século da eletrônica e da física nuclear .
O orador abriu uma pausa , a fim de dar ensejo ao acusado para se defender e definir sua atitude . Ele , porém , permaneceu calado .
Ao que o Promotor deu sinal a um dos secretários da Assembleia , o qual deixou a sala e , dentro em breve , voltou carregando nas duas mãos , cautelosamente , um objeto alongado , de cor escura , que colocou sobre a mesa . O orador apontou para o estranho engenho e perguntou a Jesus :
- Sabes o que é isto ?
E , como o interpelado continuasse calado , o orador prosseguiu :
- Logo pensei que não o sabias , porque no primeiro século não existia ainda essa maravilha da nossa ciência e técnica . Pois saiba que isto é uma bomba atómica de hidrogénio . Não chega a pesar 10 quilos , mas , se este aparelho for levado por um dos nossos aviões teleguiados e solto sobre qualquer cidade do globo , não escapará um único ser vivo , nem ficará de pé um só edifício - será tudo arrasado e totalmente desintegrado na fração de segundos . A nossa ciência bélica de hoje é benigna : está em condições de matar milhares e milhões de seres humanos em menos de um segundo , poupando-lhes todo e qualquer sofrimento , porque não sobra tempo para alguém sentir esse aniquilamento instantâneo . Tu mandaste amar os inimigos para acabar com eles - nós porém , descobrimos um meio muito mais seguro e eficiente para acabar de vez com milhares e milhões de inimigos nossos . É um processo rápido e infalível , ao passo que o teu preconizado processo de acabar com os inimigos amando-os é incerto e moroso , além de expor os teus discípulos ao perigo de serem mortos por aqueles a quem não quiseram matar .
O orador tomou um gole d'água , ou coisa equivalente , enquanto a assembleia apoiava vivamente as ideias expostas .

***

Nisto pediu a palavra um dos maiores teólogos cristãos da época , cuja rigorosa ortodoxia era notória no mundo inteiro . Disse :
- Para que não penses , Jesus , que essas ideias sejam coisas de profanos , vou citar a opinião de um dos grandes santos da nossa igreja , Tomás de Aquino ; deves tê-lo encontrado no céu , onde ele está desde o século XIII , conforme declaração oficial do magistério infalível da nossa igreja .
O orador tirou das prateleiras de uma biblioteca próxima dois alentados volumes , abriu-os em determinada página e colocou-os sobre a mesa da assembleia , dizendo :
- Conheces a Summa Theologiae e a Summa contra Gentiles do nosso incomparável Doctor Angelicus ? Sei que não costumavas ler nem escrever livros como nós ; por isto vou explicar resumidamente o que o maior teólogo de nossa igreja escreveu , em latim , a respeito da proibição de matar . Em geral , diz ele , é claro que não se deve matar ninguém . Mas , há casos em que matar não só deixa de ser pecado , mas até se torna dever de consciência cristã . O nosso grande e santo teólogo especifica quatro casos em que não é pecado matar outro homem , ou melhor , outros homens , porque o número não modifica a espécie : 1) em caso de legítima defesa , 2) em caso de guerra justa , 3) pode a autoridade civil condenar à morte os grandes criminosos , 4) pode o magistério eclesiástico permitir que sejam punidos com a morte os hereges impenitentes .
Que dizes em face disto ? Negarás que Tomás de Aquino tinha razão , tanto mais que sua doutrina foi repetidas vezes aprovada e recomendada por nossa igreja infalível ? Sei que no teu Sermão da Montanha rejeitas categoricamente a liceidade do homicídio , em todos os casos alegados ; nem mesmo permitiste a Simão Pedro , nosso representante de então , que matasse ou ferisse um dos teus injustos agressores , no Horto das Oliveiras . Mas , em que iam parar as coisas se nós adotássemos a tua doutrina de " não vos oponhais ao malévolo " ? Preferimos à filosofia absurda do teu Evangelho a política sensata de teu discípulo Pedro .
Não venhas , pois , proclamar novamente princípios incompatíveis com milhares de grandiosas instituições que , em teu nome , erigimos sobre a face da terra , nesses dois milénios de cristianismo ... Não exijas de nós que regressemos à obscuridade do primeiro século ; aceita antes as luzes do século vinte , que hoje transmitimos aos nossos herdeiros do terceiro milénio .

***

O silêncio com que o Nazareno ouviu tudo isto dava à assembleia a impressão de que ele estivesse reconsiderando a sua atitude , disposto a mudar de ideia . Por isso , levantou-se , finalmente , a maior autoridade em Ciências Econônicas e Sociais da época e , aproximando-se do prisioneiro , disse-lhe em voz cariciosa e quase suplicante :
- Escuta um conselho de amigo sincero , Jesus de Nazaré . No tempo em que tu apareceste na terra reinava violento conflito de classes e de raças . Havia muitos escravos e poucos senhores , mas estes poucos oprimiam aqueles muitos . Os escravos não tinham direito nenhum , mas tinham todas as obrigações ; os senhores não tinham obrigação nenhuma , mas tinham todos os direitos , até o de matar os escravos por simples capricho . Tudo isto acabou em nossa sociedade democrática . Proclamamos a igualdade dos direitos humanos . A humanidade de hoje é constituída de duas classes apenas , mas ambas com os mesmos direitos : os exploradores e os explorados . Não te escandalizes com estas palavras , que uns chamam feias . É indispensável que haja classes , do contrário , não seria possível o princípio da divisão do trabalho . O principal é que ambas tenham os mesmos direitos essenciais e eternos . Temos o cuidado de frisar essa igualdade de direitos , prometendo a ambas o reino dos céus . É esta uma das maiores conquistas da nossa ideologia social cristã .
Aos exploradores prometemos-lhes o reino dos céus , com a condição de que façam reverter parte do produto das suas atividades para fins de beneficência ou religião ; e eles concordam connosco , entregando-nos regularmente boa percentagem da renda das suas manobras com a outra classe . São nossos amigos e benfeitores .
Aos explorados , porém , dizemos : Aguentai por mais alguns anos os vossos sofrimentos e a exploração dos poderosos ! Sofrer é destino geral da humanidade ... O sofrimento é a chave do céu ...
" Bem-aventurados os que sofrem injustiças , porque deles é o reino dos céus ! " Quanto mais alguém sofre mais amigo é de Jesus , o rei dos sofredores ... Tereis como herança uma felicidade eterna , daqui a pouco ...
Destarde , conseguimos narcotizar a consciência dos revoltados , e eles se acomodam à situação , e até nos agradecem a consolação que lhes damos .
Se não houvesse miséria social não poderíamos exercer a caridade cristã , necessária para a salvação ; por isso criamos a miséria , a fim de podermos exercer a caridade .
Como vês , Jesus , conseguimos equilibrar jeitosamente as duas classes de que se compõe a sociedade cristã do Ocidente : os exploradores e os explorados . Não venhas agora destruir com o teu Evangelho o que nós construímos com a nossa teologia . Revolução não resolve nada - o que vale é paciência e pacifismo .
Quieta non movere ! - Não mexer no que está quieto ! Este provérbio antigo serve de norma às nossas atividades . Deixa , pois tudo como está para ver como fica ...

***

Já parecia estar esgotado o assunto , quando se levantou um homem venerando coberto de imaculada veste talar de seda branca , e com tríplice coroa na cabeça , e , com voz e gestos lentos e compassados , disse :
- Amigos e colegas . Peço vénia para finalizar a questão central da nossa assembleia . Falastes da necessidade de modificarmos o Evangelho do Nazareno em diversos pontos para o adaptarmos às exigências vitais da nossa época , e escusado é dizer que concordo plenamente com vossos critérios . Parece , todavia , que vos esquecestes de que nós , eu e minha igreja , já realizamos em grande parte essas modificações , graças à perspicácia e sagacidade dos nossos eminentes teólogos , desde a Idade Média até nossos dias .
Entretanto , não focalizamos ainda devidamente , na presente assembleia , o ponto central do qual depende todo o resto . Ninguém ignora que vivemos na época do capitalismo triunfante . Nada se faz sem dinheiro . Não são os governos que decretam ou fazem cessar as guerras a que vos referistes - são os magnatas das finanças , são os grandes capitalistas . Sem eles , não haverá guerras ; quando eles quiserem , a guerra cessará . São eles que fabricam as armas , são eles que alimentam os combates .
Ora , o Nazareno não compreende sequer o á-bê-cê do capitalismo .
Se o deixarmos entrar em nosso mundo moderno , vai proclamar de novo , como já fez ver , os princípios obsoletos do primeiro século .
Vai , por exemplo , repetir o que disse naquele tempo : " Dai de graça o que de graça recebestes ! " " Não leveis nem ouro nem prata em vossos cintos ! " " Não podeis servir a dois senhores : a Deus e ao dinheiro ! "
Durante os três primeiros séculos que se seguiram à morte do Nazareno , os discípulos dele tentaram realizar essa infeliz filosofia espiritual - e todos sabem que acabou em desastre e fracasso total .
A igreja cristã , em vez de dominar o mundo , vivia perseguida e teve de refugiar-se debaixo da terra , nas catacumbas , sem o direito de respirar o ar livre de fora nem ver a luz do sol . Será isto que se chama o triunfo do reino de Deus ?
Felizmente , em princípios do quarto século apareceu o grande libertador , o imperador Constantino Magno , fundador e patrono da nossa igreja . Tirou dos subterrâneos de Roma a igreja mendiga e anónima e fez dela a maior potência política e financeira dos séculos . Colocou os seus chefes nos pináculo da administração pública , deu-lhes prestígio social e político , poder financeiro e militar - e a igreja compreendeu que era muito melhor dominar do que sofrer , melhor perseguir seus inimigos com as armas na mão do que ser por eles perseguida e trucidada . Foi com isto que começou o triunfo do reino de Deus sobre a face da terra . Desde o tempo de Constantino Magno , através de Carlos Magno ( século VIII ) até Gregório Magno ( século XIII ) , os meus predecessores foram de triunfo em triunfo , até se tornarem senhores únicos do mundo religioso e civil da Europa . Depois desse tempo , em virtude de ideias heréticas que surgiram , perdemos o nosso poder militar e parte do prestígio político ; já não podemos organizar Cruzadas e guerras religiosas contra os infiéis ; até nos foi proibido lançar às fogueiras do Santo Ofício os hereges impenitentes . Entretanto , por vias travessas , reconquistamos o poder mundial , dominando as consciências humanas com ameaças de eterna condenação , e , graças a esse domínio moral das almas , conseguimos dominar também os corpos e reconquistamos vasto prestígio nos setores da política e das finanças internacionais . Basta dizer que os meus embaixadores estão em todos os países do globo e gozam de extraordinárias regalias . Em tempos antigos , os teus discípulos , ó Nazareno , procuravam ser " simples como as pombas " , como dizias na tua linguagem poética ; nós preferimos cumprir a outra metade do teu ditado , sendo " sagazes como as serpentes " .
Ora , nada do que fizemos teria sido possível sem o prestígio político e o poder do dinheiro . Disseste , Jesus , que ninguém pode servir a dois senhores , a Deus e ao dinheiro - nós desmentimos a tua filosofia unilateral e provamos pelos fatos que é possível conciliar esses dois senhores , e que esse congraçamento das coisas de Deus e das coisas de César promove muito mais a causa sagrada do cristianismo do que a tua ingénua filosofia irrealista . Basta dizer que o nosso clero , por meio das funções sacramentais e da liturgia eclesiástica em geral , colhe diariamente , no mundo inteiro , cerca de 500 milhões de dólares , para fins religiosos e caritativos - e outros que não interessa especificar . Para o recente Congresso Eucarístico Internacional celebrado numa das capitais da América do Sul arrancamos aos cofres públicos e ao bolso dos nossos fiéis mais de um bilhão de cruzeiros , dos quais gastamos uns 40 milhões na organização do Congresso , e ganhamos o lucro líquido do resto .
Imagina , Jesus , quanto nos rendem sem cessar aquelas tuas benditas palavras : " Isto é o meu corpo , isto é o meu sangue ! " . E que desastre seria para nossas finanças se o povo deixasse de crer piamente na tua presença real sob as aparências de pão e de vinho ! Que seria do nosso clero se não fizesse o povo crer no milagre diário da transubstanciação , do qual nós possuímos o monopólio exclusivo ! ...
Felizmente , os nossos teólogos têm meios e modos para impedir semelhante desastre ...
Por isso , Jesus , não venhas agora arruinar os nossos negócios com a proclamação dos princípios que figuram no teu Evangelho .
Teu distinto discípulo , Iscariotes , adivinhava obscuramente o que nós , hoje em dia , sabemos com meridiana clareza ; por isto quando , na sua clarividência , viu fracassar o teu idealismo imprático , ele homem prático , quis salvar ao menos o que ainda se podia salvar .
Aquelas trinta moedas de prata que ele ganhou com a sua perspicácia político-financeira podem ser consideradas como a primeira contribuição para esse gigantesco acervo de valores económicos que a igreja cristã possui em nossos dias , valores sem os quais o triunfo do reino de Deus entre os homens não passaria de um sonho vão .
As massas ignaras , é verdade , continuam a considerar o cristianismo como um ideal puramente religioso - e convém seja mantida essa ignorância das massas - foi com este fim que instituímos o Imprimatur dos livros , as penalidades e excomunhões eclesiásticas .
As massas amorfas não estão em condições de acompanhar a marcha da evolução das coisas . A igreja somos nós , os chefes hierárquicos , a igreja docente - as massas são apenas a igreja discente , um como que apêndice inerte e passivo .
É , pois , conselho de amigo bem intencionado , Jesus , que não voltes a proclamar os teus velhos princípios antieconômicos . Do contrário , nós , os chefes responsáveis da igreja cristã , nos veríamos obrigados a fazer o que os nossos colegas , os hierarcas da igreja de Israel , fizeram naquele tempo , quando te arvoraste em revolucionário e demolidor de instituições eclesiásticas seculares , pagando com a vida a tua rebeldia . Sê prudente , Jesus ! Não entres em nosso mundo , onde não há lugar para ti ! Deixa-nos promover sem ti , ó Cristo , os interesses do nosso cristianismo ! O nosso povo cristão - salvo raras exceções - já está devidamente imunizado contra os assaltos do teu espírito . Quem foi vacinado com o soro da nossa teologia eclesiástica deixa de ser alérgico ao teu espírito , ó Cristo . Verás que nós realizaremos o nosso cristianismo muito melhor sem ti , ou contra ti , do que contigo "...

***

Houve um longo silêncio . Estadistas e teólogos se entreolhavam , na ansiosa expectativa de que o Nazareno dissesse alguma palavra .
Ele , porém , não falou . Limitou-se a circunvagar o olhar pelos presentes , com infinita piedade e suave benevolência . Depois dirigiu-se à porta da sala , acompanhado pelos guardas armados . Na praça pública , desapareceu misteriosamente como uma luz que se apaga , sem deixar vestígios da sua passagem . No mesmo instante , todas as estações emissoras da Capital Planetária lançaram ao espaço a notícia do fato , alertando a polícia do mundo inteiro para que prendesse o estranho invasor , onde quer que se tornasse visível .
Mas não consta que alguém o tenha capturado , porque ele não se tornou visível .

***

Durante o resto desse dia e durante toda essa primeira semana do primeiro mês do terceiro milênio , continuaram os festejos programados , com inaudito esplendor . Durante as noites , uma gigantesca usina atômica fornecia luz e força abundantíssimas , iluminando os espaços com círculos concêntricos de luz multicor , cujos fulgores atingiam um raio de dezenas de quilômetros . Propriamente , não houve noite alguma nessa semana toda ; a Capital Planetária estava permanentemente iluminada com fulgores de claridade meridiana .
Dentro de poucos dias , o estranho incidente com o aparecimento do Cristo parecia um sonho incerto e vago , que não tardou a ser abafado pelas ruidosas solenidades da alvorada do terceiro milênio da era cristã .
Falou-se muito em " redenção " . Os oradores programados rivalizavam em exaltar as grandezas da " redenção cristã " e a incomparável pessoa do " Redentor " . Mas ninguém sabia , propriamente , o que queria dizer com essa palavra " redenção " . De que fomos remidos ?
Do pecado ? Mas o pecado continuava mais abundante e mostruoso que nunca . Em face desse mistério , acharam os oradores preferível não descer a tamanhas profundidades , preferindo manter-se à superfície dos interesses imediatos de cada dia e acompanhar a rotina cômoda da velha tradição .
E assim se fez .
Texto : Huberto Rohden
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