terça-feira, 3 de novembro de 2009

" Como Viver em Plenitude ? "

O livro NORMOSE - A PATOLOGIA DA NORMALIDADE de Pierre Weil - Yves Leloup e Roberto Crema , foi escrito à partir de um retiro ocorrido na UNIPAZ-DF . Ele nos faz refletir o que vem a ser NORMOSE ! Vou repassar um trecho abaixo em que Pierre Weil , faz uma síntese do que ele , Roberto Crema e Jean Yves haviam falado até aquele momento . Boa Leitura !
" O que fazer para passar à plenitude ? A resposta é só uma : despertar ! Aquilo que Gurdjieff e todos os grandes mestres da consciência indicaram : despertar ! E essa arte está ao alcance , em nossas mãos ...
... Roberto Crema fez um grande esforço para nos mostrar e definir o que é um ser humano realmente saudável , que está além da normose . Esse é o grande desafio que temos diante de nós . Ele assumiu uma posição absolutamente adequada com relação a esse tema : o ser humano está em formação ...
... Assim , a tarefa que me cabe , agora , é fazer uma espécie de síntese , simplificando um pouco tudo o que foi dito até agora ...
... O que fazer com os outros e pelos outros ? A primeira resposta é : começar por nós mesmos . Como podemos orientar os outros se nós mesmos não passamos nem pelas primeiras fases pelas quais passam as pessoas para percorrer o candelabro de aliança , tão bem descrito na obra de Gitta Mallasz ? Para isso , temos de firmar uma posição , esclarecer o que é o ser humano normótico e o que é o ser humano saudável . Qual é a diferença ?
... Penso que , de certa forma , Jean-Yves e Roberto abriram um horizonte básico sobre esse tema fundamental . Quem vive a plenitude de modo permanente é santo . Passar da normose à plenitude é passar da doença à sanidade e da sanidade à santidade ... O santo está em nós , potencialmente . É preciso despertá-lo . Não se forma um santo . Trata-se de um despertar para a santidade . A questão é como despertar ? Diante dessa questão , há dois tipos de pessoas : o normótico , que está totalmente inconsciente dessa possibilidade ; e o ser humano saudável , que despertou e encontra-se a caminho , conscientemente , da atualização desse potencial de plenitude ...
... Portanto , a nossa função é despertar e formar mutantes . O mutante é aquela pessoa que , esteja onde estiver , transforma os próprios valores , trabalha a si mesma para uma única finalidade : lograr a plenitude , ou seja , o pleno alcance de todo o seu potencial , da sua liberdade e da consciência total . Como se faz isso ? Pois é exatamente o que , há mais dezesseis anos , estamos fazendo nesta UNIPAZ , que se irradiou por este Brasil afora e para o exterior .
Para nós , está muito claro que existem , pelo menos , três vertentes . O processo de passagem do estagnante ao mutante , do normótico ao ser pleno , é uma via tríplice : a educação , a terapia e a meditação/contemplação ...
... Historicamente , quem introduziu a primeira vertente educativa na UNIPAZ foi Lídya Rebouças , que deveria estar aqui para ser homenageada . Logo no ínicio de nossas atividades , Lídya fundou a CASA DO SOL , cuja característica essencial é a educação pelo amor . Ela trouxe o amor a esta casa . Trouxe as crianças e os professores que estavam acomodados quase que em uma catacumba , no subterrâneo do Teatro Nacional de Brasília . Eu a tirei de lá e a trouxe para cá , a pedido do governador , José Aparecido de Oliveira , que tinha vislumbres e sabia que o lugar da CASA DO SOL era aqui .
Hoje , a casa contém um programa educacional básico da UNIPAZ .
O segundo aspecto , o terapêutico , foi introduzido na UNIPAZ por Jean-Yves Leloup e desenvolvido nacionalmente por Roberto Crema ; trata-se do Colégio Internacional dos Terapeutas . É um local de encontro de terapeutas formados na abordagem transdiciplinar holística , que se dedicam à tarefa essencial de cuidar do Ser .
O terceiro aspecto é uma metodologia comum a ambas , educação e terapia , que as integra e ultrapassa : a meditação .
Por isso temos na UNIPAZ praticamente três tipos de espaços : o espaço da educação - a CASA DO SOL , o Projeto Taba , a Formação Holística de Base e outros ; o espaço do Colégio Internacional dos Terapeutas - uma casinha inspiradora onde terapeutas encontram-se e trocam reflexões e experiências ; e o espaço do Silêncio - que recomendo a todos frequentar sempre , por um tempo especial de oração e meditação , habitado pelo silêncio de todos os que passaram por lá e se conectaram com as dimensões mais sutis e essenciais . O silêncio é uma abertura de encontro de todas as orações , de todos os corações , de todas as tradições .
O que estamos celebrando hoje é a aliança entre essas três vertentes ... Educar é despertar , desenvolver , lidando com seres , eu diria , não muito pertubados . Quais são os tipos de educação e os problemas que estão sendo levantados sob a perspectiva da busca da plenitude ? Eu vejo que há crianças que já são mutantes quase que desde o nascimento , desde o berço ...
... O que levanta um problema : não só na Casa do sol , mas , ultimamente , em muitos outros educandários , notam-se crianças fora do comum . Aumenta o número das que já são vegetarianas desde o nascimento . Elas passam mal se comem carne , não toleram mentira e demonstram uma verdadeira e precoce sabedoria . Nesses casos , educar é preservar aquilo que já existe , não reprimindo esse tesouro de talentos naturais . Ora , a tendência dos pais desinformados e estagnantes é para a repressão . Quantas crianças não se dirigem a adultos , expressando intuições autênticas e , em troca , recebem punições verbais e até mesmo físicas ?
A tarefa , portanto , é cultivar , e não abafar nem descuidar .
Mesmo em se tratando de uma minoria , o educador precisa estar atento para esse cuidado , porque a tendência é aumentar o número dessas crianças , como se vem observando nas últimas décadas . Alguns chamam esse fenômeno de crianças índigos .
Quanto às outras crianças , a questão é como facilita o seu despertar rumo à plenitude ? todos enfatizamos , é preciso uma verdadeira revolução educacional que abranja os quatro pilares de uma proposta transdisciplinar , conforme o Documento de Jacques Dellor , da Unesco : além de aprender a conhecer e a fazer , aprender a conviver e a ser . Sobretudo , que se acrescente o aprender a conviver com amor , porque é o caminho essencial para aprender a ser .
Ser consciente e livre , em vez de ser condicionado como um autômato : isto implica a educação do próprio educador e dos pais , que são , como já indiquei , os portadores e irradiadores da cultura normótica , do automatismo e da violência . A educação das crianças começa pela educação dos adultos . Por isso , em nossa CASA DO SOL , desde o ínicio estava previsto o contato permanente com os pais . E , Deus sabe quanto é difícil !
Geralmente são as mães que comparecem às reuniões ; raríssimos os pais , infelizmente . Isso é um fato no mundo inteiro ...
Então , ao levantar essas questões na busca de suas respostas , é fundamental considerar a necessidade de uma formação continuada dos professores , como fazemos na UNIPAZ através de programas como a FORMAÇÃO HOLÍSTICA DE BASE .
Estende-se por quase três anos e é uma verdadeira escola de professores , de país e de líderes dos novos tempos ...
Consideremos , agora , a questão terapêutica . Enquanto a educação cuida do despertar do mutante , a terapia vai dedicar-se ao processo de reparação daquilo que a noemose destruiu no ser humano . A noção de terapia foi ampliada na UNIPAZ , graças ao Colégio Internacional dos Terapeutas .
Considerar a terapia apenas para indivíduos que tenham distúrbios , desarmonias , neuroses e até psicoses é muito limitado . Muitos têm se dedicado a isso . Entretanto , precisamos ampliar o conceito , já que a saúde envolve a ecologia em níveis individual , social e ambiental .
Assim , a terapia é profunda e naturamente reparadora , embora os processos educacionais e terapêuticos sejam muito semelhantes , às vezes até iguais . Trata-se de cuidar , além do indivíduo , da esfera social , sobretudo no contexto empresarial e educacional , como já refletimos . Por exemplo , um administrador de empresa que procura unir os princípios do masculino e do feminino na organização , a eficiência e a afetividade , é um terapeuta ...
Roberto Crema levantou um novo conceito : a pedagogia iniciática . Entre os métodos terapêuticos está a terapia iniciática . A distinção entre os métodos terapêuticos e os educacionais nem sempre é fácil , pois muitas vezes eles se complementam . Temos as grandes metodologias orientais e ocidentais de transformação do ser humano como a ioga , o tai chi chuan , o sufismo , o budismo , o hesicasmo do cristianismo , entre outras . Essas grandes tradições sapienciais são caminhos diferentes , embora convergentes ...
A beleza por exemplo , da ioga , como método educacional e terapêutico , é apresentar metodologias próprias , específicas , para cada bloqueio de cada centro energético : hataioga , para os problemas do primeiro chacra físico , tantra ioga , para o sexual , carma ioga para o terceiro , o do poder , bakti ioga para o quarto , do coração . E assim por diante , até jnana e raja ioga , que é a grande ioga ...
Como passar dessa educação puramente intelectual , da qual nos falava Roberto , que se reduz ao processo de aprender a conhecer e a fazer , num dominante racional e manual , para uma educação também vivencial , integral ? Ao longo de mais de uma década e meia , deselvolvemos um método de educação para a paz o qual consiste em unir intelecto e vivência , propondo também uma síntese dos métodos educacionais orientais e ocidentais , cuja amostragem foi apresentada no seminário A ARTE DE VIVER EM PAZ e no livro com o mesmo título , publicado pela Unesco . No ano 2000 , esse método recebeu o Prêmio Internacional de Educação para a Paz em Paris . A menção realça que o mérito consiste na integração realizada entre as abordagens orientais e ocidentais ...
O terceiro aspecto é a oração e contemplação , que nos liga a essa proposta de uma pedagogia e de uma terapia iniciática . O que há de comum entre elas é o fato de apontarem ambas para a meditação , para o silêncio , para o recolhimento ; ... A melhor maneira de fazer isso é penetrar num espaço de silêncio , no templo da serenidade interior ... Creio que Jean-Yves está fazendo ressurgir a antiga noção de templo e sua função primordial de contemplação , de abrir espaço . "
( TRECHOS DO LIVRO : NORMOSE - A PATOLOGIA DA NORMALIDADE - PIERRE WEIL , JEAN YVES LELOUP E ROBERTO CREMA , PAG . 153/164 , EDITORA VERUS )
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segunda-feira, 2 de novembro de 2009

" Rumo à Consciência Cósmica "

" Saúde , sanidade , santidade , felicidade - tudo isto são apenas nomes vários para uma e mesma idéia : que o indivíduo , sendo uma parcela distinta - mas não separada do Universo - deve estar em perfeito equilíbrio com o Todo Cósmico , a fim de gozar um bem-estar universal . "" Somente o homem inteiramente harmonizado com o universo é um homem perfeito , no corpo e na alma - Um homem feliz ...
O homem feliz é o homem cósmico , o homem crístico .
Para que o Homem-Ego , guiado pelo instinto e pelo intelecto , se possa integrar , como Homem-Eu , na razão que é o seu centro ainda desconhecido , deve ele realizar exercícios frequentes e intensos de interiorização , geralmente chamados " meditação " , deve descobrir a verdade central sobre si mesmo , porque esta verdade , uma vez conhecida e vivida , o libertará de todos os males .
É , no entanto , de suma importância , para a felicidade da vida , que o homem consiga ultrapassar as fronteiras da pequena consciência do seu EGO PERIFÉRICO e entre na grande consciência do seu EU CENTRAL .
Ter apenas lido e ouvido falar do mundo espiritual é como fogo pintado numa tela - ao passo que viver e saborear pela vivência a realidade divina é como fogo real . Nem com um museu inteiro de telas de fogo pintado artisticamente se pode iluminar ou aquecer uma sala - mas com uma pequena chama de fogo real pode-se incendiar a maior das florestas e iniciar um calor mundial .
Nem se pense que esses exercícios ( Meditação ) visem apenas a zona da vida espiritual do homem : eles beneficiam todas as atividades humanas , mesmo as que nada parecem ter que ver com meditação . O comerciante , o industrial , o estadista , a dona de casa - todos eles verificarão que o encontro com o seu centro traz reais benefícios a todas as atividades da vida humana .
Entre os frutos colhidos pela interiorização se contam , entre outros , os seguintes : Segurança interior , certeza em todas as dúvidas , tranquilidade de espírito , paz da alma , acuidade mental , independência de opiniões alheias , permanente alegria de viver , benevolência para com todos os seres , felicidade em pleno sofrimento , certeza da imortalidade na vida presente .
Você Deseja se Encontrar Com o Seu Centro Divino ?
No contato consciente com o CENTRO DIVINO encontra o homem definitiva segurança e tranquilidade , paz e impertubável serenidade em todas as vicissitudes da existência , mesmo no meio das mais violentas tragédias e tempestades da vida . Ao passo que o homem que não encontrou esse centro divino é infeliz no meio dos seus gozos ; e , por ser infeliz , procura a sua felicidade fora de si , por toda parte , nas periferias do seu ego físico , mental e emocional , num interminável circulo vicioso . O desejo o leva ao gozo , e o gozo gera novos desejos . Há gozo ou sofrimento no ego da personalidade . Enfim , todas as coisas externas nos podem dar gozo ou sofrimento ; somente a realidade interna nos pode fazer felizes ou infelizes .
Poderíamos dizer que a semente simboliza o EGO , a planta representa o EU . Se a semente morresse realmente , nunca nasceria a planta . A semente não morre como vida , morre apenas como semente ; morre o estreito invólucro que encerra a vida , que , após essa pseudomorte da semente , brota como planta . É exatamente isto que se dá com a semente-ego e a planta-eu : morre a estreiteza do ego para que possa nascer a largueza do Eu . Assim , entendemos por EGO as periferias da nossa natureza material-mental-emocional , que também se chama pessoa , persona ou personalidade ; nunca identificamos este termo como o EU . Usamos , invariavelmente , a palavra EU para o CENTRO DIVINO da nossa natureza , que é o indivíduo , a individualidade , aquilo que o Cristo chama a alma , ou o espírito de Deus no homem . O nosso eu espiritual é essencialmente centrípeto , introvertido , tendendo , sempre , ao centro da natureza humana .
O nosso ego-físico-mental-emocional é , por sua natureza , centrífugo , extravertido , demandado sempre às periferias do mundo objetivo . O seu ambiente é o mundo externo , dos sentidos , da inteligência , das emoções . O nosso ego é visceralmente exteriorizante .
Esses dois pólos se acham no Universo .
O UNO é do EU , o VERSO é do EGO .
Sendo , porém , o curso da nossa evolução de fora para dentro , é natural que primeiro atinjamos o VERSO e , somente mais tarde , o UNO .
Enquanto esses dois componentes do cosmos não estiverem harmonizados no composto único , não haverá paz e sossego na vida humana .
No homem profano prevalece o Verso . No homem místico impera o Uno . O HOMEM CÓSMICO realiza a grande síntese do Universo : ele e o universo são um . Ele é universificado - é o homem Univérsico .
Considerando que a imensa maioria da humanidade pertence ainda ao mundo dos profanos , é lógico que o primeiro passo a dar está em ultrapassar a face caótica da dispersividade do ego , e entrar na zona mística do eu .
E para chegar a essa zona , vem em primeiro lugar a CONCENTRAÇÃO MENTAL , que passa pela MEDITAÇÃO e culmina na CONTEMPLAÇÃO .
Na zona 1 os nossos pensamentos correm , suavemente , em direção paralela , sem esforço ou , até , em forma dispersiva indicada pelas duas letras AA .
Com algum esforço , consegue o homem disciplinar as tendências do seu ego , reduzindo a dispersividade ou o paralelismo mental a uma ligeira convergência mental , indicada pelo algarismo 2 . Em vez de ter 20 ou 10 pensamentos em rápida sucessão , a mente os reduz a 5 ou 2 e , finalmente , a um só pensamento , que enfrenta com o ponto único do algarismo 3 . A mente está então , UNIPOLARIZADA - grande vitória para o homem habitualmente pluripolizado , distraído , dispersivo , indisciplinado .
Ver a figura no livro : RUMO á CONSCIÊNCIA CÓSMICA .
A fim de conseguir a focalização unipolar do pensamento único , convém repetir , audível ou inaudivelmente , algum MANTRA , sempre o mesmo ; por exemplo : EU E O PAI SOMOS UM ... Pouco a pouco , esse pensamento sucessivo culmina na consciência simultânea : Eu e o pai somos um . A UNIPOLARIDADE DO PENSAMENTO é agora , substituída pela UNIPOLARIDADE DA CONSCIÊNCIA . Morreu a ANÁLISE MENTAL e nasceu a INTUIÇÃO ESPIRITUAL .
O meditante superou a zona baixa das tempestades e turbulências e entrou na estratosfera da grande quietude e do silêncio .
A linha vertical entre os algarismos 2 e 4 , marca a fronteira entre dois mundos : entre o mundo turbulento do ego , sujeito a tempo , espaço e causalidade - e o mundo tranquilo do Eu , que habita no eterno , no infinito .
Pela primeira vez , o homem chega a saber , então , que o céu e inferno não são regiões geográficas ou zonas astronômicas , mas sim ESTADOS DE CONSCIÊNCIA .
O homem que cruzou a linha divisória entre o 2 e o 4 , passou da MEDITAÇÃO para a CONTEMPLAÇÃO . Está com o templo ( Com - templar ) . Ele não pensa , não analisa , não medita mais - ele simplesmente CONTEMPLA , visualiza tranquilamente a suprema Realidade . E , como ele é um canal aberto , as águas vivas da realidade fluem e jorram para dentro desse homem , assim como a plenitude se derrama necessariamente para dentro da vacuidade .
Do ponto 3 da nossa figura , partem linhas divergentes para a direita , linhas que tanto mais se abrem quanto mais se distanciam do seu nascedouro . Estas linhas , que principiam na zero-dimensão e na zero-duração 3 , fronteira entre o EGO e o EU , representam , em seu crescente afastamento , o grau de receptividade do homem .
A meditação inicial se transformou em contemplação .
Para a direita do ponto 3 , já não há meditação - há , tão-somente , contemplação consciente , altamente consciente .
Nunca o homem é tão intensamente consciente como quando todo o seu pensar culminou em intuir . Durante todo esse tempo - embora fora do tempo - matenha-se o aspirante na permanente vibração espiritual " Eu e o Pai somos Um " , sem nada pensar , sem nenhuma discursividade mental , em plena simultaneidade consciente , flutuando no imenso oceano do seu profundo " EU SOU " ...
Isto é orar ... ORAR é derivado da palavra latina OS ( ORIS ) , que quer dizer " boca " . Orar seria , pois , " abrir a boca " - a boca espiritual do Eu . Abrir a boca denota fome . O Espírito Finito EU abre a boca rumo ao Espírito Infinito Deus , cuja presença se lhe tornou intensamente consciente , durante a contemplação . Abre a boca porque tem fome e sede de justiça . Sente a presença da FONTE , cuja plenitude pode saciar a vacuidade do homem . Nesse momento , a Fonte Divina flui para dentro do recipiente humano .
O numero 4 indica a zona das grandes revelações , que emanam do infinito .
Depois de saturar a consciência espiritual , pode o homem regressar , externamente , para o mundo do seu velho EGO - flechas reversivas 5 da figura - sem , todavia , perder o contacto com o mundo divino do seu EU CRISTICO , o qual , daí por diante , aureolará e permeará todas as atividades do Iluminado . UM ÚNICO SEGUNDO DE CONTATO REAL COM O MUNDO DIVINO PODE TRANSFORMAR A VIDA INTEIRA DE UM HOMEM ...
Texto : Huberto Rohden
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" Terapeutas de Alexandria "

No livro , " Saúde e Plenitude " ( Summus Editorial ) de Roberto Crema ( Vice-Reitor da Unipaz ) , na pág . 141 e seguintes , o autor faz os seguintes comentários a cerca de Ser Terapeuta . : " Respondeu o rabino : o que é Deus ? A totalidade das almas .
Seja lá o que existir no todo , também existe na parte .
Portanto , em cada alma , todas as almas estão contidas . Se eu me transformo e cresço como indivíduo , eu mesmo contenho em mim a pessoa a quem quero ajudar , e esta contém a mim nela . Minha transformação pessoal ajuda a tornar o ele-em-mim melhor e o eu-nele melhor , também . Desta forma fica muito mais fácil para o ele-nele tornar-se melhor . " Reb Pinchas .
" Se vazio , eis tudo . " ( Chuang Tzu ) .
" Ao longo da minha prática como terapeuta e educador , tenho postulado que o encontro é o grande Mestre , veiculo básico da transformação pessoal e transpessoal . Além das engrenagens e automatismos , é através do encontro que nos tornamos plenamente humanos . A arte-ciência do encontro , entretanto , é uma conquista que exige confiança , dedicação e entrega . Exige uma escuta inclusiva , uma visão aberta e um estar na mesma frequência do outro , o que só é possível com a graça do silêncio interior . Nesta qualidade de encontro , poderá se apresentar uma sabedoria além do Eu-Tu , o Terceiro , o Mestre do nós .
É reveladora e tocante uma iluminada passagem de Carl Rogers , ocorrida num de seus seminários , relatada pela médica Rachel Remen : " Ele se propôs a dar uma demonstração de atenção positiva incondicional numa sessão terapêutica . Um dos terapeutas ofereceu-se como voluntário . Quando se voltou para o voluntário , pronto para dar início à sessão , Rogers subitamente se pôs de pé , voltou-se outra vez para nós e disse : Percebo que existe algo que devo fazer antes de começar a sessão . Permito-me saber que sou bastante . Não sou perfeito . Perfeito não será bastante . Mas que sou humano e que isso é o bastante . Não há coisa alguma que este homem possa dizer , fazer ou sentir que eu não possa sentir em mim . Posso estar com ele . Sou bastante . "
Ser bastante é o requisito básico para uma escuta inclusiva , holocentrada . Para ser bastante é preciso ser inteiro e acolher o outro na sua inteireza . Abrir-se à escuta do corpo , da psique e do Pneuma , com o suporte de uma antropologia que dá quarida à integralidade do homem . Ser bastante é não atraiçoar , é não apequenar ; é uma abertura inteligente para a imensidão do fenômeno humano .
Esta escuta requer a virtude do esvaziamento , a arte do Aberto .
Disse Confúcio : ' Torna una a tua vontade . Não ouças com os ouvidos , mas com a mente . Não , não ouças com a mente , mas com o espírito . O ouvir detem-se nos ouvidos ; a mente detemse no reconhecimento ; o espírito , porém , é vazio e segue de perto todas as coisas . O caminho só se avoluma no vazio . O vazio é o jejum da mente .
Uma unidade de encontro , em psicoterapia , além do imago constituída das fantasias mútuas acerca do outro que preexistem ao encontro pessoal , inicia com o primeiro olhar , o ' olá ' , estende-se no tempo-espaço do estar juntos num contexto interativo , de forma ativa e/ou receptiva , encerrando com o último olhar , o ' até breve ! ' ou ' adeus ' . É sempre inusitada , quando estamos em boa saúde psíquica , no aqui-e-agora renovador e transtemporal . Aqui o outro jamais é mal-tratado como ' paciente ' ou ' cliente ' . O encontro não é unilateral e , muito menos , um negócio ; é uma possibilidade palpitante e hesitante , uma delicada probabilidade . Não há seguro ; não se pode forçar , economizar ou apressar o encontro .
Podemos apenas estar disponíveis , abertos , à escuta . O outro , aqui , é considerado um sujeito na mutualidade , um elo na reciprocidade de uma amizade evolutiva , centrada no processo de cura e de individuação . O pacto é de acompanhamento , numa caminhada em direção a Si Mesmo . É enlaçar a mão do outro , simbolicamente , numa atitude de confiança e respeito que anuncia : Você não está sozinho ; vá em direção a você mesmo e eu estarei ao seu lado . Oriente o seu coração para aprender , para conhecer-se e tornar-se o que é , e eu estarei ao seu lado .
Amigo evolutivo , amiga evolutiva , é como denomino as pessoas a quem acompanho , como psicoterapeuta , inspirado no Cosmodrama IV de Pierre Weill , que focaliza o tema das relações evolutivas . Cada unidade de encontro é um artesanato psíquico , uma viagem singular , uma totalidade dialógica única e intransferível . Somos hóspedes na Festa do Encontro , que nos ultrapassa a transmuta .
Necessitei muitos anos nesta jornada para dar-me conta de que cada amigo evolutivo que bate à minha porta é um pedacinho da minha própria alma que necessito escutar , compreender e integrar . Cada pessoa significativa na existência , incluindo-se os inimigos , são pedaços perdidos de nossas almas , à espera de uma escuta e de um reencontro integrador . Assim sendo , os encontros nos devolvem parcelas perdidas de nossa alma comum . Gradativamente , nesta aventura alquímica humana , a alma se amplia . Então , como diz o poeta Pessoa , tudo vale a pena , pois a alma não é pequena .
Nesta abordagem de respeito ao todo humano , o outro jamais é rotulado , amaldiçoado , reduzido a um rótulo patológico . A pessoa é mais vasta que os seus problemas e sintomas . Ninguém é doente ; podemos estar doentes . A doença é passagem ; é devir . Etmologicamente , a palavra inferno significa estar fechado .
Como afirma o rabino Nilton Bonder , o oposto da inveja , esta vivência infernal , é farguinen , um verbo da língue , que pode ser traduzido como abrir espaço . Quando abrimos espaço , o outro pode ser quem é , com seu brilho e sua sombra . Um catecismo rígido seja religioso ou psiquiátrico , com interpretações estreitas e reducionalistas , pode ser um desastroso fator patogênico .
Enclausurar a pessoa nos limites de sua patologia , na estreiteza interpretativa de um rótulo , pode ser iatrogênico , pois a informação tem uma função estruturante . As informações recebidas na primeira infância , por exemplo , são decisivas na estruturação da personalidade , bem o sabemos . O que falamos para o outro tem força de modelagem , que pode aprisionar ou libertar , amaldiçoar ou abençoar ...
... Encarei um fato óbvio : um sofrido ser humano me procurava , dilacerado na alma , no coração e na existência , esparramando a confusão ruidosa de seus fragmentos por todos os lados no meu consultório . Então , com a ajuda de um elegante bisturi analítico , algum tempo depois de uma análise bem sucedida , a pessoa organizava e sofisticava a sua fragmentação pessoal , tornando-se uma expert de suas dissociações : compreendia os seus distintos estados do ego , com os típicos padrões relacionais e jogos , suas gravações precoces e compulsões decorrentes . Claramente percebia que este era um processo últil e necessário . Atordoou-me , entrentanto , a constatação de que a consciência do ser humano na sua inteireza era não só desprezada , como também reprimida , pelo reducionismo atomicista analítico . Onde estava a escuta da Unicidade ? Um ser humano inteiro encontrava-se diante de mim , desde o início , e apenas os seus fragmentos eram ouvidos e considerados . Nada além de miudezas , de memórias biográfias , de secreções do ego , de registros do inconsciente pessoal . A dimensão transpessoal e noética , o numinoso , o essencial , a luz do Ser além das dualidades , o porta-voz restaurador e autêntico da totalidade psíquica estavam literal e metodologicamente banidos do encontro terapêutico . ' Entrar no túnel do inconsciente , sem ter a sensação de que a luz está no final , é perigosa . Basta pensar naqueles para quem o suicídio parece ter sido a conclusão lógica da sua análise , ' admoesta Jean Yves Leloup
Este avassalador insight lançou-me em profunda crise que abalou-me de forma definitiva . Nunca pude voltar a atuar como o convicto e entusiasta analista da minha ingenuidade anterior . A leitura da bibliografia exclusivamente analítica , que antes me supria , passou quase a sufocar-me ; sentia falta de ar ! Como ir além da análise sem nega-la , sem suprimi-la ? O sonho , já relatado , em que o diretor do presídio convocou-me para a síntese , foi a gota final nesse processo de conversão holística . Então , escancarei todas as janelas e avistei as montanhas serenas do Espírito , da psicologia perene . Orientei-me para o Norte do Ser .
O analista é um focalizador das partes constituintes do todo . É sensorial ; investiga a partir dos clássicos cinco sentidos . É racional e lógico ; para analizar , pensamos . É um dissecador de causas , partindo de um postulado mecânico determinista . Atua no estado de vigília , com uma consciência egóica , de identidade pessoal , nos limites da coordenada condicionante tempo-espaço , da realidade consensual ordinária . Associando-se aos elementos do ar , símbolo do pensamento intelectual e do poder da espada que perfura e retalha ; e terra corporeidade , consistência e ponto de apoio material . Abrange as experiências do plano de consciência do cotidiano , ligadas ao corpo físico , referido-se à primeira atenção , ao tonal , segundo a obra de Castañeda . Abrange o plano visível e observável empiricamente . É aperfeiçoado pela via do racionalismo cientifíco e do que , na Universidade Holística , denominamos de holologia , envolvendo estudo , pesquisa e experimentação da abordagem holística . É o instrumento básico da psicologia moderna .
O sintetista centra-se no todo , apreendendo gestalts e atuando como um pontifex , construtor de pontes e a serviço das interconexidades . É intuitivo , uma inteligência do todo que apreende o real de forma maciça e imediata . É transracional , movendo-se no plano do coração , dos sentimentos e valores . É um interprete de sinais , dos oráculos e das sincronicidades transcausais , habitando um universo orgânico , vivo , vibrante . Atua no estado de consciência onírico , do sonho e do transe , penatrando na esfera arquetípica do imaginal , transcendendo a coordenada tempo-espaço , aberto e suscetível aos fenômenos psi , da parapsicologia , e vivências xamanísticas , do domínio transpessoal . Associado aos elementos água , fator de atração e repulsão das emoções ; e fogo , intuição e imaginação criativa .
Abrange os estados não-comuns de consciência , a exemplo das experiências das matrizes perinatais e da dimensão transpessoal , oriundas do método da respiração holotrópica , de Stanislav Grof : o conceito de segunda atenção , o nagual , ligada ao corpo energético ' luminoso ' , descrita por Castañeda , e os chakras do yoga . Abrange o plano sutil , aque temos acesso com a abertura do que Aldous Huxley denominou de ' portas da percepção ' . É desenvolvido através da holopráxis , vivência de caminhos meditativos do despertar , da sabedoria tradicional . É o agente da comunhão mística , e do numinoso , da psicologia perene ...
Esta duas escutas não se antagonizam , como fomos condicionados a crer nestes últimos séculos . Pelo contrário , elas se complementam e se harmonizam , em sinergia , habilitando-nos a uma visão e atuação de integralidade , transdisciplinar ...
A psique irradia e contagia . Assim como nos contagiamos com o vírus de uma doença infecciosa . Assim como nos contagiamos com os vírus de uma doença infecciosa , igualmente estamos expostos ao contágio invisível dos ' vírus psíquicos ' , mentais e emocionais , no âmbito de nossa ecologia interior . Um terapeuta que atua conscientemente como analista e sintetista , precisa submeter-se a uma rigorosa e disciplinada higiene global , do corpo-psique-pneuma .
Precisa aprender a nutrir-se por inteiro , para ser fonte de nutrição da inteireza dos que o procuram . Considero a meditação um nutriente imprescindível , juntamente com os demais cuidados já mencionados , prescristo pelos Terapeutas de Alexandria .
Texto : Roberto Crema
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domingo, 1 de novembro de 2009

" Sobre a Mensagem de Krishnamurti "

Krishnamurti centraliza todo o seu ensino num insistente convite à inteligência . Não há na sua mensagem nenhum tabu . Nada oferece de misterioso , nada apresenta para ser adotado e seguido por outrem .
Todo o seu apelo consiste em despertar a criatura para que possa livre de tutelas espirituais , fazer uma autocrítica de todos os falsos valores que adotou .
Não nos trazem novas preces , novas disciplinas espirituais , novas submissões . Todo o seu convite corporifica na luta que cada um deve assumir contra o temor . Foi o medo que criou os deuses , as igrejas e todas as explorações . E tudo isso é gerado pela incompletude do homem . Ele nos fala sempre da liberdade , compreensão , felicidade e entendimento . A palavra vida enche todo o seu ensino . A sua mensagem , sobretudo é um convite à vida no presente , imediato , no agora , e não é nunca num futuro distante como fazem todos os credos . A vida de cada instante encerra a totalidade . E tudo isso se opõe ao que pensa a maioria . Todos fogem do momento imediato , procurando toda sorte de fugas .
Ele insistentemente nos diz que é preciso romper com o passado e com o futuro para viver o agora , de maneira feliz e completa .
Krishnamurti verificou que o mundo dorme . O ópio lançado na alma humana pelos professores da espiritualidade , pelos negociantes da verdade , foi em largas doses e o mundo vem a custo ensaiando seus primeiros passos numa jornada sangrenta mas vitoriosa .
Dizia Ouspenky , psicólogo russo , que ninguém está acordado , o que todos fazem é dormir .
Krishnamurti quer acordar o indivíduo do sono dos séculos , quer arrancá-lo do pesado fardo que carrega , expresso como subconsciente individual e coletivo , para que possa encontrar-se a si mesmo , e integrar-se na vida . Esta vida que é eterna , que é a fonte e o fim , o começo e o nada e , portanto , sem fim , nem começo . Esta vida que pertence a tudo e a todos , e que é a cada instante a totalidade de tudo que há . Há uma verdade incondicionada , sem rótulos , nem credos , nem doutrinas , que é a compreensão inteira da vida mesma . Essa verdade ultérrima é impessoal , é dinâmica como a vida caminhante , que jamais estagna , que não tem futuro , nem passado , porque é sempre presente .
O indivíduo é uma parte dessa vida total e sua união com o universal Krishnamurti a denomina de libertação , que só se dá quando o indivíduo transpõe as barreiras da própria separatividade , constituídas pelo " eu " , ou personalidade .
O " eu " é o passado . Desde que o indivíduo desperta , dissolve-se a si mesmo . Quer dizer que a vida existente em cada ser só pode expressar-se com plenitude quando o ego deixar de existir , quando cai a última barreira de separatividade e a criatura torna-se um foco de luz , iluminando tudo o que a cerca , tornando-se a manifestação humana , consciente , da vida universal .
Krishnamurti chama essa vida também de deus . São dele estas palavras : By God I do not mean the God of traditions , but the God that is in each one , and that God can only be realized through the fullfilment of life . In other words , there is no God except the God manifest in man purifed , made perfect . ( The Coming Dawn - in The Star , Fevereiro de 1929 ) .
" Eu tenho dito - continua - que há somente deus manifestado em vós e eu prefiro chamá-lo vida . Libertando essa vida limitada , atingireis esta suprema inteligência sem limite , que fica para além do pensamento . Se considerais a vida como essa inteligência em lugar de procurar algum ser sobre-humano e longínquo , então essa vida mesma será para vós uma inspiração .
A vida é deus , liberdade , e todas as coisas . Na sua plenitude está a perfeição . Mas o homem criou deuses pelo temor - ele explica - e qualquer povo pode destruir a idéia de deus , mas enquanto o temor existir nascerão outros deuses .
O " eu " é a muralha autodefensiva que nos separa da realidade . Ele tem horror ao presente e por isso procura sempre refúgios para manter a sua continuidade .
É ele que cria todas as limitações , todos os refúgios , todas as sutilezas geradoras de confusão e atrito . Quando o indivíduo desperta rompe com o passado , com todos os obstáculos , limitações e seitas . São estas coisas que segregam o indivíduo do todo , quando a finalidade da existência é a integração do indivíduo na vida universal . A princípio temos vislumbres dessa realidade , e então prelibamos a felicidade inexprimível do que seja o contato vivo , permanente , sem muralhas , com o Todo .
Esses vislumbres são rápidos contatos com a grande realidade , quando eles se tornam permanentes há o deslumbramento do ser e o contato vivo com o eterno vir a ser da vida universal . Nesse caso o indivíduo deixa de viver entre muralhas para ser uno com o mundo .
Varre de si o sonho de que é parte autônoma e reconhece em si e no todo a mesma alma , a mesma essência , a mesma vida . A personalidade do ego edificada nas areias do tempo foi dissolvida pelas águas da eternidade . E a vida deixa de ter além e aquém para só ter agora , porque o presente encerra a eternidade . Vivamos , pois , o momento que passa . Renunciar ao presente imediato é fugir e não entender . É um pretexto para continuar a sonhar . É a continuação do egoísmo que fez a vida social cruel e má .
A causa do conflito está na luta cruel , e titânica , existente entre a vida universal , cotidiana , incondicionada , dinâmica e plástica e a atitude que assumimos diante dela , porque nos apoiamos como meio autodefensivo sobre o passado cheio de afirmativas condicionadas , repleto de ilusões , sentimentos de posse e múltiplas particularidades . O conflito está aí - queremos sufocar a realidade presente com as sombras do passado . A amplificação do " eu " , que é separação , não pode conduzir ao universal . Á libertação não é a amplificação do " eu " , mas o desgaste do sentimento de separação .
Isso significa que a libertação é a extinção da separatividade e , portanto do ego . Quando o " eu " se quebra como uma bola de espuma , disse o Buda , seu conteúdo será conservado e viverá , na verdade , a vida eterna . Ou então como diz Krishnamurti : integrar-se no presente sem lhe interpor o passado , que é o " eu " , ou o futuro , que é ainda a sua continuação , é atingir a realidade , a perfeição verdadeira e absoluta .
O ser diz : eu sou vida . O " eu " diz : eu sou eu ! O ser é indiferenciado , é universalidade , é uno com a vida total . O " eu " é separação . Todo o drama da existência se desenrola entre o ser que quer recuperar a sua liberdade e o " eu " que quer prolongar o seu enjaulamento .
Texto : Francisco Ayres
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" PARA COMPREENDER O " EU "

Nos tempos pré-históricos o " eu " do homem dos clãs não se havia ainda destacado da consciência do grupo . Só muito depois chegou o homem à afirmação do " eu " , à consciência de separatividade , decorrente de um egoísmo mais requintado , em que o indivíduo se destaca do grupo para afirmar " eu sou " . O " eu " é a totalização dos falsos valores que vêm , acumulados até nós , de um longo passado .
Do mesmo modo que a passagem da consciência de grupo à consciência individual se operou com esforço , de igual modo é indispensável um esforço maior para transcender a ilusão do " eu " e atingir o real . Ele é o resultado do acúmulo egoísta efetuado no transcurso das idades . Por isso mesmo o " eu " limita , condiciona o homem no espaço e no tempo , impedindo-o de ver a ralidade total , dando a certeza de que somos separados da vida total , e assim impede que se alcance a libertação . A visão que nos dá da existência é sempre circunscrista ao passado , fugindo da realidade presente . Ele é o produto da atividade egoísta do homem e por isso foge da realidade , procurando escapulas no passado e no futuro .
Passado e futuro , temor e esperança , eis os polos que condicionam o homem limitado . O temor de desaparecer , de sucumbir , e o desejo de sobreviver , de se imortalizar , eis toda a ativídade humana .
Sempre o temor . E nessa luta há o consolo da ilusão oferecida pelas crenças , pelos fragmentos de verdade . A essa luta egoísta o homem chama progresso . Mas progresso quer dizer avançar e o homem só tem fugido de um abrigo para outro , continuando sempre no temor , no cativeiro . O homem não mudou pelo simples fato de trocar de prisão . Como prisioneiro do " eu " , do sentimento egoísta de separatividade , toda a sua existência se polariza entre condições opostas e desumanas : ama e odeia , explora e diz-se amigo do próximo , e para justificar a sua crueldade , diz que o mundo , tal como é , foi feito por deus . Palavras auto-defensivas e mais nada ! O mundo social , errado como é , foi feito pelo homem . Se há miseráveis e gente passando fome é porque há crueldade e exploração . O círculo é fatal para o homem . Mas o " eu " é uma criação circunstancial , decorrente do egoísmo humano , que o leva para a separação , para melhor poder explorar o seu semelhante . Tudo nele é luta mesquinha , crueldade e exploração . Queixa-se porque nasce , porque vive e porque morre . Tudo é lamento , sofrimento e desolação . O homem transcendente , liberto do " eu " , integrado na vida universal , canta a alegria de viver . Nele não há separação , a vida total nele se expande em alegria e não em frustração .
O " eu " é profundamente egoísta , não permite a sua destruição .
Apega-se ao passado e levanta todas as afirmações do egocentrismo para sufocar o presente com as memórias daquilo que ficou da ilusão que já vai longe , mas toma realidade de sonho . Ele sempre se interpõe entre realidade imediata e presente . Ele é a memória do que passou , por isso nunca se submete à realidade do agora . Daí a criação das fugas à realidade . O homem liberto atinge um estado de consciência que tudo abrange , em que se vê livre por completo do passado já morto , da consciência de separação , imposta pelo " eu " . Só o homem liberto é capaz de ações puras , isentas de interesse e recompensa . Só ele atinge um estado realmente humano , impessoal , em que se dá a fusão da vida condicionada com a vida plena e total .
O " eu " é o carcereiro da vida impessoal e esta para se expandir precisa antes romper as muralhas da prisão . Todas as civilizações se opõem ao que é novo , porque vivem do passado . Meio social e espiritual são os dois aspectos do mesmo problema , da mesma exploração egoista , oriunda do sentimento isolado , de separação das criaturas . Esse sentimento jamais conduzirá à unidade da vida .
Nascendo da consciência de separação só vive pelo egoísmo , pela aquisição , e portanto precisa acumular , possuir . Este " eu " ávido e possessivo julga que pelo acúmulo , pela posse , chegará a ter felicidade e plenitude . Daí o temor do aniquilamento , o temor do desconhecido , o temor de perder , e isso origina todas as crueldades e explorações . Sendo explorador e egoísta nunca fará obra sadia e cooperativa , no sentido humano e coletivo .
Krishnamurti nos diz : enquanto viverdes aprisionados nesta divisão do meu e do teu tereis muitas maneiras de vos enganar .
É o " eu " possessivo e egoísta que divide a vida . Todo o edifícil social é construído sobre o sentimento de separação , de egoísmo e de posse . Krishnamurti mostra-nos um estado diferente , construído pelo homem liberto , sem sentimentos de possessividade , sem o élan da exploração .
Tal afirmativa atua em nós como uma explosão . E assim chegamos a compreender que essa muralha que é o " eu " em que vivemos condicionados , sob o choque repetido da sua ilusão contra a realidade , acabará fendendo-se e sobre a sua poeira pairará algum dia , livre e triunfante , a realidade inteira .
Isso significará a extinção de todas as separações entre as criaturas .
Acabará o preconceito de posse , de raça , de nacionalidade e findará a exploração do homem pelo homem .
Mas o " eu " será o último a cair . Mas quando se dissolver por inteiro , então o indivíduo liberto viverá em contato permanente com a vida universal , tornando-se essa própria vida atuante , que transcende todas as limitações . Libertação ou escravidão são termos que se referem a cada ser humano pois se dirigem à destruição ou conservação daquilo que cada um toma como essência de si próprio : - o " eu " !
A penetração no agora , no presente imediato , importa na destruição dos sonhos mortos , e uma luz nova dispersa todas as sombras , todos os fantasmas criados pelo pavor . Ele nos diz : o medo estrangula os seres humanos , é o fantasma que os persegue como a sua própria sombra . Quando não tiverdes medo então começareis a viver . Para serdes independentes de todas as circunstâncias exteriores , para descobrir a vossa essência verdadeira , deveis libertar-vos do medo , do medo que engendra a idéia de aúxilio , porque ninguém vos salvará , senão vós próprios . Não é elevando igrejas , criando deuses ou imagens , pedindo , adorando , praticando cerimonias que obtereis a compreensão e a tranquilidade interior .
Mas o " eu " tem pavor à realidade . Ele quer repousar e alimenta por isso todas as resistências contra o fluxo vital . É nos templos que se abriga o medo dos homens . É lá que buscam consolo , todos aqueles que ainda não se encontraram a si mesmos . A destruição dos templos , além de criminosa , não tem valor . É preciso que a libertação seja interior , dentro de nós , para que seja real . Pouco adianta destruir uma ilusão se fica de pé a causa que a gerou . Só o " eu " aspira durar . A vida mesma é inextinguível .
As igrejas aumentam a ilusão , encorajam os ricos , e encorajam também os pobres a ficarem todos mais pobres , de espírito .
Texto : Francisco Ayres
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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

" O Desejo De Permanência "

Entre as circunstancias mutantes da vida existe algo permanente ?
Existe alguma relação entre nós próprios e a constante mutação ao nosso redor ? Se admitíssemos que tudo é mutável , inclusive nós próprios , então jamais existiria a idéia de permanência . Se nos imaginássemos num estado de continuo movimento , então não haveria conflito entre as circunstancias mutantes da vida e aquilo que agora supomos ser permanente .
Existe em nós uma profunda e radicada esperança ou certeza de que existe algo permanente no meio da contínua mutação e isto cria o conflito . Vemos que a mutação existe ao redor de nós .
Vemos tudo decaindo , fenecendo . Vemos cataclismos , guerras , fome , morte , insegurança , desilusão . Tudo que nos cerca está em constante mutação vindo-a-ser e decaindo . Todas as coisas se gastam pelo uso . Nada há e permanente ao redor de nós . Em nossas instituições , em nossas morais , nossas teorias de governo , de economia , de relações sociais - em todas as coisas existe fluxo , existe mudança .
E entretanto , no meio dessa impermanência , sentimos que existe permanência ; estando insatisfeitos com essa impermanência , criamos um estado de permanência , gerando , por esse modo , conflito entre o que se supõe ser permanente e o que é mutante , o transitório . Mas se percebêssemos que tudo , inclusive nós mesmos , o " eu " é transitório , e também o são as coisas ambientes da vida , certamente não haveria então esse irônico conflito .
O que é que exige permanência , segurança , que anseia pela continuidade ? É nessa exigência que se baseiam todas as nossas relações sociais e morais .
Se vocês realmente acreditassem ou sentissem profundamente , por vocês mesmos , a incessante mutação da vida , então jamais existiria ansiedade pela segurança , pela permanência . Mas porque existe uma profunda ansiedade pela permanência , nós criamos uma parede estanque contra o movimento da vida .
Portanto , o conflito existe entre os valores mutantes da vida e o desejo que está procurando permanência . Se sentíssemos e compreendêssemos profunadamente a impermanência de nós próprios e das coisas deste mundo , então haveria o cessar do amargo conflito , das dores e temores . Então não haveria apego , de onde surge a luta social e individual .
O que é pois essa coisa que se atribui permanência e está sempre procurando uma continuidade ulterior ? Não podemos investigar isto inteligentemente se não analisarmos e compreendermos a capacidade critica em si mesma .
A nossa capacidade critica brota dos preconceitos , das crenças , das teorias , das esperanças , etc., ou do que denominamos experiência .
A experiência baseia-se na tradição , nas memórias acumuladas . A nossa experiência está sempre matizada pelo passado . Se vocês acreditam em Deus , talvez possam ter o que chamam de uma experiência divina . Certamente esta não é uma experiência verdadeira . Tem sido gravado em nossas mentes , através dos séculos , que existe Deus , e de acordo com esse condicionamento nós temos uma experiência . Esta não é uma experiência de primeira mão , verdadeira .
A mente condicionada atuando de um modo condicionado não pode experimentar completamente . Tal mente é incapaz de plenamente experimentar a realidade ou a não-realidade e Deus . Do mesmo modo , a mente que já está preconcebida pelo desejo consciente ou inconsciente do permanente não pode compreender a realidade como plenitude . Toda pesquisa de tal mente preconcebida é apenas um novo fortalecimento desse preconceito .
A busca e a ânsia pela imortalidade são o incitamento das memórias acumuladas da consciência individual , o " eu " , com seus temores e esperanças , amores e ódios . Esse " eu " fraciona-se em várias partes em conflito : osuperior e o inferior , o permanente e o transitório , e assim por diante . Esse " eu " em seu desejo de perpetuar-se , procura e utiliza outros modos e meios de se entrincheirar .
Talvez alguns de vocês possam dizer a si mesmos : " Certamente , como desaparecimento dessas ansiedades , deve haver realidade " .
O próprio desejo de saber se existe algo além da consciência em conflito da existência é uma indicação de que a mente está procurando uma segurança , uma certeza , uma recompensa para seus esforços .
Vemos como é criada uma resistência contra outra , e essa resistência , através das memórias acumulativas , através da experiência , é cada vez mais fortalecida , tornando-se cada vez mais consciente de si mesma .
Assim , existe a vossa resistência e a do vosso próximo , da sociedade . O ajustamento entre duas ou mais resistências é chamado relações mutuas , sobre que é construída a moralidade .
Onde há amor , não há a consciência das relações mutuas . É só num estado de resistência que pode haver esta consciência , que é apenas um ajustamento entre conflitos em oposição .
O conflito não existe somente entre várias resistências , mas também dentro de si mesmo , dentro da qualidade permanente e impermanente da própria resistência .
Existe algo permanente nessa resistência ? Vemos que a resistência pode perpetuar-se por meio da aquisição , da ignorância , por meio da consciente ou inconsciente ansiedade da experiência . Mas certamente essa continuação não é eterna ; ela é apenas a perpetuação do conflito .
O que chamamos permanente na resistência é apenas parte da própria resistência , e , portanto , parte do conflito . Assim , em si mesma , não é o eterno , o permanente .
Onde existe falta de plenitude , não-preenchimento , existe a ansiedade de continuação que cria a resistência , e esta resistência dá a si mesma a qualidade de permanência .
Aquilo a que a mente se agarra como sendo permanente é em sua própria essência o transitório . É o produto da ignorância , do medo e da ansiedade .
Se entedemos isto , então vemos que o problema não é de uma resistência em conflito com outra , mas como esta resistência vem a ser e como pode ser dissolvida . Quando defrontamos este problema profundamente , existe um novo despertar , um estado que pode ser chamado amor .
Texto : Krishnamurti
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" O Homem e a Sua Busca De Conforto "

Para o homem que está numa prisão , a liberdade só pode consistir num voo da imaginação . Vossa busca da realidade é somente uma fuga à atualidade . Não busqueis vãmente o que é a verdade , porém descobri os empecilhos que impedem a mente de percebê-la .
O homem , na sua busca de conforto e segurança separou a vida em duas divisões : a material e a espiritual . A material - o mundo economico e social - acha-se integralmente baseada no espírito de aquisição , que desenvolveu as distinções de classe , isto é , cada um , na busca individual da sua própria segurança e do seu próprio conforto , criou um sistema econômico e social de cruel exploração . Os meios de adquirir riqueza - máquina posta nas mãos de uns poucos - conduziu a um imenso sofrimento , e para sustentar esse interesse rendoso , organizaram-se partidos políticos separatistas , os quais desprezam integralmente o homem , servindo-se dele , para aumentar seu poder e importância . E o indivíduo está encarcerado nesta complicada tradição de falsos valores , que ele próprio construiu , persistentemente , através dos séculos .
No mundo das coisas espirituais há também espírito de aquisição , embora sob forma diferente . Na vida espiritual a busca da segurança expressa-se pelo desejo de imortalidade . Existe em cada um o desejo de ser permanente e eterno . É isto que todas as religiões prometem , a imortalidade no além . Assim as religiões tornaram-se por todo o mundo , receptáculos de interesses pecuniários e de crenças organizadas e fechadas . No fim de tudo os vossos ideais apenas são meios de fugir da atualidade . As religiões , com suas crenças , dogmas e credos , tornaram-se barreiras formidáveis entre os seres humanos , separando e atirando o homem contra o homem , limitando-os e destruindo-lhes a inteligência .
Cada um de nós procura a imortalidade e a segurança num outro mundo , em virtude disso as religiões , com todas as suas explorações , domínios e temores tornam-se uma necessidade . E aqui , neste mundo , procuramos uma segurança de espécie diferente , por isso criamos costumes , um cruel sistema de competição e de guerras , de distinções de classe e tudo o que se lhe segue .
Vós , como indivíduos , haveis criado esta angústia das distinções e este sofrimento . Vós , como indivíduos , é que tendes de alterar este estado de coisas . Portanto o que há de trazer ao mundo uma condição feliz e inteligente é o vosso próprio despertar .
Eu realizei aquilo que , para mim , é a suprema felicidade - não a oriunda do prazer , mas a que promana dessa quietude interior que é a segurança da tranquilidade , a realização da inteireza . Uma vez que o homem realize isso vem-lhe a tranquilidade , não da estagnação , porém da criação , a do ser eterno . Para mim a realização desta verdade é a finalidade do homem . É somente por meio do esforço individual que a verdade pode ser realizada , não por meio de associações de qualquer espécie que sejam .
Não pode haver felicidade humana enquanto existir exploração . Na minha opinião a exploração manifesta-se quando os indivíduos buscam ter mais do que as suas necessidades essenciais exigem .
Como conheceis pouco a vida que vos cerca quereis escapar e aspirais alguma coisa no futuro , agradável , bela , maravilhosa . Mas o que importa é o que sois agora . O que criais no momento presente é que tem valor . Está no vosso poder atingir a libertação e a felicidade e ninguém o pode fazer por vós .
Não busqueis a felicidade que desejais nem no futuro , nem no passado , mas no agora . De que serve ser feliz daqui a dez anos , se agora estais solitários , se cada instante cria lágrimas , sofrimento e dor ?
A Vida e vós sois uno . Somente o ignorante vê a separação . Tendo certeza não necessitareis de fé , nem de crença . Na verdade não há mistérios .
O homem perfeito não é um exotismo da natureza mas a sua floração .
Não busqueis comodidade ou consolo , buscai compreensão . Buscar comodidade é escravizar a vida , buscar compreensão é dar-lhe liberdade .
O homem que diz : " dizei-me como hei de agir " , não deseja pensar com profundeza acerca do assunto , deseja apenas que lhe digam o que fazer , e isto cria os perniciosos sistemas da autoridade e do setarismo .
O círculo vicioso do sofrimento e da escápula continuará até que comeceis a verificar a futilidade da fuga .
Não podeis conhecer o gosto do sal enquanto não o provardes vós mesmos . Entretanto desperdiçamos tempo a buscar uma descrição da verdade . Digo-vos que não a posso descrever , não posso exprimir em palavras essa vivente realidade .
Texto : Krishnamurti
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