terça-feira, 30 de junho de 2009

Do Mundo Virtual ao Espiritual !

Frei Betto !
Ao viajar pelo Oriente , mantive contatos com monges do Tibete , da Mongólia , do Japão e da China . Eram homens serenos , comedidos , recolhidos em paz em seus mantos cor de açafrão . Outro dia , eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo : a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares , preocupados , ansiosos , geralmente comendo mais do que deviam . Com certeza , já haviam tomado café , todos comiam vorazmente . Aquilo me fez refletir : " Qual dos dois modelos produz felicidade ? "
Encontrei Daniela , 10 anos , no elevador , às nove da manhã , e perguntei : " Não foi à aula ? " Ela respondeu : " Não , tenho aula à tarde " .
Comemorei : " Que bom , então de manhã você pode brincar , dormir até mais tarde " . " Não " , retrucou ela , " tenho tanta coisa de manhã ... " " Que tanta coisa ? " , perguntei . " Aulas de inglês , de balé , de pintura , piscina " , e começou a elencar seu programa de garota robotizada .
Fiquei pensando : " Que pena , a Daniela não disse : " Tenho aula de meditação ! "
Estamos construindo super-homens e supermulheres , totalmente equipados , mas emocionalmente infantilizados . Por isso as empresas consideram agora que , mais importante que o QI , é a IE , a Inteligência Emocional . Não adianta ser um seperexecutivo se não se consegue se relacionar com as pessoas . Ora , como seria importante os currículos escolares incluírem aulas de meditação !
Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha , em 1960 , seis livrarias e uma academia de ginástica ; hoje , tem sessenta academias de ginástica e três livrarias ! Não tenho nada contra malhar o corpo , mais me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito . Acho ótimo , vamos todos morrer esbeltos : " Como estava o defunto ? " . " Olha , uma maravilha , não tinha uma celulite ! " Mas como fica a questão da subjetividade ? Da espiritualidade ? Da ociosidade amorosa ?
Outrora , falava-se em realidade : análise da realidade , inserir-se na realidade , conhecer a realidade . Hoje , a palavra é virtualidade .
Tudo é virtual . Pode-se fazer sexo virtual pela internet : não se pega aids , não há envolvimento emocional , controla-se no mouse . Trancado em seu quarto , em Brasília , um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio , sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra ! Tudo é virtual , entramos na virtualidade de todos os valores , não há compromisso com o real ! É muito grave esse processo de abstração da linguagem , de sentimentos : somos místicos virtuais , religiosos virtuais , cidadãos virtuais . Enquanto isso , a realidade vai por outro lado , pois somos também eticamente virtuais ...
A cultura começa onde a natureza termina . Cultura é o refinamento do espírito . Televisão , no Brasil - com raras e honrosas exeções - , é um problema : a cada semana que passa , temos a sensação de que ficamos um pouco menos cultos . A palavra hoje é 'entretenimento ' ; domingo , então , é o dia nacional da imbecilização coletiva . Imbecil o apresentador , imbecil quem vai lá e se apresenta no palco , imbecil quem perde a tarde diante da tela . Como a publicidade não consegue vender felicidade , passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres : " Se tomar este refrigerante , vestir este tênis , - usar esta camisa , comprar este carro , você chega lá ! " O problema é que , em geral , não se chega ! Quem cede deselvolve de tal maneira o desejo , que acaba precisando de um analista . Ou de remédios . Quem resiste , aumenta a neurose .
Os psicanalistas tentam descobrir o que fazer com o desejo dos seus pacientes . Colocá-los onde ? Eu , que não sou da área , posso me dar o direito de apresentar uma sugestão . Acho que só há uma saída : virar o desejo para dentro . Porque , para fora , ele não tem aonde ir ! O grande desafio é virar o desejo para dentro , gostar de si mesmo , começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante , neoliberal , consumista . Assim , pode-se viver melhor .
Aliás , para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis : amizades , auto-estima , ausência de estresse .
Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno . Se alguém vai à Europa e visita uma pequena cidade onde há uma catedral , deve procurar saber a história daquela cidade - a catedral é o sinal de que ela tem história . Na Idade Média , as cidades adquiriam status construindo uma catedral ; hoje , no Brasil , constrói-se um shopping center . É curioso : a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas de catredais estilizadas ; neles não se pode ir de qualquer maneira , é preciso vestir roupa de missa de domingos . E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca : não há mendigos , crianças de rua , sujeira pelas calçadas ...
Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno , aquela musiquinha de esperar dentista . Observem-se os vários nichos , todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo , acolitados por belas sacerdotisas . Quem pode comprar à vista , sente-se no reino dos céus . Se deve passar cheque pré-datado , pagar a crédito , entrar no cheque especial , sente-se no purgatório . Mas se não pode comprar , certamente vai se sentir no inferno ... Felizmente , terminam todos na eucaristia pós-moderna , irmanados na mesma mesa , com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do McDonalds ...
Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas : " Estou apenas fazendo um passeio socrático . " Diante de seus olhares espantados , explico : " Sócrates , filósofo grego , também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas . Quando vendedores como vocês o assediavam , ele respondia : Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz . "


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A Busca do Divino no Homem Ocidental ! Parte 1

O Homem moderno vive um drama : Matou um Deus que lhe faz falta .
" O ocultismo experimenta actualmente um renacismento sem precedentes , quase obscurecendo a luz do espírito ocidental . Não penso em nossas academias e seus representantes . Sou médico e lido com pessoas simples . Sei , por isso , que as universidades não são mais fonte de conhecimento . As pessoas estão cansadas de especialização científica e do intelectualismo racional. Eles querem ouvir a verdade que não limite , mas amplie ; que não obscureça , mas ilumine ; que não escorra como água , mas que penetre até aos ossos . " C . G . Jung
A tese central deste texto é a reiteração de uma idéia históricamente recente , mas já mil vezes formulada , por mil agentes diferentes , em milhares de contextos diferentes , servindo interesses diferentes e muitas vezes contraditórios : o homem das sociedades ocidentais modernas perdeu a conexão com o sagrado e precisa de novas referências espirituais . Precisa de novos valores .
Precisa de um novo Verbo que funde ontologicamente o seu lugar no mundo . Precisa de redescobrir os porquê , os como , os para quê ; precisa de redescobrir (ou relembrar ) as respostas às eternas perguntas que ao longo da história têm servido de ponto de partida , e fundamento , a toda a interrogação metafísica : Quem sou eu ? De onde venho ? Para onde vou ? O que posso esperar ? O que devo fazer ? Qual é o sentido da vida ? - porque , afinal , essas são inquietações comuns a todos os homens sem excepção , de todos os tempos e lugares . Dir-se-ia mesmo que correspondem , mais do que a uma inquietação , a uma necessidade profunda e intrinsecamente humana . Daí a sua intemporalidade - e a sua recuperação - numa época histórica em que valores , consciências e visões do mundo estão em crise profunda .
Esta necessidade assumiu , nas sociedades tradicionais , a forma de uma modalidade religiosa da existência humana . A história das religiões , desde a mais primitiva até a mais elaborada , é composta por diversas manifestações de realidades sagradas , aquilo que Mircea Eliade denomina de " hierofanias " ; manifestações de algo de " ordem diferente " - de uma realidade que não pertence ao nosso mundo - em objectos que fazem parte integrante do nosso mundo " natural " , " profano " .
Para o homem religioso das sociedades tradicionais , toda a Natureza é susceptível de se revelar como sacralidade cósmica . O cosmo na sua totalidade se pode tornar uma hierofania . O homem das sociedades arcaicas tem a tendência para viver o mais possível no sagrado ou muito perto dos objectos consagrados , " em contacto " com o sagrado , num estado de eterno " encantamento " que pauta a sua relação com o mundo à sua volta e consigo próprio .
Para os " primitivos " , o sagrado equivale ao poder , e portanto à realidade por excelência . O sagrado está saturado de ser , pois significa ao mesmo tempo realidade , perenidade e eficácia . O sagrado funda ontologicamente o real : atribui um lugar e uma explicação à experiência humana histórica e contingente , e dita a sua forma de organização . E é a esta luz que são lidas as próprias mudanças que ocorrem no desenrolar factual dos acontecimentos , assegurando-lhes , assim , coerência e inteligibilidade .
O homem moderno vive , em contrapartida , num mundo dessacralizado , e sente por isso uma dificuldade cada vez maior em reencontrar as dimensões existenciais do homem religioso das sociedades arcaicas . O homem moderno não tem como fundar e ligitimar o seu lugar no mundo , um topos a partir do qual as suas acções possam ser legítimas , significativas , eficazes - numa palavra , reais .
O homem moderno precisa de fundar a sua experiência em algo que a legitime , a oriente e lhe confira sentido . Se não se reconhecem valores transcendentes , que sirvam de instância fundadora à existência humana na sua múltipla e complexa variedade de níveis , domínios e actividades , torna-se impossível qualquer estrutura axiológica e cai-se no relativismo de valores : se não há uma direcção " certa " para a acção ( i.e.,que seja ditada por uma instância superior ao subjectivismo do homem ) , qualquer direcção é boa ou , pelo menos , qualquer direcção " serve " . Se não há um lugar atribuído ao homem por uma instância transcendente , que lugar vai ele ocupar ?
Tentar resolver este dualismo pelo intelecto e pelo uso da razão ( e é essa a principal razão da crise de valores do homem moderno ) não conduz a lado nenhum . Não existe tal coisa como um homem puramente racional ; o que existe , quando muito , é a parte racional de um homem que é também o seu instinto e o seu inconsciente , a parte de si que ainda não veio à consciência e que por isso permanece " enterrada " nas suas profundezas , sem ter como integrar a parte racional do homem , - influenciando-a , no entanto , sem se deixar revelar .


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A Busca do Divino no Homem Ocidental ! Parte 2

Os contributos de Lacan , Freud , Jung e de outros pioneiros da psicanálise vieram aliás " desmontar " a noção da " objectividade " , que o sujeito pensante reclamava para si e cuja legitimidade teria ido buscar ao edifício cartesiano , ao demonstrarem o papel preponderante que o inconsciente joga no psiquismo humano .
O racionalismo que caracteriza a nossa modernidade , profundamente devedora da iluminismo do século das luzes ( a promissora " Aufklarung " ) e herdeira do pensamento grego , não permite abranger a totalidade da experiência humana e não pode ir mais além do que um nível " mental " ou intelectual de compreensão do mundo . Por quê ? Não só pela preponderância do psiquismo humano face ao seu lado " racional " , mas também porque a mente tem , em si própria , o germem da sua própria limitação : é dual , funciona por contraste e por comparação , estabelece relações entre as coisas , mas não tem como subsumir-se à - ou melhor , elevar-se acima da - dualidade . O maniqueísmo ideológico que insiste em classificar definitivamente as coisas em boas ou más , pretas ou brancas , materiais ou espirituais , é uma perversão de uma mente que é redutora porque absolutiza e radicaliza os opostos . Porque para que essa mente possa funcionar é necessário pressupor um princípio lógico de não-contradição : uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo . Racionalmente , os opostos não podem conviver porque se excluem mutualmente .
Ora , sabemos que nada é absolutamente só e apenas essa coisa - verdade recorrente que descobrimos nas conclusões recentes da física quântica ( ao afirmar , por exemplo , que a matéria é simultaneamente matéria e energia ; que a energia assume simultaneamente a forma de onda ou de partícula ; que o facto de haver um sujeito observador influi no comportamento do objeto observado - conhecida , está última ideia , como o " princípio da incerteza " , formulado por Heisenberg ) . Também descobrimos esta verdade no taoísmo , filosofia milenar que postulava o princípio da complementaridade dos opostos ( a coincidentia oppositorum de que fala Jung e antes dele todas as tradições de alquimistas e esoteristas ) . Até ao nível do próprio senso comum podemos encontrar esta ideia - utilizemos duas imagens perfeitamente evidentes para qualquer pessoa : a noite traz em si a semente do dia que começará a " nascer " quando esta atingir o seu auge , e portanto dia e noite são inseparáveis ; não faria sentido eu estar a mentir se não existisse uma verdade que evito e de que me estou a desviar - posso mentir porque há uma verdade que me assegura a mentira . Uma coisa só existe e ganha sentido por referência ao seu oposto . Vemos , assim , como qualquer ideia contém em si o seu próprio oposto em potência e como são inseparáveis .
Mas a aposta feita no racionalismo , acreditar que o intelecto terá o poder de nos revelar a totalidade do mundo e do homem , e assim apreender-lhe a realidade , não é específico do mundo actual - no entanto , o que caracteriza a viragem específica da modernidade é a subordinação da maioria das dimensões da vida individual e da vida colectiva à dimensão produtiva , voltando-as assim a uma definição predominantemente económica da razão ; a própria validação da racionalidade submetida , pois à eficácia utilitária do saber e da acção .
A semelhança do mundo moderno que " cortou " com a religiosidade tradicional instaurando o pensamento racional para chegar à verdade , os filósofos gregos " cortaram " com o pensamento mágico-religioso e místico do Médio e Extremo Oriente que imperava na altura e que , pela sua simplicidade ( estreitamente ligado aos elementos naturais , e sem mitologias , cosmogonias ou divindades elaboradas ) , seria talvez a religião mais " simples " que se poderia conhecer .
Talvez ao edifício filosófico e lógico aristotélico seja imputável parte da responsabilidade por esta " fé cega na razão " , característica da Grécia e recuperada pelos pensadores do renascimento - intensificada até chegar à situação-limite a que o homem moderno chegou ( a própria expressão que empregamos , " fé cega na razão " , traduz bem o carácter da modalidade da experiência humana moderna : substitui-se " deus " pela " razão " que tudo pode - supostamente - conhecer ) ; o edifício aristotélico , dizíamos , pode ser responsabilizado pela crença ilimitada no raciocínio e na lógica , ao afirmar como postulado e condição sine qua non de cognoscibilidade que " uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo " . Parafraseando : se A é A , então só pode ser A e não pode ser não-A . É indispensável que aceitemos que A é imutável , parcial , sempre igual a si mesmo e isolado do resto do mundo para que o possamos conhecer com segurança .
A dicotomia entre " ser e não ser " sempre minou todo o pensamento ocidental desde a aurora helénica ; sempre presente , e por vezes denunciada , como por exemplo no caso da célebre locução de Hamlet : " Ser ou não ser , eis a questão ! " , a resolução da dicotomia ontológica que consistiu na radicalização dos opostos estava irremediavelmente embutida na cultura ocidental : tanto que o ocidente pouco lúcido viria a repetir essa frase de William Shakespeare vezes sem conta , como se revelasse uma verdade filosófica profunda . Afinal , e temos as mais recentes descobertas da física a suportar este argumento , ela não é mais do que um grande equívoco ontológico . Como afirmou o mestre taoísta Lao-Tzu , " ser e não ser são os dois pólos de uma mesma curva " : a questão não é " ser ou não ser " , sim " ser e não ser " . Uma verdade da sabedoria oriental , ensinada ao longo de várias gerações cujos últimos mestres viveram 2000 anos antes do Senhor Jesus , o Cristo .


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A Busca do Divino no Homem Ocidental ! Parte 3

Até agora , dissertámos um pouco sobre a relatividade - a dualidade - de uma mente que para conhecer tem de isolar , de classificar , de dissecar , de proceder enfim por análise , por dedução , indo do mais geral para o mais concreto , e que o homem tem utilizado para afirmar e desbravar os mistérios do mundo . Ora , para perceber toda a complexidade do homem , do mundo e das leis que o regem , há que utilizar faculdades outras que não o raciocínio analítico . Como escreveu Novalis , poeta alemão do final do século XVIII , " a ciência é apenas metade ; a outra metade é a fé " .
O grande drama do homem moderno é não ter valores transcendentes que expliquem o seu lugar no mundo , que dêem sentido à sua experiência , seja prazerosa , seja de sofrimento - e todos sabemos como a parte maior de intolerabilidade do sofrimento vem de não percebemos o seu sentido ( se fôssemos alquimistas , diríamos que o sofrimento é " fogo " no laboratório que é a nossa experiência humana , destinado a alquimizar o que de nós há de mais denso e transformá-lo em algo de mais subtil : sofrendo mas integrando conscientemente toda a experiência vivida , alquimizaríamos o que há de material e instintivo em algo de luminoso e espiritual - a lenta ascensão da consciência humana , ou - simbolicamente - a transformação do " chumbo " em " ouro " ) .
Mas mais importante , e complementar deste quadro de falta de valores transcendentes , é o facto de o homem insistir em substituir a dimensão de sagrado que perdeu por uma razão fragmentária , e torná-la única instância legitimadora de toda a acção e entendimento do mundo ; insuficiente , porém , e como vimos , para apreender a total complexidade do homem total - única via de acesso , e de reconhecimento , ao sagrado . Não há dúvida de que a ciência é um utensílio de valor inestimável , mas tem limitações e não deve ser tomada como a arauta da verdade e da plena realização do homem no mundo : " a ciência deve servir e erra somente quando pretende usurpar o trono ( ... ) é um instrumento da nossa compreensão e só obscurece a vista quando reinvindica para si o privilégio de constituir a única maneira adequada de apreender as coisas " ( Carl Jung ) .
Veremos em seguida algumas das consequências da absolutização da razão no decurso da história , e de como a sociedade moderna é o produto dos critérios racionalistas que o iluminismo nos propôs .
Três consequências exemplares da absolutização do uso da razão .
A identidade problemática !
No início era o Locutor Primodial , porque no início era o Verbo . Quando esse Locutor Primeiro era seguro ( " Deus fala no mundo " ) , a atenção virava-se para o discernimento dos seus enunciados , para os mistérios do mundo . Mas quando esta certeza se pertuba com a pertubação das instituições religiosas que a garantiam , a atenção volta-se para a possibilidade de encontrar substitutos ao único locutor : Quem vai falar , e a quem ? Dizendo o quê ?
E porque perde o seu lugar como sujeito passivo , lugar conferido pela organização de um cosmos , que o indivíduo nasce como sujeito activo , responsável pelo seu próprio destino . Já não se trata de ouvir e decifrar as mensagens divinas - e agir em concordância - , mas de cada um assumir a responsabilidade pela criação do próprio destino , em interacção com os restantes membros da comunidade .
Toda a interacção social é um processo de visibilidade que tem a ver com a teatralização da vida coletiva , onde cada um dos actores é simultaneamente espectador . Os ritos sociais são as regras da teatralidade da vida coletiva , e são tanto mais indiscutíveis quanto mais cada um considerar o seu papel como parte de uma peça ditada por uma instância transcendente , exterior , por conseguinte , ao espaço e a história da colectividade , a partir de um ponto de fuga a partir do qual se perspectivam todos os lugares da cena . Essa instância é o fundamento indiscutível da própria representação .
A identidade e o lugar atribuído a cada um são , assim , relativamente estáveis e ditados desde esse ponto . Tanto o desenrolar da cena como os lugares atribuídos aos actores estão fixados de antemão por uma ordem transcendente , revelada numa temporalidade a-história , sem uma origem nem termo determinados no decurso da temporalidade mortal dos homens , e que se sobrepõe assim ao desenrolar factual da história humana . Por isso se designa como temporalidade mítica , por apresentar o cenário de uma outra representação , a dos deuses , o das gesta fundadoras do cosmos , onde a sociedade dos homens ocupa o centro , ao mesmo tempo que este é o seu reflexo especular e a sua razão de ser .


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A Busca do Divino no Homem Ocidental ! Parte 4

Nas sociedades tradicionais , encontramos sempre a presença de uma narrativa das origens , que tanto atribui um lugar e uma explicação à experiência histórica e contingente como dita a sua forma de organização . São estes mitos fundadores que asseguram às mudanças coerência e inteligibilidade .
Nas sociedades ocidentais , as narrativas das origens que desde sempre serviram de quadro à estruturação de percepção do cosmos e da vida coletiva são os mitos judaico-cristãos da criação .
As versões bíblicas da criação do mundo , assim como as versões eclécticas dos mitos indo-europeus que nos chegam através dos mitólogos gregos , nomeadamente Homero , Hesíodo , e os autores pré-socráticos , formam a herança mitológica que estrutura o nosso imaginário .
A partir do século XVII , o contacto dos povos europes com outras culturas , nomeadamente asiáticas , africana e ameríndias , reforçou o processo de desencantamento característico da nossa modernidade . A Antrolopologia e a Etnologia têm posto em relevo que para além da natureza multifacetada do mosaico das culturas e da relativa convergência da lógica que preside às suas representações míticas , todas as culturas estabelecem um princípio demiúrgico ou divino a partir do qual um quadro estável preside ao desenrolar histórico da experiência contingente da vida humana com as suas múltiplas dimensões e os seus diversos domínios .
A consciência da diversidade dos mitos das origens , das teogonias , é em grande parte responsável pela relativização moderna do fundamento religioso da experiência .
O desencantamento é o processo através do qual a razão humana procura indagar os mistérios do mundo da experiência , tanto individual como coletiva , e aspira a um questionamento autónomo em relação às razões que o quadro mítico lhe oferece , instituindo-se , assim a razão humana em sujeito de saber e de fazer independente do Númen da Palavra mágica originária .
E este processo de desencantamento que fundamenta a secularização observada como atitude nas mais diversas formas de sociedade . Traduz-se , nomeadamente , na emergência de uma nova modalidade de racionalidade , a razão iluminista , enquanto princípio imanente do conhecimento , da acção e da linguagem . A constratar com a lógica religiosa , a lógica da secularização moderna fundamentada na indagação autónoma da razão humana - , esvazia os ritos sociais da sua referência transcendente de legitimação e da consequente estabilidade das normas , para em seu lugar instaurar a experimentação , a observação e o cálculo como modalidade legitimadoras do saber , da acção e da linguagem . A própria necessidade de legitimar é fonte de instabilidade .
A razão humana está , por isso , reservada doravante já não apenas a escuta e a interpretação de uma Palavra transcendente , do Verbo bíblico ao Logos Grego , como processo fundador da legitimidade , mas o recorte de um lugar particular a partir do qual se possa instaurar como sujeito autónomo . É a identidade deste sujeito autónomo que se torna problemática , instável , processo de realização nunca acabado definitivamente na modernidade .
E neste quadro moderno que se assiste à promoção de categoria de sujeito , autonomizado em relação a uma identidade fixa e institucionalmente marcada de maneira definitiva e indiscutível .
Mas no próprio processo da sua produção , o sujeito esvazia-se de qualquer conteúdo substantivo e concreto , relegando-o para um destino movediço e flutuante , nómada , o de um duplo sem modelo fixo . Nasce assim o problema da Identidade . Quem sou eu , agora que já não tenho um " deus " que me diga quem devo ser ?

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A Busca do Divino no Homem Ocidental ! Parte 5

O habitante de um espaço vazio !
Para o homem religioso , o espaço não é homogéneo : há um espaço sagrado e há outros espaços não sagrados , sem estrutura nem consistência . Esta não-homogeneidade espacial traduz-se por uma oposição entre o espaço sagrado-o único que é real , o que existe realmente-e tudo o resto , a extensão informe que o envolve .
Quando o sagrado se manifesta por uma qualquer hierofania , não só há ruptura na homogeneidade do espaço , como revelação de uma realidade absoluta que se opõe à não realidade da imensa extensão envolvente . A manifestação do sagrado funda ontologicamente o mundo . Esta descoberta do espaço sagrado tem , pois , um valor existencial para o homem religioso , porque nada pode começar , nada se pode fazer , sem uma orientação prévia - e toda a orientação implica a aquisição de um ponto fixo e central - o axis mundi . Para viver no mundo é preciso fundá-lo - e nenhum mundo pode nascer no caos da homogeneidade e da relatividade do espaço profano .
Esta experiência religiosa da não-homogeneidade do espaço constitui uma experiência primordial , homologável a uma fundação do mundo . E a ruptura operada no espaço que permite a constituição do mundo , porque é ela que descobre o " ponto fixo " , o eixo central de toda a orientação futura .
Ao habitar , pois , um território , o homem está a consagrá-lo e a repetir a cosmogonia original . O " centro " equivale à criação do mundo , e aí onde o sagrado se manifesta surge uma abertura , uma porta comunicante entre as três " zonas cósmicas " : o céu , a terra e o " submundo " dos infernos . O homem primitivo vive , pois , aí onde há uma " abertura " para o sagrado .
A ruptura mais significativa nas sociedades primitivas situa-se ao nível da fronteira entre o espaço da comunidade ( o cosmos ) , por um lado , e o mundo informe e indefinido dos outros ( o caos ) .
Instalar-se num território implica sempre uma decisão vital , quer para o indivíduo , quer para a comunidade . O homem assume com a reiteração da Cosmogonia a criação do " mundo " que escolheu habitar , e a responsabilidade de o manter e de o renovar : a habitação é santificada porque constitui uma imago mundi e o mundo é uma criação divina . Habitar uma moradia é uma decisão religiosa .
A concepção estética renascentista , em ruptura para com as concepções místicas ( é de referir , a este propósito , a Civitale Dei de Santo Agostinho ) , é distintiva de uma pluralidade de espaços funcionais . A concepção funcional integrou-se no paradigma dominante da organização do espaço habitado moderno , ao mesmo tempo abstracto ( geométrico ) e empírico ( funcional ) .
A revolução Industrial respeitou esta herança moderna do funcionalismo , redefinido a partir da visão eufórica da Luzes dos ideais de progresso de uma razão ilumista . Radicalizou o funcionalismo , aliás , rompendo com a polifuncionalidade que impedia a especialização racional dos espaços - o que viria a dar lugar aos projectos de desconcentração e segmentação do tecido social .
Esta forma funcional e progressista de urbanismo insere-se no quadro da explosão urbana que acompanha o desabrochar da industrialização com o consequente êxodo rural . O crescimento demográfico urbano acelerou a necessidade de planificação racional das novas cidades . A população urbana da Europa passou , entre 1850 e 1970 , de cerca de 20 milhões de habitantes para mais de 250 milhões . Era uma população recentemente emigrada do campo , habituada por isso a uma concepção global e integrada da vida coletiva , contando com os laços que prendem o indivíduo ao grupo , em que todos se conheciam em função de uma história comum e o controle social era exercido à ordem à conservação da produção de uma cultura própria , em que a segurança social perante os reveses da natureza era , por conseguinte , assegurada em virtude de formas de solidariedade concreta e direta .
Os recém-chegados às novas cidades e aos novos subúrbios das antigas urbes , confrontados agora com espaços onde a história coletiva se havia processado sem eles , perdem os pontos de referência que até então tinham garantido o reconhecimento recíproco e assegurado as condições indispensáveis ao desenvolvimento de formas concretas de solidariedade . Ficam assim votados à irrupção de comportamentos anómicos de resposta das disfunções sociais e são atirados para espaços marginais em relação aos centros de decisão e de normalidade . A anomia , conceito cunhado pelo sociólogo Durkheim , refere-se precisamente ao desaparecimento das redes de sociabilidade tradicional e à sua substituição , pelo anonimato , pela alienação , pela marginalização e por uma solidão demasiado insuportável que , como uma orquestra ensurdecedora , conduziram a inúmeros e desesperados atos de suicídio .
O ideal funcionalista atingiu o seu máximo entre as duas grandes guerras , como o arquiteto Le Corbusier apresentado ao Congresso de Urbanismo de Atenas uma proposta dominada pela ideia de zoning - " a cada função e a cada indivíduo o seu justo lugar " . O resultado foi amplamente negativo : monotonia , degradação , fealdade , gigantismo , distância cada vez maiores entre locais de habitação , de trabalho e de serviços , insuficiência dos indispensáveis meios de transporte , solidão e aborrecimento sobretudo nas pessoas idosas , insegurança dos espaços intersticiais cada vez mais voltados à circulação de uma população anónima , criminalização , esvaziamento e terceirização dos centros urbanos .



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A Busca do Divino no Homem Ocidental ! Parte 6

Uma sociabilidade comprometida e sem raízes .
Mais do que qualquer outro invento , o relógio mecânico - cuja invenção data do século XIV - , é o resultado de uma estreita e feculda convergência de conhecimento científico , em particular da astronomia e da mecânica , com o engenho técnico . E esta convergência é já uma das características fundamentais da modernidade , visto indicar a autonomia de uma indagação racional em relação a um saber transcendente e mítico . Daí a natureza escandalosa deste invento e as proibições de que os seus autores começaram a ser alvo por parte da Igreja , como todo o imaginário efabulador que as rodeavam .
Até ao século XIV , havia na Europa duas maneiras de contagem de tempo : o sistema canónico e o sistema dito temporário . O sistema canónico consistia na regulação das horas pelo sino que chamava para os ofícios religiosos , sete vezes por dia , por altura das orações regulares de Matinas ( a meio da noite ) , de Primas ( cerca das atuais 6 horas da manhã ) , das Laudes ( ao nascer do Sol ) , de terças ( pelas 9 horas ) , das Sextas ( pelas 12 horas ) , das Nonas ( pelas atuais 15 horas ) , das Vésperas ( ao pôr do Sol ) e das Completas ( ao deitar ) .
O sistema temporário , por seu lado , dividia as 24 horas do dia em duas metades isócronas , correspondendo o ponto de partida da divisão ao nascer do sol . A distância entre as horas do sistema temporário variava , assim , de acordo com as estações do ano e com a latitude em que nos encontrássemos . Em cada manhã , a tarefa de dividir o dia e de regular o pêndulo comum revestia-se , por conseguinte , de uma grande importância para o ritmo da vida de toda a comunidade , pois dessa função dependia o ritmo dos trabalhos e de todas as práticas coletivas .
A experiência coletiva tradicional é , aliás , pontuada por diversos ciclos : a alternância dia/noite , a secessão das semanas e das estações do ano , etc . Esta periodicidade sem fim , o devir cíclico dos ritmos da vida são associados com a Lua , que controla as águas , a chuva , a vegetação , a fertilidade ... Os ritmos lunares são a medida do tempo e os primeiros calendários são lunares . Da mesma forma , o percurso anual do Sol marca o início de um novo ano e , portanto , a altura de recriar a fundação original do mundo imitando a Cosmogonia fundadora .
A invenção do relógio mecânico e a redução cronométrica da duração do tempo a uma sucessão estereotipada de batimentos uniformes , a uma pura sucessão rítmica de momentos homogéneos , estava destinada a desempenhar um papel fundamental no devir das nossas sociedades ocidentais . Há , inclusivamente , quem lhe atribua a responsabilidade pela viragem na nossa modernidade .
A duração torna-se , assim , graças a este novo dispositivo cronométrico , pura potencialidade , aberta em permanência a toda a espécie de projetos , na medida em que esvazia a temporalidade de toda e qualquer duração concreta de sociabilidade . Não sendo já o tempo de ninguém , o tempo cronométrico e o ritmo que imprime à vida coletiva tornam-se o tempo e o ritmo de toda gente .
Nas sociedades tradicionais , o tempo é vivido como pleno , uno e indiviso . Esta plenitude da experiência do tempo traduz-se na referência do presente aos tempos originários fundadores ,
associados à própria origem cósmica do universo . Situado fora da temporalidade efémera da vida , marcada pela experiência limite da morte ( esta muitas vezes encarada como uma transição e não verdadeiramente um fim ) , o tempo mítico originário assegura , como vimos , a coerência e a inteligibilidade do mundo humano .
A constratar com a concepção una , plena e indivisa da temporalidade que encontramos nas sociedades tradicionais , assistimos nas sociedades modernas a um processo de divisão do tempo , análogo ao que se fez com o espaço . A divisão moderna do tempo apresenta , nomeadamente , as seguintes características : autonomização positiva do presente em relação à memória do passado e aos projetos do futuro , estereotipização dos ritos sociais , estratégia amnésica .
A autonomização positiva do presente equivale à prossecução de uma espécie de processo interminável de libertação do sujeito em relação à memória do passado , encarado como coação às virtualidades de autonomia do sujeito na fruição plena de cada um dos momentos da experiência .
O homem moderno dá prioridade à plena fruição das oportunidades que se lhe abrem atualmente e faz depender dessa fruição a plenitude da sua autinomia e a sua realização pessoal , valores centrais e indiscutíveis da visão moderna do mundo .
Ao contrário do mundo tradicional , que procura o restabelicimento de uma ordem ancestral e transcendente , o homem moderno intervém no presente no sentido de cortar as amarras com tudo o que o impeça de valer por si e fazer eclodir as oportunidades que se lhe oferecem . A racionalidade funcional torna-se , assim , o princípio da ação e da linguagem modernas e estende-se aos mais diversos domínios da experiência , tanto do mundo exterior como do mundo interior . São , assim , relegados para o domínio individual o prosseguimento das funções totalizantes da experiência . Já não contam tanto as solidariedades fundamentadas pela partilha de um território e de um tempo comuns , mas a partilha de projetos comuns autónomos e privados . O encontro e o convívio até podem ser alargados indefinidamente , mas este alargamento faz-se de uma escolha individual de modo a serem privilegiadas a evasão e a ruptura em relação às estratégias que ditam o modo de funcionamento dos processos coletivos .
Numa frase : o homem passa a relacionar-se individualmente com outros indivíduos por afinidades eletivas , formando redes de sociabilidade privadas entre quem partilha de hobbies , interesses e preferências comuns .

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