domingo, 2 de novembro de 2014

" A DOMA DO TOURO "

Os Dez Quadros de Iluminação Através do Zen

8- Diversos Expedientes 

Outros meios propostos são os seguintes :
a) Cânticos dos dharani , de Kirtan ou entoação de mantras ( uma série de palavras ou nomes mais ou menos sem significado preciso , aos quais se atribuem poderes mágicos capazes de ajudar quem os repete em momentos de angústia ) .
Se bem que as inevitáveis alterações dos sons originais retirem um pouco de tal efeito , as transliterações fonéticas de palavras sânscritas ainda são consideradas eficazes quando a recitação é feita com sinceridade e convicção .   Há mesmo uma espécie de transferência das virtudes que sendo apanágio dos seres excelsos ( Boddhisatva ) são invocadas durante a entoação .
Constituem um excelente exercício para treinar a mente e superar as formas dualísticas do pensamento ordinário , pois os dharani simbolicamente expressam , em som e ritmo peculiares , a verdade essencial do Universo , verdade essa que transcende o intelecto discriminador .
A recitação repetida dos sutras ( palavras , aforismas , sermões provindos do próprio Buddha ) destina-se a reforçar a crença nos ensinamentos neles contidos . Decresce a necessidade de cantá-los à medida que a fé se torna profunda e atuante .
Além dos sutras há o vazio por eles apontado , o senso de realidade que pode ser captado , quando a mente penetra no silêncio , no momento previsto sempre como o final adequado para a tripla entoação . Aí vigora novamente o mesmo fenômeno registrado no espaço vazio dos Quadros , se é o desenho despojado que permite à mente conscientizar-se plenamente do significado do espaço em branco e com ele identificar-se , é o silêncio que aponta para o sentido real dos sutras , sempre velado pelas palavras simbólicas .
O objetivo não se altera seja qual for o expediente empregado para provocar tal estado de consciência e suscitar um conjunto de circunstâncias para torná-lo permanente e atuante em quase todos os momentos da vida diária e rotineira . Ele é definido e simplíssimo em aparência e em realidade ; todo o esforço a ser dispendido , toda a constância e persistência exigidas não são mais que um retorno , uma desvelação , um redescobrir do que sempre foi , é e será eternamente a essência , a Verdade do ser humano .
Tratando-se especificamente do Touro , ele jamais fora perdido , jamais se afastara um só instante de seu pastor , jamais se ausentara de seu lar natural . A condição humana , presa ao mundo fenomênico , onde impera a ilusão cósmica da separatividade ( Maya ) , inerente e inseparável da Manifestação Universal , é que impede a integração da pessoa humana naquele derradeiro-inicial e único estado de consciência .


9- A Iluminação  

No momento em que cessa a heresia ilusória da separatividade , da individualização , Touro e pastor , Mente Búdica e personalidade existencial identificam-se , sobrevindo a " Iluminação " e consequente paz , equilíbrio , harmonia e reconstrução kármica .
É o renascimento na carne atual , o fazer-se criança receptiva ao movimento cósmico , enfrentando sem medo transmutação incessante , necessária ao processo de evolução da Vida em todas as suas formas e manifestações .
Terremoto , revolução , implosão , salto abissal , cataclisma , introjecção constituem algumas das designações empregadas na vã tentativa de expressar o inexprimível . Todo o longo e fastidioso preparo anterior , a perseguição e o negacear fugitivo e escorregadio do Touro , o duelo existencial em que a personalidade individualista tende a desistir do embate , deixando assim a Mente Búdica permanecer oculta , em estado latente , pouco manifesta , findam de forma brusca , instantânea , inesperada a irreversível .
Tal surgimento explosivo obscurece de tal modo a fase preparatória , que muitos renegam suas próprias experiências básicas , afirmando não existir graus de realização , enfatizando apenas o eclodir da Luz . Isso contradiz fundamentalmente o processo do desabrochar de toda e qualquer plenitude : a semente resulta do fruto provindo da flor , cujo desabrochar pressupõe o botão originário de uma semente igual à que atualmente contém em si todo o processo da Vida .
Houve , é certo , um longo período de amadurecimento , uma gestação fecundada natural e espontaneamente , uma passagem gradativa para estados cada vez mais refinados de consciência 
Realizada através de árduos exercícios , de direcionamento magistral , de quedas e levantadas ( cai sete , levanta oito ) de desistências e retomadas , de esperanças e frustrações sem conta , tal experiência ( se assim pode ser chamada ) se apresenta no climax tão normalmente natural , tão simplesmente comum , tão explosivamente calma e tranquila , que nada há a registrar , nada a transmitir , nada a vivenciar , nada a prolongar .
É -se assim se pode tentar comparar o incomparável - uma espécie de " retorno à Morada com as mãos vazias " , nas sábias e milenares palavras de Mestre Dogen ( 1.200 a 1.253 ) Nada se traz que antes já não se possuía , nada se acrescenta , nada se perde , nada se ganha , nada se tem . Mas a alegria , a felicidade , a serena autoconfirmação , essas são perenes e irrebatáveis .
" Tudo é irradiação , pura irradiação . Posso agora progredir para sempre , rumo à perfeição em harmonia natural com minha vida cotidiana " .
Assim pôde afirmar , no século XX , Yaeko , a jovem japonesa discípula do sábio Harada-roshi ( Os Três Pilares do Zen - Philip Kapleau ) .
O exemplo de Yaeko Iwasaki é de uma eloquência tão singela , que nos comove intensamente e nos induz a buscar , em seu exemplo , o fundamento de nossa própria realização espiritual .
É importante , porém , salientar que esse estado natural , somente se manifesta depois de um mergulhar nas fontes da Sabedoria Eterna até a identidade completa .
Para os ocidentais é bastante difícil reconhecer que a Sabedoria Oriental oferece maiores possibilidades de compreensão , em profundidade do que seja o homem , a vida e sentir Deus ou Absoluto em si e em todo o Universo .
Os ensinamentos que nos foram legados , apresentam um maior grau de distorção em relação a suas origens do que os provindos das correntes e doutrinas do Oriente , entre as quais a beleza , a harmonia e a coerência predominam . Tal diferença talvez possa ser atribuída aos " intermediários " que não se vexaram de retocar as mensagens evangélicas primitivas , levados pelo radicalismo , obediência aos dogmas posteriores , ou pelo afã fanático de ressaltar a primazia de seus ideais místicos .
Tal fato , se ocorreu no Oriente , não provocou as contradições aparentes encontradas nos textos cristãos . Nos livros básicos da mística oriental não há desajustes doutrinários nem desejo de supremacia ou exclusivismo . O que nos chegou do trabalho milenar dos diferentes compiladores são obras clássicas , coincidentes e coerentes entre si , ainda que crenças , doutrinas , conceitos e valores denotem diferenças superficiais . Não há jamais conflito entre elas , somente diversidade na forma de apresentar as ideias dentro da unidade fundamental do pensamento místico-religioso .
Em todos os sistemas religioso do Oriente , observa-se uma constante : o realce supremo da procura da Luz Interior , cujo encontro é sempre obra única do próprio aspirante . Mestres , guias , literatura religiosa constituem apenas " o dedo a apontar para a Lua " , não o satélite , símbolo usual da Iluminação , a brilhar na escuridão noturna da ignorância .
A imanência divina é o ponto crucial , o fundamento imprescindível , sendo o Transcendente tão indiscutivelmente óbvio , que preocupa-se em defini-lo ou compreendê-lo é malbaratar tempo , esforço e elocubrações em algo que ultrapassa todos os campos do intelecto , da ciência , da vã filosofia humana .
Como as religiões cristãs colocam toda a ênfase na salvação vicarial , o adepto de tais doutrinas não é induzido a levar em consideração a Imanência do Cristo , mas a fazer do " só chegar ao Pai por mim " o fundamento de sua fé . Apesar de intitular-se sempre " irmão em Cristo " , delega sempre unicamente a Jesus todo o sentido universal da divindade humana .
O senso agudo da auto-responsabilidade de fazer resplandecer , em si mesmo e em todos os atos , palavras e pensamentos cotidianos , a Luz existente no próprio interior humano , é a tônica dos ensinos orientais sem nenhuma ressonância entre nós .
A harmonia , a perfeição , a coerência percebidas no taoismo , budismo ,tantrismo , zenbudismo , provém da ênfase colocada nesse aspecto original e inusitado : considerar o homem como um ser responsável por sua auto-evolução espiritual a ser conquistada pelo próprio e estrênuo esforço , devotamento , perseverança , constância e fé em sua destinação cósmica .
A proteção e guia dos Mestres é apenas um acessório utilíssimo , um dos " meios " de conexão com o Infinito . Todos os inumeráveis meios tendem a reduzir-se ou extinguir-se quando o discípulo atinge o ponto de maturação em que se transforma no autor de sua própria iniciação .
Os Dez Quadros fazem parte desses expedientes preliminares , pois contemplá-los , estudá-los com atenção , integrar-se no seu conteúdo é propiciar o fluir do processo natural , que só vai acontecer na maioria dos casos individualizados de Iluminação .
Conhecendo a dificuldade encontrada , em nosso meio sócio-cultural , para obter material didático adequado aos enfoques orientais sobre o dilema do homem , propusemo-nos a tecer comentários sobre esse tema , cuja ideia original remonta a milênios , animando-nos a fazer uma transposição do mesmo para uso local .
" As ideias são de quem as possui em profundidade " . Se não conseguem ser originais é porque " Nihil novi sub sole " . Julgamos preferível bordar sobre assunto de domínio universal a tentar criar banalidades , cujo único mérito seria a discutível e inédita criatividade . Se também as ideias não tiverem sido assimiladas por nós na profundidade necessária a uma transmissão proveitosa , muito o lastimaríamos , pois isso significaria o fracasso de nosso objetivo .
Se pudermos levar algum aluno-leitor a interessar-se pelo real significado transcendente ds Dez Quadros a ponto de desejar conhecê-los melhor , vivenciar intelectualmente seu conteúdo e , talvez experienciar Aqui e Agora o fulgor da própria Iluminação , alcançaríamos o máximo a que podemos esperar em tal caso .


10- Sentido da Iluminação   

Desde a mais remota Antiguidade , a palavra Luz parece ser o vocábulo mais expressivo para definir o supremo estado de consciência humana .
A antinomia Luz-Treva , Dia-Noite , Sabedoria-Ignorância está presente em todos os ensinamentos que tendem a religar o ser humano ao Transcendente , quer os mesmos pertençam ao final do século XX , quer façam parte dos mistérios esotéricos oriundos dos mais recuados tempos da História da Civilização .
Tudo o que sobrevive às mudanças , pertence ao acervo cultural de toda a raça , não sofre solução de continuidade , obviamente é algo inerente à espécie humana , uma herança arquétipa da qual o homem jamais poderá prescindir ou desfazer-se .
Mesmo no campo fisiológico , a plenitude do uso da razão , do discernimento , de todas as funções atribuídas ao cérebro ou à mente é chamada de " lucidez " , termo cognato de luz , de iluminação .
Considerando-se que a palavra Deus deriva da raiz sânscrita " div " , cujo significado é Luz , compreende-se que tentar penetrar nos arcanos religiosos é lidar continua e ininterruptamente com o nome Iluminação .
Todos os conceitos a ela ligados , provindos de egípcios , hindus , assírios , babilônios , persas , judeus , tântricos , cristãos , sufis , islamitas , mantém sempre a oposição Luz e ignorância , essa simbolizada pela treva , o estado do homem alienado de sua predestinação cósmica . Falamos em " conceitos " , mas tal não é nosso verdadeiro objetivo . Ao que visamos , é ultrapassar todo e qualquer conceito , mesmo aquele portador de uma conotação sublime .
Iluminar-se é impregnar-se totalmente do significado intrínseco , imanente da Luz . É nela imergir da forma tão profunda e integral , que não reste mais nenhuma brecha , nenhum resquício de separatividade , nenhum movimento mental a proclamar a identificação , ela mesma .
A menos que a Luz se torne o leit motif , a base e a estrutura da própria Vida , o homem não será completo , não terá atingido sua perfeita e verdadeira condição divina .
O florescer consciente na Luz implica um enraizamento anterior na ignorância . Só está em condições de " conhecer-se a si mesmo " quem saiba o que é treva , essa ignorância sem começo porque é o próprio cerne da Existência Cósmica . Seu fim , entretanto , depende exclusivamente da " percepção da Verdade Inata " .
Por que vamos repetir que a ignorância não teve início ?
Ela é o " estado falsamente natural " do homem , que nela vive mergulhado desde seu primeiro surgimento em forma corporal e continua ainda apesar de já haver vivenciado inúmeras existências terrenas . Libertar-se da treva é sua tarefa primordial , sua participação no Plano Divino concernente à raça e ao Planeta .
Labor aparentemente fácil e possível de ser realizado por todos , porém tão ignorado , tão diminuído em face das contingências materiais , tão insignificativo para a imensa e esmagadora maioria , que parece sempre uma temeridade bater sobre essa tecla .
" Através da experiência , a criatura transcende " , ensina Bhagwan Shee Rajneesh , buscando mostrar que somente os seres capazes de aceitar a Vida total , com seus erros e maldades , seus desvios e recaídas , seus vícios e misérias para deles extrair a pureza e a inocência virginal como uma transcendência do ser, jamais como uma imposição sócio-religiosa , ou um bloqueio , uma supressão antinatural pronta a explodir tal uma caldeira inaptamente graduada , atingem a Luz .
Não há , diz o Mestre hindu , nenhuma beleza em ver a Luz quando é dia . " Há beleza também , se , na mais trevosa das noites , teus olhos , já treinados para a escuridão , conseguem ver o dia ali oculto " .
" Se tu mesmo , afirma o Tantra , aceitando teus desejos até que , com a aceitação , sobrevenha a ausência de desejos " .
Completando esse aforisma tântrico , o sábio acrescenta : " E quando se súbito , chega um momento em que , aceitos totalmente , os desejos naturalmente se vão , há uma inesperada e inevitável Iluminação . De súbito , sem que nada tenhas programado , acontece " a maior dádiva que esta existência pode oferecer " .
Não se trata de um ajustamento aos padrões sociais , mas de uma total transformação , um estar pronto e apto para a harmonia com o Cosmos .
Somente quando a Luz interna começa a arder , o Iluminado pode iniciar seu trabalho junto aos outros homens , pois seu auxílio flui espontânea e oportunamente . Torna-se então " como uma flor desabrochada , dela o vento colhe a delicada fragrância para espalhá-la suavemente sobre a Terra " . Verdade Inata , a Luz não necessita ser buscada , trabalhada , criada , acesa , revelada , desenvolvida . É algo que o homem já possui dentro de si mesmo em sua total plenitude de fulgor , beleza e perfeição .
Ninguém se transmuta em Luz ; ela estava continuamente a brilhar no âmago do ser , oculta pelos véus da ignorância , pela ânsia de vida material , de ação , de glória , de permanência no conhecido .
O fundamental é a afirmação de que " já sou perfeito " . A Iluminação está ao alcance de todos . Aqui e Agora , não demandando tempo de espera , nem exercícios , nem sacrifícios , nem oferendas ou pagamentos Kármicos de qualquer espécie , nem afã ou interesse demasiados ou ansiedade , produtores de perturbações emocionais e permanência nas trevas .
É uma receita tão simples e fácil , que sua prática , sua aceitação plena , sua experiência integral repugnam a maior parte dos viventes . Preferem os ensinamentos clássicos , tradicionais , herança de um passado eivado de temor , de dogma , de ritos complicados e absurdos , de ideia de pecado e reparação distanciada no tempo e no espaço , da salvação vicarial , o fluir de um processo lento de semeadura e colheita , de transformação progressiva , com todas as prováveis reincidências ao oferecimento de uma eclosão súbita , de um despertar repentino para uma situação pré-existente desde sempre .
" A Luz está em ti , deixa-A brilhar " murmuravam os hierofantes egípcios aos ouvidos dos preparados para a recepção do esotérico ; do defenso aos satisfeitos com sua própria escuridão .
Os quadros do Touro objetivam sobretudo tornar viável este momento de implosão luminosa . A afanosa busca , a luta , o apascentar são o prelúdio a anunciar o instante imprevisto e repentino em que a Luz dissipa a treva , a Verdade , face a face com a ignorância , fá-la findar sua aparentemente interminável identidade com o ser humano .
Apesar do característico e essencial aspecto súbito do ato iluminatório , a retirada do véu da ignorância só pode ser concebida como um processo a fluir através do tempo . Esse termo apresenta aqui uma conotação extensíssima , uma abrangência de todos os eons , que compõe uma respiração cósmica , um dia de Brahma , o período compreendido entre uma determinada exalação vital do Universo e sua posterior inalação na Fonte Primordial donde haviam sido emanados .  
Relatam as escrituras secretas que um ser humano realmente integrado na Plena Luz do Vazio , um genuíno e total liberado da dualidade existencial tem o poder de realizar sozinho tal cometimento sem esperar que toda a Vida Manifestada em um Manvantara seja reabsorvida em seu Princípio Cósmico . Parece , no entanto tratar-se de casos extremos . Quando tal possibilidade é aventada , segue-se sempre um aviso sobre a inter-relação inseparável de Prajna e Karuna ( Sabedoria e Compaixão ) .
A Compaixão pelo estado de ignorância dos demais seres viventes , obstáculo a ser superado para que haja a identidade com a plenitude da Luz Única e indiferenciada , impede que isso aconteça . Retido por Karuna , o liberado em vida permanece como orientador e guia dos caminhantes em atraso , apesar de ter consciência de que não há nem jamais houve caminho , nem caminhante , nem caminhada nem meta alguma a atingir.
A Mente Búdica , nele e em todos os seres universalmente viventes , sempre foi , é e será de luminosa pureza , perfeita , absoluta . O equilíbrio harmônico entre Compaixão e Sabedoria é tão intenso , que não empalidece Prajna , mais a impregna totalmente , tornando uma impossibilidade cósmica uma saída individual da Roda de transmutações e também do Nirvana , que lhe é inerente .
Assim se percebe que o processo de Iluminação é ilimitado e infinito não só em sentido temporal-espaço-causal , como também em graus de profundidade e extensão .
Sonhar com a Iluminação repentina sem o anterior e básico treinamento é uma utopia somente alimentada pelos ineptos e débeis candidatos a um sucesso sem esforço , tenacidade e concentração . Toda a atividade criadora do Cosmos é um desmentido formal a essa expectativa não prevista por nenhuma doutrina oriental entre as inúmeras , cujo postulado máximo é a experiência da autoconfirmação búdica . Não se deve confundir o clímax de um processo lento e gradual com a inexistência ou não necessidade de um aprendizado , que nele deve ter não um fim absoluto e impossível , mas um deslumbrante , inolvidável , marcante momento de expansão , extraordinariamente revelador de um estado até então desconhecido .
A enorme diferença existente entre a vivência experiencial direta e inconfundível da Iluminação e os anteriores e precursores estados de consciência até então , sentidos pelo agora possuidor da plenitude da Luz é que impele a caracterizar tal instante sublime e , raras vezes repetido , como um abalo sísmico não previsto não programado , não ensaiado Porém , os terremotos podem surpreender os desavisados seres humanos que afrouxaram cada vez mais seus laços com o meio circundante ; aves , peixes e outros animais , bem mais sensíveis que os próprios sismógrafos , sentem e manifestam que a gestação telúrica chegou a seu término , e o fenômeno vai ocorrer com toda a sua terrível e brusca subitaneidade .
" Não há graduações na Iluminação . Desde que chega , aí está . É como saltar para um Oceano de sensações . Tu saltas ; tu te tornas uno com ele , como uma gota que tomba no Oceano , com ele se torna una . Mas isso não quer dizer que conheces todo o Oceano " .
Assim fala Bragwan Shree Rajneesh o guru de Poona . Tal explicação , em sua clareza concisa , vale por um tratado acerca do processo de Iluminação após o ato confirmatório . Elucida sobre a totalidade experienciada no instante justo da extinção do ego , condição sem a qual não existe findar da ignorância .
Aliás , esse sábio Mestre contemporâneo salienta a diferença básica entre os dois pontos da dicotomia existencial : a ignorância não teve começo , mas é passível de término . Por ser a característica básica de separativa dualidade cósmica , a ignorância é decisiva para manter em movimento a própria Manifestação Vital , pois sem Maya , o véu ilusório básico da separatividade entre os diversos e o Uno , não haveria experiência existencial , inerente que ela é do mundo do nome e da forma .
" A Iluminação , ao contrário , tem um princípio , mas jamais finda " . O autor da tão importante afirmação enfatiza ainda ser o ponto perigoso do magno e misterioso evento o instante crucial em que as duas oponentes misturam-se , confundem-se , unificam-se , isto é , " ambas são uma " .
Esse ponto entrelaçado possui então duas faces em oposição simbiótica : uma voltada para a ignorância sem princípio , a outra encarando o começo da infindável Iluminação , ambas unidas num derradeiro e definitivo nô , pois a existência da Luz nascitura marca o extinguir irremediável e fatal da treva . Parece-nos muito importante conhecer a probabilidade desse momento , fugaz e único , em que o faiscar da Iluminação , até aí embrionária , se produz de forma súbita , explosiva , total .
Ser definitiva e interminável é o paradoxal absurdo e o insolúvel mistério da Iluminação , cuja natureza e presença consciente provocam compreensão , paz equilíbrio , harmonia , perfeita sanidade e sintonia com o ambiente , em lugar do desespero e desilusão que seriam de esperar em tal circunstância e em face da condição humana sempre ávida da conclusões , de recompensas eternas , de celestiais fins .
Iluminado em plenitude , o ente humano " sabe " e " Saber " é conscientizar-se do mistério insolúvel e infinito sem nenhuma esperança de decifrá-lo , é admiti-lo como definitivo , é chegar ao extremo limite do intelecto , é atingir a compreensão pela ausência natural de pensamentos , é a identificação da personalidade total com o mistério total pela aceitação plena do mistério da Vida , é mergulhar num abismo sem fundo não através da mente , mas sim da totalidade do ser .
É o início sem fim , é a abertura sem fechamento , é o contínuo AVANTE a apontar para uma participação cada vez mais intima , mais exclusiva , mais existencial , tanto mais atraente e misteriosa quanto mais o ser sabe que , alcançando a Iluminação , jamais a atingirá em plenitude e onipotência .
Atingir um estado luminoso de consciência é estar face a face com um novo estado até então insuspeitado , imprevisto , improvável e jamais conclusivo .



Texto : do livro A Doma do Touro ( RAMANADI )
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" A DOMA DO TOURO "

Os Dez Quadros de Iluminação Através do Zen

11- Caminhos da Iluminação 

Há inúmeras formas ou meios de tornar-se Iluminado e assim ver simultaneamente extinguir-se a ignorância , raiz de toda experiência vital dos Universos e do sentimento de separatividade , que individualiza e egocentriza as forma viventes .
Vencer a dualidade é atingir a transcendência , é conscientizar-se da unidade da Vida , é integrar-se no Todo , sabendo com todas as partes do ser , que é o co-participante e herdeiro da Luz Inata .
Não há padrões mágicos para atingir-se tal estado de consciência . A Medicina proclama que não há propriamente doenças , mas doentes . Também os Mestres julgam que cada ser humano é um mundo particular , um centro do Universo . E daí se infere a validade do axioma hermético : " O centro está em toda a parte e a circunferência em nenhures " .
Por ser o exclusivo centro de sua intransferível Iluminação , cada um deve auscultar suas próprias aspirações , seus ideais , suas possibilidades e capacidades reais a fim de que o caminho escolhido seja verdadeira e seguramente o seu .
Por mais maravilhosa que seja a Trilha seguida por um Iluminado , ela lhe pertence tão completamente , que não poderá jamais ofertar ou compartilhá-la com outrem , mesmo com o discípulo mais amado .
É por esse motivo que se ensina ser o genuíno guia o apontador do Caminho , o alento nos momentos de crise , o incentivador de seu aluno . O modelo , o é somente como alguém capaz de perscrutar , a fundo , a alma do discípulo , avaliar suas legítimas potencialidades na ocasião , vigiar seus desfalecimentos , dissipar suas dúvidas . Não é um programador de robôs , nem o estêncil do qual o mimeógrafo extrai " n " cópias idênticas xeroquizadas .
A atuação do mentor , por mais direta que pareça aos olhos do discípulo , é sempre a de uma mãe que coloca suas mãos ao redor do corpo do filhinho , mas o deixa aprender a caminhar apoiado unicamente em suas frágeis e bamboleantes perninhas .
Um ato natural deve ser desempenhado naturalmente por quem o deve efetuar sem ajuda O apoio fictício é necessário , muitas vezes , para que o pequenino se sinta seguro , amparado pelas mãos capazes de prever e evitar a queda inibidora de novas experiências . Essas lhe pertencem , são o privilégio e a herança da raça , devem ser realizadas na hora oportuna ; exatamente como o eclodir da Iluminação .
Há uma gravura antiga muito expressiva , que exemplifica visualmente o presente postulado . Representa uma alta montanha , cujo topo resplandece de Luz branca e ofuscante . Há várias trilhas e atalhos contornando-a e ligando algumas partes do trajeto até um determinado ponto já bem próximo do cume . Até aí , os caminhantes realizam a escalada em trilhas diversificadas , representativas dos ensinamentos das diferentes doutrinas praticadas no Planeta . Ao atingir o citado ponto , há uma convergência de todos os atalhos e um só caminho leva os que o atingiram , ao cimo iluminado , como se fossem afluentes provindos de lugares diversos para desaguar em um mesmo rio .
É a tomada integral da Luz que faz com que os praticantes de todos os sistemas e cultos demonstrem uma identidade completa ao impregnar-se do sentido profundo e divino de sua fé agora lúcida , despida de personalismo egoísta , de vanglória , de sentimentos de superioridade e de elitismo . É ela , é a fé que lhes permite compreender que a beleza , a harmonia , a perfeição , a Luz são o denominador comum a unir todas as religiões dignas de assim serem chamadas por provocarem a união , o religamento à Fonte Original universalizada e divina .
A coexistência pacífica , o ecumenismo leal , a aceitação plena da diversidade na Unidade fazem de um Buddha , um Cristo-Jesus , um Maomé , um Ramakrishna , um Inayat Khan , um Francisco de Assis , um Tomás Merton , um Mestre Eckart , um D. Suzuki um vero Enviado Divino , aquele que vem trazer a Verdade , acender a Luz em si mesmo e irradiá-la para todos os Homens , naqueles que podem ostentar , em sua humildade modesta e sincera , honesta e genuína o H maiúsculo antes do nome indicador de sua condição existencial cósmico-terrestre .
Cristãos comungando a hóstia-pão e meditantes unificados com a Consciência Cósmica durante a Meditação se equivalem em termos de fé e realização espiritual . A diferença é marcada pela capacidade individual de poder ou não desligar-se de intermediário e de rito tangível entre a própria pessoa e a Luz , o que se liga a uma série de circunstâncias kármicas , ao grau de evolução conquistado através de inúmeros renascimentos , ao meio familiar e social , a predisposição inatas , ao desejo de apoio inter-humano , ao temor de heresia e até à preguiça mental .
Todos os sistemas religiosos admitem a possibilidade devocional da entrega do ser ao Mestre ( Bhakti Yoga ) como um encontro unificador com a Base Divina , precursor do estado máximo da consciência em que o Princípio Divino é procurado e achado interiormente . Os ensinamentos da Terra Pura contém , ao lado dos preceitos iluminatórios de Buddha , a crença no encontro da libertação por meio da recitação do mantra Amida Butsu .
Baseiam-se os seguidores de tal seita no cumprimento de uma promessa formal de um Dhyani Buda ( Jina ) que jurou só atingir a Perfeição Suprema depois de libertar consigo todos os seres que O evocassem . Como naturalmente é Perfeito , sua promessa deve continuar válida .
Óbvio é , entretanto , que nosso estudo se relaciona inteiramente com o despertar da intuição discriminadora ( conhecimento intrínseco da realidade última - Jñana ) através da qual se pode transferir o centro de gravidade do mundo manifestado para o próprio coração do homem .
É o apontar direto para sua natureza intima , para o centro onde a tomada da Luz implica uma visão realística final do relacionamento homem-Cosmos , uma nova ideia do que seja participar do poder de manifestação e um desfazer-se da confusão reinante entre tal poder e a Base Imutável .
Apesar de o calcar sobre os comentários relativos à conquista do Touro , nosso ensaio visa a realçar o ponto comum e inseparável de todas as doutrinas ocultas tão difundidas no início da Era de Aquário : a ênfase sobre a revelação da Luz Interior .
Atingir , viver , saber e ser Gota no Oceano da Luz ( conhecer-se como Imanência Divina ) , com plena certeza de que há o Oceano a considerar em sua Totalidade Transcendental , é ser Iluminado de sua própria Luz e captador da Luz Cósmica Única .


12- A Unidade no Diverso    

" Só Shiva é Guru " . " Todos os seres viventes são aptos para a kulachara " .
Que palavras´chave de extremada sabedoria e ânimo consolador !
Saber de uma tal possibilidade é perceber e sentir a esperança de algum dia infalivelmente chegar à Iluminação implícita nas duas proposições .
Quem ou o que é Shiva ? Ao familiarizar-se com o sentido dos termos sânscritos , o aluno compreende que somente os termos da Absoluta Realidade lhe podem ser atribuídos , Shiva é Aquilo , o Imutável , o Incognoscível , o Uno , a Testemunha , Brahmam , o Todo-Poderoso . São apenas nomes inadequados , imperfeitos , incompletos , humanos tentando designar o Inominável .
Assim somos obrigados a fazer , pois nos movemos dentro do Universo Manifestado , que é , em si mesmo e em cada um de nós , Verbo , Som , Vida , Mutável , Conhecido , Isso .
O Todo-Poderoso ( Shiva ) é impensável . Para poder ser pensado é necessária a implicação óbvia de Seu Poder ( onipotência volitiva ) a Mãe dos Dez Mil Nomes ( Shakti - Fogo Criador - o Espírito Santo ) . " Os dois tal como são neles mesmos são UM " .
Mas nós , em nosso Universo dual , não temos condições de conceber o aspecto estático da Realidade Ultérrima sem seu aspecto de movimento , sua inteligência ativa . Somos parte ínfima dessa Manifestação Vital , nela vivemos , atuamos , pensamos , nos movemos É dela que nos vem a Energia e a forma humana , é com ela , nela , através dela que podemos ir além do pensamento material e chegar ao limite extremo , ao domínio da Impensável Imutabilidade Onipotente , do Todo do qual tudo pode ser retirado sem que sua Totalidade seja tocada .
Atingir a Iluminação é libertar-se do poder da limitação ( Maya ) , da ignorância da natureza real do Todo-Poderoso , sempre associado a seu poder de Manifestação , a sua Shakti . É a Identificação máxima e perfeita com a Fonte , o reabsorver-se , reintegrar-se no Imutável Todo , restando então a única Realidade .
Afirmar que Shiva é o único Guru é reconhecer e confirmar o ato final da Iluminação , o incomparável , perfeito , supremo contacto com o cerne em que todos os ensinamentos , todos os mestres , todos os " dados " tornaram-se supérfluos , dispensáveis . É o coroamento do longo processo de evolução centrípeta durante o qual a criatura se debateu em incertezas , desviou-se reintegrou-se , necessitou vitalmente da presença , assistência , ensinamentos , vigilância de um guia espiritual , humano ou intuído ( astral ) .
Anunciar também que , a todos os seres viventes , está destinada tal realização é a mais sublime esperança e certeza que podem ser despertadas em nossa existência , cuja tônica é a falta de discernimento de seu verdadeiro ser , de sua essência final , de tudo quanto a recobre e oculta .
O mistério dos mistérios é essa contingência cósmica em que o ser humano se encontra e permanece mergulhado por Kalpas imensos . A razão do aprisionamento no ciclo contínuo de nascimentos e mortes terrenos , na indiscriminação e na ignorância do Princípio só é do conhecimento do Misterioso dos Misteriosos .
Toda e qualquer especulação a esse respeito representa perda , desgaste inútil de energia . Tudo o que nos é dado saber é da possibilidade de transcender da atividade , de " forma particular do Ser " e retomar nosso genuíno e perfeito estado do Ser em si mesmo , de Repouso ( Vazio ) .
O escapar da dualidade , por incrível que isso soe a nossos ouvidos incrédulos , é realizável em vida terrena . Muitos são os que alcançaram tal estado de consciência . O interessante é que tais " compreendedores " da Verdade Suprema apresentam , entre si , um elo de ligação : todos , sem exceção , místicos ou não , ocidentais ou orientais , pela meditação bem efetuada , pela fé expectante , pela força de vontade chegaram ao mesmo estado natural de compreensão simples e espontânea .


13- Os Obstáculos    

Todos também experimentaram uma dificuldade insuperável ao tentar traduzir em palavras esses estados íntimos .
Não importa qual seja o caminho trilhado , sempre a descrição , apesar de todos os seus inúmeros pontos comuns , idênticos , é decepcionante para quem ouve o relato desses estados . Dizer que atingiu a " tranquila serenidade da alegria indizível " não satisfaz nem ao relator que imediatamente acrescenta " não é só isso " , há algo mais inexprimível , imensurável . Há , no entanto , uma ressalva feliz : um Mestre verdadeiro percebe e confirma ao discípulo que ele é um Iluminado autêntico . Para tais guru , cada discípulo é um caso à parte , exigindo toda a atenção e devotamento de seu instrutor .
O método varia de Mestre para Mestre , mas subentende sempre um período de isolamento durante o qual o discípulo deve encontrar-se com seu próprio Ser , buscando , ou deixando de fazê-lo , a aprovação ou confirmação após o término de sua Meditação solitária .
Existem vários estados preliminares ; o discípulo é incentivado a ir ainda mais além apesar de ter tido a impressão de haver atingido o objetivo magno .
Mesmo no Zen , os exercícios preparatórios podem prolongar-se por longos períodos , dependendo sua duração do próprio aspirante . O momento da Iluminação , voltamos a insistir , é sempre eclosivo e abrupto . Independe de todos os preparativos , alguns dos quais são bastante originais , senão excêntricos e , às vezes , bem longos .
No Budismo tibetano , o candidato é submetido a uma série de provas iniciatórias programadas por seu Mentor . Indagado como justifica tal paradoxo , o Mestre simplesmente dá de ombros , alegando que tudo não é necessário , pois tudo deve ser abandonado como inútil e improfícuo no momento em que o praticante , deixando a sós consigo mesmo , penetra no imo do próprio Ser e então passa a iniciar-se sozinho , sem o auxílio de nenhuma muleta .
O despertar verdadeiro apresenta semelhanças com o insight descrito no processo ensino-aprendizagem normal . O professor oportuniza todos meios cabíveis ao caso , cria situações propícias , utiliza material variado , mas quem experimenta o " Estalo " indicador de que houve mudança no padrão de comportamento ( sinal de aprendizagem efetiva ) é o aluno . Ninguém aprende por ninguém . Cada qual é o único agente de sua educação .
Temos continuamente necessidade de apelar para metáforas , comparações , símiles para procurar explicar o que seja o pleno desabrochar do Ser .
Isso é bastante temerário e perigoso , assim o reconhecem todos os instrutores antigos e atuais .
Os discípulos têm a tendência de " agarrar o dedo que aponta " e não olhar a Lua . A dependência do Mestre , mesmo ao mais insignificante instrutor , se torna danosa e impede o progresso de ambos .
Outro obstáculo surge no aparecimento de certos estados de percepção paranormal , manifestados durante a Meditação e que , em si mesmos , carecem de significação , nada adicionando ao processo de auto-iluminação .
É evidente que nos movemos em um mundo povoado : cada criatura humana , constituindo uma unidade-síntese em si e por si mesma , não sobrevive o convívio , o auxílio , a interação cooperativa de seres de sua espécie . O " Inferno é o outro " , proclamou Sartre , pois como ninguém , ele compreendeu que o espelho de outrem nos mostra nossa verdadeira face , a que , muitas vezes , abominamos e não desejamos ostentar sem para nós próprios .
Todos os espiritualistas ampliam seu universo humano , admitindo a existência de seres viventes atuando em mundos ou planos paralelos , alguns imbricados totalmente no nosso plano físico .
Esse ato de existir não se limitará a uma observação telescópica ou microscópica daquilo que lhes for permitido ou possível perceber em nosso ambiente . A interferência também é uma possibilidade admissível em circunstâncias propiciadas pelos seres viventes terrestres.
O estado de Meditação é , sem dúvida alguma , uma dessas situações peculiares .
Visões luminosas , cores de fulgurações diferentes em tom e intensidade do espectro habitual , aparecimentos de seres benévolos , sons variados , suaves , estridentes , melodiosos ou não podem ser , entre outras manifestações menos agradáveis , percebidos pelo praticante . 
A estes chamados poderes ( siddhis ) se ajuntam as imagens fantásticas emanadas da própria mente do discípulo incauto ( animismo ) , desejoso quase sempre de intensificar ou provocar fenômenos extra-sensoriais . " Imaginazione " , alertava Ouespenky , ao escutar o relato de tais experiências . Se algumas provêm realmente de um universo paralelo , a maior parte se origina na fantasia criadora , desenfreada , às vezes , do praticante desavisado .
Não nos esqueçamos , porém , de recordar o que é afirmado em alguns tratados ocultistas : " Nada é pura ficção , pois tudo o que perpassa pela imaginação humana é apenas um reflexo de algo , uma réplica existente em outro plano formal não denso " .
Se assim é , o que convém aconselhar é o seguinte : o praticante não se deve deixar empolgar nem seduzir pelo fenômeno , o qual se esvaece e dissipa em seguida , caso não seja bem acolhido e alimentado pela mente consciente do aprendiz .
Em que termos nos cumpre cortar radicalmente ou desautorizar tais informações feitas de boa fé e que talvez marquem o estágio probatório vivenciado pelo discípulo ? É uma pergunta para a qual nos falta a adequada resposta .
Procuramos somente contornar e refrear o exagero prejudicial , mas nos guardamos bem de tudo condenar , por que quem jamais pode verdadeiramente penetrar na consciência alheia e demarcar os limites entre uma experiência meditativa de ordem superior e um simples exagero de uma imaginação criativa ?
Somente podemos julgar e avaliar o que sentimos e provamos , deixando aos legítimos e sábios instrutores o poder de decisão final . O que nos compete , em tais casos , é controlar os ensinamentos propostos , talvez não inteiramente adequados ao nível das pessoas que de nós se acercam para receber instruções básicas destinadas a auxiliá-las na procura da sua própria Luz Interior .
Aí a humildade e a auto-análise rigorosa e objetiva do professor devem estar vigilantes . Evitar que as metáforas usualmente empregadas se transformem em falsas experiências concretas , muitas vezes absurdas ou irrealizáveis , é nosso dever primeiro .
Sem magoar ou criticar acerbamente , com paciência e jeito , talvez possamos contornar o excesso de fantasia , o personalismo exagerado , mostrando que um símbolo não é a realidade abstrata .
É um elo ligando o pensamento objetivo a sua outra face imaterial , é o apoio visível para o invisível .
Na realidade abstrata não há produção de sons , luzes , imagens , projeções , os quais fazem parte integrante do plano fenomênico , do universo egóico que deve ser ultrapassado , se houver a intenção de fazer fulgurar a Luz Interior , não nela permanecer , usufruindo suas manifestações agora dispensáveis em confronto com o fim em vista .
Também Luz Interior , adverte o Bhagwan , constitui " um símile poético " , uma outra metáfora para o Indizível . Por não dispor de outro meio a não ser a " poesia religiosa " , temos de contentar-nos em transmitir o intransmissível , nomeando este estado transcendente de Luz Inata , Infinita , Eterna ou ainda , no pleonasmo reforçador , de Luz Divina .
Não é possível impedir que , em face de certos movimentos inéditos , o candidato pense que já atingiu todos os degraus , sinta-se Luz . Aí entra o aviso de bom-senso , a chamada à vida concreta , a orientação segura a indicar que a transfiguração , quando parcial , é intelectualizada , produto da mente . Convém acalmar o vôo da imaginação , esperar que exista na experiência não somente a autoconfirmação almejada , como também a fase de disciplina espiritual transparecendo , impregnando todos os atos da vida quotidiana .
À exaltação , mesmo a genuína , deve seguir-se a busca intensa que conduz a " permanecer em pé no alto da montanha em perfeita harmonia e completa solidão " ( Kevalya ) até obter a segurança interior , prenúncio do ideal de trabalhar para salvar todo ser humano , sem o mínimo anseio de aplauso , complacência , reconhecimento de mérito ou satisfação própria .
É então que-enfim-Shiva é o único Guru .
O Mestre humano ou astral desaparece ; seu lugar é agora ocupado pela Voz Interior , a " luz do único Mestre , a única , eterna Luz dourada do Espírito " , isto é , a própria Luz do candidato .
Assim fala a Voz do Silêncio : " Vê ! tornaste-te aluz , tornaste-te o som , és o teu Mestre e o teu Deus . Tu próprio és o objeto da tua busca . . . "
A consciência plena dessa experiência jamais deve ser objeto de relato confidencial ou público . É tão maravilhosa em sua integral transcendência , tão cósmico-pessoal , tão intensa e tão absoluta , que comunicá-la a outro ser humano é retirar-lhe a sublimidade .
Alvo de chacota , dúvida , comiseração , suspeita de desequilíbrio mental , a afirmação torna-se falsa , ridícula , incompleta , inoperante . . . 


14- A Solidão Construtiva 

A solidão do instante supremo é inseparável do secreto , do mistério que ele encerra . O fato dos circunstantes o reconhecerem ou deixarem de fazê-lo é totalmente irrelevante . É , para quem o vive , o grande momento impartilhável . Até o espelhar-se no outro , para certificar-se de sua humana , não oferece mais o mínimo interesse . Até então dependíamos dos outros para que eles autenticassem nossas tentativas bem , mal ou parcialmente sucedidas no Caminho que sentíamos estar a percorrer . Doravante até isso é abandonado como inutilidade ou empecilho .
Não se cogita , é claro , da solidão-espantalho , que apavora e deprime as almas imaturas , ainda incapacitadas ao confronto com elas mesmas , com receio de detectar a imperfeição reinante no âmago de sua realidade .
É a solidão-chamamento para a consecução do instante da plenitude da Luz . Por ele , com ele , para ele , a vida terrena com todas as suas implicações e ausência de sentido , seu absurdo irremovível , sua imposição a um existencialismo pragmático , ao hedonismo revela-se o que verdadeiramente é : uma maravilhosa aventura , uma busca incessante , um episódio único no desenrolar do drama cósmico , do qual cada ser é um participante insubstituível , um protagonista sem doublé , um ator , um diretor e espantosamente o próprio autor .
Consciente de seu papel , entregue a seu desempenho com uma visão agora inteiramente diferente , impessoal , o homem-espectador não mais se inquieta , angustia ou desespera . Não mais formula perguntas irresponsáveis , não mais se julga marionete , robô , um amaldiçoado .
Sente-se como a onda , sem a qual a existência do Oceano seria um despropósito . Na crista da onda ou em seu movimento descendente , entrega-se à Vida Una sem preocupar-se com o fluxo e o refluxo . Com eles se confunde e identifica de forma tão completa , que o Universo é sua pátria , o Cosmos , sua verdadeira dimensão , o Um , seu destino e sua eternidade .
Os ensinamentos da Nuvem Branca , atribuídos pelo Bhagwan ao próprio Buddha , apontam , de forma insofismável , para este estado natural de plenitude do existir : flutuar , deixar-se levar pelo vento sem revoltas inúteis , inquirições sem respostas viáveis , embates perdidos de antemão . Vogar ao sabor do vento é modelar a vida diária sem tensões , sem desesperos , sem bloqueios , sem frustrações , sem complexos de culpa , permitindo-se que a Verdade essencial do Universo , que se situa além do domínio do intelecto discriminador , jorre no indivíduo .
O Universo jorra jovialmente sem propósito definido a não ser a Vida , o existir perpétuo em causa , tempo , espaço , perenemente transmutáveis em novas energias até a inevitável reabsorção na Fonte onde desaparecem todos os conceitos de causa , efeito , tempo , espaço . " Esse jorrar jovial " encerra o mistério maior : é aí que se pode buscar o sentimento de alegria de viver sem cogitar de encontrar um sentido onde não há sentido algum , uma finalidade prática no que escapa a toda medida humana , uma contingência cientifica na Natureza , única legisladora de seus próprios fenômenos .
Somente consegue impregnar-se dessa espécie peculiar de sentimento quem ultrapassa o desejo de qualquer tipo de felicidade mundana permanente , de glória e sucesso perenes , quem se identifica , de corpo e alma , com a Origem do Ser .
A dimensão humana se esvai diante da expansão cósmica , estado de consciência no qual se efetiva a auto-realização capaz de tornar o ser novamente " criança " . O retorno à infância não implica alienação da existência tangível , do cumprimento exato dos deveres inerentes ao meio social . Trata-se de uma interdifusão natural , um viver espontâneo e fluente que tem no vôo do pássaro e no nadar do peixe seu exemplo mais significativo .
Nem ave , nem peixe preocupam-se com a dimensão infinita do espaço a percorrer e menos ainda em traçar objetivos rígidos e angustiantes a ser atingidos em determinado tempo . Voam e nadam libertos de qualquer condicionamento externo , simplesmente , naturalmente vivos , executando atos de Vida , deixando-se levar pelo fluir da existência no gozo inefável e integral de participar da Energia Una , donde provieram e na qual " são " . A verdade da ave é voar , a do peixe é nadar . A verdade do homem é conhecer-se como Luz Imanente e irradiá-la para seu mundo , sem sobressaltos , apegos , desamor a si mesmo .
Para o homem que deixou de preocupar-se em procurar , longe de seu próprio centro , a solução para o mistério indecifrável de seu peregrinar ainda agora terreno , findaram-se as miragens e sua observação minuciosa , que as impedem de ser tomadas pelo que verdadeiramente são .
Ouvindo o apelo para que olhe primeiro para dentro de si , o " observador e fabricante de ilusões " está apto para saber que é ele , somente ele , " a fonte " das ilusórias aparências a seu próprio respeito ( antropocentrismo ) , quem deve ser observado e conhecido . Não é fácil , não é agradável , não é cômodo realizar tal cometimento sem o amparo , a ajuda , a guia de um líder religioso , um psicanalista , um Guru providencial , um pai zeloso .
" Resta saber se o caminho do autoconhecimento é largo bastante para nele caber mais alguém , além do próprio interessado " . ( L.C. Lisboa ) 
A resposta já está pronta há séculos : os exemplos do " fio da navalha " , " da porta estreita " , " do furo de agulha " estão ao dispor de todos .
Para o ser liberto das autolimitadoras contradições íntimas , de aparente falta de um sentido para a vida e seu fatal termo na morte do corpo , da insegurança provocada pela transitoriedade e impermanência , para esse tipo de autoconhecedor , torna-se clara a positividade e a vitalidade do Vazio donde brotam todas as coisas sem cessar e para onde elas refluem continuamente .
Desaparecido todo o sentimento de separação ou oposição dualista , há o " absorver do Universo " , a entrada na consciência da natureza - Buda fulgurante , a glória infinita de sentir a Eternidade do Eu Supremo no Aqui e no Agora , na transitoriedade e no amargor inerentes à condição existencial . É ser homem e saber-se divino .
Esse explodir de realização-satori acarreta inevitavelmente uma nova vivência de fraternidade e de responsabilidade para com a família , a comunidade , a raça humana , abrangendo todo o meio natural com seus três reinos .
O egoísmo retrocede pela presença atuante do altruísmo , o mal cessa pela prática espontânea do Bem , a personalidade continua a viver , mas seus laços , com toda a Humanidade são reais e interativos . Humanidade não é mais uma simples palavra oca , vazia de sentido , uma abstração em nome da qual se esquece , tortura , menospreza o homem comum . É uma unidade-síntese da qual cada ser é uma parte componente , um elo indissolúvel e vital , uma gotícula entre as incontáveis gotas sem as quais não haveria Oceano , uma luzinha a unir seu brilho a onifulgurante Luz ; e captar e projetar a Energia para o Planeta e amor para além de todos os limites da nossa galáxia .
Quando um pequeno , obscuro e insignificante ponto humano começa a tornar-se um foco irradiador de sua própria Luz , todos os homens , todo o Planeta , todo o Cosmos faz-se um Sol radiante , a enviar seus Raios em todas as direções , doando Vida para tudo e para todos .
Tornar-se não é ser " como " um Iluminado , é em verdade e derradeiramente " ser " um Iluminado . Então não há mais necessidade de seguir um outro Iluminado , seja ele quem for . Amá-lo , somente amá-lo , unificar-se a Ele pelo Amor e pela Luz , identificar-se com Ele na Harmonia e na Paz , sendo no entanto , seu próprio e único Mestre , sem intermediários , sem medianeiros , sem muros , sem véus entre si mesmo e a Divindade . Isso é " ver diretamente " , " viver diretamente " , " luzir diretamente " .

Texto : do livro ( A Doma do Touro ) Ramanadi 
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" A DOMA DO TOURO "

Os Dez Quadros de Iluminação Através do Zen

15- Os Dez Quadros 

" Todos os seres são dotados de uma natureza-Buda desde o mais remoto princípio " .
Sabedores de que nunca nos separamos de nossa natureza-Buda essencial quer tenhamos ou não sido iluminados , estamos prontos para explorar , perceber , compreender , assimilar o conteúdo intrínseco da série do Touro .
Num primeiro momento , ao dar-nos conta de que somente descobrimos que nunca estivemos separados da nossa natureza-Buda imaculada , entramos em êxtase . Quando o deslumbramento cessa , verificamos nada ter adquirido de extraordinário , nada de surpreendente , nada de particular . Tudo se torna , então inteiramente " natural " como sempre fora . É a identidade ou indiferenciação total .
É irrealizável tentar penetrar no sentido dos Quadros ( abordagem do Zen ) através de hipótese ou pontos de vista lógicos .
A Iluminação não se subordina a nenhuma forma de pensamento , jamais é alcançada através de interferência , cognição ou elaborações de conceitos . Só quando a mente se esvaziar das abstrações , haverá a chance do olhar livre , independente , espontâneo , natural , característico do genuíno espectador , daquele que já compreendeu , com clareza , o mundo da Iluminação .
Sem uma pré-existente fé , uma certeza inabalável de que a verdadeira natureza-Buda fundamental é uma potencialidade humana , a contemplação dos Quadros e a leitura dos poemas ilustrativos não passarão de um espetáculo não muito diferente do oferecido por qualquer ilustrador de qualquer época . É um exercício mais confirmatório que introdutório ou ilustrativo de um tema invulgar .
O impacto de singeleza dos desenhos provirá , com mais força , do espaço vazio ; as figuras são apenas a pedra-de-toque , o esboço do que está implícito no verso , não das palavras , das rimas nele contidas . É o desejo intenso de autoconhecimento que pode levar alguém a compreender a natureza da mente e o significado dos Quadros , pois ambos são indissoluvelmente unificados ; o símbolo concreto , o mito como a outra face da moeda , a que fica oculta até o levantar da peça .
O ser essencialmente perfeito - sem mácula - jorrará do imperfeito espectador . Revelada , a imperfeição simultaneamente cria a determinação de removê-la : é a prova da autêntica experiência , da Iluminação válida .
Há duas possibilidades , além da mais provável de inocuidade total consequente da visão exterior de uma série de desenhos e versos mais ou menos interessantes , não artísticos , nem belos no sentido mais geral do termo :
a) alguns apenas verão " as pegadas " do Touro ;
b) outros " agarram " verdadeiramente o Touro ;
Existe uma distância imensa entre uma percepção superficial e outra profunda . Os diferentes níveis de percepção constituem mesmo a sequência dramatizada das Dez Figuras Apascentando o Touro .


16- Quadro I : Procurando o Touro 


Onde está o seu Touro , onde , onde ?
Em que secreto lugar , ele se esconde 
Do amo aflito que , a esmo vaga ?
Longe de casa , cumpre triste saga :
Ossos moídos , coração pesado ,
Pés doloridos , aterrorizado ,
Em sonhos , vai lançando mil amarras :
Só lhe responde o canto das cigarras .

Explicação I :

A procura é realmente inútil , pois o homem persegue o Touro ( a Mente Búdica ) que jamais dele se extraviou . É uma busca de algo que nunca irá encontrar , pois é ele próprio quem volta as costas à sua Verdadeira-natureza .
As palavras traduzem o desatino , a desdita , o extremo cansaço físico e emocional do peregrino em seu jornadear ( saga ) longe de sua verdadeira morada , onde sua mente buscadora ( a que deseja saber " quem é " ) e sua natureza-Buda habitam inseparavelmente juntas - O lugar secreto é seu próprio centro , sua Vida Interior , somente aí , ele encontrará o Touro e com ele se identificará .
É uma realização solitária : o contraste entre o desespero da busca e a suave tranquilidade do canto das cigarras marca a solidão do homem que busca o encontro com o Divino e não deve esperar nenhuma ajuda externa .
1º estágio : O paçu , o homem até então preocupado com a vida material , com a autopreservação , com o culto da mentalidade objetiva , manifesta os primeiros lampejos de transcendência e inicia a busca que agora sente , de maneira confusa , deve culminar na própria experiência de plenitude da Vida , no encontro de seu " centro " .

17- Quadro 2 : Rastreando o Touro   


Olhando o solo , consultando os astros , 
Busca encontrar , nos almejados rastros ,
O Touro fugitivo . Matos densos ,
Lagos profundos , desertos imensos ,
Lá vai ele à procura do seu Touro ,
Aqui e Agora seu maior tesouro ,
Tão forte , tão potente , o bicho seu ,
Patas na Terra , focinhando o Céu .

Explicação II :

O pastor tentar achar o fugitivo não fujão nos mais diversos lugares , usando todos os meios a seu alcance .
A ciência humana ( solo-sua origem carnal ) é tão inoperante como a Astrologia representando as crenças , os dogmas , já subentendidos nas " amarras " do poema 1 , que simbolizam os ritos , magias , os meios ilusórios ineficazes para a obtenção do verdadeiro conhecimento da Vida Única .
Algumas palavras elucidam o sentido budista do poema :
a) Aqui e Agora - o tesouro - a Mente-Búdica - está sempre ao alcance de qualquer um ; independe de tempo e espaço , porque ela está presente em cada momento eterno , neste próprio envolutório carnal , na experiência diária ;
b) O último verso traduz a própria e essencial dualidade do amo do Touro : corpo preso à matéria , mente alçada ao Divino .
É no corpo humano que se obtém a Iluminação . É obra terrena .
2º estágio : Ainda se trata de uma etapa inicial ; houve um ligeiro grau de progresso , pois através dos sutra e dos ensinamentos , o homem já compreendeu que , seguindo as pegadas de seus impulsos mais elevados , talvez as informações recebidas o levem a distinguir o falso do verdadeiro .



18- Quadro III : Vislumbrando o Touro  





Seu mundo todo , pequeno atalho ,
Suave brisa balançando um galho ,
Manhã serena , radiante Sol ,
Cantar sonoro do par-rouxinol 
Que faz do frágil ramo do salgueiro , 
O início-fim do próprio cativeiro ,
O Touro ali está , ele o vislumbra :
Com tão parco poder já se deslumbra . . .

Explicação III :

O cenário todo faz apelo ao uso dos seis sentidos ( o discernimento é o sexto ) com a intenção de enfatizar não serem os mesmos diferentes da Fonte Original , sempre a manifestar-se em qualquer atividade corrente . A " plena atenção dirigida " é uma forma de percepção de sons naturais e da visão correta das coisas .
Nos versos concernentes ao par-rouxinol , existe uma alusão clara ao Bhagavad Gita . São símbolos os dois pássaros idênticos ; a mente individual é o que come os frutos da árvore ( gratificação material dos sentidos ) ; a Mente Búdica é o que apenas observa o outro , testemunhando as atividades de sua réplica . Se o comedor volver sua face para seu reflexo , liberta-se do apego pelos frutos da matéria e de todas as ansiedades daí oriundas . A rendição voluntária suscita o término da dualidade . É na vivência terrena , onde teve início a ilusão da separatividade , que o cativeiro terminará : Vazio e forma não são diferentes um do outro .
3º estágio : O que ocorre , neste estágio , é apenas a captação de um lampejo da região além da forma . Há o risco de perder a Iluminação de vista , se não houver continuidade no treinamento , ou uma avaliação exagerada . O " Insight " não oportunizou a melhora da interação característica de um ser Iluminado .

19- Quadro IV : Agarrando o Touro  


O Touro corcoveia , vai bufando 
E triste , os verdes prados vai deixando 
Com pesar tão sentido , tão profundo ,
Como chegado fosse o fim do mundo .
O laço deve estar firme e seguro ,
Pois o Touro , temendo seu futuro ,
Livrar-se tenta do feroz cabresto 
E o fará , se o amo não for lesto .

Explicação IV :

Os velhos hábitos dificilmente são abandonados : o sentimento ilusório , durante inúmeras experiências terrenas , manteve a Mente Original , em aparência , dissociada do ego pensante . Enquanto esse último persistir vinculado à vida material , seus contatos com a natureza-Búdica permanecerão esporádicos , fugazes , existindo a impressão de que ela se revelará arredia , inacessível , difícil de ser atingida . Na verdade , quem se abriga , em seus derradeiros redutos , é o ego relutante em face da mudança profunda a ser enfrentada : só o desaparecimento da tensão , pela morte do ego , permitirá o domínio pleno da Luz . A reconstrução da personalidade para dar lugar ao nascimento de um ser próximo da Perfeição é tarefa hercúlea , que demanda tempo , paciência , perseverança , fé , treino constante , disciplina irrestrita , autocontrole contínuo . Qualquer descuido , a obra fica comprometida . Daí as imagens evocadas pelos termos que compõem esta etapa muito importante , senão decisiva .
4º estágio : Sua importância decorre do fato de que até agora o pastor " não possui " , não é o amo do Touro . Mas agarrá-lo já é indicio seguro da aquisição da Sabedoria fundamental ( volta à própria Morada , a verdadeira realização do Caminho ) . Progredir um pouco mais é penetrar em uma Sabedoria mais profunda .

20- Quadro V : Amansando o Touro    

O bicho segue o amo passo a passo 
Mas pode ainda tentar romper o laço 
Que o retira das poças lamacentas 
Puxado por um fio preso nas ventas .
O pelo negro , branco vai ficando ,
O Touro , pouco a pouco , se tornando
Manso , limpo , gentil e paciente .
Ao dono fiel é , e obediente .

Explicação V : 

A tensão entre o ego-pensante ( pastor ) e a natureza Iluminada ( Touro ) impedia a unissonância harmônica entre ambos . Com o Touro já parcialmente domado , o amo vai poder aquietar as emoções conflitantes , as imagens e pensamentos desconexos , provocados por essa tensão entre sujeito e objeto , que o induzem a pensar que a vida é irreal . Os pensamentos , porém , não irreais , nem provém do mundo objetivo : enquanto a ilusão de separatividade atuar , não pode existir a compreensão de que eles brotam da nossa Verdadeira-natureza .
Focando no seu ponto exato nossa visão interior distorcida , a Iluminação dissipa a ilusão de que o Vazio ( Touro-Mente-Búdica ) e o mundo da forma são separados , ao invés de um indivisível Todo . A mútua interpenetração entre os dois é caracterizada , no símbolo , pela alteração da cor no pelo do animal e pelas qualidades aí evidenciadas totalmente opostas às observadas antes . Há a notar a alusão feita ao valor do processo respiratório : o Touro cede ao dono que o leva pelo fio preso nas narinas .
5º estágio : Apesar da série pertencer à corrente sino-japonesa do Budismo , o símbolo do Touro está ligado aos ensinamentos Shivaistas , nos quais o Touro Branco ( Neti ) é a montaria ( força feminina ativa-Shakti ) do Imutável Shiva . O negro simboliza a ignorância dual . A tomada da consciência da Luz dissolvendo a bifurcação eu-não eu , repõe a Unidade , faz a Mente mostrar-se branca .


21- Quadro VI : Cavalgando o Touro  

Do Touro faz perfeita montaria 
Para levá-lo ao fim da romaria ,
Montado no animal , ao Lar regressa ,
Tão livre como o ar , trota sem pressa ,
Nem olha para trás ; o céu fitando ,
Suaves melodias vai tocando 
Na flauta , que compassa o trote-trote 
Do Touro que prescinde de chicote 

Explicação VI : 

A luta findou ; surge agora o estado de absoluta naturalidade : as tentações não mais o fazem voltar a cabeça , também não mais o afetam as influências externas de " ganho " ou " perda " , pois todas as coisas estão como elas são . O pastor é um ser maduro estabelecido em seu verdadeiro elemento : fundiu os instintos e os sentidos , a alma e a mente , o ego e o mundo numa Unidade básica , fonte máxima de tranquilidade e aceitação da Vida tal como ela é .
A Mente-Buda , cujo símbolo é o Touro , é neste estágio inteiramente suficiente a si mesma . A profunda serenidade , experimentada pelo buscador , é traduzida pela sensação de liberdade , de alegria de viver , da ausência de pressa que marcam o regresso ao Lar , o universal anelo do homem ( o repouso da alma em Deus - a volta do filho à Morada do Pai ) . A sintonia entre o corpo e a Mente Original ressalta do abandono da coerção inicial . Existe agora um estado de consciência em que Iluminação e ego são idênticos .
6º estágio : Somente o Touro pode levar o pastor de volta à Casa , de onde aliás jamais os dois se ausentaram . Era a turbulência do ego , o antagonismo existencial que provocaram as tentações ilusórias , a dicotomia , a desarmonia . Estimulado pela fé em seu verdadeiro Eu , ele " foi para onde não conhecia , por um caminho que lhe era desconhecido " .

22- Quadro VII - Esquecendo o Touro 

O Sol ainda luz no alto céu ,
O Touro já se foi . O amo esqueceu 
O laço inútil , o cabresto duro ,
Seu sonho nada tem de mau ou puro .
Sentado tão tranquilo , tão sereno ,
Aguarda o fim do dia longo-ameno ,
A chegada da Luz na escuridão 
Harmoniosa , doce solidão !

Explicação VII :

Tudo parece estar em seu lugar certo . O pastor se sente " completo " , experenciando o gozo perfeito da Unidade que lhe é inerente . A questão básica " Quem sou eu " não mais o perturba . O Touro desapareceu quando ele o reconheceu como a Natureza-Primária , o que permite sentar sozinho ( a solidão lhe é grata ) , usufruir o Sol , o mundo fenomênico , aguardando tranquilamente o " fim do dia " . Havendo transcendido a dualidade , a morte não mais o apavora , pois agora sabe , reconhece e sente-se como parte indestrutível e inseparável da Vida Maior , eterna e luminosa . Vive o momento crítico em que a Sabedoria e a ignorância se defrontam , antes que a primeira domine , e a outra se esfume como a treva ante a vitória da Luz . Por estar além do vício e da virtude , seu sonho ( a vida transitória ) não é puro ou impuro . De posse de Grande Pureza , o homem perfeito não pratica nenhuma virtude , nem comete pecado : os conceitos de bem e mal foram ultrapassados , só resta a Luz .
7º estágio : A importância desta etapa ressalta por si mesma .
A ênfase sobre a solidão construtiva ( a ser recolocada posteriormente ) é vital , pois é somente sozinho que o homem pode olhar para o seu próprio ser , escutar a própria harmoniosa melodia , sempre maior que sons isolados , que suas notas componentes , e só perceptível em sua " totalidade " .

23- Quadro VIII : Desapegando-se de si mesmo  

Silente já do Touro esquecido .
Ele se une ao luar embevecido ;
Não mais importam os dias tormentosos 
A vagar pelos ermos pantanosos ,
Onde , perdido , caminhava a esmo 
À procura do Touro , de si mesmo ,
Tão humilde , tão simples , tão sozinho . . .
Não cogita em seguir nenhum Caminho .

Explicação VIII :

Esquecer o Touro não basta : é preciso que o pastor se esqueça de si mesmo em todos os sentidos , sobretudo das ideias de santidade . Se " Eu sou um Buda " prescinde da autoconfirmação , o mesmo deve ocorrer com o estágio de " Estou purificado do orgulhoso sentimento de ser Buddha " . A pureza inerente à Mente macula-se com a ponta de orgulho espiritual acarretada pela última afirmação , o que impede a conquista da Paz suprema e da Libertação .
" Apegar-se à própria Iluminação é tão doentio quanto apresentar um eu com loucura ativa " , reza um antigo aforisma Zen .
Libertando-se do pressuposto de que o mundo do Vazio é diferente do mundo da forma , o iluminado desapega-se do gosto da própria Iluminação . Essa última e a ilusão de separatividade são igualmente danosas . O crescimento da Iluminação não está condicionado a ser ou não budista ou seguir regras religiosas . O " não cogitar em seguir nenhum Caminho " reporta-se aos diversos " ismos " espalhados pelo mundo .
8º estágio : Aqui terminava a primitiva série chinesa . O círculo vazio representa nada mais haver para diferenciar o homem do Todo . Ele é tão puro e natural , que somente a Lua Cheia ( a plenitude da Luz brilhando na escuridão da noite da ignorância ) , o espaço vazio corresponde a este grau de Iluminação perfeita , sem jaça , sem névoas de orgulho .

24- Quadro IX : Retornando à Fonte 


 A Roda gira sem nada mover :
Ouvir é não ouvir , ver é não ver .
Voltou à Origem , retornou à Fonte ;
O Sol sempre a seguir no horizonte ,
Fluindo , a fonte cristalina espelha 
A flor , naturalmente flor vermelha . . .
Sozinho , na cabana , em paz viceja .
O que existe lá fora não deseja . . . 

Explicação IX : 

Incerteza e confusão desvaneceram-se ; sua ausência permite a Paz , o retorno à Fonte , donde a Vida jorra plena , espontânea , natural , sem pedir licença a ninguém para apresentar-se tal como é em seu esplendor , em suas miríades de formas , sejam elas agradáveis ou não ao homem . Nele , agora , o êxtase da Iluminação desapareceu . Liberto dos objetos dos sentidos , esquecido de si mesmo , absorve-se tão intensamente no que ouve e vê , que seu ouvir é " não ouvir " , seu ver é " não ver " , pois seu ato é perfeito , isento de todas as artificialidades , plenamente natural . É , e o sabe , parte da Verdade Única , que abarca o Cosmos como um todo , fazendo-o ser vida menor dentro da Vida Maior .
Não mais sente necessidade de justificar sua presença na Vida através do trabalho árduo , projeção social , num interminável ir e vir sem meta definitiva e feliz . A solidão lhe apraz ; nela viceja , floresce , vive o " adequado uso da Sabedoria " , o TAO .
9º estágio : Está enfim apto para viver a vida menor no seio da Vida Maior em todas as situações , em todos os lugares , em todos os estados de consciência . Sua intrínseca Pureza jamais fora maculada por grãos de poeira : não há nenhum espelho a espanar . Compreendendo que sua pessoa abrange o Universo , que poderá almejar que não seja sua Herança Divina ?

25- Quadro X : Convivendo na Praça do Mercado 

Com mãos que abençoam , ele vem à cidade .
Fechada está a porta de sua velha choça .
Nem mesmo do mais sábio a extrema acuidade ,
Vê algo diferente no homem que o roça 
E segue sorridente sua própria estrada ,
Sem pisar de algum Buddha a divina pegada .

Cedo co'a tigela na mão , ele vai ao mercado ,
Tarde retorna à casa , ao bordão arrimado .
Faz de quem bebe vinho com alegria 
Uma fraterna , dileta , grata companhia 
Que partilha também com qualquer açougueiro ;
Ele , em todos , percebe o Buddha Verdadeiro .
Descalço , peito nu , na Praça do Mercado ,
De cinza recoberto , de lama salpicado ,
Ri : um riso franco , livre , aberto . . .
Os místicos poderes dos Devas , ele os esquece ,
Mas , a seu toque , a árvore seca - é certo -
Toda verde se faz e , terna , refloresce . . .

Explicação X :

Tornou-se finalmente o seguidor de seu próprio Caminho , sem tentar seguir os passos dos antigos e sábios Mestres . Nele não são mais visíveis os sinais de perfeição ( nem cheiro de santidade nem aura de Iluminação ) . Contudo , sua pureza e realização espiritual lhe permitem passear pela Praça do Mercado , o imperfeito e poluído convívio mundano , trazendo paz e esperança ao coração dos homens imersos na escuridão , no desespero , no vício , guiando-os para o Caminho de Buddha . A fim de ajudar os homens a dominar suas ilusões , liberá-los de suas loucuras e de seus apegos , o ser de mais elevada espiritualidade não hesita em saborear com eles a bebida alcoólica , de conviver com açougueiros , infringindo assim postulados básicos do Budismo : a proibição do álcool , a profissão não correta por comerciar com o sofrimento animal . Nada tem o poder de macular sua pureza : como o Lótus , símbolo budista da pura perfeição , ele tem suas raízes na lama , sem que ela macule as alvas pétalas , onde fulge a Gota de Orvalho , a jóia da Iluminação .
10º estágio : Sua simples presença entre os homens é uma bênção para o mundo . Sua alegria franca e natural prova que toda a sua personalidade está impregnada de uma tal força de irradiação interior que , mesmo sem recorrer aos " poderes " ( siddhis ) , decorrentes de seu elevado grau de Iluminação , a própria Natureza já o tem " por um de seus criadores " , abrindo " de par em par diante dela , as portas de suas câmaras secretas , desnudando ao seu olhar os tesouros ocultos nas profundezas do seu seio virgem " .
Seu estágio atual não lhe permite renunciar ao mundo , ser um escapista , abandonando assim ao desamparo todos os angustiados ignorantes que devem haurir conhecimento de seu Saber , paz de sua Harmonia , verdade de sua Compaixão .
Se não houver dedos a apontar para a Iluminação , como podem os sencientes transformarem-se em pastores capazes de apascentar o Touro ?
Tornar-se a Compaixão Absoluta não é um alvo a atingir , um programa a cumprir , um atributo a conquistar . É ser " a Lei das Leis - a harmonia eterna , o próprio ser de Alaya , uma essência universal sem praias , a luz da justiça eterna , o acordo de tudo , a lei do eterno amor " .
Assim sendo , a solidão-afastamento do borborinho comunal é um contra-senso . O fato de estar sempre centrado em si mesmo , propicia ao Iluminado um outro tipo de solidão-paz em que , vivo e alerta , no meio do turbilhão , ele encontra mais silêncio , mais vida .
Solitário , ele o será sempre porque é um religioso , um anagarika , um sem lar . Sua consciência é um oásis solitário , onde ele se refugia quando , no meio da multidão a quem distribui amor , ele permanece consciente , vivaz , alerta , mas só , inteiramente só no santuário iluminado de seu próprio Ser . Então ele " é " o Homem solitário porque é único , é integro , é todo Luz . Sua solidão é bela , suave , silente Paz .
É o ser humano liberto , iluminado , bendito ! o Buddha compassivo foi , é e será sempre ele mesmo ; ele o sabe , porque assim o sente e vive Aqui e Agora .
Fina jóia preciosa , gema pura ,
já consegue brilhar em plena lama ,
como ouro de lei , também , fulgura 
no ardente esplendor da própria chama .
Assim também tu podes vir a ser , leito amigo . . .
Haja Luz em teu coração .
Bênçãos sobre todos os seres .


   

Texto : do livro A Doma do Touro ( Ramanadi )
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