terça-feira, 18 de junho de 2013

" A Observação "

 Nesta tradução os versos da Mandukya Upanishad estão indicados por MANTRA I , MANTRA II , etc . Os versos do comentário de Gaudapada estão indicados por SLOKA 1.1 , etc , onde o primeiro número indica a parte e o segundo número indica o verso .
O Mantra da Mandukyopanishad :
Não é dar-se conta do interno .
Nem dar-se conta do externo .
Nem um estado intermediário entre os dois ;
Nem uma massa indiferenciada de consciência .
Nem consciente nem inconsciente ,
Não é visível nem utilizável .
Incompreensível , indiferenciável , impensável , indescritível ;
É apenas a firme convicção do Ser ( ekatma-pratyaya-saram ) .
Negação de todos os fenômenos , pacifico ,
Bem-aventurança completa , sem dualidade .
Isto é o que se indica por O Quarto ( Turiya ) .
O Atman , aquilo que deve ser realizado .
( versão direta do sânscrito por S'arana Gata )

TRATADO I
A REALIDADE SEGUNDO OS TEXTOS VÉDICOS
( AAGAMA PRAKARANA )
Capitulo I

A Doutrina dos Quatro Quartos [ padas ]
MANTRA I - Hari Om ! Om , a palavra , é tudo isto ; eis aqui uma explicação clara . O que existiu , o que existe e o que existirá , tudo é realmente Om ; ainda mais : o que está além da tríplice concepção do tempo é também Om .
MANTRA II - Tudo isto é realmente Brahman . Este Atman é Brahman e este Atman tem quatro quartos .
MANTRA III - O primeiro quarto é Vaisvanara , cujo campo é o estado de vigília . É consciente dos objetos exteriores ; tem sete membros e dezenove bocas e experimenta os objetos grosseiros .
MANTRA IV - O segundo quarto é Taijasa , cujo campo é o sono com sonhos . É consciente dos objetos internos . Possui sete membros e dezenove bocas e experimenta os objetos sutis 
MANTRA V - Eis aqui agora o estado de sono profundo durante o qual o que dorme não deseja nenhum objeto , nem vê nada durante seu sonho . Este é Prajna , o terceiro quarto , cujo campo é o sonho profundo . Nele todas as experiências se unem e se confundem em uma massa de consciência indiferenciada ; a qual é plenitude de felicidade e a via que conduz ao conhecimento dos estados anteriores .
MANTRA VI - Este é o Senhor Supremo , o Conhecedor da totalidade , o ordenador interior , a fonte de tudo o que existe . Dele emana tudo e nele termina por resolver-se tudo . ( Aqui começa a Karika de Gaudapada , que retorna aos seis mantras precedentes da Upanishad e os explica ) .
SLOKA 1.1 - Visva experimenta os objetos exteriores . Taijasa tem consciência dos objetos internos ( sutis ) e Prajna é uma massa de consciência indiferenciada . Mas é uma única e mesma entidade a que é conhecida nos três estados .
SLOKA 1.2 - Visva é o percebedor no olho direito ; Taijasa é o percebedor no interior da mente ; Prajna é o que assenta o Akasha no coração . Mas é um único e mesmo Atman o que é percebido como triplo num único e mesmo corpo .
SLOKA 1.3 - Visva experimenta o grosseiro ; Taijasa o sutil e Prajna , a bem-aventurança . Saiba que estes são os três gêneros de experiência . 
SLOKA 1.4 - Visva encontra sua satisfação no grosseiro ; Taijasa , no sutil e Prajna , na bem-aventurança . Saiba que estes são os três gêneros de satisfação .
SLOKA 1.5 - Aquele que conhece ao mesmo tempo o sujeito e os objetos de experiência que foram descritos como associados a cada um dos três estados , não se vê afetado por aqueles objetos que experimenta .
SLOKA 1.6 - Sem dúvida , a mudança da causa ao efeito não pode ser atribuído mais que a entidades que têm uma experiência positiva . É Prana que manifesta todas as coisas e é Purusha quem , sob formas múltiplas e distintas cria as individualidades conscientes .
SLOKA 1.7 - Alguns que refletem sobre o desdobramento da criação veem a manifestação do poder sobre humano de Deus e outros olham a criação como possuidora da natureza do sonho e da ilusão .
SLOKA 1.8 - Aqueles que afirmam a existência de objetos manifestados , atribuem esta manifestação à vontade divina , e aqueles que vêem o tempo como real , declaram que é o próprio tempo que manifesta todos os seres .
SLOKA 1.9 - Alguns pensam que a manifestação tem por fim permitir a Deus obter gozo da criação , enquanto que outros atribuem isto a um simples jogo do Senhor ; mas a manifestação é da verdadeira natureza do ser resplandecente ( Atman ) , pois que outro desejo poderia surgir em quem todos os desejos estão perpetuamente em vias de se cumprir ?
MANTRA VII - Turiya não é o que é consciente do mundo interno , nem o que é consciente do mundo externo ; nem o que é consciente dos mundos , nem o que é uma massa indiferenciada de consciência , nem o que é simples cognição , nem o que é inanimado .
Turiya não é percebido , nem relacionável com algo , nem cognoscível ; ele é inimaginável , impensável , indescritível ; ele é essencialmente da natureza da consciência pura que constitui , apenas ela , o ser ; ele é negação de toda aparência , paz eterna , felicidade absoluta , sem dualidade . Isto é o que se indica por Turiya ; isto , em verdade , é o Atman e aquilo que deve ser realizado .
SLOKA 1.10 - Naquele que é indicado como o Senhor imutável e Supremo terminam todos os sofrimentos .
Entre todas as entidades . Aquilo é Uno e Sem Segundo ; Aquilo é designado como Turiya Resplandecente e Omnipresente .


 Capitulo II

A NATUREZA REAL DE TURIYA

SLOKA 1.11 - Visva e Taijasa estão condicionados pela causa ( Karana ) e pelo efeito ( Karya ) , mas Prajna só está condicionado pela causa . Nem causa , nem efeito existem em Turiya .
SLOKA - 1.12 - Prajna não conhece nada do ser nem do não-ser ; da verdade nem do erro ; mas Turiya existe sempre . Este é o espectador eterno e universal .
SLOKA 1.13 - A não cognição da dualidade é comum a Prajna e Turiya ; mas Prajna está associado ao sonho profundo sob forma de causa e este sono profundo não se encontra em Turiya .
SLOKA 1.14 - Os dois primeiros ( Visva e Taijasa ) estão associados às condições de sono profundo e com sonhos ; Prajna é a condição de sono profundo sem sonhos ; mas aqueles que conhecem a verdade não vêem em Turiya nem sono nem sonhos .
SLOKA 1.15 - O sonho com sonhos ( Svapna ) , é cognição errônea da realidade ; a torpeza ( Nidrã ) .
É o estado em que se ignora que existe a realidade . Quando desaparece o conhecimento errôneo que recobre os dois estados , Turiya é realizado .
SLOKA 1.16 - Quando o Jiva ( individual ) que dorme , quer dizer , que ignora a realidade , sob a influência de Maya , a qual nenhuma origem pode ser assinalada , sai de seu sonho profundo , realiza em si mesmo a não-dualidade , isenta de sono com sonhos e que também carece de começo .
SLOKA 1.17 - Se a multiplicidade percebida fosse real , então poderia desaparecer ; mas a dualidade é pura ilusão , dado que a não-dualidade , e apenas ela , é suprema realidade .
SLOKA 1.18 - Se alguém houver imaginado as ideias de multiplicidade , é certo que estas ideias podem desaparecer ; a ideia de dualidade se admite tacitamente a fim de facilitar o ensinamento , mas deixa de existir quando a Suprema Verdade é conhecida .

Capítulo III

O Sentido de OM-KAARA

MANTRA VIII- O Atman , que foi descrito como possuidor de quatro quartos , é idêntico a OM do ponto de vista das sílabas ( Aksara ) . A palavra OM , composta de partes , é agora considerada do ponto de vista dos sons ( das letras : maatraa) . Porque os quartos são idênticos às letras e estas aos quartos . As letras são : A . U e M .
MANTRA IX - Vaisvanara , que tem por campo o estado de vigília , é também A , a primeira letra de OM . Seja porque possui a faculdade de penetrar em tudo , ou porque é o primeiro . Qualquer um que conhece esta identidade , vê todos os seus desejos cumpridos e obtém a primazia .
SLOKA 1.19 - Quando se tenta descrever a identidade de Visva e do som A , se toma como apoio principal o fato de que ambos ocupam o primeiro lugar ( da série ) ; há outra razão em favor desta identidade : cada um penetra na totalidade .
MANTRA X - Taijasa tem por campo o estado onírico e é o U , a segunda letra de OM , em razão de sua posição intermediária . O que conhece esta identidade adquire um conhecimento superior ; todos lhes testemunham as mesmas considerações e em sua descendência , ninguém nascerá que não seja um conhecedor de Brahman .
SLOKA 1.20 - A razão que permite considerar Taijasa como com a mesma natureza que U , é sua característica comum de superioridade . Outra razão mostra também a identidade : ambos ocupam o lugar intermediário .
MANTRA XI - Prajna tem por campo o sono profundo e é o M , a terceira letra de OM e é por sua vez a medida na qual tudo se resolve . Quem conhece esta identidade é capaz de toda medida ( quer dizer , é capaz de apreender a natureza real do universo ) . E ademais , contem tudo em si mesmo .
SLOKA 1.21 - A identidade de Prajna é M se fundamenta na razão indiscutível de que ambos têm por característica comum ser a medida ( da totalidade ) . Há outra razão : os dois terminam por fundir-se em Prajna e em M .
MANTRA XII - O que está desprovido de partes e de sons , o que é inapreensível pelos sentidos , o que é extinção de toda a aparência , o que é felicidade total , o que é OM sem segundo , o que é o quarto quartel , o que é Turiya , é realmente idêntico ao Atman . Qualquer um que conheça esta identidade , submerge o ser individual no ser universal .
SLOKA 1.22 - Aquele que sem vacilar conhece as características comuns aos três estados , é venerado e adorado por todos os seres e posto entre os grandes sábios .
SLOKA 1.23 - Os sons A , U e M , ajudam respectivamente aos seus adoradores a alcançar Visva , Taijasa e Prajna , mas no som silencioso não há nada que alcançar .

Capitulo IV

A Absorção em OM

SLOKA 1.24 - O sentido de OM-Kara deve ser conhecido quarto por quarto ; os quartos são idênticos aos sons . Uma vez que se tenha compreendido o sentido real de OM-Kara , se deve não pensar em outra coisa .
SLOKA 1.25 - A mente deve fazer-se uma só com OM , porque OM é Brahman para sempre isento de medo ; o ser que está sempre absorvido em OM ; está livre de todo sentido de temor .
SLOKA 1.26 - Seguramente é OM o Brahman não supremo , mas se admite que também é o Brahman Supremo ; OM é sem começo ( quer dizer , sem causa ) sem segundo ; fora dele nada existe ; não está unido a nenhum efeito ; está ao abrigo de toda mudança .
SLOKA 1.27 - OM é , na verdade , o começo , o meio e o fim de todas as coisas ; conhece OM , como tal , em seu lugar ; alcança esta suprema realidade .
SLOKA 1.28 - Saiba que a palavra OM é Ishvara , sempre presente em cada mente individual ; e que aquele que está dotado de discriminação , uma vez realizada a omnipresença da palavra , vence para sempre o sofrimento .
SLOKA 1.29 - Aquele que conheceu a palavra OM , a palavra silenciosa , a palavra cujo som é incomensurável ; a palavra que é paz eterna , negação de toda dualidade ; aquele , com exclusão de qualquer outro , é um verdadeiro sábio .

TRATADO II
DO CARÁTER ILUSÓRIO DA DUALIDADE
( VAITATHYA PRAKARANA )

Capitulo I

SLOKA 2.1 - A irrealidade de todos os objetos vistos na condição de sonho está atestada pelos sábios . Estes objetos se encontram situados no interior do sonhador , e portanto , inscritos num espaço restringido .
SLOKA 2.2 - Por falta de tempo , não é possível que o sonhador visite os lugares em que sonha .
Ao despertar , não se encontra na cena sonhada .
SLOKA 2.3 - Se apoiam , na razão as escrituras quando declaram a não existência real dos objetos percebidos durante o sonho , e reconhecem o caráter ilusório das experiências oníricas .
SLOKA 2.4 - Os múltiplos objetos que vê o sonhador os percebe como existentes ainda que sejam ilusórios .
Também são ilusórios os objetos vistos no estado de vigília . A única diferença entre ambas as classes de objetos é o espaço restringido em que se inscrevem os objetos sonhados .
SLOKA 2.5 - Os sábios assinalam a identidade dos estados de vigília e sonho , em razão da similitude dos objetos percebidos nos dois estados .
SLOKA 2.6 - O que não existe no começo e no fim , tampouco existe atualmente . Os objetos vigílicos são semelhantes aos ilusórios que vemos durante o sonho e não obstante , os consideramos como reais .
SLOKA 2.7 - Se diz que os objetos de experiência vigilica têm utilidade prática , mais isso é coisa que contradiz o sonho . Se deve admitir sem vacilar que tanto os objetos do sonho como os de vigília são ilusórios , porque têm começo e fim .
SLOKA 2.8 - Os objetos percebidos em sonhos e não habituais no estado de vigília , devem sua existência às condições particulares em que o preceptor exerce sua atividade mental . Em associação com as condições de sonho , o sonhador experimenta tais objetos .
SLOKA 2.9 - O que no sonho é imaginado como interior pela mente , é ilusório e o que a mente crê perceber como exterior , parece real , mas tanto o imaginado como o percebido é reconhecido como irreal .
SLOKA 2.10 - O que no estado de vigília é imaginado como interno pela mente é ilusório e o que esta experimenta como externo , parece real . Do ponto de vista da razão , tanto o imaginado como o percebido deve ser tido por irreal .
SLOKA 2.11 - Se os objetos conhecidos nas duas condições de vigília e de sono são ilusórios , quem é o que conhece tais objetos ? Quem os imagina ?
SLOKA 2.12 - Pelo poder de sua própria Maya , o Atmam , que brilha com luz própria , imagina nele mesmo e por ele mesmo , todos os objetos . Ele é o único conhecedor dos objetos . Esta é a decisão da Vedanta .

Capitulo II

Todos os Objetos são Imaginários   

SLOKA 2.13 - Quando dirige a mente ao exterior , o Senhor ( Prabhu ) , o Atmam , imagina a multiplicidade de objetos , os quais permanece na mente . Quando dirige a mente ao interior , o Atmam imagina em si mesmo a multiplicidade de ideias .
SLOKA 2.14 - Os objetos podem ser : a) conhecidos como internos durante o tempo que dura o pensamento correspondente , e b) percebidos como externos pelos sentidos , limitados entre dois pontos da duração . Os objetos de ambas as classes são imaginários e só esta razão da limitação temporal permite diferencia-los .
SLOKA 2.15 - Os objetos conhecidos no interior da mente e que se designam como não manifestados , e os objetos que são percebidos no exterior em forma manifestada , são todos imaginários ; a única diferença provem dos órgãos sensoriais através dos quais estes últimos são conhecidos .
SLOKA 2.16 - O Jiva é imaginado e em seguida todas as entidades objetivas e subjetivas que são percebidas por cada Jiva . Segundo é o conhecimento , assim é a recordação correspondente .
SLOKA 2.17 - Igual a corda , cuja natureza real é desconhecida , e é imaginada na sombra como uma serpente , grinalda , etc , assim o Atmam é imaginado sob múltiplas formas .
SLOKA 2.18 - Quando se revela a verdadeira natureza da corda , as ilusões super-imposta à corda se desvanecem ; simultaneamente se esclarece a certeza de que o que há é uma corda . Tal é a natureza da convicção com respeito ao Atmam .

Capitulo III

As Formas Imaginarias do Atmam

SLOKA 2.19 - O Atmam é imaginado como Prana e outros objetos em quantidade inumerável . Este fato é devido à Maya , pela qual é enganado o resplandecente Atmam .
SLOKA 2.20 - Os que apenas conhecem o Prana , chamam Atmam de Prana ; os que apenas conhecem os Bhuta , lhe chamam Bhuta ; os que apenas conhecem as Guna , lhe chamam Guna ; os que apenas conhecem os Tattva , lhe chamam Tattva .
SLOKA 2.21 - Os que apenas conhecem os Pada , lhe chamam Pada ; os que estão familiarizados com os objetos , com os Loka  com os Deva , chamam ao Atmam segundo os objetos , os Loka , os Deva .
SLOKA 2.22 - Os que conhecem os Veda , o chamam Veda ; os que estão acostumados aos sacrifícios , o chamam sacrifício ( Yajna ) ; os que estão familiarizados com as noções de sujeito que desfruta e objeto de desfrute , chamam ao Atmam , segundo o caso , como o desfrutador , ou o objeto de desfrute .
SLOKA 2.23 - Os conhecedores do sutil , designam ao Atmam como o sutil ; os conhecedores do grosseiro , o chamam de grosseiro ; os que estão familiarizados om a ideia de uma pessoa , lhe dão o nome de uma pessoa e os que não crêem em nada que tenha forma , o chamam a vacuidade .
SLOKA 2.24 - Os conhecedores do tempo , o chamam o tempo ; os conhecedores do Akasha , o chamam o Akasha ; os versados na dialética , o chamam a dialética e os conhecedores das esferas , o chamam as esferas .
SLOKA 2.25 - Os conhecedores de Manas , o chamam Manas ; os conhecedores de Buddhi , o chamam Buddhi ; os conhecedores de Chita , o chamam Chita e os conhecedores do Dharma e do Adharma , o chamam Dharma e Adharma .
SLOKA 2.26 - Alguns pretendem que a realidade consta de vinte e cinco categorias , e outros de vinte e seis ; outros , ainda , a concebem como composta por trinta e uma categorias ; há também quem afirme que as categorias são inumeráveis .
SLOKA 2.27 - Os que apenas conhecem comprazer a outro , chamam isso a realidade ; os que conhecem os Ashrama , o chamam de Ashrama ; os gramáticos , o chamam o masculino e o feminino e o neutro ; outros o conhecem como transcendente ( Para ) , ou imanente ( Apara ) .
SLOKA 2.28 - Os conhecedores da criação o chamam a criação ; os conhecedores da dissolução , chama a realidade de dissolução ; os que crêem na conservação , a chamam a conservação , falando com propriedade , todas estas ideias , sem exceção , são imaginadas no Atmam .
SLOKA 2.29 - O investigador apenas conhece a ideia que lhe é apresentada por seu Guru , pois o Atmam assume a forma do que é conhecido ; assim protege ao investigador , o qual , penetrado desta ideia , a realiza ao final como essência única , quer dizer , como Atmam .
SLOKA 2.30 - Ainda que o Atmam não seja distinto das imaginações , parece ser distinto ; o que possui verdadeiramente tal conhecimento , interpreta a significação dos Vedas sem sombra de dúvida .
SLOKA 2.31 - Como os sonhos e a ilusão , - como um castelo que se vê surgir das nuvens - , assim é este universo aos olhos de um sábio instruído no Vedanta .
SLOKA 2.32 - Aqui não há dissolução , nem morte , nem escravo do mundo , nem aspirante à sabedoria , nem buscador de libertação , nem liberto , eis aqui a verdade absoluta .

Capitulo IV

A Realização da Não-Dualidade 

SLOKA 2.33 - O Atmam é imaginado simultaneamente como objetos irreais de percepção e como não-dualidade ; os objetos são imaginados na não-dualidade , em consequência a não-dualidade é , apenas ela , a suprema felicidade .
SLOKA 2.34 - A multiplicidade só existe como idêntica ao Atmam e não pode pretender independência ; não é distinta , nem não-distinta de Brahman . Tal é a declaração dos sábios .
SLOKA 2.35 - Os sábios , livres de apego , de medo e de cólera , e versados na significação dos Veda , realizam plenamente este Atmam como desprovido de todas as imaginações , livre da ilusão da multiplicidade e sem segundo .
SLOKA 2.36 - Posto que já sabes o que é o Atmam , concentra-te na não-dualidade e depois de havê-la realizado , comporta-te neste mundo como se fosse um objeto inanimado .
SLOKA 2.37 - O sábio deve manter-se apartado dos hinos às divindades , das cerimônias e dos ritos ; devera tomar como suporte seu corpo perecedouro e o Atmam indestrutível , e contar apenas com a sorte para subsistir .
SLOKA 2.38 - Depois de haver conhecido a verdade interior e exterior , o sábio se fundiu com a realidade , da qual obtém sua sorte e da que não se separa jamais .

TRATADO III
A NÃO-DUALIDADE
( ADVAITA PRAKARANA )
Introdução 

SLOKA 3.1 - O Jiva supõe que Brahman se manifestou , e pensa que se se entrega à devoção se unirá a Brahman ; de um tal Jiva se pode dizer que é vitima da ignorância , porque imagina que antes da criação tudo era não nascido .
SLOKA 3.2 - Em consequência , vou descrever agora a Brahman isento das limitações , não nascido , idêntico sempre a si mesmo . Se deve compreender que Aquilo não nasceu jamais , ainda que Aquilo pareça manifestar-se em todas as partes .

Capitulo I

Teoria da Divisão 
( AVACCHEDA-VADA )

SLOKA 3.3 - A Sruti declara que o Atmam , semelhante ao Akasha , se manifesta como Jiva e que estes , os Jiva , são comparáveis ao Akashaencerrado em vasilhas . Assim como as vasilhas são subsidiárias do Akasha , assim os corpos parecem proceder do Atmam . Este é o exemplo que se evoca para explicar a manifestação como emanada de Brahman .
SLOKA 3.4 - Quando a vasilha se rompe , o Akasha ali contido se funde com o Atmam ilimitado ; igualmente , os Jiva se fundem com o Atmam quando os condicionantes transitórios ( o corpo , a mente , etc ) são destruídos .
SLOKA 3.5 - Uma porção do Akasha encerrado em uma vasilha pode ter mistura de pó e de vapor , enquanto que as porções de Akasha encerradas em outras vasilhas estão livres de tal mescla .
Igualmente , o bem-estar ou sofrimento de um Jiva , não afeta aos outros Jiva .
SLOKA 3.6 - Ainda que as formas , as funções e os nomes sejam múltiplos , não se produz nenhuma diferença no Akasha ; a esta mesma conclusão se chega a respeito dos Jiva .
SLOKA 3.7 - A porção de Akasha limitada pela vasilha não é efeito nem parte do Akasha ; da mesma forma , o Jiva não é efeito nem parte do Atman . 
SLOKA 3.8 - Em sua ingenuidade a criança pode crer que as nuvens são manchas do ar ( Akasha ) ; em sua ignorância , o homem considera possível que o Atman seja manchado .
SLOKA 3.9 - No que concerne ao nascimento e a morte , a passagem de um estado a outro , e sua existência em múltiplos corpos , o Atman não é diferente do Akasha limitado em uma vasilha .
SLOKA 3.10 - Todos os corpos são como que produzidos num sonho pela ilusão do Atman ; nenhum argumento serviria para demonstrar-se sua realidade .
SLOKA 3.11 - O supremo Jiva , é o ser das cinco envolturas , comparável ao Akasha ilimitado , tal como foi explicado .

Capitulo II

Identidade do Jiva e do Atman 

SLOKA 3.12 - A descrição por meio de pares opostos ( ou complementares ) , como o do Akasha que penetra o mundo e o Akasha que penetra em todos os organismos , se aplica ao supremo Brahman ; de fato , Brahman é descrito como residente por vezes no interior de cada identidade e interpenetrando o universo .
SLOKA 3.13 - A identidade do Jiva e do Atman , com a característica comum de ser sem segundo , é glorificada e a multiplicidade condenada pelas escrituras ; em consequência , apenas a não-dualidade deve ser tida como razoável e verdadeira .
SLOKA 3.14 - As distinções entre o Jiva e o Atman que faz a Upanishad quando trata da origem da criação , apenas deve entender-se como figurada ; esta parte dos Veda descreve exclusivamente um fato temporal e sua distinção em tal declaração não tem nenhum sentido se for interpretada como real .
SLOKA 3.15 - As ilustrações da criação com os exemplos da terra , do ferro , das estrelas e outros análogos , tem por fim explicar a identidade do Jiva e Brahman , já que a multiplicidade não existe de modo algum .
SLOKA 3.16 - Há três estados de existência ( Asrama ) , que correspondem respectivamente aos três graus de compreensão , inferior , médio e superior ; apenas por compaixão pelos que ainda não entenderam a não-dualidade , ensina a Sruti a devoção .
SLOKA 3.17 - Os dualistas se apegam obstinadamente a suas conclusões e se contradizem entre eles , enquanto que os Advaitas não entram em conflito com ninguém .
SLOKA 3.18 - Posto que a não-dualidade é a realidade ultima , se conclui que a dualidade é a modificação ( Bheda ) da não-dualidade ; como os dualistas concebem a dualidade no absoluto e no relativo , a posição não-dualista não se opõe à dualista .

Capitulo III

A NATUREZA REAL DE ATMAN

SLOKA 3.19 - Apenas pela virtude de Maya , com exclusão de qualquer outra razão , o não-nascido ( Brahman sem segundo ) , parece sofrer modificações , pois se estas modificações fossem reais , o imortal ( Brahman ) seria mortal .
SLOKA 3.20 - Ninguém pode pretender que o Atman , jamais nascido , é afetado pela mudança e que sendo sem mudança e imortal pode participar da natureza do que é mortal .
SLOKA 3.21 - O imortal não pode ser mortal , nem o mortal pode ser imortal ; porque coisa alguma pode modificar sua natureza essencial .
SLOKA 3.22 - Se o imortal pode mudar em mortal , como alguém pode sustentar que ao mesmo tempo conserva sua natureza imortal ?
SLOKA 3.23 - A entrada na existência pode ser real ou ilusória ; a Sruti menciona as duas concepções ; mas a que é ao mesmo tempo sustentada pela Sruti e corroborada pela razão é a única correta .
SLOKA 3.24 - Por algumas passagens da escritura , tais como ; no Atman não há pluralidade , somente Maya criou Indra . . . , sabemos que apenas por Maya cremos ver multiplicidade no Atman não-nascido .
SLOKA 3.25 - Ademais , pela negação da criação ( Sambhuti ) , o passar ao nascimento se encontra refutado ; pois a causalidade é negada em declarações como esta : quem poderia fazer ao Atman decidir tomar nascimento ?
SLOKA 3.26 - Em razão da natureza incompreensível do Atman , a expressão da Sruti ; não é isto nem Aquilo , nega todas as ideias para descrever o Atman , mas afirma sua existência como não-nascido .
SLOKA 3.27 - Apenas por virtude de Maya e não do ponto de vista da realidade , parece tomar nascimento o que existe eternamente ; qualquer um que imagine que tal nascimento é real , afirma como um fato indiscutível que o que já é pode nascer .
SLOKA 3.28 - O irreal não pode nascer , nem desde o ponto de vista da realidade , nem por Maya ; os filhos de uma fêmea infecunda não pode nascer nem de fato , nem por ilusão .

Capitulo IV

COMO É POSSÍVEL CHEGAR À REALIDADE ?

SLOKA 3.29 - No estado de sonho , a mente trabalha através de Maya para apresentar a aparência de dualidade ; no estado de vigília , a mente trabalha , também , através de Maya para apresentar a aparência de dualidade .
SLOKA 3.30 - No sonho , a mente , que em realidade é sem segundo , aparece , sem dúvida , como múltipla ; no estado de vigília , a mente , que é sem segundo , também aparece , sem dúvida , como múltipla .
SLOKA 3.31 - Toda a multiplicidade , - compreendendo o que se move e o que não se move - , que a mente percebe , é a mente e apenas a mente , porque ninguém jamais teve a experiência de multiplicidade quando a mente cessa .
SLOKA 3.32 - Quando a verdade sobre o Atman é conhecida , a mente cessa de imaginar e deixa de ser a mente , porque falta de objetos de conhecimento , se livra de toda cognição .
SLOKA 3.33 - O conhecimento ( Jnana ) que é inato e isento da necessidade de imaginar nada , é sempre inseparável do cognoscível , Brahman , sem mudança e sem nascimento , é o único objeto de conhecimento ; o não-nascido , que conhece o não-nascido .
SLOKA 3.34 - Se deve conhecer o comportamento que adota a mente uma vez que já está disciplinada , quer dizer , isenta de imaginar e dotada de discriminação ; a condição da mente no sono profundo é de um gênero muito distinto e não pode ser comparada .
SLOKA 3.35 - As atividades da mente ficam em suspenso durante o sono profundo , mas não quando se pratica a disciplina vedântica . A mente de um Jnani é idêntica ao Brahman isento de medo , ao Brahman cuja luz omnipresente e sem eclipse é a pura consciência .
SLOKA 3.36 - Este Brahman sem nascimento , está isento de sono e sonhos , não tem nome nem forma e é sempre resplandecente e omnipresente , nenhuma obrigação , de que natureza seja , poderia ser-lhe prescrita .
SLOKA 3.37 - Este Atman reside mais além de toda expressão verbal , de toda operação mental ; é total serenidade , luz eterna livre de atividade e de temor , mas acessível à mente concentrada .
SLOKA 3.38 - Neste Brahman que está mais além de toda operação mental , não se encontram as noções de aceitar ou de abandonar ; o conhecimento do Jnani que se tenha estabelecido no Atman , acede ao estado de imortalidade e estabilidade , ao abrigo de toda mudança .
Anexo 
Explicações Sobre o Jnana Yoga 
SLOKA 3.39 - Este Yoga que não entra em contato com nenhum objeto , permanece proibido para a maior parte dos Yoguis , porque estes se assustam ao ver o medo ali onde precisamente o medo desaparece .
SLOKA 3.40 - Os Yoguis não seguem o Jnana Yoga se entregam a exercer o domínio sobre sua mente para alcançar o estado isento de medo , para exterminar o sofrimento e para adquirir o conhecimento do ser e a serenidade eterna .
SLOKA 3.41 - A mente somente poderia ser dominada por um esforço incessante , tal como o que seria necessário para esvaziar um oceano , gota a gota , com a ajuda de um filete de erva .
SLOKA 3.42 - Quando a mente se distrai pelo desejo ou desfrute , ou quando encontra sua satisfação no estado de Laya , deverá ser conduzida sob o jugo pelo emprego de meios apropriados ; o estado de esquecimento é tão nocivo quanto o de desejo .
SLOKA 3.43 - O aspirante deverá afastar sua mente do desfrute de prazeres , com a recordação constante de que todo prazer vai acompanhado de sofrimento ; deverá recordar-se sempre que tudo é não-nascido ( Brahman ) ; desta maneira é que o nascido , a dualidade , deixará de ser percebida .
SLOKA 3.44 - Se a mente cai na inatividade e vai para o estado de Laya , desperta-a ; se se distrai , conduzi-a ao estado de serenidade ; se oscila entre ambos os estados , sabe que contem de maneira virtual os desejos e se acede ao estado de equilíbrio , guarda-te de turba-la .
SLOKA 3.45 - Não permitas a tua mente gozar da felicidade que provem do Samadhi ; pela prática da discriminação livra-a do apego a essa felicidade ; e se a mente , uma vez alcançado o estado de fixidez , tenta voltar ao mundo exterior , aplica-te a submergi-la em Brahman .
SLOKA 3.46 - Quando a mente já não resvala na inatividade do estado Laya , nem as distraem os desejos ; quer dizer , quando está em paz e não dá nascimento às aparências , ela é realmente Brahman .
SLOKA 3.47 - A Felicidade Suprema está fundada na realização do ser e é serenidade total , idêntica à liberação e , portanto , indescritível e não-nascida . Tem sido descrita como o omnisciente Brahman , porque existe una com o ser sem nascimento , o qual é o ultimo objeto de conhecimento .
SLOKA 3.48 - Nenhum Jiva nasceu jamais , porque nenhuma causa existe que possa produzir o Jiva ; aqui está a suprema verdade ; nada , nem ninguém , jamais nasceu .

TRATADO IV
A EXTINÇÃO DO TIÇÃO ARDENTE 
( ALÂTA-SANTI-PRAKARANA )
Introdução 

SLOKA 4.1 - Com veneração me inclino diante do melhor dos homens ( Dvipadam-Vara ) , que por meio do conhecimento , - o qual é comparável ao Akasha e não difere em nada do objeto de conhecimento ( os Dharma ) - realizou a natureza dos Dharma ( os Jiva ) , que são comparáveis também ao Akasha ( Akadakalpa ) .
SLOKA 4.2 - Saúdo ao Yoga denominado Asparsa , que a Sruti ensina ; este Yoga acrescenta a ventura de todos , engendra a prosperidade de todos e está isento de oposição e de contradição .

Capitulo I

ESTUDO SOBRE A CAUSALIDADE

SLOKA 4.3 - Disputando entre eles , admitem alguns que uma entidade existente pode sofrer transformação , enquanto que outros , confiados de sua inteligência , pretendem que o desenvolvimento da manifestação procede de uma identidade não-existente .
SLOKA 4.4 - O existente não pode passar uma segunda vez pelo nascimento e o não-existente não pode ser engendrado para vir a ser como existente . Assim é como os adversários , por causa de suas controvérsias , tentam demonstrar de fato , a exatidão das concepções Adversas a respeito da não-evolução ( Ajati ) .
SLOKA 4.5 - Nós aderimos à teoria da não-criação ( Ajati ) que os demais proclamam e não dissentimos deles . Agora , escute nossa última verdade , a qual está isenta de toda controvérsia .
SLOKA 4.6 - Os dualistas pretendem que o Atman que é não nascido , sem mudança , sofra uma mudança . E como uma eternidade que é imutável e imortal poderia participar da natureza do mortal ?
SLOKA 4.7 - O Imortal não pode ser mortal , nem o mortal ser imortal , porque uma coisa não pode mudar de natureza .
SLOKA 4.8 - Como um homem que crê que a entidade de natureza imortal pode ser mortal , pode sustentar , ao mesmo tempo que o imortal , depois de passar pelo nascimento , conserva a sua natureza imortal ?
SLOKA 4.9 - Por Prakriti , ou natureza inerente de uma coisa , se deve entender o que uma vez adquirido se converte em parte integrante desta coisa , o que constitui sua qualidade característica , o que desde seu nascimento é sua essência , o que desde sua origem não depende de nenhum fator estranho e o que não cessa jamais de ser idêntico a si mesmo .
SLOKA 4.10 - Todos os Jiva estão , por natureza , isentos de caducidade e de morte , mas pensam , por assim dizer , que estão sujeitos a isso e é precisamente esse pensamento mesmo o que parece apartar-lhes de sua própria natureza .
SLOKA 4.11 - Os dualistas pretendem que a causa se transforma em efeito de si mesma e sustem que a causa nasce como efeito . Como é possível que a causa seja não nascida , se se pretende que nasça como efeito ? E como pode ser eterna se está sujeita à modificação ? 
SLOKA 4.12 - Se é afirmado que a causa , não nascida , não é diferente do efeito , também o efeito deve ser não nascido . Como poderia a causa ser permanente e ao mesmo tempo não diferente do efeito o qual é não-nascido ?
SLOKA 4.13 - Nenhum exemplo justifica a opinião de quem pretende que o efeito nasce da causa não-nascida . Pretender , ademais , que o efeito seja produzido por uma causa que é nascida , equivale a conduzir a uma regressão ao infinito .
SLOKA 4.14 - Aqueles que pretendem que o efeito é a causa da causa , e que a causa é a causa do efeito , não podem sustentar simultaneamente a entidade ( quanto ao começo ) da causa e do efeito .
SLOKA 4.15 - Os que sustem que o efeito é a causa da causa e que a causa é a causa do efeito , descrevem sem duvida o processo evolutivo total como se o nascimento do pai devesse ser imputado aos filhos .
SLOKA 4.16 - Se é feita a tentativa defender o principio de causalidade , se deverá determinar a ordem segundo a qual causa e efeito se sucedem . Mas se é afirmado que ambos aparecem simultaneamente , não se pode dizer que eles estão ligados por uma relação mútua , posto que viriam a ser como os dois chifres de um ruminante .
SLOKA 4.17 - Se a causa é produzida pelo efeito , não se acerta ao estabelece-la , e se a causa não está estabelecida , como poderá dar nascimento ao efeito ?
SLOKA 4.18 - Se a causa é produzida pelo efeito e se , por sua vez , o efeito é produzido pela causa , qual dos dois nasce primeiro , de sorte que o nascimento de um dependa do nascimento do outro ?
SLOKA 4.19 - A incapacidade de dar uma resposta , a ignorância e a impossibilidade de determinar a ordem de sucessão de causa e efeito , conduzem diretamente os sábios a ater-se à teoria da não-evolução absoluta ( Ajati ) .
SLOKA 4.20 - A ilustração da semente e do broto é uma matéria cuja prova ainda foi realizada . O termo médio daquilo cuja exatidão ainda não foi provada , não se pode utilizar para estabelecer uma proposição demonstrativa .
SLOKA 4.21 - A ignorância relativa ao antecedente ou ao subsequente da causa e efeito prova com clareza a ausência de evolução ou de criação . Se o efeito ( o Dharma , isto é , o Jiva ) foi produzido realmente por uma causa , porque não se pode indicar a causa precedente ?
SLOKA 4.22 - Jamais uma coisa , qualquer que seja , não é nascida de si mesma , nem nascida de outra coisa ; jamais uma coisa não foi produzida , quer seja essa coisa existente , não-existente ou , conjuntamente , existente e não-existente .
SLOKA 4.23 - A causa não pode ser produzida por um efeito que é sem começo , nem o efeito poderia nascer de si mesmo ; o que é " sem começo " deve necessariamente estar isento de nascimento .

Capitulo II

TEORIA ADVAITA DO CONHECIMENTO 

SLOKA 4.24 - O conhecimento subjetivo deve ter uma causa objetiva , pois caso contrário , seriam os dois inexistentes . Por essa razão e também porque experimentamos o sofrimento , a existência dos objetos exteriores , que outros pensadores reconhecem , deve ser definitivamente admitida .
SLOKA 4.25 - Do ponto de vista da razão , uma causa deve ser designada à impressão subjetiva , mas do ponto de vista da realidade suprema , ou da verdadeira natureza das coisas , nós percebemos que a pretendida causa da impressão subjetiva , não é , em definitivo , uma causa .
SLOKA 4.26 - A mente não entra em relação com os objetos exteriores , nem as ideias que aparecem como objetos externos são outra coisa que reflexos sobre a mente . Isto é assim , porque os objetos não existem e as ideias que aparecem como objetos externos não são distintas da mente .
SLOKA 4.27 - Em nenhum dos três modos de tempo está a mente submersa na relação causal . Como poderia a mente estar sujeita a ilusão quando tal ilusão carece de causa ?
SLOKA 4.28 - Nem a mente , nem os objetos que percebe a mente nasceram . Quem crê ver tal nascimento poderia descobrir as pegadas deixadas no céu pelas patas dos pássaros .
SLOKA 4.29 - Alguns imaginam que o que é não-nascido , teve nascimento , mas a verdadeira natureza do real é ser sempre não-nascido . Em nenhum caso pode uma coisa ser distinta do que é .
SLOKA 4.30 - Se , como alguns pretendem , fosse admitido que o mundo carece de origem , deixaria de ser perecedouro . A libertação ( Moksa ) não pode ter um começo e durar eternamente .
SLOKA 4.31 - Tudo o que na origem e no fim é não existente , é necessariamente não-existente no meio ; ainda que os objetos que vemos sejam ilusórios , não deixam por isso de ser considerados como reais .
SLOKA 4.32 - Que os objetos da experiência vigílica servem para certos fins é coisa que contradiz o sonho .
Todos eles estão reconhecidos sem dúvida como ilusórios pelos sábios , posto que tem princípios e fim .
SLOKA 4.33 - Todos os objetos conhecidos no curso do sonho são ilusórios porque são percebidos no interior do corpo . Como é possível que aqueles objetos cuja existência percebemos , estejam realmente em Brahman , o qual é indivisível e homogêneo ?
SLOKA 4.34 - Não é possível que um sonhador saia de seu corpo para ir em busca da experiência de objetos oníricos , em razão da incompatibilidade de tempo e espaço que uma tal viajem comporta ; ademais , ao despertar o sonhador não se encontra na cena em que o sonho se desenrola .
SLOKA 4.35 - Ao despertar o sonhador se da conta da irrealidade das conversações que manteve em sonhos com seus amigos , etc . . . ademais , fica privado , no estado de vigília , das riquezas que possuía durante o estado de sonho .
SLOKA 4.36 - O corpo que se move no sonho é irreal , posto que o outro corpo ( o corpo grosseiro ) é diferente do anterior e percebido em seu lugar próprio , igual ocorre com a mente , pois todo objeto de cognição é irreal .
SLOKA 4.37 - Posto que a experiência ( de objetos ) no sonho é similar à experiência de objetos na vigília , se chega a pensar que as experiências vigílicas são causa das experiências oníricas . Por isso , o sonhador toma por reais as experiências vigílicas , que supõe ser a causa do sonho , mas nenhum outro participa desta crença .
SLOKA 4.38 - Todas estas experiências se comprovam como o não-nascido , posto que não se pode estabelecer como um fato a criação ou evolução . Em nenhum caso o irreal pode nascer do real .
SLOKA 4.39 - Profundamente impressionado pela aparente realidade dos objetos irreais que vê no estado de vigília , o próprio preceptor volta a ver os mesmos objetos em sonhos . Contrariamente , no estado de vigília o preceptor não vê novamente os objetos irreais que experimentou no curso do sonho .
SLOKA 4.40 - O irreal não pode ter o irreal por causa , nem o real pode ser produzido pelo irreal . O real não pode ser a causa do real , e o real , - o cúmulo da impossibilidade - , não pode ser a causa do irreal .
SLOKA 4.41 - Da mesma maneira que no estado de vigília , por consequência de um conhecimento errôneo é possível servir-se , como se fossem reais , dos objetos cuja natureza não pode ser descrita , assim , também , no estado de sonho , por consequência de um conhecimento errôneo , se percebem os objetos cuja existência somente é possível nesta condição .
SLOKA 4.42 - Os sábios só admitem a causalidade ante aqueles que espantados com a não-manifestação absoluta , se atêm à realidade aparente dos objetos externos , e por isto , pelas duas razões seguintes , eles percebem tais objetos e têm fé nas práticas religiosas .
SLOKA 4.43 - Aqueles que espantados de ouvir falar da verdade como não-manifestação absoluta e também porque percebem os objetos aparentes , rechaçam a teoria de Ajati , não são apenas afetados pelas funestas consequências que entranha a crença na causalidade ; para eles os maus efeitos são nulos e mais ou menos , insignificante .
SLOKA 4.44 - Da mesma maneira que um elefante que foi sugerido pela arte do mago , é considerado como existente desde o momento em que é percebido e que responde ao comportamento de um verdadeiro elefante , assim também , os objetos são considerados como existentes desde o momento em que são percebidos e que respondem às ações que exercemos sobre eles .

Capitulo III

O TIÇÃO ARDENTE : UM ESTUDO SOBRE A CONSCIÊNCIA .

SLOKA 4.45 - A consciência que parece tomar nascimento , ou mover-se , ou assumir a forma de objetos grosseiros é , em realidade , não-nascida , imutável e isenta de todo caráter grosseiro ; é toda serenidade e não tem segundo .
SLOKA 4.46 - A mente não está jamais sujeita ao nascimento nem à mudança e todos os seres estão isentos de nascimento . Quem quer que conheça esta verdade está livre para sempre da apreensão errônea .
SLOKA 4.47 - Um tição ardente que se move , parece traçar uma linha reta , ou quebrada , etc . . . , à consciência que se superpôs o movimento parece ser ora o preceptor , ora o percebido e assim sucessivamente .
SLOKA 4.48 - O tição ardente que se deixa de agitar está isento de toda aparência e permanece sem mudança ; a consciência que se deixa de agitar ( por atos imaginários ) , está isenta de toda aparência e permanece sem mudança .
SLOKA 4.49 -Quando o tição ardente é agitado , as aparências que se percebem nele não provêm de outra parte e quando está imóvel , as aparências não saem do tição ardente para ir a outra parte ; ademais , quando o tição não é agitado , as aparências não se reabsorvem no tição .
SLOKA 4.50 - As aparências não emanam do tição ardente porque não têm a natureza de uma substância ; isto mesmo ocorre na consciência , em um e outro caso , em razão da similaridade das aparências .
SLOKA 4.51 - Quando a consciência se associa à noção de atividade , como no sonho e na vigília , as aparências que são percebidas nela não provêm de outra parte ; quando a consciência está inativa , como no sono profundo , as aparências não saem da consciência inativa para ir a outra parte .
SLOKA 4.52 - Ademais , as aparências não entram na consciência nem saem dela , porque não têm a natureza de uma substância ; as aparências residem sempre mais além de nossa compreensão , posto que não estão sujeitas à relação de causa e efeito .
SLOKA 4.53 - Uma substância pode ser a causa de outra substância ; o que não é substância pode ser a causa de outra coisa que tampouco seja substância ; quanto aos seres animados ( Jiva ) , não podem ser algo comparável a uma substância nem nada distinto de uma substância .
SLOKA 4.54 - As aparências não são causadas pela mente , nem a mente é um produto das aparências , por isso , os homens de discriminação se aderem ao principio de não-evolução e negam a causalidade .
SLOKA 4.55 - Enquanto um homem persiste em crer na causalidade , vê exercer-se o jogo da causa e efeito , mas quando se desfaz o apego à causalidade , causa e efeito deixam de existir .
SLOKA 4.56 - Enquanto subsiste a fé na causalidade , a roda de nascimento e morte continua sem fim , mas quando esta fé é destruída pelo conhecimento , nascimento e morte cessam de existir .
SLOKA 4.57 - Apenas em razão da experiência ilusória , a qual é devida à ignorância , se vê nascer tudo isto , em consequência nada é permanente . Mas posto que tudo não faz mais que um com a última realidade , tudo é não-nascido , se segue que o que se chama destruição não existe .
SLOKA 4.58 - Destes Jiva ou seres viventes , se diz que são nascidos , mas desde o ponto de vista da realidade , tal nascimento não é possível ; o nascimento destes Jiva é semelhante ao de um objeto ilusório , nascimento que também é não existente .
SLOKA 4.59 - A planta ilusória não brota da semente ilusória ; esta planta ilusória não é permanente nem destrutível . Igual ocorre com os Jiva .
SLOKA 4.60 - Os epítetos de permanente ou impermanente não podem aplicar-se aos Jiva não-nascidos , porque não é possível distinguir o que as palavras são impotentes para descrever .
SLOKA 4.61 - Do mesmo modo que no sonho se vê a mente atuar por Maya e produzir assim a aparência da dualidade ; do mesmo modo que no estado de vigília se vê a mente atuar por Maya e produzir assim a aparência da dualidade .
SLOKA 4.62 - Seguramente , a mente que , de fato é sem segundo , aparece como múltipla no curso do sonho ; seguramente , a mente que de fato é sem segundo , aparece como múltipla no estado de vigília .
SLOKA 4.63 - Toda a diversidade dos Jiva nascidos de um ovo , da fermentação , etc . . . que vê sempre o sonhador quando caminha em estado onírico nas dez direções do espaço , carecem de existência independente da mente do sonhador .
SLOKA 4.64 - Os seres que são objetos para a mente do sonhador , não têm existência independente de tal mente ; de igual maneira , se admite que a mente do sonhador só é um objeto de percepção para o sonhador ( logo a mente do sonhador não é distinta do próprio sonhador ) .
SLOKA 4.65 - Toda a diversidade de Jiva , nascidos de um ovo , da fermentação , etc . . . que se vê sempre em vigília , quando o Jiva caminha durante a vigília em uma das dez direções , só é um objeto para a mente do desperto .
SLOKA 4.66 - Todos estes Jiva não são , em nenhuma circunstância , distintos da mente de vigília . De igual maneira se admite que a mente do desperto só é um objeto para a mente do desperto , logo , a mente do desperto não é distinta do desperto .
SLOKA 4.67 - A mente e o Jiva são objetos de percepção mútua e não se pode dizer que existam independentemente um do outro . Os dois estão igualmente desprovidos de sinais ou meios pelos quais se lhes possa distinguir , pois um só pode ser conhecido pelo outro .
SLOKA 4.68 - Da mesmo forma que o Jiva sonhado vem a ser e desaparece , assim todos os Jiva percebidos em vigília aparecem e desaparecem .
SLOKA 4.69 - Da mesma forma que o Jiva do mago vem a ser e se dissipa , assim todos os Jiva percebidos em vigília aparecem e desaparecem .
SLOKA 4.70 - Da mesma forma que o Jiva produzido por artificio vem a ser e se desvanece , assim todos os Jiva percebidos em vigília aparecem e desaparecem .
SLOKA 4.71 - Nenhum gênero de Jiva jamais nasceu , nem houve causa para tal nascimento . A última verdade é que nada absolutamente teve nascimento .

Capitulo IV

TEORIA DA NÃO-EVOLUÇÃO ABSOLUTA ( AJATA-VADA )
Primeira Parte . A Mente Não-Objetivada 

SLOKA 4.72 - Este mundo de dualidade que é percebido e que caracteriza a relação de sujeito e objeto é , em verdade , um produto da mente . Mas desde o ponto de vista da realidade esta mente não entra em contato com nenhum objeto , posto que a mente é da natureza do Atman ; portanto , se declara que a mente é eterna e incondicionada .
SLOKA 4.73 - O que apenas parece existir em virtude das experiências ilusórias , não têm existência , propriamente falando . Igualmente , o que só parece existir em virtude das opiniões professadas por outras escolas , não têm , existência , propriamente falando .
SLOKA 4.74 - Se disse que o Atman é não-nascido ( Aja ) desde o ponto de vista da experiência ilusória , mas em realidade , não é não-nascido . Este Atman não-nascido , só parece ser nascido desde o ponto de vista daqueles que abraçam a crença particular de outras escolas de pensamento .
SLOKA 4.75 - O homem persiste em crer na realidade do irreal , o qual é dualidade , mas a dualidade correspondente a esta crença não existe . Aquele que realiza a ausência de dualidade não renascerá jamais , posto que nenhuma causa subsiste que possa produzir tal nascimento .
SLOKA 4.76 - Quando a mente tiver deixado de encontrar uma causa do gênero que seja , superior , intermediaria , ou inferior , se livra de golpe do nascimento . Como poderia haver efeito sem causa ?
SLOKA 4.77 - A não-evolução , quer dizer , o estado de conhecimento , da mente não-nascida e isenta de toda relação causal , é constante e absoluta . Mas toda outra coisa é também não-nascida , porque a dualidade não é coisa mais que objetivação da mente .
SLOKA 4.78 - Depois de haver realizado a ausência de causalidade como a última verdade e posto que não se encontra outra causa , se acede a este estado de liberação , que é isento de sofrimento , de desejo e de medo .
SLOKA 4.79 - Apenas em razão de seu apego aos objetos irreais persegue a mente tais objetos , mas ela volta a seu estado de pureza quando deixa de sentir apego por esses objetos uma vez descoberta sua irrealidade .
SLOKA 4.80 - Quando a mente se libera do apego aos objetos exteriores e quando novos objetos exteriores já não a podem perturbar , acede ao estado de imutabilidade . Desde então , a mente que foi realizada pelo sábio como Brahman , é indiferenciada , sem nascimento e sem segundo .

Segunda Parte : O Estado de Brahman

SLOKA 4.81 - A realidade que está isenta de nascimento e livre do sono e de sonhos , se revela por si mesma , porque este Dharma , quer dizer , o Atman , é , por sua própria natureza , sempre resplandecente .
SLOKA 4.82 - Se a felicidade , a essência do ser , permanece sempre obnubilada e o sofrimento sai à superfície , é porque a mente só apreende simples objetos , mas o senhor é sempre resplandecente .
SLOKA 4.83 - As mentes pueris recobrem verdadeiramente o Atman , quer dizer , fracassam em sua empresa , porque lhe assinalam atributos tais como existência , não-existência , existência e não-existência , ou não existência absoluta . Mas todos estes atributos proveêm unicamente dos preconceitos particulares relativos à mudanças , à imutabilidade , ao conjunto de mudanças e imutabilidade e à negação absoluta .
SLOKA 4.84 - Eis aqui quatro teorias relativas a natureza do Atman que se oferecem a nossa escolha .
O Atman se oculta ao nosso olhar segundo nosso apego a cada uma delas . Naquele que teve por experiência que o Atman não se vê jamais afetado por estas superposições , a totalidade se revela .
SLOKA 4.85 - O que poderia desejar ainda quem alcançou o estado de Brahmana , esse estado de completa consciência , de não dualidade , esse estado que não tem começo , nem meio , nem fim .
SLOKA 4.86 - Esta realização de Brahman confere aos Brahmana uma humildade absolutamente natural , os sábios declaram , ademais , que esta tranquilidade é expontanea ; se diz que os Brahmana conquistaram o domínio de seus sentidos , de maneira natural . Aquele que por este método realiza Brahman , o qual é serenidade infinita , é a mesma serenidade inalterável .
ANEXO
UM BREVE TRATADO COMPLEMENTAR
Primeira Parte
Outro Processo Vedântico de Realização
SLOKA 4.87 - O Vedanta reconhece o estado ordinário , empírico , de vigília no qual se percebe a dualidade , que consiste em objetos e na ideia de entrar em contato com esses objetos . Se reconhece , ademais , outro estado mais sutil , o de sono com sonhos , comum a todos os seres , no qual se experimenta a dualidade , que consiste unicamente na ideia de entrar em contato com os objetos , ainda que tais objetos não existam .
SLOKA 4.88 - Há ainda outro estado ( reconhecido pelos sábios ) , no qual não há contato com nenhum objeto e que está inteiramente isento da ideia de entrar em contato com os objetos . Este estado se situa mais além do domínio empírico . Os sábios descrevem sempre o temário ; conhecimento , conhecimento de objetos e cognoscível como suprema realidade .
SLOKA 4.89 - Uma vez que o conhecedor , dotado do intelecto mais elevado , adquiriu o conhecimento e alcança , um após o outro , os três objetos cognoscível , acede espontaneamente , nesta mesma vida ao estado de conhecimento em todo instante e respeito a toda coisa .

Segunda Parte
A REALIZAÇÃO DE BRAHMAN
SLOKA 4.90 - Eis aqui os quatro objetos que devem ser distintos antes de tudo , as coisas que devem ser evitadas ( Heya ) , o objeto que deve ser realizado ( Jneya ) , as coisas que devem ser adquiridas e os pensamentos que devem ser excluídos ( Pakyani ) , destes quatro objetos , um deve ser realizado , - a Suprema Realidade - , os três restantes somente tem uma existência imaginaria .
SLOKA 4.91 - Todos os Dharmas são , por sua própria natureza , sem origem e incondicionados como o Akasha ; não há entre eles a mais ligeira diferença de qualquer gênero e em qualquer tempo que seja .
SLOKA 4.92 - Todos os Jiva são , por sua própria natureza , resplandecentes desde sua origem e em sua essência ; sempre imutáveis . Aqueles que uma vez tenham adquirido esta primeira noção , se abstêm de buscar mais longe o conhecimento , são os únicos capazes de realizar a mais alta verdade .
SLOKA 4.93 - Todos os Dharmas ou Jivas são , desde sua origem e por sua própria natureza , serenidade total , não-nascidos e absolutamente livres . Se caracterizam pela identidade , não diferem entre si .
Os Jivas são os Atman não-nascidos e estabelecidos sempre na identidade e na própria pureza .
SLOKA 4.94 - Aquele que se compraz no estado de separação , não poderá jamais realizar a pureza inata do ser ; aqueles que se submergem na noção de separação e que sustentam a separatividade dos Jiva , merecem ser qualificados de intelecto estreito .
SLOKA 4.95 - Apenas terão adquirido a mais alta sabedoria , aqueles que permanecem inquebrantáveis em sua convicção a respeito do ser , ao ser não-nascido e sempre idêntico a si mesmo , mas tal atitude não sabe compreendê-la os comuns dos mortais .
SLOKA 4.96 - Os sábios admitem que o conhecimento ( a Consciência ) , a essência dos Jiva não-nascidos , é também não-nascido e desprovido de toda relação com qualquer objeto . Eles proclamam que este conhecimento é absolutamente incondicionado , posto que não tem relação com nenhum outro objeto .
SLOKA 4.97 - Se o ignorante conserva em si mesmo a mais débil noção de diversidade a respeito do Atman , o caminho para o incondicionado está cortado . É inútil sonhar com destruir o véu que oculta a verdadeira natureza do Atman .
SLOKA 4.98 - Todos os Dharmas , ou Jiva , estão sempre isentos de escravidão ; são puros por natureza própria , sempre resplandecentes e emancipados desde sua origem ; não obstante , os sábios falam dos Jiva como se fossem capazes de conhecer a última verdade .
SLOKA 4.99 - O conhecimento do sábio , o que é luz total , não está em nenhum caso condicionado pelos objetos . Todas as entidades , tal como o conhecimento , posto que não diferem em nada , não são em nenhum caso condicionadas por um objeto . Esta não é a opinião do Buddha .
SLOKA 4.100 - Depois de haver realizado esta condição ( o Conhecimento da Suprema Realidade ) que não se pode usufruir sem o preço de grandes esforços , que é profundo , não-nascido , sempre imutável , luz total e isento de dualidade , nós o saudamos o melhor que pudermos .

SAUDAÇÃO FINAL 

1- Me prosterno diante deste Brahman , destruidor de todo medo naqueles que se socorrem refugiando-se n'Ele .
Este Brahman , que ainda que não-nascido parece associar-se ao nascimento por seu inescrutável e indescritível poder de conhecimento e de atividade .
Este Brahman que , ainda que eternamente em repouso , parece mover-se e que ainda sem segundo , parece assumir multiplicidade de formas , segundo aqueles cuja visão ainda dominada pela percepção de inumeráveis objetos e de seus atributos respectivos .
2- Me prosterno aos pés deste grande instrutor , o mais adorado entre os adoráveis , aquele que por pura compaixão com os seres que se afogam no oceano deste mundo , ( o oceano profundo cheio de temíveis bestas ; os nascimentos e as mortes incessantemente renovadas ) , trouxe , para beneficio de todos os homens , este precioso néctar que os próprios deuses só podem alcançar com grande esforço . Os trouxe dos abismos mais profundos do oceano dos Veda , baralhando-os com a varinha de sua razão iluminada .
3- Com todo o meu ser rendo homenagem aos pés sagrados , estes pés que dissipam o temor aos nascimentos e mortes alternados .
Aos pés de meu grande Instrutor que com a luz de sua razão iluminada , destruiu as espessas trevas da ilusão em que minha mente estava envolta .
Que destruiu para sempre para mim o sortilégio que me fazia aparecer e desaparecer interminavelmente neste terrível oceano em que cada onda é um nascimento e uma morte .
E que enfim , derramando a Sua graça sobre os demais aspirantes que se refugiam à seus pés , lhes conduzirá até o Conhecimento infalível das escrituras , até a inalterável serenidade , até o estado de não-diferenciação absoluta .
OM ! Shanti ! Shanti ! Shanti !
Fonte : http://www.lojajinarajadasa.com/7.1.f.html
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segunda-feira, 3 de junho de 2013

" A Amplitude da Consciência Espiritual "

A consciência espiritual é um assunto vasto , pois abrange o âmbito inteiro da consciência humana .
A essência da consciência é sempre pura . É inerente a todas as ações , boas e más , contudo permanece intocada e imaculada . A espada pode ficar manchada pela seiva de uma folha que cortar , mas a espada em si fica imutável . O mesmo ocorre com a consciência .
A espada usada para matar um homem inocente é condenada como maligna ; a arma utilizada para destruir um perverso inimigo é glorificada como virtuosa . Igualmente , quando a consciência é usada para fazer coisas positivas , denomina-se consciência espiritual , e quando utilizada para coisas negativas é chamada de consciência maligna .
Assim como um rio tem uma nascente de origem , o rio da consciência também tem uma fonte : a Consciência Cósmica , a consciência de Deus além de toda a criação . Quando a Consciência Cósmica entra no domínio da matéria - em cada um dos átomos que formam os planetas e os universos insulares , e nas diferentes formas de vida vegetal , animal e humana - recebe o nome de Consciência Crística . E quando esta desce à alma e à mente pura do ser humano , é denominada superconsciência . Quando a superconsciência entra no domínio da imaginação é chamada de subconsciência . Quando esta desce ao estágio muscular e sensorial da vida humana , é chamada de consciência humana ou acordada . Quando se apega aos sentidos e à matéria , recebe o nome de consciência mundana , e quando é usada para prejudicar a si mesma e aos outros , denomina-se consciência maligna . Mas se for usada para fazer o bem e para produzir sintonia com Deus , então recebe o nome de consciência espiritual .
Estes são os passos dados pela Consciência Cósmica para entrar na consciência humana : desce do Espírito ao corpo e a nossos desejos materiais e espirituais . Deste modo , a Consciência Cósmica se torna material a medida que descende e se exterioriza . A alma é como um barco à deriva que se afasta cada vez mais da fonte do Espírito e se dirige para as rochas do sofrimento . O único modo de deter a flutuação da evolução descendente é nadar contra a corrente , voltando ao Espírito . Diz-se que têm consciência material os que se deixam levar pela corrente descendente de consciência rumo a inclinação finitas ; e têm consciência espiritual os que vão rio acima , em direção à fonte , o Espírito .
De tempos em tempos , o rumo da consciência do pensamento humano pode mudar , podendo haver predominâncias ascendente , para o bem , ou descendente , para a matéria . Esta propensão pode predominar na família , no país ou no mundo em geral , bem como no indivíduo . Pois , assim como os seres humanos passam individualmente por diferentes níveis de consciência , o mesmo ocorre coletivamente com famílias , nações e com o mundo . A Índia , em sua idade de ouro , possuía espiritualidade e inteligência material no mais alto grau . Atualmente , são os Estados Unidos que têm a mais alta eficiência material , ao mesmo tempo em que se encontram no início de seu desenvolvimento espiritual .
A Índia é mais adiantada na ciência da espiritualidade do que qualquer outro país do mundo . O desenvolvimento espiritual indiano pode ser visto em seus santos Autorrealizados . Vejam Mahatma Gandhi : este homenzinho está ditando ordens ao poderoso Império Britânico . Saiba que existe um grande poder espiritual por trás de alguém capaz de dirigir milhões não pela espada , mas pela palavra da Verdade , pela Verdade viva .
A autêntica verdade espiritual de uma nação ou indivíduo é demonstrada pelo conhecimento científico da vida e da arte de viver em sintonia com as leis cósmicas e pelo contato e comunhão maior com Deus como Espírito . Este progresso espiritual não acontece pela simples ingestão de ideias teológicas , e sim assimilando a verdade por trás da teologia . Precisamos ser capazes de separar a espiga da verdade da palha dos dogmas e das teorias

O que é a verdade ? 
A característica mais notável da Self-Realization Fellowship é que ela ensina a conhecer a verdade através da experiência real .
As verdades não serão verdades para você até que as experimente pessoalmente . Sem realização , são apenas ideias . É por isso que , antes do desenvolvimento espiritual , indivíduos e nações passam por ciclos de dúvida espiritual : O que é a espiritualidade ? Por que é necessária ? Será que vai mesmo me fazer mais feliz ? O que é a verdade ? A dúvida só desaparece com a percepção interior . Portanto , o melhor laboratório para testar a verdade é a sua própria Autorrealização , pois a percepção espiritual , a consciência espiritual , não reside em vagas ideias teológicas , mas sim na obtenção da Autorrealização . O conhecimento individual e nacional deve ser testado por este critério .
A palavra " verdade " tem sido tão desvirtuada que passou a significar praticamente qualquer coisa que se queira , especialmente quando usada com a conotação de ideia espiritual . Na vida diária , a verdade é ter uma consciência guiada pela sabedoria espiritual , que nos impulsiona a realizar certas coisas não porque alguém o determine , mas sim porque são corretas .
A verdade não pode ser monopolizada por nenhum indivíduo ou grupo . Todo ser humano tem o direito de expressar a verdade em sua vida . As expressões podem variar , mas a substância sempre será única e idêntica . É isso que a torna tão interessante : a verdade não pode ser limitada . É eterna e continuará a se manifestar sempre , através da lei cósmica e de seres iluminados , quer a maior parte do mundo aceite , quer não . Felizmente , os absolutos cósmicos não dependem da crença ou da aprovação humana .

A consciência espiritual obedece a todas as regras que    tornam a vida completa
Consciência espiritual significa o uso de uma sabedoria superior - a verdade - para fazer tudo o que mais beneficie a si mesmo e aos outros . Pense nisso . Inclui o serviço altruísta ao próximo , o comportamento correto , o cumprimento das leis de higiene e de todas as outras leis da vida , e também o desempenho harmonioso de todos os deveres materiais e espirituais , sem permitir que haja conflito entre eles . A consciência espiritual é uma perfeita expressão interna da verdade e se manifesta numa vida equilibrada e harmoniosa , cheia de felicidade genuína , e que você , por sua vez , compartilha com os outros .
Uma consciência que não obedece a todas as regras que tornam a vida completa não é uma consciência espiritual . Por exemplo : algumas pessoas se tornam artistas e , na busca da arte , esquecem outros deveres práticos e espirituais . Certamente a arte é uma expressão belíssima e pode muito bem transmitir ideias espirituais , entretanto , a pessoa que a produz pode não ser espiritual . Viver em contradição - cumprir um dever e usá-lo como desculpa para negligenciar os outros deveres - é viver sem espiritualidade . Se você desempenha todos os deveres alegremente , sem deixar que nada abale sua felicidade e tranquilidade interior , evitando contradições que possam desequilibrar sua vida , você possui a verdadeira felicidade espiritual . A tendência da mente e da consciência é voltar-se integralmente para a fonte , para Deus . A consciência espiritual é a suprema consciência a se alcançar quando se deseja uma existência harmoniosa e pacífica . Sem este equilíbrio espiritual na sua vida , a felicidade é impossível . Viver uma vida contraditória é não ser equilibrado , e viver a vida em desequilíbrio é o caminho certo para a infelicidade .
O mundo interior em contraposição ao mundo exterior
Os sentidos são a raiz da consciência material . O indivíduo comum está mais inclinado para o mundo e para as coisas materiais do que as coisas espirituais , porque os faróis de seus cinco sentidos - visão , audição , olfato , paladar e tato - estão direcionados para o exterior , isto é , aos objetos e prazeres materiais . É por isso que tudo lá fora parece lindo e agradável . Nunca se contempla o " mundo interior " a menos que os faróis se invertam e se focalizem ali . Só quando aprender a não se deixar levar pela operação dos sentidos é que você conseguirá desfrutar da consciência espiritual .
Quando você se interioriza , começa a perceber que há muito mais maravilhas no mundo interior do que no exterior . Se gosta da música deste mundo , descobrirá que a música astral é muito mais encantadora . Da mesma forma que aprecia a carícia de uma brisa refrescante , o calor do sol e outras sensações saudáveis , quando você tem a consciência voltada para dentro sente as percepções sutis , extremamente agradáveis , das forças situadas nos centros espirituais do eixo cerebrospinal do corpo . Todas as coisas belas deste mundo nada mais são do que uma grosseira réplica da radiante grandiosidade do mundo astral . Nada material pode se comparar às maravilhosas visões do mundo interior . A consciência espiritual leva à percepção da sabedoria e da beleza que existem por trás de todos os fenômenos materiais .
A beleza da natureza é como uma fonte : você vê como a névoa de água é bonita mas não enxerga as maravilhas dentro de cada gota .
A luz e a cor astral por trás de cada átomo são indescritivelmente belas . Nesta fonte de esplendor da natureza você vê apenas o exterior grosseiro , mas não a sutil beleza interior , nem o Poder que confere essa beleza à natureza .
" Ó Senhor , todas as coisas são formosas porque Tu emprestaste a beleza que possuem . A lua sorri e as estrelas cintilam porque lá estás , fulgurante . Como Tu és belo , tudo é belo ; sem Ti , nada seria bonito . Ó Beleza Infinita , és mais bela do que todas as coisas belas que vêm de Ti . Os encantos da natureza nada mais são do que ondas de Tua beleza dançando em Ti , Ó Espírito Invisível da Beleza ! "
A espiritualidade engloba um vasto campo de atividades controladas  

  Ser espiritual não é ser um anjo com asas , e sim algo infinitamente maior - é ser alguém que está em contato com Deus . Viva de forma diferente do homem comum , que só tem contato com a consciência sensorial . A consciência espiritual significa vitória absoluta sobre a consciência humana . Mas a espiritualidade não significa apenas meditar , engloba um campo muito amplo de existência sobre a qual devemos ter controle . No entanto , a meditação é o melhor alicerce ; o melhor modo de ser espiritual , o meio mais simples de espiritualizar a consciência . A meditação atrairá para sua vida todo o bem que você jamais sonhou . Mas meditar de um lado e ficar irado ou levar uma vida dissoluta de outro é como apoiar os pés em dois barcos que navegarão por rumos opostos . Além de aprender a meditar , aprenda a se comportar . Ter consciência espiritual é ser capaz de fazer o que for do seu mais alto interesse . E eu aposto que noventa e nove por cento das pessoas não sabem em que reside o seu próprio bem .
Uma maneira prática de discernir o certo do errado é fazer uma autoanálise . Todos deveriam manter um diário mental . Os diários mentais são muito melhores do que os materiais , que são objeto da curiosidade alheia . Muitas pessoas anotam bonitos pensamentos e resoluções no diário - e logo os esquecem . É melhor manter um diário mental onde você possa observar constantemente seus pensamentos e ações . Durante o dia , dê uma verificada nos três veículos : físico , mental e espiritual , para ver como estão se comportando . Isto o ajudará a desenvolver a consciência espiritual .
Só Deus examinará seu diário mental . Se você o encher de pensamentos e comportamentos corretos , terá um passaporte para o céu . Portanto , registre somente o que é bom . Não dê ouvidos a coisas negativas e não fale , nem pense , negativamente . Não deixe que nenhum ato seu cause mal aos demais , prejudicar o outro tem efeito bumerangue , acabando por prejudicar mais a você mesmo . O pecado não é como a dinamite , que você pode fazer explodir de certa distância sem se ferir , mas tem de ser desativado dentro da própria alma .
Nunca seja mesquinho . Não guarde ressentimentos . Eu prefiro alguns pecadores de bom coração a certas pessoas chamadas de " boa gente " mas que são preconceituosas e frias . Ser espiritual é ser tolerante , é compreender e perdoar , é ser amigo de todos .
Se você se diz amigo de todos , que isso seja verdade . Se oferece amizade , precisa estar disposto a dá-la ; não deve mostrar bondade ou cooperação externamente e internamente sentir o contrário . A lei espiritual é muito poderosa . Não vá contra os princípios espirituais , nunca engane ninguém , nem seja desleal . Como amigo saiba quando não se intrometer ; conheça seu lugar e saiba quando cooperar e quando não deve fazê-lo .
Se você oferecer sua amizade às pessoas e elas souberem que têm um amigo disposto a ajudar , esse será um poder maravilhoso em sua vida . As pessoas sempre confiaram em mim . Meu guru , Sri Yukteswar , dizia : " Se alguma vez eu errar , ponha minha cabeça em seu colo e me abençoe " . A tal ponto chegava sua humildade e sua expressão perfeita do que significa a amizade divina !
Lembro-me de um garoto em minha escola na Índia : uma criança problemática que foi levada para lá por seus pais . Em geral , só aceitávamos crianças menores de doze anos , e ele era bem mais velho . Tivemos uma conversa franca . Disse-lhe que não havia trancas nas portas da escola e que ele podia ir embora quando quisesse . Também lhe disse que só podia ficar se estivesse disposto a ser bom . Argumentei : " Você tomou a decisão de fumar , o que é contra a vontade de seus pais . Mais ainda não conseguiu derrotar a infelicidade , e é você mesmo quem mais sofre em consequência de seu mau comportamento . "
A flecha atingiu o alvo . Ele começou a chorar , dizendo : " Eles vivem me batendo " .
Continuei : " Pense no que fez a si mesmo . Muito bem , eu o aceito , com a condição de ser seu amigo , mas não um detetive .
Enquanto tiver vontade de consertar seus erros , eu o ajudarei . Mas se mentir para mim , não farei nada por você . A mentira destrói a amizade . " Acrescentei : " Sempre que quiser fumar , não o faça nas minhas costas , em vez disso , fale comigo , e eu arranjarei cigarros para você . "
Um dia , ele se aproximou e disse . " Estou morrendo de vontade de fumar " . Dando-lhe dinheiro , mandei-o comprar cigarros . Ele ficou atônito .
" Pegue o dinheiro de volta " , ele disse .
Eu insisti para que fosse , mas não houve jeito . Finalmente , depois desse vaivém , ele falou : " Talvez o senhor não acredite , mas não quero mais fumar " . E se tornou uma pessoa santa . Eu havia despertado a sua consciência espiritual .
O que conta é a sinceridade e a intensidade de esforço
A consciência espiritual está no sincero empenho interno para ascender rumo à verdadeira e duradoura felicidade . Muitos dizem que seguem um curso correto , mas pouquíssimos estão realmente fazendo um esforço sincero . Não se exige que você se torne um anjo de imediato . Uma vez que só o Absoluto é perfeito , podemos dizer que , perante Deus , até o melhor dos anjos é um pecador . Mas santos são pecadores que nunca se deram por vencidos . Independentemente das dificuldades , se você não desistir , progredirá em sua luta contra a corrente . Lutar é obter o favor divino ; faça o supremo esforço . Não deixe que a vida o leve correnteza abaixo , flutuando passivamente .
Você não pode enganar a Deus , pois Ele vê o que você pensa .
Deus não vai contar quanto tempo você trabalhou pela realização espiritual ; o que conta é a intensidade . Não importa quantas encarnações de maus karma você possa ter ; se sua devoção e sinceridade forem suficientemente profundas para trazer a luz de Deus à consciência , todas as trevas do mal de encarnações passadas se dissiparão .
Assim , não importa se seus pecados são mais profundos do que o Oceano Atlântico : faça um constante esforço mental para ser bom .
Durante umas poucas encarnações você foi um ser humano , mas ao longo da eternidade tem sido , é e será um filho de Deus . Nunca se considere pecador , porque o pecado e a ignorância são apenas pesadelos mortais . Quando despertamos em Deus , descobriremos que a alma , isto é , a consciência pura , nunca fez nada de errado . Imaculados pelas experiências mortais , somos e sempre fomos filhos de Deus . Somos como o ouro na lama : quando a lama da ignorância é removida , aparece no íntimo o reluzente ouro da alma , feito à imagem divina .
A consciência espiritual nasce da firme determinação mental .
Não importa como as pessoas a seu redor agem ou se comportam em relação a você : você é que tem de ser bom . Seu maior inimigo é você mesmo , pare de adiar a decisão de ser bom . Eu costumava me enredar em rotinas mentais de tal modo que muitos meses se passavam sem que eu conseguisse meditar profundamente . Entretanto , continuei a fazer o esforço mental . O progresso veio logo que percebi , um dia que eu deveria ter mais determinação para controlar todos os meus hábitos e exercitar minha espiritualidade . Da mesma forma , você precisa assumir o controle do seu comportamento e da sua consciência . Faça o que sabe que deve , e não realize nada contrário à consciência espiritual .
    Os modos opostos de consciência material e espiritual
A consciência material e a espiritual são opostas em seu modo de funcionamento . Teste a si mesmo para saber se sua consciência predominante é material ou espiritual . A consciência espiritual lhe diz que precisa incluir , em sua felicidade e prosperidade , a felicidade e o bem-estar dos outros . A consciência material lhe diz que você deve ganhar dinheiro de qualquer jeito e guarda-lo para si . A atual Depressão partiu da consciência material , que diz : coma sozinho a maça e os biscoitos . A consciência espiritual diz : divida e compartilhe com alguém mais .
Se alguém o deixa zangado , você sabe que se encontra na consciência material . Mesmo quando o maltratam , esteja pronto a perdoar , pois , quando o faz , está centrado na consciência espiritual . O perdão significa dar ao inimigo uma oportunidade de atingir maior compreensão . Se você ficar vingativo ou zangado , só aumentará a cegueira e a ira do inimigo . Talvez até faça mais inimigos , pois uma pessoa irada se torna um alvo para todos . Além do mais , ao se zangar , você também começará a perder a sua capacidade de compreensão . Você apoia seus sentimentos negativos com o conforto do calor da sua ira e de um raciocínio falso . Nunca permita que a ira o controle ; se tiver esta tendência , elimine-a . É um dos piores traços , e destrói a espiritualidade . Saiba que é para seu próprio bem que não deve se zangar ; a ira também destrói a felicidade . Nunca permita que seu termômetro espiritual suba . Seja calmo interiormente ; controle a ira de dentro para fora e nunca lhe conceda um lugar no coração .
A consciência material é agressiva , enquanto a espiritual convive bem com todos . Esforce-se para ser bom , e verá que sua influência sobre os outros será automaticamente boa . Isto é consciência espiritual . Seja gentil em pensamento e palavra . Desde pequeno , jamais fui grosseiro intencionalmente . E também não seja crítico .
Em geral , quem critica os demais guarda ressentimentos . Jesus disse :  " Não julgueis , para que não sejais julgado " . Se você quer julgar alguém , julgue a si mesmo . Se quer falar dos defeitos dos outros , fale de seus próprios . Em seu coração , tenha apenas amor pelo próximo .
Quanto mais vir o bem nos outros , mais estabelecerá o bem em você mesmo . Mantenha-se na consciência do bem . Para tornar as pessoas boas , devemos ver o bem nelas . Não as censure . Permaneça calmo e sereno , sempre no comando de si mesmo : então descobrirá como é fácil viver em harmonia com o próximo .
Sou otimista no que diz respeito às pessoas , porque eu as amo .
Quando amamos a todos , vemos Deus em todos . Quando você sabe que cada um é uma expressão de Deus , zangar-se ou ser descortês com alguém é como fazer o mesmo com Deus . Quando você se zanga , é mau ou impiedoso , coloca uma venda entre sua alma e a dos outros .
Arrogância e insolência também são características não espirituais , nascidas de um complexo de inferioridade . Suponhamos que eu seja cozinheiro do ashram e que , se alguém me der uma sugestão sobre meu trabalho , eu responda que já sei tudo - isto é insolência .
O insolente faz propaganda da limitação de seu conhecimento e também da sua falta de educação . Se deseja impressionar os outros de modo favorável , por que proclamar sua inferioridade com demonstração de insolência e de arrogância ? Isso apenas demonstra um temperamento descontrolado , além da falta de boas maneiras e de inteligência . A insolência e a arrogância são formas de ignorância - hábitos não espirituais em estado primitivo .
Seu bem mais precioso está na consciência espiritual   
Compreenda onde está seu bem mais precioso . Onde quer que esteja , sejam quais forem suas responsabilidades , sua maior felicidade está em viver em harmonia com as ideias que está assimilando dos ensinamentos da Self-Realization . O bem e o mal não são criações do homem mas a virtude e o pecado são . Ambos são o resultado de nossa aceitação do bem e do mal . Na consciência espiritual , por mais defeitos que você tenha , toda a sua consciência está voltada para o bem , isto é , para Deus . Lembre-se destas instruções simples controle os sentidos . Vire os cinco faróis para dentro de si durante a meditação . No silêncio interior , você conhecerá a Beleza e a Bem-aventurança - muito além da imaginação material - e isso é Deus . Os sentidos não cumprem a promessa de felicidade que fazem .
Mesmo que você tenha tudo neste mundo , verá que , ainda assim , quer algo mais ; e sua felicidade será escrava de suas posses . Para ter liberdade e felicidade suprema , seja um renunciante - uma pessoa que domina os sentidos e não tem apego ao que possui . A verdadeira renúncia significa trocar a consciência material pela espiritual . Esta não exclui , mas inclui , pois ter consciência espiritual é ter tudo o que o fará ser feliz de modo genuíno e duradouro .
Controle hábitos e comportamentos . Uma vida de harmonia espiritual - seja no contexto do indivíduo , do ashram , da família , da nação ou do mundo - exige a adoção voluntária de regras de comportamento correto , além de compreender os outros e com eles cooperar amorosamente . Os padrões e regras da harmonia espiritual são mais elevados do que os da harmonia material . Siga-os com rigor . Seja seu próprio juiz , submetendo-se a uma corte marcial pessoal . Se o veredito disser que agiu mal , corrija-se . Caso contrário , os maus hábitos e o comportamento incorreto retornarão a você , como um bumerangue . Melhor ainda , oriente todos os seus atos pela voz interior da consciência espiritual , de modo a não agir errado .
Tenha uma vida equilibrada . Isto significa viver em harmonia com as leis divinas que governam os deveres materiais e espirituais ( não permita que uma responsabilidade entre em conflito com outros deveres importantes ) ; a saúde ( milhões de pessoas precisam ter mais consciência da saúde , pois as doenças não são criadas por Deus , e sim porque o homem infringe as leis divinas ) ; a prosperidade ( inclua os outros em seu próprio bem-estar ) e as relações humanas .
Não exclua ninguém de seu amor . Guarde todos em seu coração e será guardado no coração de todos . Será um rei no trono do coração de todos , reinando com amor e influenciando-os a fazer o bem , não pela força , mas pelo amor .
Texto : ( do livro O Romance Com Deus ) pags. 85 a 95 
Autor : Paramahansa Yogananda .      

sábado, 4 de maio de 2013

" Morte , Renascimento e Meditação "

Praticamente em todas as tradições religiosas místicas pelo mundo afora se acha presente algum tipo de doutrina de reencarnação . O próprio cristianismo a admitia até por volta do século IV d.C . , quando por motivos em grande parte políticos , recaiu sobre ela o anátema . Não obstante , muitos místicos cristãos aceitam hoje essa idéia . Como salientou o teólogo cristão John Hick em sua importante obra Death and Eternal Life [ Morte e Vida Eterna ] , todas as religiões do mundo , inclusive o próprio cristianismo , estão de acordo quanto à ocorrência de algum tipo de reencarnação .
Por certo , o fato de muitas pessoas acreditarem em alguma coisa não faz com que ela seja verdadeira . E é muito difícil sustentar a idéia da reencarnação fazendo apelo a " evidências " que assumem a forma de alegadas lembranças de uma vida passada , pois na maioria dos casos pode-se demonstrar que essas lembranças não passam de revivescências de traços de uma memória subconsciente oriundas desta vida .
No entanto , o problema não é tão sério quanto poderia a princípio parecer pois a doutrina da reencarnação , tal como é apresentada pelas grandes tradições místicas , é uma noção bastante específica : Ela não significa que a mente viaja ao longo de vidas sucessivas e que , por conseguinte , em condições especiais - como , por exemplo , sob hipnose - a mente pode recordar todas as suas vidas passadas . Pelo contrário , é a alma , e não a mente , que transmigra . Portanto , o fato de não se poder provar a reencarnação fazendo-se apelo às lembranças de vidas passadas é exatamente o que se poderia esperar : lembranças específicas , idéias , conhecimentos , e assim por diante pertencem à mente e não transmigram .
Tudo isto é deixado para trás , juntamente com o corpo , por ocasião da morte .
Talvez algumas poucas lembranças específicas consigam se insinuar de vez em quando , como nos casos registrados pelo Professor Ian Stevenson e por outros , mas esses casos constituiriam antes a exceção que a regra . O que transmigra é a alma , e esta não é um conjunto de lembranças , de idéias ou de crenças .
Bem , de acordo com a maioria dos ramos da filosofia perene , a alma possui duas características básicas que a definem : primeira , ela é o repositório das " virtudes " do indivíduo ( ou da falta das mesmas ) - isto é , de seu carma , ao mesmo tempo bom e ruim ; segunda , ela é a " força " da percepção de uma pessoa , ou a capacidade que o indivíduo possui de " testemunhar " o mundo dos fenômenos sem nenhum apego ou aversão . Esta segunda capacidade é também conhecida como " sabedoria " . A reunião de ambas - virtude e sabedoria - constitui a alma , que é a única coisa que transmigra . Desse modo , quando as pessoas afirmam que se " lembram " de uma vida passada - onde viveram , qual era o seu meio de vida , e assim por diante - essas pessoas , de acordo com qualquer religião importante ou em qualquer ramo da filosofia perene , não estão se lembrando de nenhuma efetiva existência passada . Somente os budas ( ou tulkus ) , segundo se afirma , podem se lembrar de vidas passadas - constituem eles a exceção à regra .


A Reencarnação como Hipótese Espiritual

Porém , se ostensivas lembranças de vidas passadas não constituem provas satisfatórias de reencarnação , que outro tipo de evidências poderia haver para sustentar essa doutrina ? Seria preciso lembrar aqui que a filosofia perene , de um modo geral , permite três tipos principais e diferentes de conhecimento e sua verificação : o conhecimento sensorial ou empírico , o conhecimento mental ou lógico e o conhecimento espiritual ou contemplativo . A reencarnação não é uma hipótese sensorial nem mental ; não pode ser explicada ou verificada por meio de dados sensoriais ou de dedução lógica . É uma hipótese espiritual que deve ser testada com os olhos da contemplação , e não com o olhos da carne ou com os da mente . Desse modo , embora não possamos encontrar nenhum tipo habitual de evidência capaz de nos convencer da reencarnação , quando praticamos a contemplação e adquirimos uma certa competência nessa tarefa , começamos a observar determinados fatos óbvios - por exemplo , que a postura testemunhante , a postura da alma , começa a compartilhar da eternidade , do infinito .
Há uma natureza atemporal com relação à alma que se torna perfeitamente óbvia e inconfundível : começa-se de fato a " sentir " a imortalidade da alma , a intuir que , até certo ponto , ela está acima do tempo , acima da história , acima da vida e da morte . Dessa maneira , vamos gradualmente adquirindo a certeza de que a alma não morre com o corpo , ou com a mente , que a alma existia antes e continuará a existir . Mas esta certeza não tem nada a ver com lembranças específicas de vidas passadas . É , em vez disso , uma recordação daquele aspecto da alma que toca o espírito , e é , por conseguinte , radical e perfeitamente eterno .
Na verdade , a partir desse ponto de vista , torna-se óbvio que , como expressou Shankara , o grande vidente vedanta : " único transmigrante é o Senhor " , ou o próprio Espírito Absoluto . É , afinal , o próprio Buda-mente , o Único , que aparece sob todas essas formas , manifestando-se sob todas essas aparências , transmigrando como todas essas almas . Nos estágios mais profundos da contemplação torna-se bastante palpável essa experiência da eternidade e do espírito como imortal e indestrutível . 
Não obstante , de acordo com os ensinamentos perenes , não é apenas o Absoluto que transmigra : a própria alma do indivíduo , quando não iluminada , também transmigra . Quando a alma desperta , ou se dissolve no espírito , ela não mais transmigra ; ela está " libertada " , ou compreende que enquanto espírito , está reencarnada em toda a parte , como todas as coisas . Mas se a alma não desperta para o espírito , se não é iluminada , ela reencarna , levando consigo o acúmulo de sua virtude e de sua sabedoria , em vez de recordações específicas de sua mente . E essa cadeia de renascimentos prossegue até que esses dois acúmulos - virtude e sabedoria - atinjam finalmente um ponto crítico , quando a alma se torna iluminada , ou se dissolve e se liberta no espírito , fazendo assim com que termine a transmigração individual .
Mesmo o budismo , que nega a existência absoluta da alma , reconhece que ela tem uma existência relativa , ou convencional , e que essa alma , relativa ou convencionalmente existente , transmigra . Quando o Absoluto , ou shunyata , é diretamente vivenciado , a transmigração relativa - e a alma separada - chega ao fim . Poder-se-ia pensar , entretanto , que um budista se oporia ao uso da palavra alma neste contexto , por se tratar de um termo que em geral tem uma conotação de algo indestrutível ou eterno - conotação que parece incompatível com a concepção budista de que a alma tem apenas uma existência relativa e temporária . No entanto , uma consideração mais atenta dos ensinamentos da filosofia perene , resolverá essa aparente contradição .
De acordo com a tradição perene , a alma é de fato indestrutível , mas quando ela descobre plenamente o espírito , seu próprio sentido de separatividade , ou expressão da pessoa em particular , porém o seu ser ou centro desloca-se para o espírito , dissolvendo assim sua ilusão de separatividade . E esta doutrina concorda quase exatamente com os ensinamentos mais elevados do budismo - a anuttaratantra ioga , ou " supremo ensinamento tântrico " - segundo o qual existe no centro mesmo do chakra do coração , em cada indivíduo , aquilo que é tecnicamente denominado " a gota indestrutível " ( ou luminosidade ) . Como ensina o Vajrayana , é essa gota indestrutível que transmigra . E mais : ela é indestrutível ; afirma-se que até mesmo os budas a possuem . A gota indestrutível é considerada a sede do próprio " vento " sutil ( rLung ) que sustenta a " própria mente sutil [ ou causal ] , a mente da iluminação , ou essência espiritual do indivíduo . O budismo concorda , portanto , com a filosofia perene : a gota indestrutível é a alma , o continuum , tal como a defini .


Estágios do Processo do Morrer : Dissolução da Grande Cadeia do Ser 

De um modo geral , os diversos ramos da filosofia perene estão de acordo quanto aos estágios do processo do morrer e às experiências que acompanham esses estágios : a morte é um processo no qual a Grande Cadeia do Ser se " dissolve " , para o indivíduo , " de baixo para cima " por assim dizer . Isto é , por ocasião da morte o corpo se desfaz dentro da mente , depois a mente se desfaz dentro da alma , e então a alma se desfaz dentro do espírito , sendo cada uma dessas dissoluções caracterizadas por um conjunto específico de acontecimentos . Por exemplo , a dissolução do corpo na mente corresponde ao processo efetivo da morte . A dissolução da mente na alma é vivenciada como uma revisão e um " julgamento " da própria vida . A dissolução da alma no espírito é uma libertação radical e uma transcendência . O processo é , então , por assim dizer , " revertido " , e , com base nas tendências cármicas acumuladas pelo indivíduo , é gerada uma alma a partir do espírito , em seguida uma mente a partir da alma , e depois um corpo a partir da mente , quando então o indivíduo esquece todas as etapas anteriores e se encontra renascido num corpo físico . De acordo com os tibetanos , esse processo todo leva cerca de quarenta e nove dias .
A tradição tibetana contém a discrição mais rica e mais detalhada dos estágios da dissolução da Grande Cadeia durante o processo do morrer . Segundo os tibetanos , as experiências subjetivas que acompanham cada um dos oito estágios da dissolução são conhecidos tecnicamente como " miragem " , " aparência de fumaça " , " pirilampos " , " lamparina " , " aparência branca " , " aumento do vermelho " , " quase-realização do negro " e " clara luz " . Para compreender esses termos , precisamos de uma versão um pouco mais detalhada e precisa da Grande Cadeia . Por isso , em vez de nossa versão simplificada de corpo , mente , alma e espírito , recorreremos a uma versão ligeiramente ampliada : matéria , sensação , percepção , impulso , psíquico , sutil , causal ( ou não-manifesto ) e espírito ( ou supremo ) .
O primeiro estágio do processo do morrer ocorre quando o agregado de forma , ou matéria - o nível mais baixo da grande cadeia - se dissolve . São cinco os sinais externos desse estágio : o corpo perde seu vigor físico ; a vista se torna embaçada e indistinta ; sente-se o corpo pesado , como se estivesse " afundando " ; a vida abandona os olhos ; e a tez perde o seu brilho . O sinal interno que acompanha espontaneamente esses sinais externos , é uma " aparência de miragem " , uma espécie de imagem tremeluzente e como que aquosa , semelhante às que aparecem no deserto num dia quente . Afirma-se que isto ocorre porque , tecnicamente , o " vento " ( prana ) do elemento " terra " dissolveu-se no " canal central " e , desse modo , o elemento " água " predomina - daí o aspecto aquoso ou semelhante a miragem .
A seguir , o segundo agregado , o da sensação , se dissolve . Há , novamente , cinco sinais externos : a pessoa deixa de experimentar sensações corpóreas , agradáveis ou desagradáveis ; cessam as sensações mentais ; secam os fluidos do corpo ( por exemplo a língua fica muito seca ) ; deixa-se de ouvir os sons exteriores ; e cessam igualmente os sons interiores ( por exemplo , zumbidos nos ouvidos ) . O sinal interno associado a essa segunda dissolução é uma " aparência de fumaça " , semelhante a um nevoeiro . Tecnicamente , diz-se que isto ocorre porque o elemento " água " , que provocara a aparência de miragem , está se dissolvendo no elemento " fogo " - daí o aspecto esfumaçado .
O terceiro estágio é a dissolução do terceiro nível ou agregado , o nível da percepção ou discernimento . Os cinco sinais externos : o indivíduo não reconhece nem distingue mais os objetos ; já não pode reconhecer os amigos ou familiares ; o corpo perde o calor ( ele se torna frio ) ; a respiração fica muito fraca e superficial ; e o indivíduo não consegue mais perceber os odores . O sinal interior que acompanha espontaneamente esse estágio denomina-se " pirilampos " , e é descrito como uma aparição semelhante a um enxame de pirilampos ou de fagulhas que se desprendem de uma fogueira . Tecnicamente , explica-se essa ocorrência atribuindo-se à dissolução do elemento " fogo " , e à predominância , a partir daí , do elemento " vento " .
O quarto estágio é a dissolução do quarto nível ou agregado , o do impulso ( ou " disposições intencionais " ) . Eis os cinco sinais externos dessa dissolução : o indivíduo já não consegue se mover ( pois não há mais impulsos ) ; já não consegue lembrar-se de ações ou dos objetivos das mesmas ; cessa toda a respiração ; a língua fica espessa e azulada , e o indivíduo já não consegue falar com clareza ; e já não sente o gosto ou paladar . O sinal interno desse estágio é uma " aparência de lamparina " , descrita como semelhante a uma luz brilhante , clara e constante . ( A essa altura , podemos começar a perceber semelhanças com a experiência de quase-morte , que discutirei adiante . )
Para compreender o quinto estágio , e os subsequentes , do processo de dissolução , é necessário ter alguma noção de filosofia tântrica . Segundo o Vajrayana , todos os estados mentais - grosseiro , sutil e muito sutil - são mantidos por " ventos " , ou energias , ou forças vitais correspondentes ( prana em sânscrito , rLung em tibetano ) . Quando esses ventos se dissolvem , também se dissolvem as mentes que a eles correspondem . O quinto estágio é o da dissolução do quinto nível ou agregado , o da cognição ou a própria consciência . Todavia , como elucidam os ensinamentos do Vajrayana , há muitos níveis de consciência .
Esses níveis se dividem nas chamadas mente grosseira , mente sutil e mente muito sutil , cada uma delas dissolvendo-se numa determinada ordem , produzindo experiências e sinais específicos . Assim , o quinto estágio é o da dissolução da mente grosseira , juntamente com o " vento " ou prana ( força vital ) que a sustenta . Deixa então de haver a conceitualização grosseira , a mente ordinária .
Durante esse quinto estágio , depois que morre o último vestígio da mente grosseira e que começa a emergir a mente sutil , experimenta-se um estado denominado " aparência branca " . Afirma-se que se trata de uma luz branca , muito clara e brilhante , semelhante a uma clara noite de outono brilhantemente iluminada pela opaca luminosidade da Lua cheia . Para compreender a causa dessa aparência branca , temos de introduzir a noção tibetana de thig-le , que significa , aproximadamente , " gotas " ou " essência " . Segundo o Vajrayana , há quatro gotas , ou essências , que são particularmente importantes . A primeira , a gota branca , está localizada na parte superior da cabeça ; o indivíduo a recebe de seu pai e afirma-se que ela representa ( ou que é , realmente ) bodhicitta , ou a mente-iluminação . A segunda , a gota vermelha , o indivíduo a recebe de sua mãe ; está localizada no centro umbilical . ( Também se diz que a gota branca está associada ao sêmen e a gota vermelha ao sangue [ menstrual ] , mais o importante é que ambas estão igualmente presentes nos homens e nas mulheres . A terceira , conhecida como " a gota que é indestrutível nesta vida " , está localizada no próprio centro do chakra do coração . Essa gota é , por assim dizer , a essência da presente vida do indivíduo ; é o seu " continuum " , que armazena todas as impressões e conhecimentos de sua experiência particular . E no interior dessa " gota indestrutível nesta vida " está a quarta gota , " a gota que é eternamente indestrutível ou para todo o sempre indestrutível " . É esta a gota indestrutível que persistirá para sempre - isto é , que é indestrutível no decorrer da vida presente , indestrutível no decorrer da morte e do processo de morrer , indestrutível no decorrer do bardo , ou estado intermediário entre a morte e o renascimento , e indestrutível no decorrer do próprio renascimento . Essa gota persiste até mesmo no decorrer da iluminação e é , na verdade , o próprio vento sutil que serve de " montaria " , ou de base , para o ser iluminado . Como foi mencionado antes , afirma-se que até mesmo os budas possuem essa gota eternamente indestrutível .
Desse modo , o que vimos até agora foi a dissolução de todos os ventos grosseiros e das mentes grosseiras a eles associadas . Emergiu , então , a primeira mente sutil - a da " aparência branca " - " cavalgando " o vento sutil , ou energia sutil , que a ela corresponde . Bem , afirma-se que a verdadeira causa dessa mente da aparência branca é a descida da gota branca , ou bodhicitta , do chakra coronário para o chakra do coração . Costuma-se dizer que a gota branca é retida no chakra coronário pela constrição de nós e ventos da ignorância e pelo apego e agarramento ao nível grosseiro . Porém , nesse estágio do processo do morrer , a mente grosseira dissolveu-se de modo que os nós ao redor do chakra coronário se afrouxam naturalmente e a gota branca desce até a gota indestrutível do chakra do coração . Quando a alcança , surge espontaneamente a mente da aparência branca .
Incidentalmente , se essas explicações tibetanas dos fenômenos em questão parecem um tanto artificiais , seria bom lembrar que há uma enorme quantidade de evidências contemplativas que dão apoio em favor da existência das diversas experiências que , segundo se diz , ocorrem durante o processo do morrer . As próprias experiências são reais e parecem em grande parte irrefutáveis , mas a avaliação tradicional que os tibetanos oferecem para explicar o que realmente as provoca deixa bastante espaço para discussões . ( Voltarei em breve a este ponto . ) Aqui , limito-me a descrever a pura e simples versão tibetana como ponto de partida .
Não obstante , não deveríamos nos esquecer de que , ao contrário de nossa própria cultura ocidental , culturas tradicionais como a tibetana convivem constantemente com a morte ; as pessoas morrem em suas casas , rodeadas pela família e por amigos . Desse modo , os estágios reais do processo do morrer têm sido observados milhares , até mesmo milhões de vezes . E quando acrescentamos o fato suplementar de que os tibetanos possuem uma compreensão bastante sofisticada da dimensão espiritual e de seu desenvolvimento , o resultado é um acervo incrivelmente rico de conhecimento e de sabedoria a respeito do efetivo processo do morrer e da maneira como ele se relaciona com a dimensão espiritual , o desenvolvimento espiritual , o carma e o renascimento , e assim por diante . Para um investigador , seria evidentemente uma tolice rejeitar a massiva quantidade de dados acumulados por essa tradição .
Continuamos , porém , com os estágios do processo do morrer . No sexto estágio , dissolve-se a mente sutil juntamente com seu vento , e emerge uma mente ainda mais sutil , chamada de " aumento do vermelho " , que é igualmente uma experiência de luz brilhante . Neste caso , porém , trata-se de uma experiência semelhante a um claro dia de outono banhado por uma brilhante luz solar .
Tecnicamente falando , isto ocorre porque se dissolveram os ventos que sustentam a vida material , de modo que todos os nós e constrições ao redor do umbigo que aí estavam retendo o bodhicitta vermelho , ou gota vermelha , se soltam ou são afrouxados . Então , a gota vermelha sobe até a gota indestrutível , no coração .
Quando a atinge , a mente do aumento do vermelho surge espontaneamente .
O sétimo estágio , segundo se afirma , é a dissolução da mente sutil do aumento do vermelho e a emergência de uma mente e de um vento ainda mais sutis , a que se dá o nome de " mente da quase-realização do negro " . Nesse estado , cessa por completo a consciência , e dissolve-se toda a manifestação . Além disso , há uma cessação de todas as consciências e energias específicas que se desenvolveram nesta vida . Diz-se que é a experiência de uma noite completamente negra , sem estrelas , sem nenhuma luz . Denomina-se " quase-realização " pois está , por assim dizer , " aproximando-se " da realização final ; está se aproximando da clara luz do vazio . Em outras palavras , pode-se imaginar que esse nível é o mais elevado do sutil ou o mais baixo do causal , ou que é a dimensão não-manifesta do próprio espírito . Tecnicamente falando , esse " negrume " ocorre porque a gota branca de cima e a gota vermelha de baixo cercam agora a gota indestrutível , eliminando assim toda a percepção .
No entanto , no estágio seguinte e final - o oitavo estágio - a gota branca continua a descer e a gota vermelha a subir , libertando ou abrindo assim a gota indestrutível . Diz-se , então , que o resultado é um período de claridade extraordinária e de percepção brilhante , onde se vivencia a presença de um céu extremamente claro , brilhante e radioso , livre de quaisquer tipos de manchas , de nuvens e de obstruções . É essa a clara luz .
Agora , diz-se que a mente da clara luz não é uma mente sutil , mas uma mente muito sutil , que cavalga um vento , ou energia , correspondentemente muito sutil . Essa mente e essa energia muito sutil , ou " causais " , são , na verdade , a mente e a energia da gota eternamente indestrutível . É esse o corpo causal , ou a suprema mente e energia espiritual , o Dharmakaya . Neste ponto , a gota eternamente indestrutível deixa cair a gota indestrutível da vida presente , cessa por completo a consciência e a alma , a gota eternamente indestrutível , inicia a experiência do bardo , ou os estados intermediários que levarão eventualmente ao renascimento . A gota branca continua a descer e surge como uma gota de sêmen no órgão sexual , e a gota vermelha continua a subir e surge como uma gota de sangue nas narinas . Finalmente , ocorre a morte , e o corpo pode ser descartado . Quem faz isso prematuramente torna-se carmicamente culpado de assassinato , pois o corpo ainda está vivo .

Estágios do Processo de Renascimento

O que vimos até agora foi a progressiva dissolução da Grande Cadeia , no caso de um indivíduo , começando embaixo e operando para cima . A matéria , ou forma , dissolveu-se no corpo ( ou na sensação , e depois na percepção , e por fim , no impulso ) e o corpo dissolveu-se na mente , na mente grosseira . Esta dissolveu-se em seguida na mente sutil , ou nos domínios da alma , que por sua vez reverteu à essência causal ou espiritual . Neste ponto , o processo será invertido , dependendo inteiramente do carma da alma - do acúmulo de virtude e de sabedoria que a alma leva consigo . Desse modo , a experiência do bardo se divide em três domínios , ou estágios básicos , os quais são simplesmente os domínios do espírito , em seguida da mente , e por fim do corpo e da matéria . De acordo com a sua virtude e com a sua sabedoria , a alma reconhecerá as dimensões superiores - e neste caso permanecerá nelas - ou então não as reconhecerá - na verdade , ela fugirá delas - e neste caso acabará " escorregando " pela Grande Cadeia do Ser até ser forçada a adotar um corpo físico grosseiro e , portanto , a renascer .
No momento da morte efetiva ou final - a que estivemos nos referindo como sendo o oitavo estágio de todo o processo do morrer - a alma , ou gota eternamente indestrutível , penetra no chamado bardo chikhai , que nada mais é que o próprio espírito , o Dharmakaya . Como afirma o Livro Tibetano dos Mortos : " Nesse momento , o primeiro vislumbre do Bardo da Clara Luz da Realidade , que é a infalível Mente do Dharmakaya , é percebido por todos os seres sensíveis . " 
É neste ponto que a meditação e o trabalho espiritual tornam-se tão importantes . De acordo com o Livro Tibetano dos Mortos , a maioria das pessoas é incapaz de reconhecer esse estado pelo que ele realmente é . Em termos cristãos , essas pessoas não conhecem Deus , de modo que não sabem quando é Deus que olha para elas de frente . Na verdade , elas estão , a essa altura , unidas a Deus , estão inteira e totalmente numa situação de identidade suprema com a Divindade . Porém , a menos que reconheçam essa identidade , a menos que tenham sido contemplativamente treinadas para reconhecer esse estado de Unidade divina , elas na verdade fugirão dele , levadas por seus desejos inferiores e por suas inclinações cármicas . Como diz W. Y . Evans-Wentz , o primeiro tradutor do Livro Tibetano dos Mortos : " Devido à não-familiaridade com esse estado , que é um estado extático de não-ego , um estado de consciência [ causal ] , falta ao ser humano médio a capacidade de funcionar nesse estado ; as inclinações cármicas obscurecem a consciência-princípio com pensamentos de personalidade , de ser individualizado , de dualismo , e , perdendo o equilíbrio , a consciência-princípio abandona a Clara Luz " .
Desse modo , a alma se retrai afastando-se da Divindade , do Darmakaya , do causal . De fato , diz-se que a alma procura realmente escapar da realização da Divina Unidade e se " apaga " , por assim dizer , até acordar no domínio inferior seguinte , denominado bardo chonyid , a dimensão sutil , o Sambhogakaya , a dimensão arquetípica . Essa experiência é caracterizada por visões psíquicas e sutis de todo tipo , visões de deuses e deusas , dakas e dakinis , todas acompanhadas de luzes deslumbrantes e quase dolorosamente brilhantes , de iluminações e de cores . Porém , mais uma vez as pessoas , em sua maioria , não estão acostumadas com esse estado , e não têm nenhuma idéia do que seja a luz transcendental e a iluminação divina , de modo que elas fogem desses fenômenos e são atraídas pelas luzes mais fracas , ou impuras , que também aparecem .
Desse maneira , a alma volta a se contrair interiormente , tenta afastar-se dessas visões divinas , se apaga de novo e acorda no chamado bardo sidpa , o domínio da reflexão grosseira . Aqui , a alma tem eventualmente uma visão de seus futuros pais copulando , e - no bom e velho estilo freudiano - se vai nascer como menino , sentirá desejo pela mãe e ódio pelo pai , e se vais nascer como menina , odiará a mãe e sentirá atração pelo pai . ( Pelo que sei , é esta a primeira explicação pormenorizada do complexo de Édipo/Electra - cerca de mil anos antes de Freud , como o próprio Jung assinalou .
Nesse estágio , diz-se que a alma - por causa de seu ciúme e de sua inveja - " entra " em sua imaginação para separar o pai e a mãe , para se interpor entre eles ; mas o resultado é , simplesmente , que ela de fato , se interpõe entre eles , na realidade - isto é , ela acaba renascendo como seu filho , ou sua filha . Ela agora sente desejo , aversão , apego , ódio , e tem um corpo grosseiro : em outras palavras , é um ser humano . Encontra-se no estágio mais baixo da Grande Cadeia , e seu próprio crescimento e desenvolvimento será uma nova subida , passando mais uma vez pelos estágios que ela acaba de negar e dos quais fugiu ; sua evolução é , por assim dizer , uma inversão da " queda " . A altura até onde subirá de volta na Grande Cadeia do Ser determinará a maneira como ela consegue lidar com o processo do morrer e com os estados do bardo , quando chegar de novo a hora de abandonar o corpo físico .


Interpretação das Experiências Subjetivas de Morte e de Renascimento    

       
 As evidências contemplativas sugerem vigorosamente que os dados , as experiências reais que acompanham o processo do morrer - por exemplo , a " aparência branca " , o " aumento do vermelho " a " quase-realização do negro " , ou sejam quais forem os termos que queiramos usar - existem e são bastante reais . Encontram-se evidências suplementares de sua realidade no fato de que essas experiências possuem efetivas referências ontológicas nas dimensões superiores da Grande Cadeia do Ser . Por exemplo , as três experiências acima mencionadas referem-se , respectivamente , àquilo que chamei de estruturas ( ou níveis de consciência ) psíquicas , sutis e causais . Na verdade , referem-se com muita precisão a esses níveis , a despeito das várias e legítimas diferentes explicações que também lhes poderiam ser dadas . Desse modo , em minha opinião os níveis são reais , eles possuem status ontológico real e definido , de maneira que as experiências desses níveis são , elas próprias , reais . Isto , porém , não significa que não podem ser bastante diferentes as experiências que cada indivíduo tem deses níveis .
Um budista , por exemplo , provavelmente perceberá a " aparência branca " como uma espécie de vazio ou shunyata , ao passo que um místico cristão poderá vê-la sob a forma de uma presença santa , possivelmente a do próprio Cristo , ou como um grande ser de luz . Mas é assim que tem de ser . Pois , até que a " gota indestrutível da vida presente " - as impressões e crenças acumuladas e que foram reunidas no decorrer da vida de um indivíduo - se dissolva efetivamente ( naquele a que chamamos de sétimo estágio ) , ela irá colorir e moldar todas as experiências desse indivíduo . Um budista terá , por conseguinte , uma experiência budista , um cristão terá uma experiência cristã , um hindu terá uma experiência hindu e um ateu se sentirá provavelmente muito confuso . Seria tudo isso o que deveríamos esperar . É somente no oitavo estágio , na clara luz do vazio , ou da pura Divindade , que as interpretações pessoais e as crenças sutis de cada indivíduo são abandonadas , e que é proporcionada uma compreensão direta da própria realidade pura , como clara luz . Portanto , a explicação tibetana para os dados não é a única possível . É , não obstante , uma dentre várias e muito importantes , reflexões ou perspectivas sobre os processos do morrer , da morte e do renascimento , arraigados numa compreensão profunda da Grande Cadeia do Ser , tanto no sentido " ascendente " ( meditação e morte ) , como no " descendente " ( bardo e renascimento ) .


A Experiência de Quase-Morte e os Estágios do Processo do Morrer 

O fenômeno mais comum nos relatos ocidentais sobre a experiência de quase-morte ( EQM ) é a sensação de atravessar um túnel e de avistar então uma luz brilhante , ou de encontrar um grande ser de luz - um ser dotado de incrível sabedoria , inteligência e bem-aventurança . Pouco importa aqui o credo religioso de cada indivíduo em particular ; os ateus têm esse tipo de experiência com a mesma frequência dos verdadeiros crentes . Em si mesmo , esse fato tende a corroborar a idéia de que , durante o processo do morrer , a pessoa estabelece contato com algumas das dimensões mais sutis da existência .
Do ponto de vista do modelo tibetano que discutimos acima , a " luz " relatada nas EQMs , dependendo de sua intensidade ou de sua claridade , poderia ser o nível da lamparina , da aparência branca ou do aumento do vermelho . O importante é que , a essa altura do processo da morte , dissolveram-se a mente e o corpo grosseiros , ou os ventos e as energias grosseiras , e assim começam a emergir as dimensões mais sutis da mente e da energia , caracterizadas pela iluminação brilhante , pela clareza mental e pela sabedoria . Não é , pois , de causar surpresa o fato de que , independentemente de sua crença , as pessoas relatem universalmente , a essa altura , a experiência da luz . Muitos daqueles que descrevem suas EQMS acreditam que a luz que viram é espírito absoluto . No entanto , se o modelo tibetano estiver preciso , o que as pessoas vêem durante a EQM não é exatamente o nível mais elevado . Para além da aparência branca ou do aumento do vermelho , há a quase-realização do negro , depois a clara luz e depois os estados do bardo .
A experiência da luz do nível sutil é muito agradável - é , na verdade , um espantoso estado de beatitude . E o nível seguinte , o nível muito sutil , ou causal o é ainda mais . De fato , as pessoas que tiveram EQMs relatam jamais terem experimentado maior sensação de paz , nem nada tão profundo e tão pleno de felicidade . Não nos devemos porém esquecer de que , até essa altura , tudo nessas experiências é moldado pela " gota indestrutível da vida presente " : por conseguinte , como já observamos , os cristãos poderiam ver Cristo , os budistas ver Buda , e assim por diante . Tudo isto faz sentido , pois as experiências desses domínios são condicionadas pelas experiências de nossa vida presente . Mas depois , no oitavo estágio , a " gota indestrutível da vida presente " é solta , juntamente com todas as lembranças e impressões pessoais , e com tudo o que é específico desta vida em particular , e a " gota eternamente indestrutível " sai do corpo e entra no estado bardo . Começa , portanto , a provação do bardo - um verdadeiro pesadelo , a menos que o indivíduo esteja muito familiarizado com esses estados graças à meditação .
Num certo sentido , a experiência do morrer e a EQM são , na verdade , muito divertidas : relata-se universalmente que , uma vez superado o pavor de morrer , o processo passa a ser pleno de felicidade , de paz e de eventos extraordinários . Tendo-se porém completado a " subida " , começa a " descida " , ou bardo - e aí é que entra a dificuldade . Porque , ao chegar neste ponto , todas as nossas inclinações cármicas , todos os nossos apegos , desejos e medos aparecem realmente bem diante de nossos olhos , por assim dizer , como num sonho , pois o bardo é uma dimensão puramente mental ou sutil , semelhante a um sonho , na qual tudo o que pensamos surge imediatamente como uma realidade .
Desse modo , não se ouve falar nesse " lado do declive " do processo da morte entre os que passaram por uma EQM . Eles experimentaram apenas os primeiros estágios do processo global . Seus testemunhos constituem , não obstante , uma poderosa evidência de que esse processo realmente ocorre . Tudo neles se ajusta com notável e inconfundível precisão . Além disso , não é possível explicar seu testemunho alegando que todos eles estudaram o budismo tibetano ; na realidade , a maioria dessas pessoas jamais ouvira falar nele . Mas suas experiências são essencialmente semelhantes às dos tibetanos pois elas refletem a realidade universal e transcultural da Grande Cadeia do Ser . Parece agora que , simplesmente , não há outra maneira de interpretar os dados , de fato abundantes , que vêm se acumulando sobre esse assunto .


A Meditação como Treinamento para a Morte

Como é que a meditação se ajusta a tudo isso ? Toda forma de meditação é , basicamente , uma maneira de transcender o ego , ou de morrer para o ego . Neste sentido , ela imita a morte - isto é , a morte do ego . Quando progride razoavelmente bem num sistema qualquer de meditação , o indivíduo pode atingir um ponto em que , tendo " testemunhado " de maneira tão exaustiva a mente e o corpo , ele realmente se ergue acima da mente e do corpo , isto é , os transcende ; " morre " , assim para eles , para o ego , e desperta como alma sutil , ou mesmo espírito . E isto é efetivamente vivenciado como uma morte . No zen ,é chamado de Grande Morte . Pode ser uma experiência bastante fácil , uma transcendência relativamente tranquila do dualismo sujeito-objeto , mas também pode ser aterrorizante por abranger vários tipos de morte . Porém , sutil ou dramaticamente , rápida ou lentamente , morre ou se dissolve o sentido de que se é um eu separado , e o indivíduo encontra uma identidade primaz e mais elevada no ( e enquanto ) espírito universal .
Mas a meditação também pode ser um treinamento para a morte verdadeira . De acordo com os ensinamentos zen , se morremos antes do morrer , então quando morrermos não morreremos . Alguns sistemas de meditação , particularmente o sikh ( os santos Radhasoami ) e o tântrico ( hindu e budista ) contêm meditações muito precisas que imitam ou induzem , com muita proximidade , os vários estágios do processo do morrer - inclusive a parada da respiração , o progressivo esfriamento do corpo , o retardamento e por vezes a parada do coração , e assim por diante . A morte física verdadeira não representa então uma surpresa , e pode-se desse modo utilizar com muito mais facilidade os estados intermediários de consciência que aparecem depois da morte - os bardos - para obter a compreensão iluminada . O objetivo dessas meditações é tornar o indivíduo capaz de reconhecer o espírito , de modo que quando o corpo , a mente e a alma se dissolverem durante o efetivo processo do morrer , ele poderá reconhecer o espírito , ou Dharmakaya , e permanecer como tal , em vez de fugir dele e terminar voltando ao samsara , à ilusão de uma alma separada da mente e do corpo ; ou capaz de poder , caso escolha reentrar num corpo , fazê-lo deliberadamente - isto é , como um bodhisattva .  
Essas meditações que imitam a morte não representam nenhum perigo real para a vida ; o corpo não está realmente morrendo , nem passando concretamente pelos estágios da morte .
Assemelha-se , em vez disso , a reter a própria respiração para ver como é : não se pára de respirar para sempre . Porém , alguns dos estados que podem ser induzidos por essas meditações são de fato poderosas imitações dos fatos reais . As batidas cardíacas , por exemplo , podem ser realmente sustadas durante um longo período , tal como a respiração . É desse modo que se pode dizer , por exemplo , que os " ventos " penetraram e estão permanecendo no canal central . A pessoa está " imitando " a morte mas , ao fazê-lo , ela realmente - embora de maneira temporária - dissolve os mesmos ventos que são dissolvidos na morte . Trata-se , portanto , de uma imitação muito concreta e real .
Qual é , exatamente , a relação entre os diversos ventos , ou energias , descritos nos Tantras , e a meditação ? A idéia central de todo Tantra , seja ele hindu , budista , gnóstico ou sikh , é que cada estado mental , ou cada estado de consciência - em outras palavras , cada nível da Grande Cadeia do Ser - possui também uma energia específica que o sustenta , o prana , ou vento . ( Já examinamos a versão tibetana dessa doutrina . ) Desse modo , ao dissolver um vento específico , o indivíduo estará dissolvendo a mente que é por ele sustentada . Por conseguinte , quando consegue controlar esses ventos ou energias , o indivíduo transcende as mentes que os " cavalgam " . É esta a noção geral de pranayama , ou controle da " respiração " ou do " vento " . Mas também , visto que a mente cavalga o vento , onde quer que coloquemos a mente seus ventos tenderão a se reunir . Assim , por exemplo , se ao meditar a pessoa se concentra muito intensamente no chakra coronário , o vento , ou energia , tenderá a se reunir ali e , depois , a se dissolver ali .
Isto significa que a mente , em qualquer dos níveis , tem uma medida de controle sobre os ventos a ela associados . Por conseguinte , graças ao treinamento mental e à concentração , pode-se aprender a juntar ventos ou energias em determinados lugares , e depois dissolvê-los ali . E essa dissolução é exatamente o mesmo tipo de processo que ocorre na morte . Desse modo , a pessoa está realmente vivenciando , de maneira muito concreta , o que acontece quando todos os diversos ventos se dissolvem quando se morre - a começar pelos ventos grosseiros , continuando depois quando se dissolvem os ventos sutis , deixando o vento muito sutil ou causal , e a mente da clara luz que o cavalga . Ao induzir , por livre e espontânea vontade , essas experiências do processo do morrer , quando ocorrer a morte verdadeira a pessoa ficará sabendo exatamente o que a dissolução dos ventos irá produzir .
Este tipo de prática também proporciona à pessoa a capacidade de prolongar cada estado , particularmente os estados mais sutis , tais como o da aparência branca , o do aumento do vermelho , o da quase-realização do negro , e a clara luz , por já os ter mais ou menos dominado . Então , no momento final da morte verdadeira , no estágio que estivemos designando como o oitavo - ao penetrar no bardo chikhai , o Dharmakaya - o indivíduo poderá ali permanecer , se assim o desejar . Esse estado da clara luz é muito nítido , óbvio e fácil de ser reconhecido , por ter sido visto muitas vezes durante a meditação e na mente do guru ; por conseguinte , o indivíduo abre caminho em direção a ele , ficando assim livre da necessidade de renascer . Ainda poderia , entretanto , optar por renascer num corpo físico a fim de ajudar outras pessoas a alcançar esse conhecimento e essa liberdade .
Uma técnica usual para reunir e dissolver ventos num determinado ponto do corpo consiste em concentrar-se na " gota vermelha " , no centro umbilical ( a fonte do chamado fogo tummo ) . A pessoa simplesmente se concentra nesse objeto - visualizando como uma flamejante gota vermelha , do tamanho de uma pequena ervilha - até conseguir se manter concentrada , sem desviar sua atenção , durante mais ou menos trinta ou quarenta minutos . Nessa situação , as energias do corpo estarão tão concentradas na área umbilical que a respiração se acalmará , tornando-se muito suave , quase imperceptível . Todos os ventos ou energias do corpo estarão sendo removidos de sua função ordinária e ali concentrados . De modo que essa dissolução dos ventos , ou sua remoção , assemelha-se muito ao que ocorre na morte verdadeira . Portanto , se continuar a se concentrar meditativamente , o indivíduo começará a vivenciar todos os sinais do processo do morrer , na ordem que lhes é própria , inclusive as aparências de miragem , de fumaça , de pirilampos e de lamparina .
Nessa situação , quando os ventos ou energias do corpo começam a se reunir e a se dissolver no coração , como acontece na morte verdadeira , a pessoa vivenciará os níveis da mente sutil , da mente da aparência branca , em seguida a do aumento do vermelho e depois a da quase-realização do negro . Depois , graças ao poder de sua própria meditação e de invocações espirituais , todos os ventos ou energias se dissolverão , finalmente , na gota indestrutível no coração , e a pessoa vivenciará a clara luz do vazio , a suprema dimensão , e realização , espiritual . Em suma , esse tipo de meditação constitui uma perfeita imitação do processo do morrer . Mais uma vez , a questão toda está no fato de que , ao se familiarizar com a clara luz , desenvolvendo a sabedoria e a virtude meditativas , então , ao se aproximar a morte real , a pessoa poderá permanecer em conformidade com a clara luz e , desse modo , reconhecer a libertação final .
Texto : Ken Wilber do livro ( Explorações Contemporâneas da Vida Depois da Morte . Págs. 163 a 176 ) 
[ Ken Wilber , fundador da " Psicologia de Espectro " , escreveu mais de uma centena de artigos e é autor ou organizador de dez livros , que incluem The Atman Project e Up from Eden 
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