Ascensão a Partir do Éden .
Coloquei de lado The Atman Project e resolvi estudar antropologia e mitologia . A princípio , as evidências pareciam confirmar os mitos do Éden ; Lévy-Bruhl e a noção da participation mystique ; Cassirer e a idéia da identidade natural primordial , Gebser e o estado de totalidade arcaica . Mas , quanto mais olhava para a evidência real , mais um ponto começava a sobressair : havia muito pouco de " paraíso puro " na humanidade primitiva ( não estou me referindo a povos indígenas que existem atualmente , mas a tribos originais de proto-humanos que viveram há meio milhão de anos atrás , com uma expectativa média de vida de vinte e poucos anos e uma consciência relativamente pré-diferenciada ) . Com exceção de ocasionais , e usualmente muito raros , xamãs , os melhores dos quais pareciam ter acesso a estados espirituais genuínos , a média de consciência dos humanos primitivos não parecia ser transindividuada mas sim pré-individuada , não transpessoal mas pré-pessoal .
Mas era exatamente esta a pista que estava procurando ; os mitos do Éden confundiam ignorância pré-pessoal com êxtase transpessoal , de tal modo que , quando homens e mulheres começaram a evoluir a partir do Éden , isto foi considerado , erroneamente , como uma queda do céu . Realmente , homens e mulheres caíram do céu ( ou da unidade com e como Divindade ) , mas esta não foi uma queda na história , e sim do presente eterno de onde emergem todas as coisas . Caímos do céu neste momento , no próximo e no próximo , toda vez que criamos limites e vivemos com a sensação de um self separado . Mas os teólogos e mitólogos confundiram essas duas quedas , ao imaginar que houve , um passado histórico real , um céu transpessoal na Terra , quando o que precedeu as pessoas não foram almas transpessoais , mas sim macacos pré-pessoais . O Éden foi , simplesmente , o período dos estágios subconscientes , pré-pessoais , pré-egóicos e largamente subumanos da evolução , até , e incluindo , os proto-humanos ( Australopithecus , Homo habilis e outros ) . Era paradisíaco , no sentido cru da palavra , porque proto-humanos , sendo pré-egóicos , não tinham capacidade para pensamento auto-reflexivo e , portanto , capacidade para ansiedade , dúvida ou desespero reais .
Assim , os mitos do Éden falam da passagem histórica do subconsciente para o autoconsciente e as consequentes culpa e ansiedade necessariamente envolvidas nesse processo . Na verdade , rastreei quatro estágios principais nessa transição : o arcaico , o mágico , o mítico e o racional . Complementamente , esses estágios permitiram-me equacionar a narrativa em concordância com os trabalhos históricos de eruditos tais como L . L . White , Jean Gebser , Erich Neumann e Julian Jaynes . O ponto final foi que , se a evolução havia conseguido mover-se da subconsciência para a autoconsciência , não havia nenhuma razão para que ela não pudesse continuar da autoconsciência para a superconsciência . E essas três fases gerais - do pré-pessoal , para o pessoal , para o transpessoal - combinavam perfeitamente com os trabalhos de Aurobindo , Berdyaev , Teilhard de Chardin e , mais importante , de Hegel . Retornei a um estado profundo e cuidadoso de Hegel e terminei mais impressionado com ele do que com qualquer outro filósofo ocidental . Recentemente , reuni todos esses estudos em um livro , Up from Eden ( Wilber , 1981 ) .
Este estudo antropológico e evolucionário ( Wilber , 1981 ) também me permitiu preencher algumas lacunas na cartografia apresentada em Spectrum . Naquele livro havia dado pouca atenção para os níveis mais baixos do ser , os níveis subumanos tais como matéria , planta , réptil e mamífero . Ao invés , havia começado a cartografia nos níveis da autocosciência ( persona , ego , centauro ) e continuado através dos níveis da superconsciência ( transpessoal , universal ) . Esses domínios continuavam válidos , mas agora podia incluir explicitamente os níveis da esfera subconsciente : matéria ( o pleroma ) , planta e animal inferior ( o uroboros ) , e mamíferos ( o tífon ) . Ao mesmo tempo , refinei minha compreensão da esfera transpessoal , subdividindo-a em quatro níveis gerais : o psíquico ( domínio dos estados transpessoais iniciais , siddhi etc . ) , o sutil ( morada dos arquétipos e da Divindade pessoal ) , o causal ( o Vazio não-manifesto ) e o supremo ( espírito , turiya , Svabhavikakaya ) . E , assim , eis um mais completo espectro da consciência ou Grande Cadeia do Ser : matéria-pleroma , réptil-uroboros , mamífero-corpo , persona , ego , centauro , psíquico , sutil , causal , supremo . Ou , na visão concisa da teologia ocidental , matéria para corpo , para mente , para alma , para espírito .
Então , o ponto central da evolução é que ela efetivamente segue a Grande Cadeia , iniciando no nível mais baixo e culminando no mais alto , exatamente como Aurobindo , Teilhard de Chardin e Hegel haviam afirmado . Retornando a The Atman Project , os problemas do desenvolvimento , que tanto haviam me confundido e pertubado , apresentavam-se agora perfitamente transparentes . Pois aquilo que chamamos crescimento , ou desenvolvimento , é a expressão , para os humanos , da evolução natural ou universal . A mesma " força " que produz seres humanos de amebas , produz adultos de crianças e os estágios de ambas as produções são essencialmente similares . Isto é , a ontogenia recapitula a cosmogonia e a filogenia , pelo menos num esquema mais abrangente .
Isto se tornou claro para mim de um modo marcante por uma frase de Piaget .
Descrevendo o período inicial da infância ( o estado de fusão neonatal ou identificação projetiva que tanto havia me confundido ) , ele afirmou que " aqui podemos dizer que o self é material " . Instantaneamente , o esquema completo tornou-se claro . Aquele estado inicial de fusão , que todos , desde Freud a Jung a Brown , haviam considerado um estado de " unidade com o mundo inteiro em amor e prazer " , nada mais é do que uma identidade com os níveis mais baixos da Grande Cadeia , em especial o nível material ( e o nível biológico via mãe ) . O bebê não é " um com o mundo inteiro " . Para começar , o bebê não é um com o mundo mental , com o mundo social , com o mundo sutil , com o mundo simbólico ou com o mundo linguístico , porque esses mundos sequer existem ou já emergiram . Os bebês não são unos com esses níveis ; eles são completamente ignorantes deles . Eles são basicamente unos , ou fundidos , com o ambiente material e a mãe biológica . Eles não conseguem distinguir o corpo físico do ambiente físico . Nesse estado primitivo de fusão não entram níveis mais elevados . ( Do mesmo modo , fui capaz de demonstrar a mesma coisa aplicada antropologicamente ao estado médio dos humanos primitivos . Eles realmente viveram em participação mística e unidade arcaica , mas era uma união de participação somente com os níveis mais baixos da Grande Cadeia - o material , o biológico e o animal ) .
Assim , é uma grande falácia referir-se a esse estado primitivo de fusão como " unidade com o mundo inteiro " , se por " mundo inteiro " entendemos nada mais do que a fusão primitiva biomaterial . Ainda mais que essa fusão primitiva simplesmente não pode ser igualada com o Self ou com a identidade do Self . Aí estava exatamente o problema com a visão transpessoal geral , que sustentava que esse estágio primitivo era uma identificação com o Self , identificação esta subsequentemente perdida no desenvolvimento e recuperada na iluminação . Pois o Self é a totalidade das estruturas psicológicas , não a estrutura psicológica mais baixa ; a totalidade ainda não se manifestou no bebê e é realmente impossível ser uno somente com um potencial ( ou , se você preferir considerar essa visão como uma metáfora , então terá que admitir que todos os níveis anteriores à iluminação também são unos com o Self de um modo inconsciente , mas aí não fará o menor sentido dizer que este estado inicial foi perdido no desenvolvimento subsequente ; de qualquer maneira , a visão é falaciosa ) .
Assim , o que é perdido no desenvolvimento subsequente é a inocência relativamente extática do estado de fusão material , subconsciente , pré-pessoal . Isto é , o bebê efetivamente rompe uma identidade , não com o Self , mas sim com o nível de ser material-urobórico . Agora , porque tanto as esferas pré-pessoal como transpessoal são , a seu modo , ambas não-pessoais , elas podem parecer idênticas à primeira vista , embora sejam totalmente diferentes , tais como a pré-escola e a universidade . Mas uma vez ocorrendo esta confusão , e porque a fusão pré-pessoal , subconsciente , é realmente perdida , ela , erroneamente , apresenta-se como uma perda da união transpessoal . Em outras palavras , a falácia pré-trans faz parecer que o desenvolvimento move-se do inconsciente transpessoal , para o consciente pessoal , para o consciente transpessoal , quando realmente ela se move do inconsciente pré-pessoal , para o pessoal , para o transpessoal . A falha em compreender esta distinção provoca exatamente o retorno em U que mencionei anteriormente : do transpessoal para o pessoal e de volta ao transpessoal , ao invés de pré-pessoal , para o pessoal , para transpessoal .
A matéria primordial ( materia prima ) dos alquimistas e gnósticos . ( N . T )
A serpente mítica que come sua própria cauda . ( N . T )
Figura mitológica , metade homem , metade serpente . ( N . T )
O Projeto Atman
Agora isto pode parecer um ponto trivial , mas era exatamente a distinção que precisava para conceituar o desenvolvimento humano mais adequadamente , conciliá-lo com a teoria evolucionária , com a Grande Cadeia do Ser , com Hegel , Aurobindo e outros .
Retornei , então , a The Atman Project e parti para os estágios estruturais de desenvolvimento - sub-auto-superconsciência - considerando a missão , os potenciais e conflitos de cada estágio de desenvolvimento . Embora Atman apresente ao todo cerca de vinte estágios/níveis , podemos usar , por conveniência , a versão mística ocidental mais simples : matéria para corpo , para mente , para alma , para espírito . O ponto é que o que denominamos desenvolvimento é um processo dinâmico de movimento hierárquico através desses estágios , de tal modo que cada estágio de consciência torna-se um nível de consciência no desenvolvimento subsequente . ( Esta é a noção de " individualidade composta " apresentada em Eden ; o indivíduo não é uma unidade isolada ; ao contrário , é composto por todos os estágios precedentes de evolução/desenvolvimento , estágios que agora fazem parte da sua individualidade composta e que expressam suas necessidades , e reproduzem suas próprias existências , por meio de trocas com os correspondentes níveis do ambiente . Em outras palavras , cada nível transcende mas inclui seus predecessores de um modo holístico , em forma de ninho : desenvolvimento que é envelopamento ) .
Tinha agora em minha mente uma imagem razoavelmente precisa das estruturas da consciência e do desenvolvimento dessas estruturas . Então , voltei-me mais uma vez para a dinâmica da consciência . À medida que comecei a rever a noção completa da dinâmica ( incluindo o que havia escrito anteriormente ) , ficou óbvio porque estava tão relutante em desistir da idéia de que o bebê existia em um estado de " totalidade perfeita " . As filosofias perenes e as tradições transpessoais unanimemente sustentam que a " dinâmica " , ou " força " da evolução e do desenvolvimento , é um impulso para realizar o potencial mais elevado de cada um - isto é , desenvolver a superconsciência ( natureza de Buda , natureza de Atman , Espírito , consciência de Deus , o termo que você preferir ) . Ao sustentar que o estado de fusão do bebê era uma forma inconsciente da unidade suprema , podia afirmar que todo o desenvolvimento subsequente era uma tentativa de recuperar a consciência de Atman , e poderia fazê-lo sem ter que invocar a noção de telos . Uma vez que a unidade suprema já existia no desenvolvimento do bebê , poderia apontar para uma condição passada , real , histórica e verdadeira , a partir da qual facilmente derivaria minha dinâmica ; não havia necessidade de telos .
Estava relutante em introduzir telos , não só porque isto significaria imediata rejeição da parte dos psicólogos ortodoxos , como também porque - mesmo sendo um psicólogo transpessoal e portanto , aos olhos dos ortodoxos , já bastante esquisito , oculto , ou suficientemente fantasmagórico - a idéia parecia bastante improvável até para mim.
Entretanto , todas as evidências apontavam inequivocamente para a noção de telos .
Em outras palavras , a dinâmica da consciência parecia não só uma pressão para afastar-se de um passado real , como também uma impulsão para realizar-se uma condição futura . A consciência não era só condicionamento , como sustentam os psicólogos ortodoxos , mas emergência criativa e esforço teleológico , nenhum dos quais pode ser explicado por teorias de reforço . Coloquemos da seguinte maneira : a teoria do condicionamento pode explicar o reforço de uma tendência após ter emergido pela primeira vez , mas não consegue explicar a própria emergência inicial . Ela pode dizer por que um comportamento se repete ou por que ocorre pela segunda vez , mas não por que ocorre pela primeira vez . Por outro lado , é na primeira aparição de um ato que está toda a novidade , toda a criatividade , toda a inovação , todo o crescimento , todo o desenvolvimento . Isto é , os aspectos mais importantes do comportamento são criativos e/ou teleológicos . Não são totalmente , nem mesmo predominantemente , circunscritos ao passado , e sim tendências criativas expressas em direção a potenciais ainda não realizados - em resumo , telos .
De qualquer modo , minhas dúvidas quanto a usar o conceito de telos desapareceram completamente após meu estudo de Hegel , Aristóteles , Aurobindo etc . Não somente telos passou a ser aceitável para mim ; comecei a entender que a rejeição de telos pela psicologia ortodoxa , bem como sua exclusiva confiança no condicionamento passado e na teoria do reforço , causou uma catástrofe intelectual de primeira magnitude , determinista , reducionalista e profundamente autocontraditória - uma teoria que não foi ( e ainda não é ) totalmente contestada . Embora tenham sido apresentadas críticas fatais a esta teoria de reforço da aprendizagem por filósofos como Whitehead , Hegel , Gregory Bateson , Hartshorne e Huston Smith , os psicólogos se mantiveram largamente ignorantes delas . A maioria dos psicólogos ortodoxos , ilusão de que são cientistas empíricos , acreditam que podem ignorar a filosofia , quando , de fato , sua " psicologia empírico-analítica " baseia-se extensivamente em sistemas de metafísica aculta e em hipóteses epistemológicas arbitrárias . No mínimo , metafísica oculta é má metafísica ( tal como motivação inconsciente é frequentemente patalógica ) . " Sou um cientista , não necessito de filosofia especulativa " é a declaração de um filósofo pragmático e logicamente positivista ; evidentemente , uma declaração bastante pobre em si mesma .
A superação da barreira do telos foi o último grande obstáculo para uma conceituação decente da dinâmica da consciência . Aceitando telos - especificamente , Atman-telos ou o impulso para realizar o Espírito - revi as motivações de , e em , cada estágio de desenvolvimento , sugerindo que eles fossem subconjuntos deste impulso último para a Unidade ( como haviam feito Whyte , Assagioli , Prigogine , Albert Szent-Gyorgyi , Fuller , Fantappie , Hegel ) . O ponto central do desenvolvimento é que o indivíduo procura a unidade em cada estágio de crescimento , mas ele ou ela deve continuamente abandonar as formas inferiores de unidade a fim de descobrir unidades mais elevadas , um processo que continua até que haja somente a Unidade . Vejamos alguns rápidos exemplos : é preciso desenvolver-se além da unidade pela comida ( fusão com o comer , a fase oral ) e da unidade pelo sexo ( união biológica , a fase fálica/edipiana ) , a fim de encontrar a unidade pela integração mental-social ( comunidade , a fase mental ) e , então , desenvolver-se além do ego-mental , a fim de atingir estágios superiores que culminam na unidade suprema ( comunhão divina em Deus somente , a fase transpessoal ) . Cada estágio é uma forma mais elevada e inclusiva de unidade e o desenvolvimento simplesmente continua até que haja somente Unidade e a alma esteja baseada naquela Fonte e Quididade que formaram o telos da sequência completa . Hegel :
[ O Absoluto ] é o processo do seu próprio vir-a-ser , o círculo que pressupõe seu fim como seu propósito [ telos ] e tem seu fim no seu começo . Torna-se concreto ou real somente pelo seu desenvolvimento e através do seu fim . ( Coplestone , 1965 ) .
Note que a dinâmica geral ainda era a mesma em que havia originalmente pensado : a pulsão na direção da consciência de Atman , " o círculo que pressupõe seu fim como seu propósito . " Mas agora o objetivo não era conceituado como a recuperação de um estado infantil de fusão ( ou uma " versão amadurecida " daquele estado ) , mas , sim , como uma descoberta teleológica do estado de Atman , que é a condição suprema e o potencial radical de cada pessoa . ( É um paradoxo : Atman é , ao mesmo tempo , sua natureza presente e o resultado final do seu desenvolvimento ; é , ao mesmo tempo , o Objetivo de todos os estágios evolutivos e a realidade presente ou Essência de cada estágio ; é o mais alto grau da escala e a madeira de que toda a escada é feita . Se o Espírito fosse somente presente , você seria iluminado já ; se ele fosse somente um objetivo , não poderia ser onipresente - portanto , Ele é , ao mesmo tempo , Objetivo e Condição , " o processo de seu próprio vir-a-ser . " )
Do mesmo modo , a natureza da iluminação era como originalmente havia pensado e como todas as tradições mantêm - uma recuperação ou redescoberta de um estado anterior . Entretanto , o estado redescoberto não era o estado de fusão neonatal , que é anterior no tempo , mas o estado supremo de Atman , que é anterior em profundidade . A união com Atman é ainda uma " re-união " , mas , novamente , é uma junção não com um estado particular no tempo mas sim com aquele que é anterior ao tempo - anterior , de fato , ao tempo , espaço , self , desejo , memória , separação , mortalidade , identidade , mente , corpo e mundo . É uma " re-união " porque estamos constantemente abandonando aquele Estado Primordial ao adotar limites , self , separação , sofrimento ; e o desenvolvimento é simplesmente um retorno àquilo que já somos eternamente antes daquele abandono . Em resumo , desenvolvimento é uma tentativa de recuperar a consciência de Atman ( mas uma tentativa lenta e tortuosa , marcada por compensações , defesas , gratificações substitutas , avanços e recuo - e aí está o complicado amálgama do desenvolvimento ) .
Finalmente , observe que o desejo e o impulso para redescobrir a totalidade de Atman não tem nada a ver com o desejo de voltar ao estado neonatal de fusão ( como muitos teóricos supuseram ) . Em verdade , aquele desejo é simplesmente um impulso de regressão e auto-absorção narcisística , um puxão regressivo que deve ser superado com sucesso a fim de que possa ocorrer um maior desenvolvimento . De fato , uma falha em superar esse estado primitivo de fusão narcisística deixa-nos fixados em buscas pré-pessoais e tendências subumanas ( como relatou , por exemplo , Christopher Lasch , 1979 ) . E fixação pré-pessoal não tem absolutamente nada a ver com a verdadeira inclinação transpessoal . A última é evolucionária ou progressiva ; a primeira é involucionária ou regressiva .
Texto : Ken Wilber
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sábado, 12 de março de 2011
" Odisseia " Parte IV
Patologia
Esta mudança na ênfase também ajudou-me a conceituar mais adequadamente a forma do desenvolvimento propriamente dita : em cada estágio sucessivo de crescimento e desenvolvimento , o self diferencia-se desse dado estágio , transcende esse estágio para o imediatamente acima e , então , integra o inferior com o superior . Assim , cada estágio de desenvolvimento sucessivo transcende mas inclui seus predecessores . " Superar é , ao mesmo tempo , negar e preservar " , disse Hegel ( 1949 ) . Isto corresponde a dizer que , à medida que o desenvolvimento se move da matéria para o corpo , para a mente , para a alma , para o espírito , cada estágio mais elevado nega ( transcende ) mas preserva ( inclui ) seu predecessor numa unidade e síntese de maior ordem , e este processo continua até que haja somente Unidade . A transcendência final é a síntese final .
Entre outras coisas , com esse esquema ficou mais fácil para mim entender patologia . A descoberta central de freud foi que sintomas emocionais não são destituídos de sentido ou absurdos , como era assumido ; ao contrário , eles apresentam significado porque têm várias causas que repousam na história real do indivíduo . Assim , se o indivíduo consegue reconstruir ( lembrar-se ) esta história , então , o significado do sintoma torna-se transparente para ele ou ela e , portanto , perde seu domínio obsessivo na consciência .
em resumo; o significado de um sintoma pode ser descoberto via " causas na história " e , terapeuticamente , esse entendimento histórico ajuda a despir o sintoma de sua opacidade e poder .
Agora , " causas na história " significam realmente " eventos em desenvolvimento " . Isto é , doenças emocionais apresentam grande parte da sua etiologia em abortos no desenvolvimento - em tarefas não assumidas ou incompletas . Aspectos da experiência são excessivamente absorvidos ou excessivamente evitados e alineados . O resultado é que , à medida que níveis superiores emergem , os inferiores não são integrados e sim segregados . Ao invés de diferenciação há dissociação ; ao invés de transcendência , repressão . A dissociação e a alienação geram , na história subsequente , vários sintomas patológicos e desordens emocionais , evidências de falha na integração . Isto é , cada falha no desenvolvimento coloca em movimento uma subsequente relação de causa e efeito , um " retorno do reprimido " , e um retorno que aparece como sintomas , sonhos e projeções . Esta não é a única causa da patologia ( há , teleologicamente , uma falha para integrar os potenciais futuros e emergentes , para não mencionar o papel da neurobiologia ) , mas , certamente , é central em muitas desordens .
Por exemplo , se o desenvolvimento a partir da matéria para o corpo , para a mente , para a alma , para o espírito se processa mais ou menos normalmente , então , entre as idades de 1 a 2 anos , o self material inicial ( estágio 1 ) transforma-se-á no self corporal ( estágio 2 ) . Aí , por volta dos 4 a 7 anos , a mente ( estágio 3 ) começará a emergir e a diferenciar-se do corpo ( do mesmo modo que o corpo , previamente , havia se diferenciado do estado de fusão material ) . Agora , se ocorrerem repetidos acidentes graves de desenvolvimento durante esse período ( tais como traumas ou situações sem saída ) , simplesmente a mente não se diferenciará do corpo ; ela tenderá a dissociar-se do corpo . Esta dissociação mente-corpo , dependendo das circunstâncias , poderá gerar sérias repercussões . No extremo , ela produz aquilo que Laing chamou " o falso self " ; o indivíduo sente a mente como o self e o corpo como outro , uma síndrome ( de acordo com Laing , 1969 ) que está no âmago de desordens esquizóides e esquizofrênicas ( composta frequentemente por traumas múltiplos que ocorreram na transição anterior da fusão material para o self corporal ) . Em formas menos drásticas , ela está por trás de todas as várias repressões ( defesas ) descritas por Freud - as repressões do desejo e prazer corporais pelo ego/superego mental . Na sua forma mais suave , ela produz a mentalidade friamente racional , abstrata , anti-sensual e anti-emocional tão característica da típica mente ocidental ( não é de admirar que L . L White [1950] tenha chamado a separação mente-corpo de " a dissociação européia " ) .
Este entendimento também pareceu lançar luz num dos pilares do Freudianismo , o complexo de Édipo . Quando comecei a estudar esses assuntos , considerava a psicanálise em geral , e o complexo de Édipo em particular , a mais ridícula e absurda de todas as teorias psicológicas . Mas repetidamente ( muito contra minha vontade e perfeitamente ressentido do fato ) eu era levado de volta ao gênio de Freud ( pelo menos , com respeito aos níveis inferiores , uroboros , tífon , emocional-sexual , todos estágios corporais ) . Além desses níveis , não sou admirador de Freud ; neles , procurei em vão por um gênio maior .
Fui finalmente vencido pelo fato de que talvez o maior psicólogo da história ocidental acreditava que o complexo de Édipo/Electra estava no âmago da psique de cada indivíduo . Com certeza , havia pelo menos uma verdade muito importante contida na teoria de Freud , embora aparentemente bizarra à primeira vista .
Quanto mais estudava , mais aquela verdade parecia insinuar-se . Pois a essência do complexo de Édipo é que ele marca a transição dos desejos emocionais-sexuais para identificações mentais ( " identificações substituem escolhas de objetos " ) . Isto é , na sequência do desenvolvimento da matéria para o corpo , para a mente , para a alma , para o espírito , o complexo de Édipo localiza-se no ponto de transição e diferenciação do corpo para a mente . Ele marca a transição da busca de unidade através do corpo ( intercurso emocional-sexual ) para a busca de unidade através da mente ( intercurso comunicativo ) . Apresentar um " problema edipiano " significa simplesmente que esta transição falhou completamente . O indivíduo fica preso ao nível do corpo ( fixação ) ou alienado do nível do corpo ( repressão ) . Em qualquer dos casos , há uma falha para transcender e integrar o corpo ( ou impulsos emocionais-sexuais em geral ) e esses impulsos dissociados e alienados , isolados de participação na consciência , retornam agora sob formas mórbidas de sintomas , doenças , angústias . Assim , parece-me que Freud foi capaz de ver o complexo de Édipo como universal porque a transição do corpo para a mente é universal e o complexo de Édipo representa , por assim dizer , o fulcro dessa transição .
Obviamente , há outros pontos de transição além de Édipo . Na sequência da matéria para corpo , para mente , para alma , para espírito , Édipo marca a transição de corpo para mente ; a transição do self material para o self corporal ocorre antes nos estágios oral , sensório-motor e pré-edipiano . ( Isto é , a fase oral marca a transição do estado de fusão inicial , neonatal , material , para a fase do self corporal , separado , individual . Esta transição , na qual o bebê aprende a distinguir o self corporal do ambiente material em geral e da mãe pré-edipiana em particular , foi intensamente investigada por Mahler , Klein , Fairbairn e a importante escola da teoria de relações com o objetivo em geral ) . No caso das transições superiores ( mente para alma e alma para espírito ) a teoria freudiana falha totalmente ( como também a psicologia ortodoxa em geral ) . Portanto tentei esquematizar em The Atman Project as características dessas transições mais elevadas , dando especial ênfase aos paralelos com as transições oral e edipiana . Isto não significa que essas transições mais elevadas sejam " impulsos edipianos sublimados " . Ao contrário : o complexo de Édipo é uma das formas mais baixas da dinâmica transicional .
Mas todas essas transições , altas ou baixas , compartilham a mesma forma de desenvolvimento ( diferenciação , transcendência , integração ) e a mesma forma de possível mau desenvolvimento ou patologia ( dissociação , alienação , separação ) . E essas semelhanças entre níveis constituíam o que especialmente me interessava .
Uma das conclusões dessa linha de estudo foi que o mais importante e difundido complexo hoje em dia não é o complexo de Édipo - ou a dificuldade de transformação do corpo para a mente - mas aquele que podemos chamar de complexo de Apolo - uma dificuldade de transformação da mente para a alma ou de domínios pessoais , mentais , egóicos para domínios transpessoais , sutis e supra-egóicos . O complexo de Vishnu , a dificuldade de transformação da alma para espírito , ocorre em um nível tão elevado que aflinge somente meditadores avançados ( como explicarei brevemente ) .
Prática de Meditação
A natureza desses complexos mais elevados , tais como o de Apolo e o de Vishnu , tornou-se dolorosamente óbvia para mim através da minha própria meditação . Ao terminar de escrever No Boundary ( Wilber , 1979 ) , minha prática de meditação , embora não exatamente avançada , não estava mais na fase de um iniciante . A dor nas pernas ( devida à postura de lótus ) estava suportável e minha conscientização , aumentando na capacidade de manter uma postura alerta embora relaxada , ativa embora neutra . Mas , como dizem os budistas , minha mente era igual à um macaco : compulsivamente ativa , obsessivamente motivada . E , então , fiquei face a face com meu complexo de Apolo , a dificuldade em transcender da esfera mental para a esfera sutil . A esfera sutil ( ou a " alma " , como chamada pelos místicos cristãos ) é o início dos domínios transpessoais ; como tal , é supramental , transegóica e transverbal . Mas para atingir-se essa esfera , deve-se ( como em todas as transformações ) " morrer " para a esfera inferior ( neste caso , a mental-egóica ) . A falha ou a incapacidade de consegui-lo é o complexo de Apolo . Do mesmo modo que a pessoa com complexo de Édipo mantém-se inconscientemente ligada ao corpo e ao seu princípio de prazer , a pessoa com complexo de Apolo mantém-se inconscientemente presa à mente e ao seu princípio de realidade .
( " realidade " aqui significa " realidade institucional , racional , verbal " , a qual , embora por convenção seja suficientemente real , é , todavia , uma mera descrição da Realidade verdadeira ; se nos ativermos a ela , em última instância , isso evitará a descoberta da Realidade autêntica . )
A luta com meus pensamentos obsessivos/compulsivos - não pensamentos obsessivos particulares como na neurose específica ( o que frequentemente é indicação de uma fixação no complexo de Édipo ) , mas o próprio fluxo de pensamentos em si mesmo - foi uma árdua tarefa . ( Um excelente depoimento dessas batalhas iniciais foi prestado por Walsh , 1977 , 1978 ) . Fui afortunado em fazer algum progresso , em finalmente ser capaz de elevar as flutuações das contrações mentais e descobrir , embora de maneira incipiente , um domínio incomparavelmente mais profundo , mais real , mais saturado de ser , mais aberto à lucidez . Este domínio era simplesmente o sutil , que é descoberto , por assim dizer , após desgastar o complexo de Apolo . Neste domínio , não é que o pensamento necessariamente cessa ( embora isso aconteça muitas vezes , especialmente no início ) ; é que , quando o pensamento surge , ele não se afasta desse fundo mais abrangente de lucidez e conscientização ( vide , por exemplo , o relato cristalino de John Welwood desse " terreno transpessoal " ) . No nível sutil , não se fica mais " perdido em pensamentos " , ao contrário , pensamentos entram e saem da consciência como nuvens atravessam o céu ; com suavidade , graça e clareza . Nada gruda , nada raspa , nada atrita .
Chuang Tsé : " O homem perfeito usa sua mente como espelho . Não absorve nada ; não recusa nada ; recebe mas não retém . "
Entretanto , durante a meditação , as experiências do domínio sutil podem ser ( e usualmente são ) verdadeiramente extraordinárias , maravilhosas , profundas . Porque este é o reino dos arquétipos e da divindade arquetípica - o confronto com aquilo que é sempre numinoso , como ressaltado por Jung . Este foi um período muito real e muito intenso para mim ; foi minha primeira inequívoca experiência direta da sacralidade do mundo , este mundo que , como disse Plotino , emana do Um e representa uma expressão Dele . Anteriormente , havia tido breves e iniciais vislumbres do domínio sutil - e mesmo do causal , além dele - mas efetivamente ainda não tinha sido apresentado , ou iniciado , àquele domínio . Um mestre zen uma vez disse que a resposta apropriada ao primeiro Kensho forte ( pequeno satori ) não é rir , mas chorar , e foi exatamente isso o que fiz , por horas , me pareceu . Lágrimas de gratidão , de compaixão , de indignidade e , finalmente , de maravilhamento infinito . ( Isto não é falsa humildade ; nunca encontrei ninguém que não se sentisse indigno desse domínio . ) Gargalhadas - grandes gargalhadas - vieram depois ; neste ponto inicial seria sacrilégio .
Mais uma visão da fase " Wilber-I " , posteriormente reformulada . Por exemplo , em The Eye of Spirit ( Wilber , 1997 ) : " Neste uso , Jung é definitivamente culpado da falácia pré-trans . Simplesmente , ele não diferencia com suficiente clareza as situações pré-racionais e transracionais , e , assim , tende a elevar infantilismos pré-racionais a glórias espirituais , simplesmente porque ambos não são racionais . Este uso para " arquétipo " , porque ainda é o mais comum e o mais largamente associado ao nome de Jung , é o que mais tenho criticado . Nele , os arquétipos são encontrados nos estágios primitivos da evolução , filogenética e ontogenética . Assim , tenho assinalado que essas imagens " arquetípicas " arcaicas deveriam realmente ser chamadas de " protótipos " , porque são formas pré-racionais , mágicas e míticas e não formas sutis , transracionais e pós-pós-convencionais ( que é o modo como arquétipos são usados na Filosofia Perene , de Plotino a Garab Dorje , a Asanga e Vasubandhu ) . " ( N . T )
A seguir , em minha prática meditativa , fiz um " tour " pelo domínio sutil . Minha descrição favorita deste domínio é a de Dante e asseguro-lhes que o que ele descreve é literalmente verdadeiro .
Fixando meu olhar na Luz Eterna , vi nas profundezas ,
Embrulhadas juntas amorosamente em um pacote ,
As folhas espalhadas de todo o universo . . . Na profunda subsistência luminosa
Daquela Excelsa Luz , vi três círculos
De três cores , embora de uma dimensão .
E o primeiro parecia refletido no segundo
Como o arco-íris é pelo arco-íris , e o terceiro
Parecia fogo respirado igualmente por ambos .
Nessa época descobri os trabalhos de Kirpal Singh , que muito me ajudaram a esclarecer minhas experiências nesse domínio ( Singh , 1975 ) . Em minha opinião , Singh é o mestre insuperável dos domínios sutis , e sem a sua liderança ( mesmo que apenas por livros ) duvido seriamente de que pudesse passar tão facilmente e rapidamente por alguns desses domínios , como aparentemente fiz . O ponto central de Singh é que há nos domínios sutis uma hierarquia de iluminações audíveis cada vez mais sutis , ou " chakras " shabd , além dos chakras ( como o ajna e o sahasrara ) considerados por escolas de ioga mais antigas e menos sofisticadas como os derradeiros . Toda sua abordagem era hierárquica , desenvolvimentista e dinâmica , o que casava perfeitamente com minha própria filosofia , de modo que não tive que perder tempo para aprender ou discutir sua posição . Simplesmente a usei .
Estava , então , tendo um gosto dos níveis mais sutis , uma introdução a arquétipo , a divindade , a yidam ( o termo budista ) e ishtadeva ( o termo hinduísta ) . Sem dúvida , essas eram as mais profundas experiências por que jamais havia passado . E mais importante , pelo fato de estar bastante familiarizado ( na teoria e na prátrica ) com as experiências que podem ser produzidas por impulsos subconscientes , todas as imagens " mágicas " e " alucinatórias " descritas por Freud e outros , não fui levado pela falácia de confundir experiências superconscientes com renascimentos subconscientes . Na minha opinião , qualquer pessoa que tenha estudado cuidadosamente e intimamente esses diversos domínios reconhecerá imediatamente as profundas diferenças entre exposições pré-pessoais , subconscientes e instintivas em comparação àqueles que são transpessoais , superconscientes e arquetípicas . As escolas orientais são muito explícitas quanto às diferenças entre pranamayakosha ( exposições emotivo-sexuais ) e anandamayakosha ( intuições arquetípicas ) .
Na tradição tântrica os chakras ( centros de energia sutil ) são sete : muladhara , svadhisthana , manipura , anahata , vishuddha , ajna e sahasrara . ( N . T )
Texto : Ken Wilber
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Esta mudança na ênfase também ajudou-me a conceituar mais adequadamente a forma do desenvolvimento propriamente dita : em cada estágio sucessivo de crescimento e desenvolvimento , o self diferencia-se desse dado estágio , transcende esse estágio para o imediatamente acima e , então , integra o inferior com o superior . Assim , cada estágio de desenvolvimento sucessivo transcende mas inclui seus predecessores . " Superar é , ao mesmo tempo , negar e preservar " , disse Hegel ( 1949 ) . Isto corresponde a dizer que , à medida que o desenvolvimento se move da matéria para o corpo , para a mente , para a alma , para o espírito , cada estágio mais elevado nega ( transcende ) mas preserva ( inclui ) seu predecessor numa unidade e síntese de maior ordem , e este processo continua até que haja somente Unidade . A transcendência final é a síntese final .
Entre outras coisas , com esse esquema ficou mais fácil para mim entender patologia . A descoberta central de freud foi que sintomas emocionais não são destituídos de sentido ou absurdos , como era assumido ; ao contrário , eles apresentam significado porque têm várias causas que repousam na história real do indivíduo . Assim , se o indivíduo consegue reconstruir ( lembrar-se ) esta história , então , o significado do sintoma torna-se transparente para ele ou ela e , portanto , perde seu domínio obsessivo na consciência .
em resumo; o significado de um sintoma pode ser descoberto via " causas na história " e , terapeuticamente , esse entendimento histórico ajuda a despir o sintoma de sua opacidade e poder .
Agora , " causas na história " significam realmente " eventos em desenvolvimento " . Isto é , doenças emocionais apresentam grande parte da sua etiologia em abortos no desenvolvimento - em tarefas não assumidas ou incompletas . Aspectos da experiência são excessivamente absorvidos ou excessivamente evitados e alineados . O resultado é que , à medida que níveis superiores emergem , os inferiores não são integrados e sim segregados . Ao invés de diferenciação há dissociação ; ao invés de transcendência , repressão . A dissociação e a alienação geram , na história subsequente , vários sintomas patológicos e desordens emocionais , evidências de falha na integração . Isto é , cada falha no desenvolvimento coloca em movimento uma subsequente relação de causa e efeito , um " retorno do reprimido " , e um retorno que aparece como sintomas , sonhos e projeções . Esta não é a única causa da patologia ( há , teleologicamente , uma falha para integrar os potenciais futuros e emergentes , para não mencionar o papel da neurobiologia ) , mas , certamente , é central em muitas desordens .
Por exemplo , se o desenvolvimento a partir da matéria para o corpo , para a mente , para a alma , para o espírito se processa mais ou menos normalmente , então , entre as idades de 1 a 2 anos , o self material inicial ( estágio 1 ) transforma-se-á no self corporal ( estágio 2 ) . Aí , por volta dos 4 a 7 anos , a mente ( estágio 3 ) começará a emergir e a diferenciar-se do corpo ( do mesmo modo que o corpo , previamente , havia se diferenciado do estado de fusão material ) . Agora , se ocorrerem repetidos acidentes graves de desenvolvimento durante esse período ( tais como traumas ou situações sem saída ) , simplesmente a mente não se diferenciará do corpo ; ela tenderá a dissociar-se do corpo . Esta dissociação mente-corpo , dependendo das circunstâncias , poderá gerar sérias repercussões . No extremo , ela produz aquilo que Laing chamou " o falso self " ; o indivíduo sente a mente como o self e o corpo como outro , uma síndrome ( de acordo com Laing , 1969 ) que está no âmago de desordens esquizóides e esquizofrênicas ( composta frequentemente por traumas múltiplos que ocorreram na transição anterior da fusão material para o self corporal ) . Em formas menos drásticas , ela está por trás de todas as várias repressões ( defesas ) descritas por Freud - as repressões do desejo e prazer corporais pelo ego/superego mental . Na sua forma mais suave , ela produz a mentalidade friamente racional , abstrata , anti-sensual e anti-emocional tão característica da típica mente ocidental ( não é de admirar que L . L White [1950] tenha chamado a separação mente-corpo de " a dissociação européia " ) .
Este entendimento também pareceu lançar luz num dos pilares do Freudianismo , o complexo de Édipo . Quando comecei a estudar esses assuntos , considerava a psicanálise em geral , e o complexo de Édipo em particular , a mais ridícula e absurda de todas as teorias psicológicas . Mas repetidamente ( muito contra minha vontade e perfeitamente ressentido do fato ) eu era levado de volta ao gênio de Freud ( pelo menos , com respeito aos níveis inferiores , uroboros , tífon , emocional-sexual , todos estágios corporais ) . Além desses níveis , não sou admirador de Freud ; neles , procurei em vão por um gênio maior .
Fui finalmente vencido pelo fato de que talvez o maior psicólogo da história ocidental acreditava que o complexo de Édipo/Electra estava no âmago da psique de cada indivíduo . Com certeza , havia pelo menos uma verdade muito importante contida na teoria de Freud , embora aparentemente bizarra à primeira vista .
Quanto mais estudava , mais aquela verdade parecia insinuar-se . Pois a essência do complexo de Édipo é que ele marca a transição dos desejos emocionais-sexuais para identificações mentais ( " identificações substituem escolhas de objetos " ) . Isto é , na sequência do desenvolvimento da matéria para o corpo , para a mente , para a alma , para o espírito , o complexo de Édipo localiza-se no ponto de transição e diferenciação do corpo para a mente . Ele marca a transição da busca de unidade através do corpo ( intercurso emocional-sexual ) para a busca de unidade através da mente ( intercurso comunicativo ) . Apresentar um " problema edipiano " significa simplesmente que esta transição falhou completamente . O indivíduo fica preso ao nível do corpo ( fixação ) ou alienado do nível do corpo ( repressão ) . Em qualquer dos casos , há uma falha para transcender e integrar o corpo ( ou impulsos emocionais-sexuais em geral ) e esses impulsos dissociados e alienados , isolados de participação na consciência , retornam agora sob formas mórbidas de sintomas , doenças , angústias . Assim , parece-me que Freud foi capaz de ver o complexo de Édipo como universal porque a transição do corpo para a mente é universal e o complexo de Édipo representa , por assim dizer , o fulcro dessa transição .
Obviamente , há outros pontos de transição além de Édipo . Na sequência da matéria para corpo , para mente , para alma , para espírito , Édipo marca a transição de corpo para mente ; a transição do self material para o self corporal ocorre antes nos estágios oral , sensório-motor e pré-edipiano . ( Isto é , a fase oral marca a transição do estado de fusão inicial , neonatal , material , para a fase do self corporal , separado , individual . Esta transição , na qual o bebê aprende a distinguir o self corporal do ambiente material em geral e da mãe pré-edipiana em particular , foi intensamente investigada por Mahler , Klein , Fairbairn e a importante escola da teoria de relações com o objetivo em geral ) . No caso das transições superiores ( mente para alma e alma para espírito ) a teoria freudiana falha totalmente ( como também a psicologia ortodoxa em geral ) . Portanto tentei esquematizar em The Atman Project as características dessas transições mais elevadas , dando especial ênfase aos paralelos com as transições oral e edipiana . Isto não significa que essas transições mais elevadas sejam " impulsos edipianos sublimados " . Ao contrário : o complexo de Édipo é uma das formas mais baixas da dinâmica transicional .
Mas todas essas transições , altas ou baixas , compartilham a mesma forma de desenvolvimento ( diferenciação , transcendência , integração ) e a mesma forma de possível mau desenvolvimento ou patologia ( dissociação , alienação , separação ) . E essas semelhanças entre níveis constituíam o que especialmente me interessava .
Uma das conclusões dessa linha de estudo foi que o mais importante e difundido complexo hoje em dia não é o complexo de Édipo - ou a dificuldade de transformação do corpo para a mente - mas aquele que podemos chamar de complexo de Apolo - uma dificuldade de transformação da mente para a alma ou de domínios pessoais , mentais , egóicos para domínios transpessoais , sutis e supra-egóicos . O complexo de Vishnu , a dificuldade de transformação da alma para espírito , ocorre em um nível tão elevado que aflinge somente meditadores avançados ( como explicarei brevemente ) .
Prática de Meditação
A natureza desses complexos mais elevados , tais como o de Apolo e o de Vishnu , tornou-se dolorosamente óbvia para mim através da minha própria meditação . Ao terminar de escrever No Boundary ( Wilber , 1979 ) , minha prática de meditação , embora não exatamente avançada , não estava mais na fase de um iniciante . A dor nas pernas ( devida à postura de lótus ) estava suportável e minha conscientização , aumentando na capacidade de manter uma postura alerta embora relaxada , ativa embora neutra . Mas , como dizem os budistas , minha mente era igual à um macaco : compulsivamente ativa , obsessivamente motivada . E , então , fiquei face a face com meu complexo de Apolo , a dificuldade em transcender da esfera mental para a esfera sutil . A esfera sutil ( ou a " alma " , como chamada pelos místicos cristãos ) é o início dos domínios transpessoais ; como tal , é supramental , transegóica e transverbal . Mas para atingir-se essa esfera , deve-se ( como em todas as transformações ) " morrer " para a esfera inferior ( neste caso , a mental-egóica ) . A falha ou a incapacidade de consegui-lo é o complexo de Apolo . Do mesmo modo que a pessoa com complexo de Édipo mantém-se inconscientemente ligada ao corpo e ao seu princípio de prazer , a pessoa com complexo de Apolo mantém-se inconscientemente presa à mente e ao seu princípio de realidade .
( " realidade " aqui significa " realidade institucional , racional , verbal " , a qual , embora por convenção seja suficientemente real , é , todavia , uma mera descrição da Realidade verdadeira ; se nos ativermos a ela , em última instância , isso evitará a descoberta da Realidade autêntica . )
A luta com meus pensamentos obsessivos/compulsivos - não pensamentos obsessivos particulares como na neurose específica ( o que frequentemente é indicação de uma fixação no complexo de Édipo ) , mas o próprio fluxo de pensamentos em si mesmo - foi uma árdua tarefa . ( Um excelente depoimento dessas batalhas iniciais foi prestado por Walsh , 1977 , 1978 ) . Fui afortunado em fazer algum progresso , em finalmente ser capaz de elevar as flutuações das contrações mentais e descobrir , embora de maneira incipiente , um domínio incomparavelmente mais profundo , mais real , mais saturado de ser , mais aberto à lucidez . Este domínio era simplesmente o sutil , que é descoberto , por assim dizer , após desgastar o complexo de Apolo . Neste domínio , não é que o pensamento necessariamente cessa ( embora isso aconteça muitas vezes , especialmente no início ) ; é que , quando o pensamento surge , ele não se afasta desse fundo mais abrangente de lucidez e conscientização ( vide , por exemplo , o relato cristalino de John Welwood desse " terreno transpessoal " ) . No nível sutil , não se fica mais " perdido em pensamentos " , ao contrário , pensamentos entram e saem da consciência como nuvens atravessam o céu ; com suavidade , graça e clareza . Nada gruda , nada raspa , nada atrita .
Chuang Tsé : " O homem perfeito usa sua mente como espelho . Não absorve nada ; não recusa nada ; recebe mas não retém . "
Entretanto , durante a meditação , as experiências do domínio sutil podem ser ( e usualmente são ) verdadeiramente extraordinárias , maravilhosas , profundas . Porque este é o reino dos arquétipos e da divindade arquetípica - o confronto com aquilo que é sempre numinoso , como ressaltado por Jung . Este foi um período muito real e muito intenso para mim ; foi minha primeira inequívoca experiência direta da sacralidade do mundo , este mundo que , como disse Plotino , emana do Um e representa uma expressão Dele . Anteriormente , havia tido breves e iniciais vislumbres do domínio sutil - e mesmo do causal , além dele - mas efetivamente ainda não tinha sido apresentado , ou iniciado , àquele domínio . Um mestre zen uma vez disse que a resposta apropriada ao primeiro Kensho forte ( pequeno satori ) não é rir , mas chorar , e foi exatamente isso o que fiz , por horas , me pareceu . Lágrimas de gratidão , de compaixão , de indignidade e , finalmente , de maravilhamento infinito . ( Isto não é falsa humildade ; nunca encontrei ninguém que não se sentisse indigno desse domínio . ) Gargalhadas - grandes gargalhadas - vieram depois ; neste ponto inicial seria sacrilégio .
Mais uma visão da fase " Wilber-I " , posteriormente reformulada . Por exemplo , em The Eye of Spirit ( Wilber , 1997 ) : " Neste uso , Jung é definitivamente culpado da falácia pré-trans . Simplesmente , ele não diferencia com suficiente clareza as situações pré-racionais e transracionais , e , assim , tende a elevar infantilismos pré-racionais a glórias espirituais , simplesmente porque ambos não são racionais . Este uso para " arquétipo " , porque ainda é o mais comum e o mais largamente associado ao nome de Jung , é o que mais tenho criticado . Nele , os arquétipos são encontrados nos estágios primitivos da evolução , filogenética e ontogenética . Assim , tenho assinalado que essas imagens " arquetípicas " arcaicas deveriam realmente ser chamadas de " protótipos " , porque são formas pré-racionais , mágicas e míticas e não formas sutis , transracionais e pós-pós-convencionais ( que é o modo como arquétipos são usados na Filosofia Perene , de Plotino a Garab Dorje , a Asanga e Vasubandhu ) . " ( N . T )
A seguir , em minha prática meditativa , fiz um " tour " pelo domínio sutil . Minha descrição favorita deste domínio é a de Dante e asseguro-lhes que o que ele descreve é literalmente verdadeiro .
Fixando meu olhar na Luz Eterna , vi nas profundezas ,
Embrulhadas juntas amorosamente em um pacote ,
As folhas espalhadas de todo o universo . . . Na profunda subsistência luminosa
Daquela Excelsa Luz , vi três círculos
De três cores , embora de uma dimensão .
E o primeiro parecia refletido no segundo
Como o arco-íris é pelo arco-íris , e o terceiro
Parecia fogo respirado igualmente por ambos .
Nessa época descobri os trabalhos de Kirpal Singh , que muito me ajudaram a esclarecer minhas experiências nesse domínio ( Singh , 1975 ) . Em minha opinião , Singh é o mestre insuperável dos domínios sutis , e sem a sua liderança ( mesmo que apenas por livros ) duvido seriamente de que pudesse passar tão facilmente e rapidamente por alguns desses domínios , como aparentemente fiz . O ponto central de Singh é que há nos domínios sutis uma hierarquia de iluminações audíveis cada vez mais sutis , ou " chakras " shabd , além dos chakras ( como o ajna e o sahasrara ) considerados por escolas de ioga mais antigas e menos sofisticadas como os derradeiros . Toda sua abordagem era hierárquica , desenvolvimentista e dinâmica , o que casava perfeitamente com minha própria filosofia , de modo que não tive que perder tempo para aprender ou discutir sua posição . Simplesmente a usei .
Estava , então , tendo um gosto dos níveis mais sutis , uma introdução a arquétipo , a divindade , a yidam ( o termo budista ) e ishtadeva ( o termo hinduísta ) . Sem dúvida , essas eram as mais profundas experiências por que jamais havia passado . E mais importante , pelo fato de estar bastante familiarizado ( na teoria e na prátrica ) com as experiências que podem ser produzidas por impulsos subconscientes , todas as imagens " mágicas " e " alucinatórias " descritas por Freud e outros , não fui levado pela falácia de confundir experiências superconscientes com renascimentos subconscientes . Na minha opinião , qualquer pessoa que tenha estudado cuidadosamente e intimamente esses diversos domínios reconhecerá imediatamente as profundas diferenças entre exposições pré-pessoais , subconscientes e instintivas em comparação àqueles que são transpessoais , superconscientes e arquetípicas . As escolas orientais são muito explícitas quanto às diferenças entre pranamayakosha ( exposições emotivo-sexuais ) e anandamayakosha ( intuições arquetípicas ) .
Na tradição tântrica os chakras ( centros de energia sutil ) são sete : muladhara , svadhisthana , manipura , anahata , vishuddha , ajna e sahasrara . ( N . T )
Texto : Ken Wilber
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" Odisseia " V
Os Limites da Experiência
Mas à medida que essas experiências superconscientes progrediam , comecei a entender o que elas realmente eram - meras experiências . Porque , por definição , experiência é algo que tem um começo e um fim ( estritamente temporal , estritamente relativo ) .
Quanto mais me aprofundava na natureza da experiência , tanto mais me tornava profundamente desiludido com ela . Admito que esses domínios , de um modo especial , eram mais reais que os planos material , corporal ou mental , pelo menos como os conhecia , porém o ponto era que essa exposição experiencial poderia continuar para sempre . Poderia ser apresentado a experiências cada vez mais sutis ad infinitum .
Há uma citação , penso que de Hans Sachs , segundo a qual a psicanálise termina quando o paciente compreende que ele pode durar para sempre . O mesmo tipo de compreensão , por assim dizer , começou a curar-me da fixação do nível sutil , o complexo de Vishnu .
Pois o complexo de Vishnu é precisamente a dificuldade em mover-se da alma sutil para o espírito causal . As experiências sutis são tão extasiantes , tão maravilhosas , tão profundas , tão salutares , que nunca se quer abandoná-las , nunca perdê-las ; ao contrário , deseja-se banhar para sempre em sua glória arquetípica e libertação imortal - e aí está o complexo de Vishnu . Se o complexo de Apolo é o veneno dos meditadores iniciantes , o complexo de Vishnu é o grande sedutor dos praticantes intermediários .
Mas meu treinamento Zen , meu entendimento ( embora ainda superficial ) de Krishnamurti , de Shankara e de Sri Ramana Maharsi , de São Dionísio a Eckhart - tudo me dizia que o estado supremo não era uma experiência ( um ponto que coloquei em " The Ultimate State of Consciousness " [ Wilber , 1975-1976 ] . Não era uma experiência particular entre outras experiências , mas a própria natureza e essência de todas as experiências , superiores ou inferiores . Era aquele vasto background ou Abismo ( Ruysbroeck ) de onde emanam as inúmeras realidades experienciais . Assim , em si mesma , não era absolutamente experiencial ; não tinha nada a ver com mudanças de estado , em saber isto ou aquilo , em ver isto ou aquilo , esse ou aquele sentimento , porque era anterior a tudo isso , a natureza verdadeira deste e de cada momento antes que eu possa compreendê-lo . O estado supremo é o que sou antes de ser qualquer outra coisa , é o que vejo antes de ver qualquer coisa e o que sinto antes de sentir qualquer coisa . É por isso que se diz que o Tao está além do saber ou não-saber , do certo ou errado .
Chao-Chou perguntou , " O que é o Tao ? "
Mestre Nan-chuan respondeu . " O Tao é sua consciência comum . "
" Mas como se pode viver em concordância com ele ? "
" Ao tentar concordar você já se desviou . "
" Mas sem tentar , como vou conhecer o Tao ? "
" O Tao " , disse o Mestre , " é anterior ao conhecer ou não-conhecer . Conhecer
é falso entendimento ; não-conhecer é simples ignorância . Se você realmente
compreende o Tao antes de duvidar , é como o céu vazio . Por que mudar o
rumo da conversa para certo e errado ? "
[ Citado em Watts , 1975 ]
Explica-se isto assim : o Upanishads diz que Brahman não é um entre muitos , mas um sem um segundo ; não um objeto particular , mas a realidade de todos os objetos . E mesmo assim , estava tentando captar o Todo como uma experiência particular - por certo uma Grande Experiência , mas , de qualquer modo , uma experiência - e era exatamente isso que não permitia a descoberta ( porque uma experiência é um saber ou não-saber e não algo que precede a ambos ) . Por isso o Zen chama todas as experiências superiores por um nome pejorativo : makyo ou " ilusões sutis " . E de acordo com o Zen , muitas outras tradições confundem makyo com o estado supremo , simplesmente porque essas extraordinárias experiências são , na verdade , mais reais do que os estados comuns .
Todavia , todas as experiências , superiores ou inferiores , ficam aquém da consciência não-dual e , assim , cedo ou tarde , devem ser superadas .
O ponto é que todas as experiências , sagradas ou profanas , superiores ou inferiores , baseiam-se na dualidade entre sujeito e objeto , observador e observado , experienciador e experienciado . Mesmo na esfera da alma , incomparavelmente mais real do que os níveis inferiores da matéria , corpo e mente , trata-se meramente de um sujeito mais sutil e de um objeto mais extraordinário . A testemunha desses estados divinos ainda se mantém intacta . Entretanto , o despertar verdadeiro é a dissolução da própria testemunha e não uma mudança de estado naquilo que é testemunhado .
Por isso é que sempre se afirmou que formas de indagação do tipo " Quem sou eu ? " , " Quem canta o nome de Buda ? " , " Quem deseja libertação ? " são o caminho básico , talvez o único caminho , além da testemunha ( e do complexo de Vishnu ) . Não " Eu devo sempre estar consciente da minha respiração . " mas sim " Quem deve ? " . Não " Eu captei o sentido do Koan . " , e sim " Quem captou ? " . O efeito dessas perguntas é libertar a atenção das telas objetivas da consciência e excitar a consciência em si mesma . Mais precisamente , esse tipo de indagação faz com que a atenção se volte para a própria atenção , para a verdadeira natureza da atenção , e sua natureza é de sutil contração ou resistência . Qualquer atenção é exclusiva , porque ela se liga nisso e ignora aquilo . Em outra palavras , é dualística , e isso inclui a " atenção passiva " e qualquer outra conscientização sutilmente motivada . Todas são meras contrações subjetivas no Campo da Consciência . Mas com esse tipo de pergunta , esta contração subjetiva que é atenção torna-se o objeto da atenção . Isto é , o sujeito transforma-se no objeto de modo que a fronteira entre eles é rompida e ambos desaparecem como entidades exclusivas e separadas . Então , resta apenas a consciência inicial , radiante , imanente , desobstruída , que não é nem subjetiva nem objetiva , simplesmente total .
A primeira vez que isto se tornou óbvio para mim , embora de um modo fugaz , foi em um sesshin ou retiro Zen intensivo . No quarto dia apareceu , por assim dizer , o estado da testemunha , a testemunha transpessoal que , de maneira firme , calma e clara , testemunha todos os eventos emergentes , momento a momento . Mesmo sonhando , meramente se testemunha : pode-se ver o sonho começar , prosseguir e terminar ( o que Charles Tart chamou de " sonhos translúcidos " ) . Entretanto , Roshi ficou totalmente impassível diante de todo aquele " makyo " . " A testemunha " , disse ele , " é a derradeira cidadela do ego .
Nesse ponto , a postura da testemunha desapareceu completamente . Não havia nenhum sujeito em nenhuma parte do universo ; não havia nenhum objeto em nenhuma parte do universo ; havia apenas o universo . Tudo estava surgindo momento a momento e estava surgindo em mim e como eu ; por outro lado , não havia nenhum eu . É muito importante compreender que esse estado não foi uma perda das faculdades , mas uma amplificação delas ; não foi um transe vazio e sim perfeita claridade ; não despersonalizado mas transpersonalizado . Nenhuma das faculdades pessoais - linguagem , lógica , conceitos , habilidades motoras - foi perdida ou enfraqueceu-se . Ao contrário , pela primeira vez pareceu-me que todas elas funcionavam em radical abertura , livres das defesas impostas pela sensação de um self separado . Esse estado radicalmente aberto , indefeso e perfeitamente não-dual foi , ao mesmo tempo , incrível e profundamente comum , tão extraordinariamente comum que nem mesmo foi notado . Não havia ninguém lá para compreendê-lo até que eu saísse dele ( acho que cerca de três horas depois ) .
Em outras palavras , enquanto naquele estado , que não era absolutamente nenhuma experiência , havia somente aquele estado , que era a totalidade de tudo surgindo momento a momento . Eu não observava ou experienciava nada , simplesmente era tudo .
Não podia ver , porque era tudo visto ; não podia ouvir , porque era tudo ouvido ; não podia saber porque era tudo sabido . Daí porque ele é , ao mesmo tempo , o grande mistério e o perfeitamente óbvio . Mas foi somente quando de que estava naquele estado que realmente não estava mais nele . O seu reconhecimento ou experiência é muito , muito menos que o estado em si mesma . Para experienciar aquele estado livre que me separar dele ( isto é , destruí-lo ) .
Daí em diante , tornei-me profundamente desconfiado dos transpersonalistas que falam dos estados superiores como " realidades experienciais " , apesar de ter feito o mesmo em Spectrum . Também vi a perfeita inadequalibilidade do paradigma de " estados alterados " , extremamente útil em outros casos , para tratar do derradeiro domínio espiritual , porque esse domínio , esse " não-domínio " , é , em verdade , o que todos os estados têm em comum , e o que todos os estados têm em comum não é , em si mesmo , outro estado , do mesmo modo que o alfabeto não é outra letra .
Mas todo esse período , percorrendo os domínios sutis , lutando com o complexo de Vishnu e penetrando no Dharmakaya - embora de maneira parcial , inicial e incompleta - proporcionou-me , pelo menos , uma introdução em primeira mão , razoavelmente sólida , às várias esferas mais elevadas da consciência . Com essa experiência , fui capaz , com maior facilidade , de retornar à literatura das tradições transpessoais e desenvolver uma classificação bastante exaustiva dos vários domínios superiores , muito frequentemente condensados e chamados de " transpessoais " , " transcendentes " ou " místicos " . Como mencionei anteriormente , foi aí que subdividi o domínio transpessoal em pelo menos quatro ou cinco níveis baseados em análises estruturais . Com essas subdivisões do espectro , além daquelas provenientes de Eden , finalmente senti que chegara a uma cartografia mais completa da consciência , uma que , longe de ser perfeita e , ocasionalmente , ainda escorregadia , pelo menos tinha o mérito da abrangência . Os refinamentos poderiam vir ao longo dos anos ; por enquanto , essa cartografia foi apresentada em The Atman Project , com extensas tabelas de referência mostrando como as principais psicologias orientais e ocidentais se encaixavam nela .
No Budismo Mahayana , é o último domínio ( causal ) antes da transcendência final . Para maiores detalhes vide The Atman Project . ( N . T )
Um Modelo de Meditação
Este período também ajudou-me a montar um modelo experimental da natureza e função da meditação , um modelo baseado tanto na prática pessoal quanto no estado teórico . A maioria dos modelos ocidentais de meditação cai em um de dois campos : a escola fisiológica/neurológica/padrões-cerebrais e a escola cognitiva/psicológica . A primeira vê a meditação como redução sensorial , lateralização hemisférica , uma resposta ao relaxamento , variáveis ergotrópicas/trofotrópicas , padrão cerebral alterado ou metabolismo reduzido . A segunda vê a meditação como uma dessensibilização super-Wolpiana , regressão a serviço do ego , desautomatização , alteração cognitiva ou estratégia de auto-regulação .
Acho que cada uma dessas teorias tem o seu mérito , mas o que todas tendem a não considerar é precisamente , para mim , o âmago , a própria essência da meditação .
Consideremos qualquer importante sistema de meditação : os detalhados estágios dhyana/prajna de Buda ; os oito passos dos Yoga Sutras de Patanjali ; a contemplação Taoísta hierárquica de Lao Tsé ; o abrangente sistema de meditação Zen representado pelos estágios do pastoreio do boi ; o curso multinível de contemplatio de Hugo de São Victor ; os estágios específicos ensinados por Santa Tereza d' Ávila e São João da Cruz ; a tradição completa da ioga kundalini/tântrica . O que todos têm em comum é uma visão da meditação , não como uma resposta ao relaxamento , ou uma privação sensorial , ou uma estratégia de auto-regulação , mas sim como um desenrolar hierárquico de sucessivas estruturas superiores de consciência . Para ser preciso , eles a vêem como um processo de desenvolvimento , composto de estágios especificáveis , de tal modo que cada estágio engloba uma estrutura distinta de consciência .
( Anteriormente , mencionei que havia pelo menos cinco dessas estruturas ou níveis mais elevados , porém muitas cartografias tradicionais contêm até vinte e cinco estágios/níveis de consciência meditativa ) . Desde os estágios dhyana/prajna de Buda até os estágios de sublimação dos chakras do kundalini , o ponto central é que são estágios de desenvolvimento . Em verdade , esses tradicionalistas não foram somente os primeiros estruturalistas ; foram também os primeiros verdadeiros psicólogos do desenvolvimento .
Minha opinião é que na presa de fazer uma ponte entre as psicologias ocidental e oriental , olhamos absolutamente para tudo , exceto para a psicologia desenvolvimentista/estrutural . Assim , uma vez que a essência das tradições orientais é uma visão fenomenológico/desenvolvimentista/estrutural dos domínios superconscientes e que a psicologia ocidental possui uma bem detalhada visão subconsciente , a ponte mais imediata e indolor seria simplesmente adicioná-las , exatamente como são . Bem , de qualquer modo , esta foi a abordagem que segui em The Atman Project .
A necessidade para esta abordagem multidimencional torna-se completamente óbvia quando compreendemos que não existem somente vários níveis de consciência meditativa , mas também diversos caminhos diferentes para atngir-se cada nível . Isto porque todos os níveis mais elevados de consciência possuem diferentes componentes ou dimensões ( que em breve chamarei de " estruturas superficiais " ) , do mesmo modo que suas contrapartes mais baixas - componentes tais como motivação , cognição , identidade , afeição e despertar . Então , como sugerido por Tart , diferentes práticas meditativas podem atingir diferentes dimensões ou componentes . Por exemplo , a Ioga Kundalini atinge o nível sutil-superior via exercícios hiperintensivos e técnicas de despertar do afeto , enquanto a Meditação Transcendental aproxima o mesmo nível através de relaxamento profundo , mas alerta , e da sublimação do pensamento . O ponto é esse , mesmo que você assuma que há somente cinco níveis superiores com quatro componentes cada , você já tem vinte abordagens meditativas com diferenças significativas , um fato que torna ridícula tais ingenuidades como " meditação é uma resposta ao relaxamento . "
Na famosa sequência de pinturas zen-budista conhecida como " A série do pastoreiro do boi " encontramos um exemplo clássico da cronologia dos estágios espirituais . Na primeira das suas dez imagens ( às vezes , há doze ) vemos uma pessoa que busca ansiosamente por um boi , símbolo da sua alma ou natureza primordial . Mas , infelizmente , ela não sabe onde encontrá-lo . Nas outras pinturas , ela avista o rastro do boi e começa a procurá-lo nas montanhas e nas planícies deste mundo . Finalmente , vê o boi e , após uma luta , o domestica . Na etapa seguinte , tanto o boi quanto a pessoa que o buscava deitam-se juntos , em harmonia , debaixo de um salgueiro , e no quadro seguinte , ambos desaparecem em um momento de morte do ego e rompem em direção a domínios mais elevados da consciência . No último estágio , a pessoa que buscava é ressucitada e retorna para a feira livre do mundo , onde ajuda outras pessoas a encontrarem o seu próprio caminho espiritual . " ( Transcrito do livro Os Cinco Estágios da Alma de Harry R . Moody e David Carrol ) ( N . T )
Todavia , é importante ressaltar que , subjacente a esses complexos conjuntos de dados ( " vinte diferentes técnicas de meditação " ) , existe um padrão essencialmente simples .
Isto tornou-se especialmente aparente para mim com Eden , porque lá se apresentou uma imensa quantidade de dados interculturais que , aparentemente , desafiavam qualquer simplificação . Modificando consideravelmente o significado de alguns termos da linguística transformacional , comecei , simplesmente , a diferenciar estruturas profundas e estruturas superficiais . Como usado em Atman e Eden , a estrutura profunda é a forma definidora de um dado nível de consciência , enquanto a estrutura superficial é qualquer variável ou componente daquele nível .
Por exemplo , Piaget mostrou que o desenvolvimento cognitivo se dá através de quatro estágios/níveis básicos : sensório-motor , pré-operacional , operacional concreto e operacional formal . Cada um deles é uma estrutura profunda , um conjunto especificável de operações que , holisticamente , governa as atividades de cognição do respectivo nível . Entretanto , a estrutura profunda não especifica , e não pode , o conteúdo de um pensamento particular do nível . Esses particulares são estruturas superficiais . Assim , as estruturas superficiais são restringidas pela forma da estrutura profunda , porém , no interior desse limite , elas são variáveis ( exceto , obviamente , na medida em que forem condicionadas por outras estruturas superficiais : os pensamentos que tive ontem afetam e condicionam os pensamentos que tenho hoje , mas ambos são igualmente restringidos pela estrutura profunda do meu nível de desenvolvimento presente ) .
Sem repetir toda a argumentação , o ponto é que este tipo de análise estrutural permite-nos traçar um número discreto de superfícies profundas subjacentes a variados fenômenos superficiais , e isto simplifica em muito o quadro não só da meditação , como também do desenvolvimento da consciência como um todo . O que fazemos em pesquisa da meditação ( ou pesquisa da consciência em geral ) é olhar para conjuntos de dados , ou grupos de fenômenos específicos , que , embora aparentemente diferentes , são , na realidade , estruturas superficiais compartilhando uma mesma estrutura profunda .
Definimos as várias estruturas profundas especificando sua forma holística e/ou padrões operativos . A seguir , arrumamos hierarquicamente as estruturas profundas de acordo com uma das três regras gerais : ( 1 ) acesso - uma estrutura mais elevada tem acesso total a uma mais baixa , mas não vice-versa ; ( 2 ) desenvolvimento - quanto mais elevado o estado , mais tarde ele tende a emergir numa sequência de desenvolvimento ( isto é verdadeiro em todas as tendências evolucionárias , plantas após pedras , animais após plantas , humanos após animais , e assim por diante ) ; ( 3 ) caixa chinesa - um estado mais elevado contém todas as funções ou capacidades de um mais baixo , mas não vice-versa ( por exemplo , uma planta contém minerais , porém minerais não contém plantas ) , e o estado superior possui capacidades não disponíveis no mais baixo . Uma vez estabelecida essa hierarquia , ela pode ser apresentada de duas maneiras básicas , como ressaltado por Schumacher ( 1977 ) : se o estado mais baixo é A , o próximo é A+B , o seguinte A+B+C e assim por diante ; se o estado mais elevado é A o seguinte mais baixo é A-B , o seguinte A-B-C e assim por diante . Em ambos os casos , simplesmente especifica-se detalhadamente os parâmetros de A , B , C . . .
Esta foi a abordagem utilizada tanto em Eden como em Atman . Ela ajudou-me a entender que técnicas de meditação bem diversas podem conduzir ao mesmo nível básico dos domínios superconscientes ; ou que , por exemplo , o yidam do Budismo , o ishtadeva do Hinduísmo e o arcanjo do Cristianismo , embora com formas exteriores muito diferentes , compartilham , na verdade , da mesma estrutura profunda básica ( aquela do domínio sutil superior ) ; ou que sábios místicos como Cristo , Krishna e Buda descobriram o mesmo domínio causal-espiritual mas o expressaram através de diferentes estruturas superficiais ( o que atrasou a compreensão de que há , nas palavras de Schuon , " uma unidade transcendente das religiões " - não unidade de estrutura exotérica/superficial , mas unidade de estrutura esotérica/profunda ) .
Tudo isso , finalmente , levou a uma sugestão que me parece absolutamente fundamental : na minha opinião , estruturas superficiais são aprendidas , condicionadas , historicamente contigenciadas e culturalmente relativizadas , enquanto estruturas profundas , uma vez emersas , são interculturais , universais e largamente invariantes . Para dar um exemplo simples , a estrutura profunda do corpo humano é a mesma em qualquer lugar : duzentos e seis ossos , duas pernas , um coração , dois rins etc . , mas o que se faz com o corpo - suas estruturas superficiais de trabalho , lazer , atividades aceitáveis etc . - é moldado e condicionado culturalmente . Você não aprende a ter um corpo , mas você aprende a jogar beisebol com ele - estruturas profundas são dadas , estruturas superficiais são condicionadas .
Assim , a força do estruturalismo está em apontar as estruturas profundas ou níveis básicos da consciência que são largamente interindividuais , interculturais e invariantes .
Entretanto , o estruturalismo clássico tem muito pouco a nos dizer sobre as estruturas superficiais . Portanto , é necessário suplementar a psicologia das estruturas profundas com disciplinas das estruturas superficiais , disciplinas que tratam do condicionamento histórico real e da moldagem daqueles componentes psicológicos que são variáveis e contingenciáveis . A eese respeito , teorias de reforço mostram-se de excelente utilidade , do mesmo modo que a teoria sistêmica e o funcionalismo . Outra é a hermenêutica ou ciência da interpretação . A hermenêutica é profundamente importante porque o significado das estruturas psicológicas superficiais não pode ser determinado empiricamente ; significado , como definido por Husserl , é intenção e interpretação mentais e nenhum teste empírico-sensorial irá esclarecê-lo ( por exemplo , dê-me uma prova empírico-científica do significado da produção mental chamada Hamlet ) . E mais , estruturas superficiais sempre existem em contextos históricos específicos ; assim , como a hermenêutica salienta a importância de compreender-se os contextos históricos a fim de determinar-se significados particulares , ela é idealmente apropriada para a pesquisa das estruturas superficiais .
Sobre religião exotérica e religião esotérica , vide , por exemplo , Grace and Gril ( Wilber 1991 ) : " A religião exotérica ou " exterior " é religião mítica , religião que é terrivelmente concreta e literal , que realmente acredita por exemplo , que Moisés abriu o Mar Vermelho , que Cristo nasceu de uma virgem , que o mundo foi criado em seis dias , que , um dia , literalmente choveu maná do céu , e assim por diante .
Em todo o mundo , religiões exotéricas consistem desses tipos de crenças . Os hindus acreditam que a Terra deve estar apoiada em algo ; assim , crêem encontrar-se sobre um elefante que , também necessitando de suporte , está sobre uma tartaruga ; esta , por sua vez , encontra-se sobre uma serpente . E quando surge a pergunta " Em que a serpente está apoiada ? " , a resposta dada é " Mudemos de assunto " . Lao Tsé nasceu com novecentos anos , Krishna acasalou-se com quatro mil vacas , Brahma nasceu da quebra de um ovo cósmico etc . Isto é religião exotérica , uma série de estruturas de crenças que tentam explicar os mistérios do mundo em termos míticos ao invés de termos testemunhais ou de experiência direta . . . A religião esotérica não pede que você acredite em nada na base da fé ou que engula obedientemente qualquer dogma . Ao contrário , a religião esotérica é um conjunto de experimentos pessoais conduzidos cientificamente no laboratório da sua própria consciência . Como toda boa ciência é baseada na experiência direta , não em simples crenças ou desejos , e pode ser verificada e validada por outras pessoas que também tenham executado o experimento . O experimento é a meditação . " ( N . T )
Desse modo , minha abordagem global foi usar a psicologia fenomenológico-desenvolvimentista e o estruturalismo para determinar as estruturas profundas da consciência , e a teoria sistêmica/funcionalismo , além da hermenêutica histórica , para elucidar as estruturas superficiais . Em minha opinião , o ponto é que a mesma abordagem básica se aplica ao estudo da meditação , porque meditação é , simplesmente , desenvolvimento de níveis superiores .
Essa abordagem para a meditação , além de produzir seus próprios resultados positivos , alivia-nos de diversos juízos falsos . Refiro-me especialmente a duas predominantes e difundidas estratégias de pesquisa . Uma é a busca de " mecanismo que produzem os efeitos da meditação " e a outra é a busca de " correlações fisiológicas específicas dos estados meditativos " . Com certeza , essas são noções importantes , mas se consideradas isoladamente , têm como efeito a depreciação da validade fenomenológica dos estados de meditação em si . De fato , em muitos casos , o uso de abordagens como a da correlação fisiológica tem como consequência invalidar o desenvolvimento meditativo em si mesmo ( um prelúdio para a conclusão , " Bem , vocês sabem , esses estados místicos são simples padrões cerebrais anormais ; eles não são realmente transpessoais - são apenas alterações no sistema nervoso do indivíduo . " )
Quando Piaget descobriu que as pessoas passam por uma importante transformação cognitiva , do pensamento pré-operacional para o operacional concreto , não houve grande exigência para buscar evidências de uma igualmente drástica mudança na fisiologia cerebral . Quando Kohlberg descobriu seis grandes estágios de desenvolvimento moral , ninguém gritou por " um mecanismo que produzisse tais efeitos . " A razão é que tais transformações podem ser demonstradas - e provadas - pelas ciências desenvolvimentistas , fenomenológicas , estruturais e interpretativas ( foi precisamente isso que Piaget e Kohlberg fizeram ) . O mesmo deve ser aplicado a meditação e transcendência . Estudos fisiológicos , mecanismos , reforços comportamentais e ondas cerebrais podem assumir importantes papéis , embora secundários e subsidiários . Por outro lado , aqueles transpersonalistas que exegeticamente abraçam os paradigmas da psicologia personalista ( auto-regulação comportamental , fisiologia mecanicista ) numa tentativa de serem aceitos por seus pares ortodoxos , simplesmente correm o risco de não só violar a fenomenologia do seu próprio campo ao reduzi-la a dimensões personalistas , como também de induzir a psicologia ortodoxa a pensar que as preocupações transpessoais podem ser absorvidas ( e portanto dispensadas ) pelos seus próprios paradigmas personalistas . Isto já aconteceu com as abordagens fisiológicas e as abordagens de alteração de comportamento ; se esta tendência continuar , em breve teremos uma ridícula psicologia transpessoal pessoal .
Naturalmente , meu sentimento é que a psicologia transpessoal negará e preservará a psicologia personalista ; aqueles que somente negarem ou somente preservarem , terão muito pouco a oferecer .
Minha peregrinação pelos domínios moral , intelectual e contemplativo continua . Quanto a meus escritos , se irão mostrar-se úteis a outras pessoas ou meras tagarelice subjetiva , pelo menos têm dado à minha vida um significado , um contexto , uma direção , uma sanção . Continuo a trabalhar , a estudar , a escrever , a contemplar ; em resumo , continuo o caminho , o " processo que admite seu fim no seu começo " . Costumava pensar que se adota um caminho exclusivamente para atingir-se um objetivo . Aprendi algo melhor : o verdadeiro caminho é , em si mesmo , o objetivo supremo . Como o Dogen Zenji se referiu ao estado supremo : " Não resta nenhum vestígio de iluminação , e essa iluminação sem vestígio continua para sempre . " Assim , todos nós ainda somos , e sempre seremos , os peregrinos .
Texto : Ken Wilber
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Mas à medida que essas experiências superconscientes progrediam , comecei a entender o que elas realmente eram - meras experiências . Porque , por definição , experiência é algo que tem um começo e um fim ( estritamente temporal , estritamente relativo ) .
Quanto mais me aprofundava na natureza da experiência , tanto mais me tornava profundamente desiludido com ela . Admito que esses domínios , de um modo especial , eram mais reais que os planos material , corporal ou mental , pelo menos como os conhecia , porém o ponto era que essa exposição experiencial poderia continuar para sempre . Poderia ser apresentado a experiências cada vez mais sutis ad infinitum .
Há uma citação , penso que de Hans Sachs , segundo a qual a psicanálise termina quando o paciente compreende que ele pode durar para sempre . O mesmo tipo de compreensão , por assim dizer , começou a curar-me da fixação do nível sutil , o complexo de Vishnu .
Pois o complexo de Vishnu é precisamente a dificuldade em mover-se da alma sutil para o espírito causal . As experiências sutis são tão extasiantes , tão maravilhosas , tão profundas , tão salutares , que nunca se quer abandoná-las , nunca perdê-las ; ao contrário , deseja-se banhar para sempre em sua glória arquetípica e libertação imortal - e aí está o complexo de Vishnu . Se o complexo de Apolo é o veneno dos meditadores iniciantes , o complexo de Vishnu é o grande sedutor dos praticantes intermediários .
Mas meu treinamento Zen , meu entendimento ( embora ainda superficial ) de Krishnamurti , de Shankara e de Sri Ramana Maharsi , de São Dionísio a Eckhart - tudo me dizia que o estado supremo não era uma experiência ( um ponto que coloquei em " The Ultimate State of Consciousness " [ Wilber , 1975-1976 ] . Não era uma experiência particular entre outras experiências , mas a própria natureza e essência de todas as experiências , superiores ou inferiores . Era aquele vasto background ou Abismo ( Ruysbroeck ) de onde emanam as inúmeras realidades experienciais . Assim , em si mesma , não era absolutamente experiencial ; não tinha nada a ver com mudanças de estado , em saber isto ou aquilo , em ver isto ou aquilo , esse ou aquele sentimento , porque era anterior a tudo isso , a natureza verdadeira deste e de cada momento antes que eu possa compreendê-lo . O estado supremo é o que sou antes de ser qualquer outra coisa , é o que vejo antes de ver qualquer coisa e o que sinto antes de sentir qualquer coisa . É por isso que se diz que o Tao está além do saber ou não-saber , do certo ou errado .
Chao-Chou perguntou , " O que é o Tao ? "
Mestre Nan-chuan respondeu . " O Tao é sua consciência comum . "
" Mas como se pode viver em concordância com ele ? "
" Ao tentar concordar você já se desviou . "
" Mas sem tentar , como vou conhecer o Tao ? "
" O Tao " , disse o Mestre , " é anterior ao conhecer ou não-conhecer . Conhecer
é falso entendimento ; não-conhecer é simples ignorância . Se você realmente
compreende o Tao antes de duvidar , é como o céu vazio . Por que mudar o
rumo da conversa para certo e errado ? "
[ Citado em Watts , 1975 ]
Explica-se isto assim : o Upanishads diz que Brahman não é um entre muitos , mas um sem um segundo ; não um objeto particular , mas a realidade de todos os objetos . E mesmo assim , estava tentando captar o Todo como uma experiência particular - por certo uma Grande Experiência , mas , de qualquer modo , uma experiência - e era exatamente isso que não permitia a descoberta ( porque uma experiência é um saber ou não-saber e não algo que precede a ambos ) . Por isso o Zen chama todas as experiências superiores por um nome pejorativo : makyo ou " ilusões sutis " . E de acordo com o Zen , muitas outras tradições confundem makyo com o estado supremo , simplesmente porque essas extraordinárias experiências são , na verdade , mais reais do que os estados comuns .
Todavia , todas as experiências , superiores ou inferiores , ficam aquém da consciência não-dual e , assim , cedo ou tarde , devem ser superadas .
O ponto é que todas as experiências , sagradas ou profanas , superiores ou inferiores , baseiam-se na dualidade entre sujeito e objeto , observador e observado , experienciador e experienciado . Mesmo na esfera da alma , incomparavelmente mais real do que os níveis inferiores da matéria , corpo e mente , trata-se meramente de um sujeito mais sutil e de um objeto mais extraordinário . A testemunha desses estados divinos ainda se mantém intacta . Entretanto , o despertar verdadeiro é a dissolução da própria testemunha e não uma mudança de estado naquilo que é testemunhado .
Por isso é que sempre se afirmou que formas de indagação do tipo " Quem sou eu ? " , " Quem canta o nome de Buda ? " , " Quem deseja libertação ? " são o caminho básico , talvez o único caminho , além da testemunha ( e do complexo de Vishnu ) . Não " Eu devo sempre estar consciente da minha respiração . " mas sim " Quem deve ? " . Não " Eu captei o sentido do Koan . " , e sim " Quem captou ? " . O efeito dessas perguntas é libertar a atenção das telas objetivas da consciência e excitar a consciência em si mesma . Mais precisamente , esse tipo de indagação faz com que a atenção se volte para a própria atenção , para a verdadeira natureza da atenção , e sua natureza é de sutil contração ou resistência . Qualquer atenção é exclusiva , porque ela se liga nisso e ignora aquilo . Em outra palavras , é dualística , e isso inclui a " atenção passiva " e qualquer outra conscientização sutilmente motivada . Todas são meras contrações subjetivas no Campo da Consciência . Mas com esse tipo de pergunta , esta contração subjetiva que é atenção torna-se o objeto da atenção . Isto é , o sujeito transforma-se no objeto de modo que a fronteira entre eles é rompida e ambos desaparecem como entidades exclusivas e separadas . Então , resta apenas a consciência inicial , radiante , imanente , desobstruída , que não é nem subjetiva nem objetiva , simplesmente total .
A primeira vez que isto se tornou óbvio para mim , embora de um modo fugaz , foi em um sesshin ou retiro Zen intensivo . No quarto dia apareceu , por assim dizer , o estado da testemunha , a testemunha transpessoal que , de maneira firme , calma e clara , testemunha todos os eventos emergentes , momento a momento . Mesmo sonhando , meramente se testemunha : pode-se ver o sonho começar , prosseguir e terminar ( o que Charles Tart chamou de " sonhos translúcidos " ) . Entretanto , Roshi ficou totalmente impassível diante de todo aquele " makyo " . " A testemunha " , disse ele , " é a derradeira cidadela do ego .
Nesse ponto , a postura da testemunha desapareceu completamente . Não havia nenhum sujeito em nenhuma parte do universo ; não havia nenhum objeto em nenhuma parte do universo ; havia apenas o universo . Tudo estava surgindo momento a momento e estava surgindo em mim e como eu ; por outro lado , não havia nenhum eu . É muito importante compreender que esse estado não foi uma perda das faculdades , mas uma amplificação delas ; não foi um transe vazio e sim perfeita claridade ; não despersonalizado mas transpersonalizado . Nenhuma das faculdades pessoais - linguagem , lógica , conceitos , habilidades motoras - foi perdida ou enfraqueceu-se . Ao contrário , pela primeira vez pareceu-me que todas elas funcionavam em radical abertura , livres das defesas impostas pela sensação de um self separado . Esse estado radicalmente aberto , indefeso e perfeitamente não-dual foi , ao mesmo tempo , incrível e profundamente comum , tão extraordinariamente comum que nem mesmo foi notado . Não havia ninguém lá para compreendê-lo até que eu saísse dele ( acho que cerca de três horas depois ) .
Em outras palavras , enquanto naquele estado , que não era absolutamente nenhuma experiência , havia somente aquele estado , que era a totalidade de tudo surgindo momento a momento . Eu não observava ou experienciava nada , simplesmente era tudo .
Não podia ver , porque era tudo visto ; não podia ouvir , porque era tudo ouvido ; não podia saber porque era tudo sabido . Daí porque ele é , ao mesmo tempo , o grande mistério e o perfeitamente óbvio . Mas foi somente quando de que estava naquele estado que realmente não estava mais nele . O seu reconhecimento ou experiência é muito , muito menos que o estado em si mesma . Para experienciar aquele estado livre que me separar dele ( isto é , destruí-lo ) .
Daí em diante , tornei-me profundamente desconfiado dos transpersonalistas que falam dos estados superiores como " realidades experienciais " , apesar de ter feito o mesmo em Spectrum . Também vi a perfeita inadequalibilidade do paradigma de " estados alterados " , extremamente útil em outros casos , para tratar do derradeiro domínio espiritual , porque esse domínio , esse " não-domínio " , é , em verdade , o que todos os estados têm em comum , e o que todos os estados têm em comum não é , em si mesmo , outro estado , do mesmo modo que o alfabeto não é outra letra .
Mas todo esse período , percorrendo os domínios sutis , lutando com o complexo de Vishnu e penetrando no Dharmakaya - embora de maneira parcial , inicial e incompleta - proporcionou-me , pelo menos , uma introdução em primeira mão , razoavelmente sólida , às várias esferas mais elevadas da consciência . Com essa experiência , fui capaz , com maior facilidade , de retornar à literatura das tradições transpessoais e desenvolver uma classificação bastante exaustiva dos vários domínios superiores , muito frequentemente condensados e chamados de " transpessoais " , " transcendentes " ou " místicos " . Como mencionei anteriormente , foi aí que subdividi o domínio transpessoal em pelo menos quatro ou cinco níveis baseados em análises estruturais . Com essas subdivisões do espectro , além daquelas provenientes de Eden , finalmente senti que chegara a uma cartografia mais completa da consciência , uma que , longe de ser perfeita e , ocasionalmente , ainda escorregadia , pelo menos tinha o mérito da abrangência . Os refinamentos poderiam vir ao longo dos anos ; por enquanto , essa cartografia foi apresentada em The Atman Project , com extensas tabelas de referência mostrando como as principais psicologias orientais e ocidentais se encaixavam nela .
No Budismo Mahayana , é o último domínio ( causal ) antes da transcendência final . Para maiores detalhes vide The Atman Project . ( N . T )
Um Modelo de Meditação
Este período também ajudou-me a montar um modelo experimental da natureza e função da meditação , um modelo baseado tanto na prática pessoal quanto no estado teórico . A maioria dos modelos ocidentais de meditação cai em um de dois campos : a escola fisiológica/neurológica/padrões-cerebrais e a escola cognitiva/psicológica . A primeira vê a meditação como redução sensorial , lateralização hemisférica , uma resposta ao relaxamento , variáveis ergotrópicas/trofotrópicas , padrão cerebral alterado ou metabolismo reduzido . A segunda vê a meditação como uma dessensibilização super-Wolpiana , regressão a serviço do ego , desautomatização , alteração cognitiva ou estratégia de auto-regulação .
Acho que cada uma dessas teorias tem o seu mérito , mas o que todas tendem a não considerar é precisamente , para mim , o âmago , a própria essência da meditação .
Consideremos qualquer importante sistema de meditação : os detalhados estágios dhyana/prajna de Buda ; os oito passos dos Yoga Sutras de Patanjali ; a contemplação Taoísta hierárquica de Lao Tsé ; o abrangente sistema de meditação Zen representado pelos estágios do pastoreio do boi ; o curso multinível de contemplatio de Hugo de São Victor ; os estágios específicos ensinados por Santa Tereza d' Ávila e São João da Cruz ; a tradição completa da ioga kundalini/tântrica . O que todos têm em comum é uma visão da meditação , não como uma resposta ao relaxamento , ou uma privação sensorial , ou uma estratégia de auto-regulação , mas sim como um desenrolar hierárquico de sucessivas estruturas superiores de consciência . Para ser preciso , eles a vêem como um processo de desenvolvimento , composto de estágios especificáveis , de tal modo que cada estágio engloba uma estrutura distinta de consciência .
( Anteriormente , mencionei que havia pelo menos cinco dessas estruturas ou níveis mais elevados , porém muitas cartografias tradicionais contêm até vinte e cinco estágios/níveis de consciência meditativa ) . Desde os estágios dhyana/prajna de Buda até os estágios de sublimação dos chakras do kundalini , o ponto central é que são estágios de desenvolvimento . Em verdade , esses tradicionalistas não foram somente os primeiros estruturalistas ; foram também os primeiros verdadeiros psicólogos do desenvolvimento .
Minha opinião é que na presa de fazer uma ponte entre as psicologias ocidental e oriental , olhamos absolutamente para tudo , exceto para a psicologia desenvolvimentista/estrutural . Assim , uma vez que a essência das tradições orientais é uma visão fenomenológico/desenvolvimentista/estrutural dos domínios superconscientes e que a psicologia ocidental possui uma bem detalhada visão subconsciente , a ponte mais imediata e indolor seria simplesmente adicioná-las , exatamente como são . Bem , de qualquer modo , esta foi a abordagem que segui em The Atman Project .
A necessidade para esta abordagem multidimencional torna-se completamente óbvia quando compreendemos que não existem somente vários níveis de consciência meditativa , mas também diversos caminhos diferentes para atngir-se cada nível . Isto porque todos os níveis mais elevados de consciência possuem diferentes componentes ou dimensões ( que em breve chamarei de " estruturas superficiais " ) , do mesmo modo que suas contrapartes mais baixas - componentes tais como motivação , cognição , identidade , afeição e despertar . Então , como sugerido por Tart , diferentes práticas meditativas podem atingir diferentes dimensões ou componentes . Por exemplo , a Ioga Kundalini atinge o nível sutil-superior via exercícios hiperintensivos e técnicas de despertar do afeto , enquanto a Meditação Transcendental aproxima o mesmo nível através de relaxamento profundo , mas alerta , e da sublimação do pensamento . O ponto é esse , mesmo que você assuma que há somente cinco níveis superiores com quatro componentes cada , você já tem vinte abordagens meditativas com diferenças significativas , um fato que torna ridícula tais ingenuidades como " meditação é uma resposta ao relaxamento . "
Na famosa sequência de pinturas zen-budista conhecida como " A série do pastoreiro do boi " encontramos um exemplo clássico da cronologia dos estágios espirituais . Na primeira das suas dez imagens ( às vezes , há doze ) vemos uma pessoa que busca ansiosamente por um boi , símbolo da sua alma ou natureza primordial . Mas , infelizmente , ela não sabe onde encontrá-lo . Nas outras pinturas , ela avista o rastro do boi e começa a procurá-lo nas montanhas e nas planícies deste mundo . Finalmente , vê o boi e , após uma luta , o domestica . Na etapa seguinte , tanto o boi quanto a pessoa que o buscava deitam-se juntos , em harmonia , debaixo de um salgueiro , e no quadro seguinte , ambos desaparecem em um momento de morte do ego e rompem em direção a domínios mais elevados da consciência . No último estágio , a pessoa que buscava é ressucitada e retorna para a feira livre do mundo , onde ajuda outras pessoas a encontrarem o seu próprio caminho espiritual . " ( Transcrito do livro Os Cinco Estágios da Alma de Harry R . Moody e David Carrol ) ( N . T )
Todavia , é importante ressaltar que , subjacente a esses complexos conjuntos de dados ( " vinte diferentes técnicas de meditação " ) , existe um padrão essencialmente simples .
Isto tornou-se especialmente aparente para mim com Eden , porque lá se apresentou uma imensa quantidade de dados interculturais que , aparentemente , desafiavam qualquer simplificação . Modificando consideravelmente o significado de alguns termos da linguística transformacional , comecei , simplesmente , a diferenciar estruturas profundas e estruturas superficiais . Como usado em Atman e Eden , a estrutura profunda é a forma definidora de um dado nível de consciência , enquanto a estrutura superficial é qualquer variável ou componente daquele nível .
Por exemplo , Piaget mostrou que o desenvolvimento cognitivo se dá através de quatro estágios/níveis básicos : sensório-motor , pré-operacional , operacional concreto e operacional formal . Cada um deles é uma estrutura profunda , um conjunto especificável de operações que , holisticamente , governa as atividades de cognição do respectivo nível . Entretanto , a estrutura profunda não especifica , e não pode , o conteúdo de um pensamento particular do nível . Esses particulares são estruturas superficiais . Assim , as estruturas superficiais são restringidas pela forma da estrutura profunda , porém , no interior desse limite , elas são variáveis ( exceto , obviamente , na medida em que forem condicionadas por outras estruturas superficiais : os pensamentos que tive ontem afetam e condicionam os pensamentos que tenho hoje , mas ambos são igualmente restringidos pela estrutura profunda do meu nível de desenvolvimento presente ) .
Sem repetir toda a argumentação , o ponto é que este tipo de análise estrutural permite-nos traçar um número discreto de superfícies profundas subjacentes a variados fenômenos superficiais , e isto simplifica em muito o quadro não só da meditação , como também do desenvolvimento da consciência como um todo . O que fazemos em pesquisa da meditação ( ou pesquisa da consciência em geral ) é olhar para conjuntos de dados , ou grupos de fenômenos específicos , que , embora aparentemente diferentes , são , na realidade , estruturas superficiais compartilhando uma mesma estrutura profunda .
Definimos as várias estruturas profundas especificando sua forma holística e/ou padrões operativos . A seguir , arrumamos hierarquicamente as estruturas profundas de acordo com uma das três regras gerais : ( 1 ) acesso - uma estrutura mais elevada tem acesso total a uma mais baixa , mas não vice-versa ; ( 2 ) desenvolvimento - quanto mais elevado o estado , mais tarde ele tende a emergir numa sequência de desenvolvimento ( isto é verdadeiro em todas as tendências evolucionárias , plantas após pedras , animais após plantas , humanos após animais , e assim por diante ) ; ( 3 ) caixa chinesa - um estado mais elevado contém todas as funções ou capacidades de um mais baixo , mas não vice-versa ( por exemplo , uma planta contém minerais , porém minerais não contém plantas ) , e o estado superior possui capacidades não disponíveis no mais baixo . Uma vez estabelecida essa hierarquia , ela pode ser apresentada de duas maneiras básicas , como ressaltado por Schumacher ( 1977 ) : se o estado mais baixo é A , o próximo é A+B , o seguinte A+B+C e assim por diante ; se o estado mais elevado é A o seguinte mais baixo é A-B , o seguinte A-B-C e assim por diante . Em ambos os casos , simplesmente especifica-se detalhadamente os parâmetros de A , B , C . . .
Esta foi a abordagem utilizada tanto em Eden como em Atman . Ela ajudou-me a entender que técnicas de meditação bem diversas podem conduzir ao mesmo nível básico dos domínios superconscientes ; ou que , por exemplo , o yidam do Budismo , o ishtadeva do Hinduísmo e o arcanjo do Cristianismo , embora com formas exteriores muito diferentes , compartilham , na verdade , da mesma estrutura profunda básica ( aquela do domínio sutil superior ) ; ou que sábios místicos como Cristo , Krishna e Buda descobriram o mesmo domínio causal-espiritual mas o expressaram através de diferentes estruturas superficiais ( o que atrasou a compreensão de que há , nas palavras de Schuon , " uma unidade transcendente das religiões " - não unidade de estrutura exotérica/superficial , mas unidade de estrutura esotérica/profunda ) .
Tudo isso , finalmente , levou a uma sugestão que me parece absolutamente fundamental : na minha opinião , estruturas superficiais são aprendidas , condicionadas , historicamente contigenciadas e culturalmente relativizadas , enquanto estruturas profundas , uma vez emersas , são interculturais , universais e largamente invariantes . Para dar um exemplo simples , a estrutura profunda do corpo humano é a mesma em qualquer lugar : duzentos e seis ossos , duas pernas , um coração , dois rins etc . , mas o que se faz com o corpo - suas estruturas superficiais de trabalho , lazer , atividades aceitáveis etc . - é moldado e condicionado culturalmente . Você não aprende a ter um corpo , mas você aprende a jogar beisebol com ele - estruturas profundas são dadas , estruturas superficiais são condicionadas .
Assim , a força do estruturalismo está em apontar as estruturas profundas ou níveis básicos da consciência que são largamente interindividuais , interculturais e invariantes .
Entretanto , o estruturalismo clássico tem muito pouco a nos dizer sobre as estruturas superficiais . Portanto , é necessário suplementar a psicologia das estruturas profundas com disciplinas das estruturas superficiais , disciplinas que tratam do condicionamento histórico real e da moldagem daqueles componentes psicológicos que são variáveis e contingenciáveis . A eese respeito , teorias de reforço mostram-se de excelente utilidade , do mesmo modo que a teoria sistêmica e o funcionalismo . Outra é a hermenêutica ou ciência da interpretação . A hermenêutica é profundamente importante porque o significado das estruturas psicológicas superficiais não pode ser determinado empiricamente ; significado , como definido por Husserl , é intenção e interpretação mentais e nenhum teste empírico-sensorial irá esclarecê-lo ( por exemplo , dê-me uma prova empírico-científica do significado da produção mental chamada Hamlet ) . E mais , estruturas superficiais sempre existem em contextos históricos específicos ; assim , como a hermenêutica salienta a importância de compreender-se os contextos históricos a fim de determinar-se significados particulares , ela é idealmente apropriada para a pesquisa das estruturas superficiais .
Sobre religião exotérica e religião esotérica , vide , por exemplo , Grace and Gril ( Wilber 1991 ) : " A religião exotérica ou " exterior " é religião mítica , religião que é terrivelmente concreta e literal , que realmente acredita por exemplo , que Moisés abriu o Mar Vermelho , que Cristo nasceu de uma virgem , que o mundo foi criado em seis dias , que , um dia , literalmente choveu maná do céu , e assim por diante .
Em todo o mundo , religiões exotéricas consistem desses tipos de crenças . Os hindus acreditam que a Terra deve estar apoiada em algo ; assim , crêem encontrar-se sobre um elefante que , também necessitando de suporte , está sobre uma tartaruga ; esta , por sua vez , encontra-se sobre uma serpente . E quando surge a pergunta " Em que a serpente está apoiada ? " , a resposta dada é " Mudemos de assunto " . Lao Tsé nasceu com novecentos anos , Krishna acasalou-se com quatro mil vacas , Brahma nasceu da quebra de um ovo cósmico etc . Isto é religião exotérica , uma série de estruturas de crenças que tentam explicar os mistérios do mundo em termos míticos ao invés de termos testemunhais ou de experiência direta . . . A religião esotérica não pede que você acredite em nada na base da fé ou que engula obedientemente qualquer dogma . Ao contrário , a religião esotérica é um conjunto de experimentos pessoais conduzidos cientificamente no laboratório da sua própria consciência . Como toda boa ciência é baseada na experiência direta , não em simples crenças ou desejos , e pode ser verificada e validada por outras pessoas que também tenham executado o experimento . O experimento é a meditação . " ( N . T )
Desse modo , minha abordagem global foi usar a psicologia fenomenológico-desenvolvimentista e o estruturalismo para determinar as estruturas profundas da consciência , e a teoria sistêmica/funcionalismo , além da hermenêutica histórica , para elucidar as estruturas superficiais . Em minha opinião , o ponto é que a mesma abordagem básica se aplica ao estudo da meditação , porque meditação é , simplesmente , desenvolvimento de níveis superiores .
Essa abordagem para a meditação , além de produzir seus próprios resultados positivos , alivia-nos de diversos juízos falsos . Refiro-me especialmente a duas predominantes e difundidas estratégias de pesquisa . Uma é a busca de " mecanismo que produzem os efeitos da meditação " e a outra é a busca de " correlações fisiológicas específicas dos estados meditativos " . Com certeza , essas são noções importantes , mas se consideradas isoladamente , têm como efeito a depreciação da validade fenomenológica dos estados de meditação em si . De fato , em muitos casos , o uso de abordagens como a da correlação fisiológica tem como consequência invalidar o desenvolvimento meditativo em si mesmo ( um prelúdio para a conclusão , " Bem , vocês sabem , esses estados místicos são simples padrões cerebrais anormais ; eles não são realmente transpessoais - são apenas alterações no sistema nervoso do indivíduo . " )
Quando Piaget descobriu que as pessoas passam por uma importante transformação cognitiva , do pensamento pré-operacional para o operacional concreto , não houve grande exigência para buscar evidências de uma igualmente drástica mudança na fisiologia cerebral . Quando Kohlberg descobriu seis grandes estágios de desenvolvimento moral , ninguém gritou por " um mecanismo que produzisse tais efeitos . " A razão é que tais transformações podem ser demonstradas - e provadas - pelas ciências desenvolvimentistas , fenomenológicas , estruturais e interpretativas ( foi precisamente isso que Piaget e Kohlberg fizeram ) . O mesmo deve ser aplicado a meditação e transcendência . Estudos fisiológicos , mecanismos , reforços comportamentais e ondas cerebrais podem assumir importantes papéis , embora secundários e subsidiários . Por outro lado , aqueles transpersonalistas que exegeticamente abraçam os paradigmas da psicologia personalista ( auto-regulação comportamental , fisiologia mecanicista ) numa tentativa de serem aceitos por seus pares ortodoxos , simplesmente correm o risco de não só violar a fenomenologia do seu próprio campo ao reduzi-la a dimensões personalistas , como também de induzir a psicologia ortodoxa a pensar que as preocupações transpessoais podem ser absorvidas ( e portanto dispensadas ) pelos seus próprios paradigmas personalistas . Isto já aconteceu com as abordagens fisiológicas e as abordagens de alteração de comportamento ; se esta tendência continuar , em breve teremos uma ridícula psicologia transpessoal pessoal .
Naturalmente , meu sentimento é que a psicologia transpessoal negará e preservará a psicologia personalista ; aqueles que somente negarem ou somente preservarem , terão muito pouco a oferecer .
Minha peregrinação pelos domínios moral , intelectual e contemplativo continua . Quanto a meus escritos , se irão mostrar-se úteis a outras pessoas ou meras tagarelice subjetiva , pelo menos têm dado à minha vida um significado , um contexto , uma direção , uma sanção . Continuo a trabalhar , a estudar , a escrever , a contemplar ; em resumo , continuo o caminho , o " processo que admite seu fim no seu começo " . Costumava pensar que se adota um caminho exclusivamente para atingir-se um objetivo . Aprendi algo melhor : o verdadeiro caminho é , em si mesmo , o objetivo supremo . Como o Dogen Zenji se referiu ao estado supremo : " Não resta nenhum vestígio de iluminação , e essa iluminação sem vestígio continua para sempre . " Assim , todos nós ainda somos , e sempre seremos , os peregrinos .
Texto : Ken Wilber
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segunda-feira, 7 de março de 2011
" Meditação na via da serpente "
Um trecho de música se compõe não somente de notas que se sucedem , mas também de uma série de silêncios que intervém entre as notas . Entretanto , temos antes de tudo consciência dos sons e não dos silêncios . Do mesmo modo que estes silêncios Forman um plano de fundo oculto para os sons , à mente é o plano secreto de todas as nossas idéias . Na vida ordinária não damos atenção ao próprio processo de pensar , mas , somente aos objetos que os desencadeiam . Nosso estudo da consciência física revelou-se seu caráter alternativo e descontinuo . Assinalamos que a incrível rapidez de seu movimento vibratório dissimula esse caráter sob o véu de uma unidade ilusória e que , de fato , existe um intervalo infinitesimal entre cada lampejo de pensamento e o que se lhe segue . Este intervalo não é outra coisa que o grande intervalo de mente-em-si . Se houvesse sempre um lapso de tempo apreciável entre duas idéias , encontrá-lo-iamos preenchido pela consciência de sua fonte que é a mente . Cada um tomaria então consciência de sua natureza divina . Infelizmente embora os pensamentos sejam descontínuos , o " eu " pessoal nos domina a todos e se conduz como uma lagarta que , na folha em que esta , não larga o ponto em que se agarra senão depois de haver assegurado de outro , igualmente seguro , em outra folha . O verdadeiro intervalo entre dois pensamento é , pois , coberto pelo pensamento pessoal ele cria desta maneira uma cortina continua de ilusão que mascara a realidade da mente pura donde emanam todos esses pensamentos , assim como a propria realidade .Idéias em Perspectiva
O que quer que o universo seja na experiência humana , ele é em aspectos importante , como um sonho , isto é , temos de admitir a existência de um mundo de sonho como um fato indubitável , porque é um mundo percebido e experiênciado ; mas ao mesmo tempo não podemos atribuir a sua forma a existência última e , portanto , a realidade duradoura . Pois ele não é percebido nem experiênciado depois que despertamos do sono . Esse caráter duplo do mundo de sonho também pertence ao familiar e assim chamado universo real . Isto é evidente e , no entanto , ao mesmo tempo paradoxal . Por essa razão , os antigos filósofos tibetanos declararam que o mundo era tanto existente quanto não existente . Para a mente que não investiga , ele é vividamente o que parece ser ; mas para a percepção profunda e desperta do sábio , sua forma se apresenta como uma versão mais duradoura da forma transitória de um mundo de sonho . Ambas as formas são construção do pensamento . Ambas têm a mente como " substância " subjacente . Portanto , A mente é a sua realidade . Separado da mente , O mundo poderia sequer existir , do mesmo modo que o sonho não poderia existir separadamente do homem que sonha .
Texto : Paul Brunton ( do Livro Idéias em Perspectiva , Edit. Pensamento )
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terça-feira, 1 de março de 2011
" A Guerra no Iraque "
Olá amigos .Permitam-me tecer alguns comentários sobre uma situação em que praticamente nada pode ser dito , ou ouvido , com equanimidade : a guerra no Iraque .
Durante muitos anos - na verdade , por cerca de três décadas - recusei , respeitosamente , qualquer tipo de entrevista detalhada sobre meu trabalho , simplesmente porque não desejava ser o foco ; queria que fossem focalizadas as idéias em si ; assim , mative um perfil público muito discreto ( estou certo de que não preciso dizer isto à maioria de vocês ) .
Cerca de um ou dois anos atrás , abri uma exeção para meu amigo Jordan Gruber , que fez um trabalho magnífico produzindo Speaking of Everything . Há muito tempo prometera a outra amiga , Tami Simon , da Sounds True ( a maior produtora mundial de áudio ) , que , se algum dia desse uma entrevista completa sobre minha obra , eu o faria através dela e da Sounds True . Tami é uma mulher notável , uma das minhas amigas favoritas . Assim , no mês passado , pensei : que diabos , vamos fazê-la ! Tami e sua equipe vieram ao meu apartamento em Denver e , durante 4 ou 5 dias , gravamos aproximadamente 20 horas de material , cobrindo , basicamente , todos os fundamentos : quadrantes , níveis , linhas , estados e tipos , mais todas as coisas necessárias , pessoais , embaraçosas , humilhantes , que acompanham este tipo de trabalho ( : - ) . No próximo outono , Tami planeja lançar um conjunto de 10 CDs chamado , eu acho , Kosmic Consciousness , com todas aquelas 20 horas de gravação , para pessoas tão pertubadas a ponto de achar esta possibilidade interessante .
Durante a longa discussão , naturalmente veio à tona o tópico sobre a guerra no Iraque : o que poderia significar , por que estava acontecendo , qual era o papel dos protestos , e assim por diante .
Até então , eu havia feito uma única declaração sobre a situação no Orinte Médio - " The Deconstruction of the Word Trade Center " [ postado no site wilber.shambhala.com ] - e esta declaração ainda contém minha posição geral sobre esta ( ou qualquer ) guerra . Quando fui instado a pronunciar-me especificamente sobre a atual guerra no Iraque , falei somente o seguinte : Você gostaria de adicionar alguma coisa desde que escreveu " A Desconstrução do Word Trade Center " ?
Não , mas lembre-se : se você for verde , você é contra a guerra . Mas se for contra a guerra , não é necessariamente verde . Existem razões de segunda camada para não se ir à guerra . Porém , também há razões de segunda camada para se ir à guerra . Os verdes não têm escolha - eles não irão . A segunda camada tem escolha ; portanto , pese cuidadosamente as evidências . De fato , a segunda camada pode ou não recomendar a guerra . Mas se quiser verificar se você é " meramente " verde , pergunte-se sob que condições recomendaria a guerra . Se não conseguir pensar em nenhuma , então bem-vindo ao verde . Ainda assim , o assunto é imensamente complexo , mesmo através de lentes integrais ; portanto , pese cuidadosamente as evidências .
O grande problema dessa discussão é que é inteiramente de primeira camada . O azul diz : bombardeie o inferno daqueles malditos ; o laranja diz : está bem , mas apresse-se porque você está prejudicando o mercado de ações ; o verde diz : de jeito nenhum , sejamos amorosos . A primeira camada tem muita dificuldade para observar grandes imagens , daí mover-se em torno das estruturas parciais de valores que a definem .
Estou me mantendo fora desta discussão desde o ensaio sobre o WTC . É , basicamente , uma grande briga de foice de primeira camada .
Infelizmente , o mundo necessita de ação integral . Infelizmente , não a conseguiremos , indo ou não à guerra . Assim , é melhor acender uma vela do que reclamar da escuridão . Portanto , trabalhemos em nós mesmos e tentemos aumentar nossa própria consciência integral , um passo a cada dia , de modo que , ao final , deixemos o mundo um pouquinho mais inteiro do que o encontramos . . .
Farei agora mais algumas considerações , não porque acredite que vozes mais sensatas possam ser ouvidas , e não porque acredite que tenha uma voz mais sensata , mas , simplesmente , porque as vozes insensatas são tão agudas , que umas poucas palavras inúteis a mais não farão mal a ninguém .
Iniciemos repetindo uma pergunta feita por Tami . Havíamos terminado a " primeira metade " da entrevista , que tratou do material teórico , e agora estávamos falando sobre suas aplicações no mundo real , nada sendo mais real do que a guerra . Tami perguntou-me , " Se você pudesse consertar a situação do mundo , o que você faria ? Qual é sua visão utópica para tratar as guerras ? "
Como normalmente faço , usei os termos da Espiral do Desenvolvimento Integral de Don Beck para explicar alguns pontos . Os estudantes da minha obra sabem que , na minha opinião , a Espiral do Desenvolvimento focaliza uma única linha de desenvolvimento - aquela de valores ( vMemes ) - entre , no mínimo , duas dúzias de outras linhas de desenvolvimento ( cognitiva , interpessoal , psicossexual , matemática , cinética , etc . ) . Mas é uma linha tão importante , facimente entendível , que possibilita uma excelente visão introdutória . Don situou esta linha na estrutura TQTN ( que ele chama também 4Q/8N , " quatro quadrantes , oito níveis na linha " ) para produzir a Espiral de Desenvolvimento Integral , uma maravilhosa versão de uma psicologia integral . É claro que aqui não estou falando nem em nome de Don , nem em nome da Espiral de Desenvolvimento , mas sim da minha própria psicologia integral , porém usando , felizmente , alguns termos da Espiral de Desenvolvimento Integral para sustentar a argumentação .
Como um ponto de partida utópico , em resposta à pergunta de Tami , sugiro , a seguir , umas poucas idéias de como poderia ser um sistema de governo mundial que funcionasse no amarelo .
" Amarelo " é o nível de consciência no qual a " segunda camada " , ou a consciência realmente integral , começa a emergir . Portanto , ele contrasta com os níveis ou vMemes anteriores , que são chamados de primeira camada , cada um dos quais acreditando que seu sistema de valores é o único verdadeiro , correto ou que valha mesmo a pena existir . Muito resumidamente , esses níveis de primeira camada são : bege : instintivo ; roxo : mágico-animista , tribal ; vermelho : egocêntrico , poderoso , feudal ; azul : associação-mítica , conformista , fundamentalista , etnocêntrico , tradicional ; laranja : excelência , conquista , progresso , moderno ; verde : pós-moderno , multicultural , sensível , pluralista .
O termo " meme " foi apresentado pela primeira vez por Richard Dawkins . Ele e outros o usaram para descrever uma unidade de informação cultural tal como uma ideologia política , uma tendência da moda , um uso da linguagem , formas musicais , ou mesmo estilos arquitetônicos . Assim , o que genes bioquímicos representam para o DNA , memes representam para o nosso " DNA " psicocultural . O conceito de meme ( vMeme = meme de valores ) foi , posteriormente , expandido por Don Beck e Chris Cowan em seu livro " Spiral Dynamics " com a introdução de cores para designar cada meme . ( N . T )
Essas ondas de primeira camada são seguidas por aquilo que Clare Graves chamou de " o importante salto de significado " para a segunda camada , que apresnta , até o momento , dois níveis ou ondas de consciência principais : amarelo : sistêmico , fluente ; turquesa : unidade cósmica , integrativo , hierarquias nidiformes de interrelacionamento , holismo , unidade-na-diversidade . A questão da discussão utópica é simples : como poderá ser um mundo cujo centro de gravidade estiver na segunda camada ? A seguir , usarei os termos " segunda camada " , " integral " , " amarelo " e " turquesa " indiferentemente ; os pontos que desejo ressaltar são muito genéricos .
A razão pela qual Graves chamou a segunda camada de um " salto importante " é que , diferentemente de todas as ondas de primeira camada ( que imaginam que seus valores são os únicos corretos ) , a segunda camada compreende a crucial importância , embora relativa , de todos os valores prévios - incluindo os valores vermelhos , azuis , laranjas e verdes . O laranja acha que o verde é desmiolado ; o verde despreza o laranja ; o azul acredita que ambos vão queimar eternamente no inferno . Por outro lado , o amarelo sabe que todos são necessários e aceitáveis , desde que nenhum deles levante a mão e comece a reprimir os outros . É escusado dizer que isto teria uma profunda influência numa Federação Mundial que operasse no amarelo ou pelos valores de segunda camada .
Existem dois pontos fundamentais a ter-se em mente sobre um futuro sistema de governo mundial . O primeiro é que as leis , para serem leis , são promulgadas pelo mais elevado nível médio de desenvolvimento esperado do sistema de governo . No mundo atual , por exemplo , a maioria das leis nas democracias ocidentais origina-se do nível laranja : globocêntrico , pós-convencional e moderno ( ou como nossos amigos franceses expressam pela primeira vez o meme laranja há 300 anos : liberdade , igualdade , fraternidade ) . Muitos países continuam a funcionar basicamente no nível azul : conformista , não-democrático ( ditatorial ou totalitário ) , sustentado , não por evidências , mas por dogmas ( marxistas , muçulmanos e outros ) , e etnocêntrico ( creia no Livro ou queimará no inferno ) . Algumas células terrosistas ( para não mencionar gangues de rua ) continuam no vermelho : hierarquias de poder incipiente apoiadas pela força bruta , implantadas normalmente por tortura , estupro ou quaisquer meios necessários para manter um chefe guerreiro no poder . Embora estruturas vermelhas e azuis possam parecer muito brutais , e frequentemente o são , elas devem ser compreendidas no contexto : usualmente são as melhores que podem ser obtidas sob dadas circunstâncias e condições .
Assim , perguntamos : como poderia ser um sistema de governo - uma Federação Mundial - se funcionasse a partir da segunda camada e implantasse suas leis fundamentais de um centro de gravidade amarelo ( ou superior ) ? Mas antes de respondermos , há um segundo item básico a ser considerado , isto é : independentemente de quão elevada uma sociedade possa ser - incluindo aquela em que o centro de gravidade seja amarelo - todos nessa ( e em qualquer sociedade ) nascem na estaca zero . Só porque uma sociedade é " amarela " , não significa que todos nesta sociedade serão amarelos ; ao contrário , muito poucos o serão , pelo menos num primeiro momento , do mesmo modo que hoje , em nossas sociedades laranjas , nem todo mundo está no laranja ; de fato , pelo menos metade da população adulta é pré-laranja ( roxo , vermelho , azul ) . Apenas nossas leis , em sua maioria , originam-se do laranja .
Isto significa que , mesmo numa " sociedade integral " ( amarela ou superior ) , haverá bolsões ou subculturas de indivíduos no roxo , vermelho , azul , laranja e verde . Isto não é somente inevitável , como é saudável , normal e desejável . Entretanto , o que não é desejável é que qualquer dessas ondas domine o sistema de governo e , portanto , tente impingir seus valores às outras - sejam valores vermelhos , azuis , laranjas ou verdes . Resumindo , uma sociedade amarela teria leis que se originariam basicamente daquele nível de consciência de segunda camada . E a característica fundamental definidora do amarelo é que ele aceita todos os valores anteriores , sem permitir que nenhum deles reprima ou domine os outros .
Portanto , uma Federação Mundial , de segunda camada , integral , - em minha visão utópica - todas as democracias contemporâneas , que possuem uma força policial interna para restingir homicídios , estupros , assaltos , extorões , etc . Alguém cujo centro de gravidade seja verde não cometerá assassinatos , estupros ou assaltos . Entretanto , alguém cujo centro de gravidade seja vermelho fará qualquer uma dessas coisas , algumas vezes até alegremente . E como todos nascem na estaca zero e devem progredir através do roxo , vermelho , azul , e assim por diante , algum tipo de polícia será sempre necessário para proteger as pessoas daquelas que não evoluirem até um nível globocêntrico de cuidado e compaixão .
Assim , uma Federação Mundial teria , necessariamente , algum tipo de polícia . Chamemo-la de Guarda Mundial . Escusado dizer que a Guarda Mundial seria regulamentada pela Federação Mundial , e não por um país específico ( e , com certeza , não pela América , Inglaterra , França , Alemanha , etc ) .
Esta força polícial Não estaria autorizada a dizer para as pessoas em que nível de consciência deveriam estar ; Não estaria autorizada a controlar o que as pessoas fizessem na privacidade de seus lares ou casas ; Não estaria autorizada a coagir ou intimidar as pessoas que não se encontrassem no nível médio de desenvolvimento social . Entretanto , estaria autorizada a frustrar ( ou punir ) todos aqueles que tivessem um comportamento público derivado de um ponto-de-vista que não fosse globocêntrico . Por exemplo , se na privacidade do meu lar , penso em lançar à fogueira todas as pessoas que não aceitem Jesus como seu salvador pessoal , estou no meu direito . Por outro lado , se realmente atiro em você porque não acredita em Jesus , então o Estado - neste caso , a Federação Mundial - pode deter-me e encarcerar-me .
A regra simples , já utilizada implicitamente por todos os sistemas de governo globocêntricos ( isto é , no laranja ou superior , incluindo a Alemanha , França , América , Inglaterra , Japão , etc . ) é a seguinte : no dominio do Lado-Esquerdo , pense o que quiser ; mas no dominio do Lado-Direito , comporte-se físicamente de acordo com a lei globocêntrica ou poderá ser afastado da esfera pública .
Como já dissemos , nas democracias ocidentais , a " lei da terra " é predominantemente laranja ; nos últimos trinta anos , ela foi complementada com um número crescente de leis originárias da onda verde , incluíndo leis de oportunidades iguais de trabalho , leis de direito à seguridade social e leis anti-ódio . Isto significa , por exemplo , que você está autorizado a odiar homossexuais ( na privacidade de sua mente do Lado-Esquerdo ) , mas se expressa publicamente ( Lado-Direito ) esse ódio ( por exemplo , através de discursos pregando a violência contra homosexuais ) , haverá penalidades . Assim , em muitas democracias ocidentais , a liberdade de expressão ( um valor clássico laranja e , aqui nos EUA , uma liberdade assegurada pela Primeira Emenda ) frequentemente é complementada com limitações à liberdade de expressão ( um valor clássico verde : o verde deseja limitar a expressão que não esteja de acordo com seus valores ) . Meu ponto é que ambos expressam a regra implícita que formulei no parágrafo anterior .
Portanto , nesse aspecto , uma Federação Mundial não poderia ser diferente : podemos pensar o que quisermos ; mas devemos nos comportar de acordo com as leis provenientes do centro de gravidade do sistema de governo , neste caso , amarelo . Isto é , os valores incrustados na " lei da terra " não seriam laranja ou verdes , e sim amarelos ou integrais ; não de primeira camada , mas de segunda camada . Do mesmo modo , embora , novamente , as pessoas estejam autorizadas a pensar ou acreditar no que desejarem ( Lado-Esquerdo ) , seu comportamento público ( Lado-Direito ) seria regulamentado por padrões amarelos ( ou superiores ) . Como a principal postura do amarelo é integrativa , isto significa que todos os sistemas de valores de primeiras camada teriam seu lugar respeitado , mas nenhum valor de primeira camada estaria autorizado a colonizar outros .
Isto significaria , por exemplo , que a América estaria autorizada a desprezar o Iraque ( na privacidade de seu espaço cultural , nacional , do Lado-Esquerdo ) . Entretanto , a América não estaria autorizada a atacar o Iraque ( no campo internacional , público , do Lado-Direito ) .
Mas esta é apenas metade da história do que seria permitido a uma Federação Integral . De acordo com estimativas conservadoras e incontestes , Saddam Hussein matou aproximadamente duzentos mil curdos e outras duzentas mil pessoas de seu próprio povo , muitas vezes , após tortura , estupro ou por meio de gás venenoso . Uma Federação Mundial Integral , usando a força , se necessário , impediria todos esses atos . Nenhum deles se enquadra nos padrões amarelos e , por conseguinte , nenhum deles seria autorizado por leis mundiais amarelas . A invasão americana enquadra-se em padrões azuis-laranjas ; e a ação de Saddam Hussein enquadra-se em padrões vermelhos . Nenhuma delas seria aceita por uma Federação Mundial Integral .
Além disso , não é necessário dizer que , se fossem apresentadas provas incontestáveis de homicidio em massa numa audiência da Federação Mundial , ela invadiria e policiaria o Iraque .
Homicidio em massa em qualquer lugar viola valores globocêntricos . É permitido a Saddam Hussein odiar os curdos ( na privacidade de sua mente de meme vermelho ) ; não é permitido que mate duzentos mil deles com gás . Se ele fizesse isso , a policia da Federação Mundial usaria ação militar para impedir que Saddam Hussein continuasse a fazê-lo , caso ele não paeasse voluntariamente e desistisse imediatamente .
Pelas mesmas razões , eu , pessoalmente , acredito que , qualquer movimento de protesto que não proteste igualmente contra a invasão da América e contra o assassinato de quatrocentas mil pessoas por Saddam , é um movimento que não representa verdadeiramente a paz , a não-agressão ou valores globocêntricos .
Não tenho conhecimento de nenhum grande movimento que tenha protestado contra ambas as formas de violência , que tenha insistido numa fim imediato de ambas as agressões e oferecido um modo possível para sustá-las imediata e efetivamente , a fim de que nenhum lado possa dar continuidade a seus atos homicidas .
Isto é , infelizmente não tenho ciência de nenhum movimento integral de protesto no mundo .
Ao invés disso , há principalmente bolsões de azul , laranja e verde , uns na garganta dos outros .
Não há dúvidas quanto aos valores do Sr . Bush : são essencialmente azuis-laranjas . Foram esses valores profundamente fundamentalistas e absolutistas que assustaram muitos outros governos ( em particular os da França , Alemanha e Rússia ) ; isto é compreensível . Tipicamente , a onda azul divide o mundo em bom versus mau e possui um inabalável ( embora etnocêntrico ) senso de certo e errado . O " eixo do mal " de Bush é o azul clássico . O pior pode ser dito sobre a abordagem essencialmente azul de Bush é que ela é , de fato , profundamente etnocêntrica e imperialista . O melhor que se pode dizer dela é que cabe ao azul restringir o vermelho , e que os atos de Bush estão servindo à Espiral como um todo , erradicando bolsões de terrorismo vermelho .
A outra grande facção no debate está representando , essencialmente , valores do meme verde . A onda verde - denominada de " o eu sensível " por Graves - deseja acabar com todas as guerras ; portanto deve comportar-se como anti-guerra praticamente sob quaisquer circunstâncias . Como frequentemente é necessário guerrear para acabar com a guerra ( por exemplo , a Segunda Guerra Mundial foi necessária para acabar com Auschwitz ) , o verde normamente fica paralisado em face da real agressão mundial , insistindo em deitar-se na frente dos tanques nazistas , como se isso fosse detê-los . Mas enquanto o verde se vê protestando contra as agressões , sente-se relativamente feliz . O pior que pode ser dito desses contestadores é que são essencialmente " facilitadores de Saddam " ( exatamente como Neville Chamberlain foi um facilitador de Hitler ) . O melhor que se pode dizer é que esses indivíduos servem à Espiral completa , sensibilizando mais pessoas contra os horrores da agressão .
Quanto aos líderes mundiais - algum diz algo que se assemelhe a uma visão integral ? O único líder mundial que se aproxima um pouco , na minha opinião , é Tony Blair - praticamente sozinho , me parece - tem uma razoável consciência das variadas perspectivas e chega a conclusões ( e a linhas-de-ação ) baseando-se num quadro mais amplo. Ele insiste que a situação algo que deveria ser dado de qualquer maneira ) . Blair , quase sem ajuda , senta-se entre a América e a Europa , gritando para ambas : vocês não devem começar a competir e lutar entre si - este caminho leva a mais pesadelos do que possam imaginar . Blair , como o colosso de Rodes , tem um pé na América e outro na Europa e , heroicamente , parece ser o único líder mundial que tenta manter essa integração . Além disso , ele , solitariamente , está mantendo Bush orientado para a Organização das Nações Unidas ( que é desprezada pelo meme azul americano ) . Nem pode ser acusado de " tentar proteger seus interesses em petróleo " , porque a Inglaterra é uma exportadora líquida de petróleo . Sua visão tem sido consistente , discíplinada , mas imparcial . Na minha opinião , ele é a única pessoa com estrutura de líder mundial ; podemos imaginar o desastre que seria a campanha de Bush para manter o mundo unido , sem Blair . ( Um aparte sem querer ser indelicado , mas não se consegue imaginar o que se passa na mente de meme amarelo de Blair quando ele se reúne sozinho numa sala com a mente de meme azul de Bush . . . ) . Não causa nenhuma surpresa que Blair venha sendo um autêntico pioneiro na política da " terceira via " ( cf . A Theory of Everything ) , um dos primeiros movimentos sérios em direção a uma política integral , que una o melhor dos liberais e dos conservadores . Dada a situação real do mundo contemporâneo , a posição geral de Blair parece ser a melhor que , pragmaticamente , pode ser oferecida .
( Na minha opinião , o princípal item que falta no ponto de vista de Blair , para não mencionar outros importantes líderes políticos , é algum tipo sofisticado de perspectiva desenvolvimentista que , resumidamente , é uma das cinco importantes dimensões de uma abordagem integral ; ou seja , o aspecto dos " níveis " dos " quadrantes " , níveis , linhas , estados e tipos " . Um dos mais tristes efeitos não-integrais da liderança do mundo atual é o tumulto causado pelas democracias ocidentais , que acreditam poder plantar uma democracia de meme laranja , com laivos de sensibilidade de meme verde , no meio de um deserto de meme vermelho , e que ela germinará . Isto não é política mundial , isto é " João e o Pé de Feijão " . Todo mundo nasce na estaca zero . A menos que haja uma saudável infra-estrutura azul - seja em guetos urbanos ou tribos do Oriente Médio - não existe lugar para a juventude vermelha ir ; assim , ela acaba presa a uma estrutura de líderes guerreiros . Forçar " democracia " em tais culturas simplesmente resulta , como não poderia deixar de ser em qualquer lugar , na eleição livre de ditadores militares . Escusado dizer que este é um tópico complexo ; novamente convido os leitores a consultar A Theory of Everything para uma visão geral , bem como o site integralinstitute.org )
O que me chama a atenção nos debates altamente emocionais sobre a guerra no Iraque , é como todas as discussões estão profundamente imersas em disputas de valores de primeira camada .
Tanto os defensores azuis-laranja de Bush , quanto a midia ( e contestadores ) laranja-verde , apresentam relatos extremamente distorcidos , tendenciosos e preconceituosos dos acontecimentos . Constantemente , fico perplexo com a estreiteza brutal de uma dada perspectiva , mesmo ( e algumas vezes principalmente ) quando se apresenta como cuidadosa , inclusiva e compassiva . Existe muita verdade em cada lado do debate , mas não a verdade completa , como ambos os lados clamorosamente afirmam possuir .
Anseio por uma discussão onde possa florescer uma abertura integral . Anseio por um grupo de líderes mundiais que possam vislumbrar um quadro maior , permitindo , realmente , que todos os sistemas de valores existam , mas que somente seja tolerado o comportamento globocêntrico .
Anseio por esta boba visão utópica de uma Federação Mundial , onde " todos estão certos " , mas somente se alguns estiverem mais certos do que outros ( por exemplo , globocêntrico é mais correto do que etnocêntrico ; vide Excerto B " Three Principles Helpful for Any Integrative Approach " [ postado no site wilber.shambhala.com ] ) . Anseio por liberdade e plenitude de consciência integral , compartilhadas pelo maior número possível de seres sencientes . Anseio por um tempo , quando um valor integral não seja odiado pelo verde e pelo azul . Mas , ai de mim , parece que estou condenado a ansiar , basicamente , em isolamento .
Assim mesmo , o mundo deve fazer o que tem a fazer . Minha crença é que , neste século , assistiremos a atual Organização das Nações Unidas ser sibstituída , pacificamente , pelo primeiro movimento rumo a uma genuína Federação Mundial , impulsionada , particularmente , por ameaças globais , que não podem ser controladas em nível nacional ( tais como terrorismo , politica econômica e monetária mundial e problemas ambientais globais ) .
Acredito que a primeira Federação Mundial , provavelmente , será laranja-verde . Minha esperança é que seja o verde saudável , mas quem vai saber ? Acredito que essa Federação Mundial Verde dará passos substânciais em direção à harmonia global , mas , no final , enfrentará as limitações e contradições inerentes às perspectivas de primeira camada . Emergirá o equivalente a uma polícia-do-pensamento-politicamente-correto mundial - uma Inquisição verde , se preferirem - cujas brutalidades sutis , acompanhadas por uma série de acontecimentos extremamente desagradáveis , levarão uma Federação Mundial de segunda camada , amarela , a assumir o poder .
Mas isto , creio , será daqui a um século ou mais .
Até então - e considerando que hoje nenhum governo , nenhum movimento de protesto e nenhuma politica nacional ou internacional são integrais - somos forçados a perguntar : o que , pessoalmente , posso fazer , em face das terríveis circunstâncias atuais ? Aqui , somente posso repetir o que disse em meu comentário anterior , e o faço com profunda convicção :
Infelizmente , o mundo necessita de ação integral . Infelizmente , não a conseguiremos , indo ou não à guerra . Assim , é melhor acender uma vela do que reclamar da escuridão . Portanto , trabalhemos em nós mesmos e tentemos aumentar nossa própria consciência integral , um passo a cada dia , de modo que , no final , deixemos o mundo um pouquinho mais inteiro do que o encontramos . . .
1ª versão : 14 de abril de 2003
2ª versão : 16 de abril de 2003 ( novo : Tony Blair como líder mundial " integral " )
3ª versão : 16 de abril de 2003 ( novo : principal ponto fraco da política de Blair )
Texto : Ken Wilber
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