sábado, 12 de março de 2011

" Odisseia " V

Os Limites da Experiência

Mas à medida que essas experiências superconscientes progrediam , comecei a entender o que elas realmente eram - meras experiências . Porque , por definição , experiência é algo que tem um começo e um fim ( estritamente temporal , estritamente relativo ) .
Quanto mais me aprofundava na natureza da experiência , tanto mais me tornava profundamente desiludido com ela . Admito que esses domínios , de um modo especial , eram mais reais que os planos material , corporal ou mental , pelo menos como os conhecia , porém o ponto era que essa exposição experiencial poderia continuar para sempre . Poderia ser apresentado a experiências cada vez mais sutis ad infinitum .
Há uma citação , penso que de Hans Sachs , segundo a qual a psicanálise termina quando o paciente compreende que ele pode durar para sempre . O mesmo tipo de compreensão , por assim dizer , começou a curar-me da fixação do nível sutil , o complexo de Vishnu .
Pois o complexo de Vishnu é precisamente a dificuldade em mover-se da alma sutil para o espírito causal . As experiências sutis são tão extasiantes , tão maravilhosas , tão profundas , tão salutares , que nunca se quer abandoná-las , nunca perdê-las ; ao contrário , deseja-se banhar para sempre em sua glória arquetípica e libertação imortal - e aí está o complexo de Vishnu . Se o complexo de Apolo é o veneno dos meditadores iniciantes , o complexo de Vishnu é o grande sedutor dos praticantes intermediários .
Mas meu treinamento Zen , meu entendimento ( embora ainda superficial ) de Krishnamurti , de Shankara e de Sri Ramana Maharsi , de São Dionísio a Eckhart - tudo me dizia que o estado supremo não era uma experiência ( um ponto que coloquei em " The Ultimate State of Consciousness " [ Wilber , 1975-1976 ] . Não era uma experiência particular entre outras experiências , mas a própria natureza e essência de todas as experiências , superiores ou inferiores . Era aquele vasto background ou Abismo ( Ruysbroeck ) de onde emanam as inúmeras realidades experienciais . Assim , em si mesma , não era absolutamente experiencial ; não tinha nada a ver com mudanças de estado , em saber isto ou aquilo , em ver isto ou aquilo , esse ou aquele sentimento , porque era anterior a tudo isso , a natureza verdadeira deste e de cada momento antes que eu possa compreendê-lo . O estado supremo é o que sou antes de ser qualquer outra coisa , é o que vejo antes de ver qualquer coisa e o que sinto antes de sentir qualquer coisa . É por isso que se diz que o Tao está além do saber ou não-saber , do certo ou errado .
Chao-Chou perguntou , " O que é o Tao ? "
Mestre Nan-chuan respondeu . " O Tao é sua consciência comum . "
" Mas como se pode viver em concordância com ele ? "
" Ao tentar concordar você já se desviou . "
" Mas sem tentar , como vou conhecer o Tao ? "
" O Tao " , disse o Mestre , " é anterior ao conhecer ou não-conhecer . Conhecer 
é falso entendimento ; não-conhecer é simples ignorância . Se você realmente 
compreende o Tao antes de duvidar , é como o céu vazio . Por que mudar o
rumo da conversa para certo e errado ? "
                                                                                             [ Citado em Watts , 1975 ]
Explica-se isto assim : o Upanishads diz que Brahman não é um entre muitos , mas um sem um segundo ; não um objeto particular , mas a realidade de todos os objetos . E mesmo assim , estava tentando captar o Todo como uma experiência particular - por certo uma  Grande Experiência , mas , de qualquer modo , uma experiência - e era exatamente isso que não permitia a descoberta ( porque uma experiência é um saber ou não-saber e não algo que precede a ambos ) . Por isso o Zen chama todas as experiências superiores por um nome pejorativo : makyo ou " ilusões sutis " . E de acordo com o Zen , muitas outras tradições confundem makyo com o estado supremo , simplesmente porque essas extraordinárias experiências são , na verdade , mais reais do que os estados comuns .
Todavia , todas as experiências , superiores ou inferiores , ficam aquém da consciência não-dual e , assim , cedo ou tarde , devem ser superadas .
O ponto é que todas as experiências , sagradas ou profanas , superiores ou inferiores , baseiam-se na dualidade entre sujeito e objeto , observador e observado , experienciador e experienciado . Mesmo na esfera da alma , incomparavelmente mais real do que os níveis inferiores da matéria , corpo e mente , trata-se meramente de um sujeito mais sutil e de um objeto mais extraordinário . A testemunha desses estados divinos ainda se mantém intacta . Entretanto , o despertar verdadeiro é a dissolução da própria testemunha e não uma mudança de estado naquilo que é testemunhado .
Por isso é que sempre se afirmou que formas de indagação do tipo " Quem sou eu ? " , " Quem canta o nome de Buda ? " , " Quem deseja libertação ? " são o caminho básico , talvez o único caminho , além da testemunha ( e do complexo de Vishnu ) . Não " Eu devo sempre estar consciente da minha respiração . " mas sim " Quem deve ? " . Não " Eu captei o sentido do Koan . " , e sim " Quem captou ? " . O efeito dessas perguntas é libertar a atenção das telas objetivas da consciência e excitar a consciência em si mesma . Mais precisamente , esse tipo de indagação faz com que a atenção se volte para a própria atenção , para a verdadeira natureza da atenção , e sua natureza é de sutil contração ou resistência . Qualquer atenção é exclusiva , porque ela se liga nisso e ignora aquilo . Em outra palavras , é dualística , e isso inclui a " atenção passiva " e qualquer outra conscientização sutilmente motivada . Todas são meras contrações subjetivas no Campo da Consciência . Mas com esse tipo de pergunta , esta contração subjetiva que é atenção torna-se o objeto da atenção . Isto é , o sujeito transforma-se no objeto de modo que a fronteira entre eles é rompida e ambos desaparecem como entidades exclusivas e separadas . Então , resta apenas a consciência inicial , radiante , imanente , desobstruída , que não é nem subjetiva nem objetiva , simplesmente total .
A primeira vez que isto se tornou óbvio para mim , embora de um modo fugaz , foi em um sesshin ou retiro Zen intensivo . No quarto dia apareceu , por assim dizer , o estado da testemunha , a testemunha transpessoal que , de maneira firme , calma e clara , testemunha todos os eventos emergentes , momento a momento . Mesmo sonhando , meramente se testemunha : pode-se ver o sonho começar , prosseguir e terminar ( o que Charles Tart chamou de " sonhos translúcidos " ) . Entretanto , Roshi ficou totalmente impassível diante de todo aquele " makyo " . " A testemunha " , disse ele , " é a derradeira cidadela do ego . 
Nesse ponto , a postura da testemunha desapareceu completamente . Não havia nenhum sujeito em nenhuma parte do universo ; não havia nenhum objeto em nenhuma parte do universo ; havia apenas o universo . Tudo estava surgindo momento a momento e estava surgindo em mim e como eu ; por outro lado , não havia nenhum eu . É muito importante compreender que esse estado não foi uma perda das faculdades , mas uma amplificação delas ; não foi um transe vazio e sim perfeita claridade ; não despersonalizado mas transpersonalizado . Nenhuma das faculdades pessoais - linguagem , lógica , conceitos , habilidades motoras - foi perdida ou enfraqueceu-se . Ao contrário , pela primeira vez pareceu-me que todas elas funcionavam em radical abertura , livres das defesas impostas pela sensação de um self separado . Esse estado radicalmente aberto , indefeso e perfeitamente não-dual foi , ao mesmo tempo , incrível e profundamente comum , tão extraordinariamente comum que nem mesmo foi notado . Não havia ninguém lá para compreendê-lo até que eu saísse dele ( acho que cerca de três horas depois ) .
Em outras palavras , enquanto naquele estado , que não era absolutamente nenhuma experiência , havia somente aquele estado , que era a totalidade de tudo surgindo momento a momento . Eu não observava ou experienciava nada , simplesmente era tudo .
Não podia ver , porque era tudo visto ; não podia ouvir , porque era tudo ouvido ; não podia saber porque era tudo sabido . Daí porque ele é , ao mesmo tempo , o grande mistério e o perfeitamente óbvio . Mas foi somente quando de que estava naquele estado que realmente não estava mais nele . O seu reconhecimento ou experiência é muito , muito menos que o estado em si mesma . Para experienciar aquele estado livre que me separar dele ( isto é , destruí-lo ) .
Daí em diante , tornei-me profundamente desconfiado dos transpersonalistas que falam dos estados superiores como " realidades experienciais " , apesar de ter feito o mesmo em Spectrum . Também vi a perfeita inadequalibilidade do paradigma de " estados alterados " , extremamente útil em outros casos , para tratar do derradeiro domínio espiritual , porque esse domínio , esse " não-domínio " , é , em verdade , o que todos os estados têm em comum , e o que todos os estados têm em comum não é , em si mesmo , outro estado , do mesmo modo que o alfabeto não é outra letra .
Mas todo esse período , percorrendo os domínios sutis , lutando com o complexo de Vishnu e penetrando no Dharmakaya - embora de maneira parcial , inicial e incompleta - proporcionou-me , pelo menos , uma introdução em primeira mão , razoavelmente sólida , às várias esferas mais elevadas da consciência . Com essa experiência , fui capaz , com maior facilidade , de retornar à literatura das tradições transpessoais e desenvolver uma classificação bastante exaustiva dos vários domínios superiores , muito frequentemente condensados e chamados de " transpessoais " , " transcendentes " ou " místicos " . Como mencionei anteriormente , foi aí que subdividi o domínio transpessoal em pelo menos quatro ou cinco níveis baseados em análises estruturais . Com essas subdivisões do espectro , além daquelas provenientes de Eden , finalmente senti que chegara a uma cartografia mais completa da consciência , uma que , longe de ser perfeita e , ocasionalmente , ainda escorregadia , pelo menos tinha o mérito da abrangência . Os refinamentos poderiam vir ao longo dos anos ; por enquanto , essa cartografia foi apresentada em The Atman Project , com extensas tabelas de referência mostrando como as principais psicologias orientais e ocidentais se encaixavam nela .
No Budismo Mahayana , é o último domínio ( causal ) antes da transcendência final . Para maiores detalhes vide The Atman Project . ( N . T )

Um Modelo de Meditação

Este período também ajudou-me a montar um modelo experimental da natureza e função da meditação , um modelo baseado tanto na prática pessoal quanto no estado teórico . A maioria dos modelos ocidentais de meditação cai em um de dois campos : a escola fisiológica/neurológica/padrões-cerebrais e a escola cognitiva/psicológica . A primeira vê a meditação como redução sensorial , lateralização hemisférica , uma resposta ao relaxamento , variáveis ergotrópicas/trofotrópicas , padrão cerebral alterado ou metabolismo reduzido . A segunda vê a meditação como uma dessensibilização super-Wolpiana , regressão a serviço do ego , desautomatização , alteração cognitiva ou estratégia de auto-regulação .
Acho que cada uma dessas teorias tem o seu mérito , mas o que todas tendem a não considerar é precisamente , para mim , o âmago , a própria essência da meditação .
Consideremos qualquer importante sistema de meditação : os detalhados estágios dhyana/prajna de Buda ; os oito passos dos Yoga Sutras de Patanjali ; a contemplação Taoísta hierárquica de Lao Tsé ; o abrangente sistema de meditação Zen representado pelos estágios do pastoreio do boi ; o curso multinível de contemplatio de Hugo de São Victor ; os estágios específicos ensinados por Santa Tereza d' Ávila e São João da Cruz ; a tradição completa da ioga kundalini/tântrica . O que todos têm em comum é uma visão da meditação , não como uma resposta ao relaxamento , ou uma privação sensorial , ou uma estratégia de auto-regulação , mas sim como um desenrolar hierárquico de sucessivas estruturas superiores de consciência . Para ser preciso , eles a vêem como um processo de desenvolvimento , composto de estágios especificáveis , de tal modo que cada estágio engloba uma estrutura distinta de consciência .
( Anteriormente , mencionei que havia pelo menos cinco dessas estruturas ou níveis mais elevados , porém muitas cartografias tradicionais contêm até vinte e cinco estágios/níveis de consciência meditativa ) . Desde os estágios dhyana/prajna de Buda até os estágios de sublimação dos chakras do kundalini , o ponto central é que são estágios de desenvolvimento . Em verdade , esses tradicionalistas não foram somente os primeiros estruturalistas ; foram também os primeiros verdadeiros psicólogos do desenvolvimento .
Minha opinião é que na presa de fazer uma ponte entre as psicologias ocidental e oriental , olhamos absolutamente para tudo , exceto para a psicologia desenvolvimentista/estrutural . Assim , uma vez que a essência das tradições orientais é uma visão fenomenológico/desenvolvimentista/estrutural dos domínios superconscientes e que a psicologia ocidental possui uma bem detalhada visão subconsciente , a ponte mais imediata e indolor seria simplesmente adicioná-las , exatamente como são . Bem , de qualquer modo , esta foi a abordagem que segui em The Atman Project .
A necessidade para esta abordagem multidimencional torna-se completamente óbvia quando compreendemos que não existem somente vários níveis de consciência meditativa , mas também diversos caminhos diferentes para atngir-se cada nível . Isto porque todos os níveis mais elevados de consciência possuem diferentes componentes ou dimensões ( que em breve chamarei de " estruturas superficiais " ) , do mesmo modo que suas contrapartes mais baixas - componentes tais como motivação , cognição , identidade , afeição e despertar . Então , como sugerido por Tart , diferentes práticas meditativas podem atingir diferentes dimensões ou componentes . Por exemplo , a Ioga Kundalini atinge o nível sutil-superior via exercícios hiperintensivos e técnicas de despertar do afeto , enquanto a Meditação Transcendental aproxima o mesmo nível através de relaxamento profundo , mas alerta , e da sublimação do pensamento . O ponto é esse , mesmo que você assuma que há somente cinco níveis superiores com quatro componentes cada , você já tem vinte abordagens meditativas com diferenças significativas , um fato que torna ridícula tais ingenuidades como " meditação é uma resposta ao relaxamento . "
Na famosa sequência de pinturas zen-budista conhecida como " A série do pastoreiro do boi " encontramos um exemplo clássico da cronologia dos estágios espirituais . Na primeira das suas dez imagens ( às vezes , há doze ) vemos uma pessoa que busca ansiosamente por um boi , símbolo da sua alma ou natureza primordial . Mas , infelizmente , ela não sabe onde encontrá-lo . Nas outras pinturas , ela avista o rastro do boi e começa a procurá-lo nas montanhas e nas planícies deste mundo . Finalmente , vê o boi e , após uma luta , o domestica . Na etapa seguinte , tanto o boi quanto a pessoa que o buscava deitam-se juntos , em harmonia , debaixo de um salgueiro , e no quadro seguinte , ambos desaparecem em um momento de morte do ego e rompem em direção a domínios mais elevados da consciência . No último estágio , a pessoa que buscava é ressucitada e retorna para a feira livre do mundo , onde ajuda outras pessoas a encontrarem o seu próprio caminho espiritual . " ( Transcrito do livro Os Cinco Estágios da Alma de Harry R . Moody e David Carrol ) ( N . T ) 
Todavia , é importante ressaltar que , subjacente a esses complexos conjuntos de dados ( " vinte diferentes técnicas de meditação " ) , existe um padrão essencialmente simples .
Isto tornou-se especialmente aparente para mim com Eden , porque lá se apresentou uma imensa quantidade de dados interculturais que , aparentemente , desafiavam qualquer simplificação . Modificando consideravelmente o significado de alguns termos da linguística transformacional , comecei , simplesmente , a diferenciar estruturas profundas e estruturas superficiais . Como usado em Atman e Eden , a estrutura profunda é a forma definidora de um dado nível de consciência , enquanto a estrutura superficial é qualquer variável ou componente daquele nível .
Por exemplo , Piaget mostrou que o desenvolvimento cognitivo se dá através de quatro estágios/níveis  básicos : sensório-motor , pré-operacional , operacional concreto e operacional formal . Cada um deles é uma estrutura profunda , um conjunto especificável de operações que , holisticamente , governa as atividades de cognição do respectivo nível . Entretanto , a estrutura profunda não especifica , e não pode , o conteúdo de um pensamento particular do nível . Esses particulares são estruturas superficiais . Assim , as estruturas superficiais são restringidas pela forma da estrutura profunda , porém , no interior desse limite , elas são variáveis ( exceto , obviamente , na medida em que forem condicionadas por outras estruturas superficiais : os pensamentos que tive ontem afetam e condicionam os pensamentos que tenho hoje , mas ambos são igualmente restringidos pela estrutura profunda do meu nível de desenvolvimento presente ) .
Sem repetir toda a argumentação , o ponto é que este tipo de análise estrutural permite-nos traçar um número discreto de superfícies profundas subjacentes a variados fenômenos superficiais , e isto simplifica em muito o quadro não só da meditação , como também do desenvolvimento da consciência como um todo . O que fazemos em pesquisa da meditação ( ou pesquisa da consciência em geral ) é olhar para conjuntos de dados , ou grupos de fenômenos específicos , que , embora aparentemente diferentes , são , na realidade , estruturas superficiais compartilhando uma mesma estrutura profunda .
Definimos as várias estruturas profundas especificando sua forma holística e/ou padrões operativos . A seguir , arrumamos hierarquicamente as estruturas profundas de acordo com uma das três regras gerais : ( 1 ) acesso - uma estrutura mais elevada tem acesso total a uma mais baixa , mas não vice-versa ; ( 2 ) desenvolvimento - quanto mais elevado o estado , mais tarde ele tende a emergir numa sequência de desenvolvimento ( isto é verdadeiro em todas as tendências evolucionárias , plantas após pedras , animais após plantas , humanos após animais , e assim por diante ) ; ( 3 ) caixa chinesa - um estado mais elevado contém todas as funções ou capacidades de um mais baixo , mas não vice-versa ( por exemplo , uma planta contém minerais , porém minerais não contém plantas ) , e o estado superior possui capacidades não disponíveis no mais baixo . Uma vez estabelecida essa hierarquia , ela pode ser apresentada de duas maneiras básicas , como ressaltado por Schumacher ( 1977 ) : se o estado mais baixo é A , o próximo é A+B , o seguinte A+B+C e assim por diante ; se o estado mais elevado é A o seguinte mais baixo é A-B , o seguinte A-B-C e assim por diante . Em ambos os casos , simplesmente especifica-se detalhadamente os parâmetros de A , B , C . . .
Esta foi a abordagem utilizada tanto em Eden como em Atman . Ela ajudou-me a entender que técnicas de meditação bem diversas podem conduzir ao mesmo nível básico dos domínios superconscientes ; ou que , por exemplo , o yidam do Budismo , o ishtadeva do Hinduísmo e o arcanjo do Cristianismo , embora com formas exteriores muito diferentes , compartilham , na verdade , da mesma estrutura profunda básica ( aquela do domínio sutil superior ) ; ou que sábios místicos como Cristo , Krishna e Buda descobriram o mesmo domínio causal-espiritual mas o expressaram através de diferentes estruturas superficiais ( o que atrasou a compreensão de que há , nas palavras de Schuon , " uma unidade transcendente das religiões " - não unidade de estrutura exotérica/superficial , mas unidade de estrutura esotérica/profunda ) .
Tudo isso , finalmente , levou a uma sugestão que me parece absolutamente fundamental : na minha opinião , estruturas superficiais são aprendidas , condicionadas , historicamente contigenciadas e culturalmente relativizadas , enquanto estruturas profundas , uma vez emersas , são interculturais , universais e largamente invariantes . Para dar um exemplo simples , a estrutura profunda do corpo humano é a mesma em qualquer lugar : duzentos e seis ossos , duas pernas , um coração , dois rins etc . , mas o que se faz com o corpo - suas estruturas superficiais de trabalho , lazer , atividades aceitáveis etc . - é moldado e condicionado culturalmente . Você não aprende a ter um corpo , mas você aprende a jogar beisebol com ele - estruturas profundas são dadas , estruturas superficiais são condicionadas .
Assim , a força do estruturalismo está em apontar as estruturas profundas ou níveis básicos da consciência que são largamente interindividuais , interculturais e invariantes .
Entretanto , o estruturalismo clássico tem muito pouco a nos dizer sobre as estruturas superficiais . Portanto , é necessário suplementar a psicologia das estruturas profundas com disciplinas das estruturas superficiais , disciplinas que tratam do condicionamento histórico real e da moldagem daqueles componentes psicológicos que são variáveis e contingenciáveis . A eese respeito , teorias de reforço mostram-se de excelente utilidade , do mesmo modo que a teoria sistêmica e o funcionalismo . Outra é a hermenêutica ou ciência da interpretação . A hermenêutica é profundamente importante porque o significado das estruturas psicológicas superficiais não pode ser determinado empiricamente ; significado , como definido por Husserl , é intenção e interpretação mentais e nenhum teste empírico-sensorial irá esclarecê-lo ( por exemplo , dê-me uma prova empírico-científica do significado da produção mental chamada Hamlet ) . E mais , estruturas superficiais sempre existem em contextos históricos específicos ; assim , como a hermenêutica salienta a importância de compreender-se os contextos históricos a fim de determinar-se significados particulares , ela é idealmente apropriada para a pesquisa das estruturas superficiais .
Sobre religião exotérica e religião esotérica , vide , por exemplo , Grace and Gril ( Wilber 1991 ) : " A religião exotérica ou " exterior " é religião mítica , religião que é terrivelmente concreta e literal , que realmente acredita por exemplo , que Moisés abriu o Mar Vermelho , que Cristo nasceu de uma virgem , que o mundo foi criado em seis dias , que , um dia , literalmente choveu maná do céu , e assim por diante .
Em todo o mundo , religiões exotéricas consistem desses tipos de crenças . Os hindus acreditam que a Terra deve estar apoiada em algo ; assim , crêem encontrar-se sobre um elefante que , também necessitando de suporte , está sobre uma tartaruga ; esta , por sua vez , encontra-se sobre uma serpente . E quando surge a pergunta " Em que a serpente está apoiada ? " , a resposta dada é " Mudemos de assunto " . Lao Tsé nasceu com novecentos anos , Krishna acasalou-se com quatro mil vacas , Brahma nasceu da quebra de um ovo cósmico etc . Isto é religião exotérica , uma série de estruturas de crenças que tentam explicar os mistérios do mundo em termos míticos ao invés de termos testemunhais ou de experiência direta . . . A religião esotérica não pede que você acredite em nada na base da fé ou que engula obedientemente qualquer dogma . Ao contrário , a religião esotérica é um conjunto de experimentos pessoais conduzidos cientificamente no laboratório da sua própria consciência . Como toda boa ciência é baseada na experiência direta , não em simples crenças ou desejos , e pode ser verificada e validada por outras pessoas que também tenham executado o experimento . O experimento é a meditação . " ( N . T )
Desse modo , minha abordagem global foi usar a psicologia fenomenológico-desenvolvimentista e o estruturalismo para determinar as estruturas profundas da consciência , e a teoria sistêmica/funcionalismo , além da hermenêutica histórica , para elucidar as estruturas superficiais . Em minha opinião , o ponto é que a mesma abordagem básica se aplica ao estudo da meditação , porque meditação é , simplesmente , desenvolvimento de níveis superiores .
Essa abordagem para a meditação , além de produzir seus próprios resultados positivos , alivia-nos de diversos juízos falsos . Refiro-me especialmente a duas predominantes e difundidas estratégias de pesquisa . Uma é a busca de " mecanismo que produzem os efeitos da meditação " e a outra é a busca de " correlações fisiológicas específicas dos estados meditativos " . Com certeza , essas são noções importantes , mas se consideradas isoladamente , têm como efeito a depreciação da validade fenomenológica dos estados de meditação em si . De fato , em muitos casos , o uso de abordagens como a da correlação fisiológica tem como consequência invalidar o desenvolvimento meditativo em si mesmo ( um prelúdio para a conclusão , " Bem , vocês sabem , esses estados místicos são simples padrões cerebrais anormais ; eles não são realmente transpessoais - são apenas alterações no sistema nervoso do indivíduo . " )
Quando Piaget descobriu que as pessoas passam por uma importante transformação cognitiva , do pensamento pré-operacional para o operacional concreto , não houve grande exigência para buscar evidências de uma igualmente drástica mudança na fisiologia cerebral . Quando Kohlberg descobriu seis grandes estágios de desenvolvimento moral , ninguém gritou por " um mecanismo que produzisse tais efeitos . " A razão é que tais transformações podem ser demonstradas - e provadas - pelas ciências desenvolvimentistas , fenomenológicas , estruturais e interpretativas ( foi precisamente isso que Piaget e Kohlberg fizeram ) . O mesmo deve ser aplicado a meditação e transcendência . Estudos fisiológicos , mecanismos , reforços comportamentais e ondas cerebrais podem assumir importantes papéis , embora secundários e subsidiários . Por outro lado , aqueles transpersonalistas que exegeticamente abraçam os paradigmas da psicologia personalista ( auto-regulação comportamental , fisiologia mecanicista ) numa tentativa de serem aceitos por seus pares ortodoxos , simplesmente correm o risco de não só violar a fenomenologia do seu próprio campo ao reduzi-la a dimensões personalistas , como também de induzir a psicologia ortodoxa a pensar que as preocupações transpessoais podem ser absorvidas ( e portanto dispensadas ) pelos seus próprios paradigmas personalistas . Isto já aconteceu com as abordagens fisiológicas e as abordagens de alteração de comportamento ; se esta tendência continuar , em breve teremos uma ridícula psicologia transpessoal pessoal .
Naturalmente , meu sentimento é que a psicologia transpessoal negará e preservará a psicologia personalista ; aqueles que somente negarem ou somente preservarem , terão muito pouco a oferecer .
Minha peregrinação pelos domínios moral , intelectual e contemplativo continua . Quanto a meus escritos , se irão mostrar-se úteis a outras pessoas ou meras tagarelice subjetiva , pelo menos têm dado à minha vida um significado , um contexto , uma direção , uma sanção . Continuo a trabalhar , a estudar , a escrever , a contemplar ; em resumo , continuo o caminho , o " processo que admite seu fim no seu começo " . Costumava pensar que se adota um caminho exclusivamente para atingir-se um objetivo . Aprendi algo melhor : o verdadeiro caminho é , em si mesmo , o objetivo supremo . Como o Dogen Zenji se referiu ao estado supremo : " Não resta nenhum vestígio de iluminação , e essa iluminação sem vestígio continua para sempre . " Assim , todos nós ainda somos , e sempre seremos , os peregrinos .
Texto : Ken Wilber 
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segunda-feira, 7 de março de 2011

" Meditação na via da serpente "

Um trecho de música se compõe não somente de notas que se sucedem , mas também de uma série de silêncios que intervém entre as notas . Entretanto , temos antes de tudo consciência dos sons e não dos silêncios . Do mesmo modo que estes silêncios Forman um plano de fundo oculto para os sons , à mente é o plano secreto de todas as nossas idéias . Na vida ordinária não damos atenção ao próprio processo de pensar , mas , somente aos objetos que os desencadeiam . Nosso estudo da consciência física revelou-se seu caráter alternativo e descontinuo . Assinalamos que a incrível rapidez de seu movimento vibratório dissimula esse caráter sob o véu de uma unidade ilusória e que , de fato , existe um intervalo infinitesimal entre cada lampejo de pensamento e o que se lhe segue . Este intervalo não é outra coisa que o grande intervalo de mente-em-si . Se houvesse sempre um lapso de tempo apreciável entre duas idéias , encontrá-lo-iamos preenchido pela consciência de sua fonte que é a mente . Cada um tomaria então consciência de sua natureza divina . Infelizmente embora os pensamentos sejam descontínuos , o " eu " pessoal nos domina a todos e se conduz como uma lagarta que , na folha em que esta , não larga o ponto em que se agarra senão depois de haver assegurado de outro , igualmente seguro , em outra folha . O verdadeiro intervalo entre dois pensamento é , pois , coberto pelo pensamento pessoal ele cria desta maneira uma cortina continua de ilusão que mascara a realidade da mente pura donde emanam todos esses pensamentos , assim como a propria realidade .

Idéias em Perspectiva

O que quer que o universo seja na experiência humana , ele é em aspectos importante , como um sonho , isto é , temos de admitir a existência de um mundo de sonho como um fato indubitável , porque é um mundo percebido e experiênciado ; mas ao mesmo tempo não podemos atribuir a sua forma a existência última e , portanto , a realidade duradoura . Pois ele não é percebido nem experiênciado depois que despertamos do sono . Esse caráter duplo do mundo de sonho também pertence ao familiar e assim chamado universo real . Isto é evidente e , no entanto , ao mesmo tempo paradoxal . Por essa razão , os antigos filósofos tibetanos declararam que o mundo era tanto existente quanto não existente . Para a mente que não investiga , ele é vividamente o que parece ser ; mas para a percepção profunda e desperta do sábio , sua forma se apresenta como uma versão mais duradoura da forma transitória de um mundo de sonho . Ambas as formas são construção do pensamento . Ambas têm a mente como " substância " subjacente . Portanto , A mente é a sua realidade . Separado da mente , O mundo poderia sequer existir , do mesmo modo que o sonho não poderia existir separadamente do homem que sonha .
Texto : Paul Brunton ( do Livro Idéias em Perspectiva , Edit. Pensamento )
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terça-feira, 1 de março de 2011

" A Guerra no Iraque "

Olá amigos .
Permitam-me tecer alguns comentários sobre uma situação em que praticamente nada pode ser dito , ou ouvido , com equanimidade : a guerra no Iraque .
Durante muitos anos - na verdade , por cerca de três décadas - recusei , respeitosamente , qualquer tipo de entrevista detalhada sobre meu trabalho , simplesmente porque não desejava ser o foco ; queria que fossem focalizadas as idéias em si ; assim , mative um perfil público muito discreto ( estou certo de que não preciso dizer isto à maioria de vocês ) .
Cerca de um ou dois anos atrás , abri uma exeção para meu amigo Jordan Gruber , que fez um trabalho magnífico produzindo Speaking of Everything . Há muito tempo prometera a outra amiga , Tami Simon , da Sounds True ( a maior produtora mundial de áudio ) , que , se algum dia desse uma entrevista completa sobre minha obra , eu o faria através dela e da Sounds True . Tami é uma mulher notável , uma das minhas amigas favoritas . Assim , no mês passado , pensei : que diabos , vamos fazê-la ! Tami e sua equipe vieram ao meu apartamento em Denver e , durante 4 ou 5 dias , gravamos aproximadamente 20 horas de material , cobrindo , basicamente , todos os fundamentos : quadrantes , níveis , linhas , estados e tipos , mais todas as coisas necessárias , pessoais , embaraçosas , humilhantes , que acompanham este tipo de trabalho ( : - ) . No próximo outono , Tami planeja lançar um conjunto de 10 CDs chamado , eu acho , Kosmic Consciousness , com todas aquelas 20 horas de gravação , para pessoas tão pertubadas a ponto de achar esta possibilidade interessante .
Durante a longa discussão , naturalmente veio à tona o tópico sobre a guerra no Iraque : o que poderia significar , por que estava acontecendo , qual era o papel dos protestos , e assim por diante .
Até então , eu havia feito uma única declaração sobre a situação no Orinte Médio - " The Deconstruction of the Word Trade Center " [ postado no site wilber.shambhala.com ] - e esta declaração ainda contém minha posição geral sobre esta ( ou qualquer ) guerra . Quando fui instado a pronunciar-me especificamente sobre a atual guerra no Iraque , falei somente o seguinte : Você gostaria de adicionar alguma coisa desde que escreveu " A Desconstrução do Word Trade Center " ?
Não , mas lembre-se : se você for verde , você é contra a guerra . Mas se for contra a guerra , não é necessariamente verde . Existem razões de segunda camada para não se ir à guerra . Porém , também há razões de segunda camada para se ir à guerra . Os verdes não têm escolha - eles não irão . A segunda camada tem escolha ; portanto , pese cuidadosamente as evidências . De fato , a segunda camada pode ou não recomendar a guerra . Mas se quiser verificar se você é " meramente " verde , pergunte-se sob que condições recomendaria a guerra . Se não conseguir pensar em nenhuma , então bem-vindo ao verde . Ainda assim , o assunto é imensamente complexo , mesmo através de lentes integrais ; portanto , pese cuidadosamente as evidências .
O grande problema dessa discussão é que é inteiramente de primeira camada . O azul diz : bombardeie o inferno daqueles malditos ; o laranja diz : está bem , mas apresse-se porque você está prejudicando o mercado de ações ; o verde diz : de jeito nenhum , sejamos amorosos . A primeira camada tem muita dificuldade para observar grandes imagens , daí mover-se em torno das estruturas parciais de valores que a definem .
Estou me mantendo fora desta discussão desde o ensaio sobre o WTC . É , basicamente , uma grande briga de foice de primeira camada .
Infelizmente , o mundo necessita de ação integral . Infelizmente , não a conseguiremos , indo ou não à guerra . Assim , é melhor acender uma vela do que reclamar da escuridão . Portanto , trabalhemos em nós mesmos e tentemos aumentar nossa própria consciência integral , um passo a cada dia , de modo que , ao final , deixemos o mundo um pouquinho mais inteiro do que o encontramos . . .
Farei agora mais algumas considerações , não porque acredite que vozes mais sensatas possam ser ouvidas , e não porque acredite que tenha uma voz mais sensata , mas , simplesmente , porque as vozes insensatas são tão agudas , que umas poucas palavras inúteis a mais não farão mal a ninguém .
Iniciemos repetindo uma pergunta feita por Tami . Havíamos terminado a " primeira metade " da entrevista , que tratou do material teórico , e agora estávamos falando sobre suas aplicações no mundo real , nada sendo mais real do que a guerra . Tami perguntou-me , " Se você pudesse consertar a situação do mundo , o que você faria ? Qual é sua visão utópica para tratar as guerras ? "
Como normalmente faço , usei os termos da Espiral do Desenvolvimento Integral de Don Beck para explicar alguns pontos . Os estudantes da minha obra sabem que , na minha opinião , a Espiral do Desenvolvimento focaliza uma única linha de desenvolvimento - aquela de valores ( vMemes ) - entre , no mínimo , duas dúzias de outras linhas de desenvolvimento ( cognitiva , interpessoal , psicossexual , matemática , cinética , etc . ) . Mas é uma linha tão importante , facimente entendível , que possibilita uma excelente visão introdutória . Don situou esta linha na estrutura TQTN ( que ele chama também 4Q/8N , " quatro quadrantes , oito níveis na linha " ) para produzir a Espiral de Desenvolvimento Integral , uma maravilhosa versão de uma psicologia integral . É claro que aqui não estou falando nem em nome de Don , nem em nome da Espiral de Desenvolvimento , mas sim da minha própria psicologia integral , porém usando , felizmente , alguns termos da Espiral de Desenvolvimento Integral para sustentar a argumentação .
Como um ponto de partida utópico , em resposta à pergunta de Tami , sugiro , a seguir , umas poucas idéias de como poderia ser um sistema de governo mundial que funcionasse no amarelo .
" Amarelo " é o nível de consciência no qual a " segunda camada " , ou a consciência realmente integral , começa a emergir . Portanto , ele contrasta com os níveis ou vMemes anteriores , que são chamados de primeira camada , cada um dos quais acreditando que seu sistema de valores é o único verdadeiro , correto ou que valha mesmo a pena existir . Muito resumidamente , esses níveis de primeira camada são : bege : instintivo ; roxo : mágico-animista , tribal ; vermelho : egocêntrico , poderoso , feudal ; azul : associação-mítica , conformista , fundamentalista , etnocêntrico , tradicional ; laranja : excelência , conquista , progresso , moderno ; verde : pós-moderno , multicultural , sensível , pluralista .
O termo " meme " foi apresentado pela primeira vez por Richard Dawkins . Ele e outros o usaram para descrever uma unidade de informação cultural tal como uma ideologia política , uma tendência da moda , um uso da linguagem , formas musicais , ou mesmo estilos arquitetônicos . Assim , o que genes bioquímicos representam para o DNA , memes representam para o nosso " DNA " psicocultural . O conceito de meme ( vMeme = meme de valores ) foi , posteriormente , expandido por Don Beck e Chris Cowan em seu livro " Spiral Dynamics " com a introdução de cores para designar cada meme . ( N . T )
Essas ondas de primeira camada são seguidas por aquilo que Clare Graves chamou de " o importante salto de significado " para a segunda camada , que apresnta , até o momento , dois níveis ou ondas de consciência principais : amarelo : sistêmico , fluente ; turquesa : unidade cósmica , integrativo , hierarquias nidiformes de interrelacionamento , holismo , unidade-na-diversidade . A questão da discussão utópica é simples : como poderá ser um mundo cujo centro de gravidade estiver na segunda camada ? A seguir , usarei os termos " segunda camada " , " integral " , " amarelo " e " turquesa " indiferentemente ; os pontos que desejo ressaltar são muito genéricos .
A razão pela qual Graves chamou a segunda camada de um " salto importante " é que , diferentemente de todas as ondas de primeira camada ( que imaginam que seus valores são os únicos corretos ) , a segunda camada compreende a crucial importância , embora relativa , de todos os valores prévios - incluindo os valores vermelhos , azuis , laranjas e verdes . O laranja acha que o verde é desmiolado ; o verde despreza o laranja ; o azul acredita que ambos vão queimar eternamente no inferno . Por outro lado , o amarelo sabe que todos são necessários e aceitáveis , desde que nenhum deles levante a mão e comece a reprimir os outros . É escusado dizer que isto teria uma profunda influência numa Federação Mundial que operasse no amarelo ou pelos valores de segunda camada .
Existem dois pontos fundamentais a ter-se em mente sobre um futuro sistema de governo mundial . O primeiro é que as leis , para serem leis , são promulgadas pelo mais elevado nível médio de desenvolvimento esperado do sistema de governo . No mundo atual , por exemplo , a maioria das leis nas democracias ocidentais origina-se do nível laranja : globocêntrico , pós-convencional e moderno ( ou como nossos amigos franceses expressam pela primeira vez o meme laranja há 300 anos : liberdade , igualdade , fraternidade ) . Muitos países continuam a funcionar basicamente no nível azul : conformista , não-democrático ( ditatorial ou totalitário ) , sustentado , não por evidências , mas por dogmas ( marxistas , muçulmanos e outros ) , e etnocêntrico ( creia no Livro ou queimará no inferno ) . Algumas células terrosistas ( para não mencionar gangues de rua ) continuam no vermelho : hierarquias de poder incipiente apoiadas pela força bruta , implantadas normalmente por tortura , estupro ou quaisquer meios necessários para manter um chefe guerreiro no poder . Embora estruturas vermelhas e azuis possam parecer muito brutais , e frequentemente o são , elas devem ser compreendidas no contexto : usualmente são as melhores que podem ser obtidas sob dadas circunstâncias e condições .
Assim , perguntamos : como poderia ser um sistema de governo - uma Federação Mundial - se funcionasse a partir da segunda camada e implantasse suas leis fundamentais de um centro de gravidade amarelo ( ou superior ) ? Mas antes de respondermos , há um segundo item básico a ser considerado , isto é : independentemente de quão elevada uma sociedade possa ser - incluindo aquela em que o centro de gravidade seja amarelo - todos nessa ( e em qualquer sociedade ) nascem na estaca zero . Só porque uma sociedade é " amarela " , não significa que todos nesta sociedade serão amarelos ; ao contrário , muito poucos o serão , pelo menos num primeiro momento , do mesmo modo que hoje , em nossas sociedades laranjas , nem todo mundo está no laranja ; de fato , pelo menos metade da população adulta é pré-laranja ( roxo , vermelho , azul ) . Apenas nossas leis , em sua maioria , originam-se do laranja .
Isto significa que , mesmo numa " sociedade integral " ( amarela ou superior ) , haverá bolsões ou subculturas de indivíduos no roxo , vermelho , azul , laranja e verde . Isto não é somente inevitável , como é saudável , normal e desejável . Entretanto , o que não é desejável é que qualquer dessas ondas domine o sistema de governo e , portanto , tente impingir seus valores às outras - sejam valores vermelhos , azuis , laranjas ou verdes . Resumindo , uma sociedade amarela teria leis que se originariam basicamente daquele nível de consciência de segunda camada . E a característica fundamental definidora do amarelo é que ele aceita todos os valores anteriores , sem permitir que nenhum deles reprima ou domine os outros .
Portanto , uma Federação Mundial , de segunda camada , integral , - em minha visão utópica - todas as democracias contemporâneas , que possuem uma força policial interna para restingir homicídios , estupros , assaltos , extorões , etc . Alguém cujo centro de gravidade seja verde não cometerá assassinatos , estupros ou assaltos . Entretanto , alguém cujo centro de gravidade seja vermelho fará qualquer uma dessas coisas , algumas vezes até alegremente . E como todos nascem na estaca zero e devem progredir através do roxo , vermelho , azul , e assim por diante , algum tipo de polícia será sempre necessário para proteger as pessoas daquelas que não evoluirem até um nível globocêntrico de cuidado e compaixão .
Assim , uma Federação Mundial teria , necessariamente , algum tipo de polícia . Chamemo-la de Guarda Mundial . Escusado dizer que a Guarda Mundial seria regulamentada pela Federação Mundial , e não por um país específico ( e , com certeza , não pela América , Inglaterra , França , Alemanha , etc ) .
Esta força polícial Não estaria autorizada a dizer para as pessoas em que nível de consciência deveriam estar ; Não estaria autorizada a controlar o que as pessoas fizessem na privacidade de seus lares ou casas ; Não estaria autorizada a coagir ou intimidar as pessoas que não se encontrassem no nível médio de desenvolvimento social . Entretanto , estaria autorizada a frustrar ( ou punir ) todos aqueles que tivessem um comportamento público derivado de um ponto-de-vista que não fosse globocêntrico . Por exemplo , se na privacidade do meu lar , penso em lançar à fogueira todas as pessoas que não aceitem Jesus como seu salvador pessoal , estou no meu direito . Por outro lado , se realmente atiro em você porque não acredita em Jesus , então o Estado - neste caso , a Federação Mundial - pode deter-me e encarcerar-me .
A regra simples , já utilizada implicitamente por todos os sistemas de governo globocêntricos ( isto é , no laranja ou superior , incluindo a Alemanha , França , América , Inglaterra , Japão , etc . ) é a seguinte : no dominio do Lado-Esquerdo , pense o que quiser ; mas no dominio do Lado-Direito , comporte-se físicamente de acordo com a lei globocêntrica ou poderá ser afastado da esfera pública .
Como já dissemos , nas democracias ocidentais , a " lei da terra " é predominantemente laranja ; nos últimos trinta anos , ela foi complementada com um número crescente de leis originárias da onda verde , incluíndo leis de oportunidades iguais de trabalho , leis de direito à seguridade social e leis anti-ódio . Isto significa , por exemplo , que você está autorizado a odiar homossexuais ( na privacidade de sua mente do Lado-Esquerdo ) , mas se expressa publicamente ( Lado-Direito ) esse ódio ( por exemplo , através de discursos pregando a violência contra homosexuais ) , haverá penalidades . Assim , em muitas democracias ocidentais , a liberdade de expressão ( um valor clássico laranja e , aqui nos EUA , uma liberdade assegurada pela Primeira Emenda ) frequentemente é complementada com limitações à liberdade de expressão ( um valor clássico verde : o verde deseja limitar a expressão que não esteja de acordo com seus valores ) . Meu ponto é que ambos expressam a regra implícita que formulei no parágrafo anterior .
Portanto , nesse aspecto , uma Federação Mundial não poderia ser diferente : podemos pensar o que quisermos ; mas devemos nos comportar de acordo com as leis provenientes do centro de gravidade do sistema de governo , neste caso , amarelo . Isto é , os valores incrustados na " lei da terra " não seriam laranja ou verdes , e sim amarelos ou integrais ; não de primeira camada , mas de segunda camada . Do mesmo modo , embora , novamente , as pessoas estejam autorizadas a pensar ou acreditar no que desejarem ( Lado-Esquerdo ) , seu comportamento público ( Lado-Direito ) seria regulamentado por padrões amarelos ( ou superiores ) . Como a principal postura do amarelo é integrativa , isto significa que todos os sistemas de valores de primeiras camada teriam seu lugar respeitado , mas nenhum valor de primeira camada estaria autorizado a colonizar outros .
Isto significaria , por exemplo , que a América estaria autorizada a desprezar o Iraque ( na privacidade de seu espaço cultural , nacional , do Lado-Esquerdo ) . Entretanto , a América não estaria autorizada a atacar o Iraque ( no campo internacional , público , do Lado-Direito ) .
Mas esta é apenas metade da história do que seria permitido a uma Federação Integral . De acordo com estimativas conservadoras e incontestes , Saddam Hussein matou aproximadamente duzentos mil curdos e outras duzentas mil pessoas de seu próprio povo , muitas vezes , após tortura , estupro ou por meio de gás venenoso . Uma Federação Mundial Integral , usando a força , se necessário , impediria todos esses atos . Nenhum deles se enquadra nos padrões amarelos e , por conseguinte , nenhum deles seria autorizado por leis mundiais amarelas . A invasão americana enquadra-se em padrões azuis-laranjas ; e a ação de Saddam Hussein enquadra-se em padrões vermelhos . Nenhuma delas seria aceita por uma Federação Mundial Integral .
Além disso , não é necessário dizer que , se fossem apresentadas provas incontestáveis de homicidio em massa numa audiência da Federação Mundial , ela invadiria e policiaria o Iraque .
Homicidio em massa em qualquer lugar viola valores globocêntricos . É permitido a Saddam Hussein odiar os curdos ( na privacidade de sua mente de meme vermelho ) ; não é permitido que mate duzentos mil deles com gás . Se ele fizesse isso , a policia da Federação Mundial usaria ação militar para impedir que Saddam Hussein continuasse a fazê-lo , caso ele não paeasse voluntariamente e desistisse imediatamente .
Pelas mesmas razões , eu , pessoalmente , acredito que , qualquer movimento de protesto que não proteste igualmente contra a invasão da América e contra o assassinato de quatrocentas mil pessoas por Saddam , é um movimento que não representa verdadeiramente a paz , a não-agressão ou valores globocêntricos .
Não tenho conhecimento de nenhum grande movimento que tenha protestado contra ambas as formas de violência , que tenha insistido numa fim imediato de ambas as agressões e oferecido um modo possível para sustá-las imediata e efetivamente , a fim de que nenhum lado possa dar continuidade a seus atos homicidas .
Isto é , infelizmente não tenho ciência de nenhum movimento integral de protesto no mundo .
Ao invés disso , há principalmente bolsões de azul , laranja e verde , uns na garganta dos outros .
Não há dúvidas quanto aos valores do Sr . Bush : são essencialmente azuis-laranjas . Foram esses valores profundamente fundamentalistas e absolutistas que assustaram muitos outros governos ( em particular os da França , Alemanha e Rússia ) ; isto é compreensível . Tipicamente , a onda azul divide o mundo em bom versus mau e possui um inabalável ( embora etnocêntrico ) senso de certo e errado . O " eixo do mal " de Bush é o azul clássico . O pior pode ser dito sobre a abordagem essencialmente azul de Bush é que ela é , de fato , profundamente etnocêntrica e imperialista . O melhor que se pode dizer dela é que cabe ao azul restringir o vermelho , e que os atos de Bush estão servindo à Espiral como um todo , erradicando bolsões de terrorismo vermelho .
A outra grande facção no debate está representando , essencialmente , valores do meme verde . A onda verde - denominada de " o eu sensível " por Graves - deseja acabar com todas as guerras ; portanto deve comportar-se como anti-guerra praticamente sob quaisquer circunstâncias . Como frequentemente é necessário guerrear para acabar com a guerra ( por exemplo , a Segunda Guerra Mundial foi necessária para acabar com Auschwitz ) , o verde normamente fica paralisado em face da real agressão mundial , insistindo em deitar-se na frente dos tanques nazistas , como se isso fosse detê-los . Mas enquanto o verde se vê protestando contra as agressões , sente-se relativamente feliz . O pior que pode ser dito desses contestadores é que são essencialmente " facilitadores de Saddam " ( exatamente como Neville Chamberlain foi um facilitador de Hitler ) . O melhor que se pode dizer é que esses indivíduos servem à Espiral completa , sensibilizando mais pessoas contra os horrores da agressão .
Quanto aos líderes mundiais - algum diz algo que se assemelhe a uma visão integral ? O único líder mundial que se aproxima um pouco , na minha opinião , é Tony Blair - praticamente sozinho , me parece - tem uma razoável consciência das variadas perspectivas e chega a conclusões ( e a linhas-de-ação ) baseando-se num quadro mais amplo. Ele insiste que a situação algo que deveria ser dado de qualquer maneira ) . Blair , quase sem ajuda , senta-se entre a América e a Europa , gritando para ambas : vocês não devem começar a competir e lutar entre si - este caminho leva a mais pesadelos do que possam imaginar . Blair , como o colosso de Rodes , tem um pé na América e outro na Europa e , heroicamente , parece ser o único líder mundial que tenta manter essa integração . Além disso , ele , solitariamente , está mantendo Bush orientado para a Organização das Nações Unidas ( que é desprezada pelo meme azul americano ) . Nem pode ser acusado de " tentar proteger seus interesses em petróleo " , porque a Inglaterra é uma exportadora líquida de petróleo . Sua visão tem sido consistente , discíplinada , mas imparcial . Na minha opinião , ele é a única pessoa com estrutura de líder mundial ; podemos imaginar o desastre que seria a campanha de Bush para manter o mundo unido , sem Blair . ( Um aparte sem querer ser indelicado , mas não se consegue imaginar o que se passa na mente de meme amarelo de Blair quando ele se reúne sozinho numa sala com a mente de meme azul de Bush . . . ) . Não causa nenhuma surpresa que Blair venha sendo um autêntico pioneiro na política da " terceira via " ( cf . A Theory of Everything ) , um dos primeiros movimentos sérios em direção a uma política integral , que una o melhor dos liberais e dos conservadores . Dada a situação real do mundo contemporâneo , a posição geral de Blair parece ser a melhor que , pragmaticamente , pode ser oferecida .
( Na minha opinião , o princípal item que falta no ponto de vista de Blair , para não mencionar outros importantes líderes políticos , é algum tipo sofisticado de perspectiva desenvolvimentista que , resumidamente , é uma das cinco importantes dimensões de uma abordagem integral ; ou seja , o aspecto dos " níveis " dos " quadrantes " , níveis , linhas , estados e tipos " . Um dos mais tristes efeitos não-integrais da liderança do mundo atual é o tumulto causado pelas democracias ocidentais , que acreditam poder plantar uma democracia de meme laranja , com laivos de sensibilidade de meme verde , no meio de um deserto de meme vermelho , e que ela germinará . Isto não é política mundial , isto é " João e o Pé de Feijão " . Todo mundo nasce na estaca zero . A menos que haja uma saudável infra-estrutura azul - seja em guetos urbanos ou tribos do Oriente Médio - não existe lugar para a juventude vermelha ir ; assim , ela acaba presa a uma estrutura de líderes guerreiros . Forçar " democracia " em tais culturas simplesmente resulta , como não poderia deixar de ser em qualquer lugar , na eleição livre de ditadores militares . Escusado dizer que este é um tópico complexo ; novamente convido os leitores a consultar A Theory of Everything para uma visão geral , bem como o site integralinstitute.org )
O que me chama a atenção nos debates altamente emocionais sobre a guerra no Iraque , é como todas as discussões estão profundamente imersas em disputas de valores de primeira camada .
Tanto os defensores azuis-laranja de Bush , quanto a midia ( e contestadores ) laranja-verde , apresentam relatos extremamente distorcidos , tendenciosos e preconceituosos dos acontecimentos . Constantemente , fico perplexo com a estreiteza brutal de uma dada perspectiva , mesmo ( e algumas vezes principalmente ) quando se apresenta como cuidadosa , inclusiva e compassiva . Existe muita verdade em cada lado do debate , mas não a verdade completa , como ambos os lados clamorosamente afirmam possuir .
Anseio por uma discussão onde possa florescer uma abertura integral . Anseio por um grupo de líderes mundiais que possam vislumbrar um quadro maior , permitindo , realmente , que todos os sistemas de valores existam , mas que somente seja tolerado o comportamento globocêntrico .
Anseio por esta boba visão utópica de uma Federação Mundial , onde " todos estão certos " , mas somente se alguns estiverem mais certos do que outros ( por exemplo , globocêntrico é mais correto do que etnocêntrico ; vide Excerto B " Three Principles Helpful for Any Integrative Approach " [ postado no site wilber.shambhala.com ] ) . Anseio por liberdade e plenitude de consciência integral , compartilhadas pelo maior número possível de seres sencientes . Anseio por um tempo , quando um valor integral não seja odiado pelo verde e pelo azul . Mas , ai de mim , parece que estou condenado a ansiar , basicamente , em isolamento .
Assim mesmo , o mundo deve fazer o que tem a fazer . Minha crença é que , neste século , assistiremos a atual Organização das Nações Unidas ser sibstituída , pacificamente , pelo primeiro movimento rumo a uma genuína Federação Mundial , impulsionada , particularmente , por ameaças globais , que não podem ser controladas em nível nacional ( tais como terrorismo , politica econômica e monetária mundial e problemas ambientais globais ) .
Acredito que a primeira Federação Mundial , provavelmente , será laranja-verde . Minha esperança é que seja o verde saudável , mas quem vai saber ? Acredito que essa Federação Mundial Verde dará passos substânciais em direção à harmonia global , mas , no final , enfrentará as limitações e contradições inerentes às perspectivas de primeira camada . Emergirá o equivalente a uma polícia-do-pensamento-politicamente-correto mundial - uma Inquisição verde , se preferirem - cujas brutalidades sutis , acompanhadas por uma série de acontecimentos extremamente desagradáveis , levarão uma Federação Mundial de segunda camada , amarela , a assumir o poder .
Mas isto , creio , será daqui a um século ou mais .
Até então - e considerando que hoje nenhum governo , nenhum movimento de protesto e nenhuma politica nacional ou internacional são integrais - somos forçados a perguntar : o que , pessoalmente , posso fazer , em face das terríveis circunstâncias atuais ? Aqui , somente posso repetir o que disse em meu comentário anterior , e o faço com profunda convicção :
Infelizmente , o mundo necessita de ação integral . Infelizmente , não a conseguiremos , indo ou não à guerra . Assim , é melhor acender uma vela do que reclamar da escuridão . Portanto , trabalhemos em nós mesmos e tentemos aumentar nossa própria consciência integral , um passo a cada dia , de modo que , no final , deixemos o mundo um pouquinho mais inteiro do que o encontramos . . .
1ª versão : 14 de abril de 2003
2ª versão : 16 de abril de 2003 ( novo : Tony Blair como líder mundial " integral " )
3ª versão : 16 de abril de 2003 ( novo : principal ponto fraco da política de Blair )
Texto : Ken Wilber
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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

" Uma Passagem para Atenas "

Entrevista de ken Wilber para Pathways ( Caminhos ) - Revista de Transformação

Psicológica e Espiritual

Tradução de Ari Raynsford

Pathways ( P ) : Por que o Espírito se preocupa em manifestar-se , especialmente quando essa manifestação é necessariamente dolorosa e requer que Ele se esqueça da Sua verdadeira identidade ? Por que Deus encarna ?
Ken Wilber ( Kw ) : Oh ! Vejo que você está começando pelas perguntas fáceis . Bem , vou dar-lhe umas poucas respostas teóricas que têm sido oferecidas ao longo dos anos e depois relatarei minha experiência pessoal , tal como é .
Na verdade , fiz esta mesma pergunta a alguns mestres espirituais e um deles deu-me uma resposta rápida e clássica : " Jantar sozinho não tem graça . "
A princípio , esta resposta parece ser um pouco impertinente ou leviana , mas , à medida que se pensa sobre ela , cada vez mais começa a fazer sentido . O que aconteceria se , só por diversão , fizéssemos de conta - blasfematoricamente , você e eu fingíssemos por um momento - que somos Espírito , aquele Tat Tvam Asi ? Se você é Deus Todo-Poderoso , por que criaria um mundo ? Um mundo que , como você bem salientou , é necessariamente de separação , desordem e dor . Por que você , que é Um , daria origem ao Muito ?
Pathways : Jantar sozinho não tem graça ?
Ken Wilber : Não começa a fazer sentido ? Aqui está você , o Um e o Único , o Solitário e o Infinito . O que você vai fazer a seguir ? Você se banha em sua própria glória por toda a eternidade , regozija-se com seu próprio encanto por eras e eras , e , depois , o que mais ?
Cedo ou tarde , você pode decidir que seria divertido - só divertido - fingir que você não é você . O que quero dizer é : o que mais você vai fazer ? O que mais você pode fazer ?
Pathways : Criar um mundo .
Ken Wilber : Você não acha ? Mas , aí , começa a ficar interessante . Quando era criança , costumava jogar damas comigo mesmo . Você já tentou ?
Pathways : Sim . Lembro-me de ter feito algo assim .
Ken Wilber : E funcionava ?
Pathways : Não exatamente , porque sempre sabia qual seria a próxima jogada do meu " oponente " . Estava jogando em ambos os lados ; assim , não conseguia " surpreender " a mim mesmo . Eu sempre sabia o que ambos os lados iam fazer - não era propriamente um jogo . Você precisa de alguém mais para jogar .
Ken Wilber : Sim , exatamente , este é o problema . Você precisa de um " outro " . Assim , se você é o único Ser em toda a existência e você quer jogar - jogar qualquer tipo de jogo - você tem que assumir o papel do outro e depois esquecer que está jogando em ambos os lados . De outro modo , o jogo não seria divertido . Tem que fazer de conta que é o outro jogador com tal convicção a ponto de esquecer que está assumindo todos os papéis . Se você não esquece , não há jogo , não é divertido .
Pathways : Assim , se quer jogar - penso que o termo oriental é lila - tem que esquecer quem você é . Aminésia .
Ken Wilber : Acho que sim . E este é exatamente o cerne da resposta dada pelos místicos do mundo inteiro . Se você é o Um e - enfastiado da mais pura exuberância , plenitude , superabundância - quer jogar , alegrar-se , divertir-se , então , primeiro , deve manifestar o Muito e , segundo , esquecer-se que é o Muito . De outro modo , não há jogo . Criação ( manifestação , encarnação ) é o grande Jogo do Um fazendo de conta que é o Muito , por puro esporte e diversão .
Pathways : Mas não é sempre divertido .
Ken Wilber : Bem , sim e não . O mundo manifesto é um mundo de opostos - de prazer versus dor , acima versus abaixo , bem versus mal , sujeito versus objeto , luz versus sombra . Mas se você quer jogar o grande Jogo Cósmico , aquele que você mesmo criou , o que mais pode fazer ? Se não há divisões , nem jogadores , nem sofrimento e nem Muito , então você simplesmente se mantém como o Um e Único , Solitário e Indiferente . Mas jantar sozinho não tem graça .
Pathways : Assim , iniciar o jogo da criação é iniciar o mundo de sofrimento .
Ken Wilber : Começa a ter sentido , não acha ? E os místicos parecem concordar . Mas há uma saída para esse sofrimento , um caminho para livrar-se dos opostos , que envolve o entendimento direto e irresistível que o Espírito não é bem versus mal , ou prazer versus dor , ou luz versus escuridão , ou vida versus morte , ou todo versus parte , ou holístico versus analítico . O Espírito é o grande Jogador que dá origem a todos os opostos igualmente - " Eu , o Senhor , faço a Luz iluminar tanto o bom como o mau ; Eu , o Senhor , faço todas as coisas " - e os místicos do mundo inteiro concordam . O Espírito não é a metade boa de todos os opostos , mas sim a essência de todos os opostos , e nossa " salvação " , por assim dizer , não está em encontrar a metade boa do dualismo e sim achar a Fonte de ambas as metades do dualismo , porque , em verdade , é isso que realmente somos . Somos ambos os lados no grande Jogo da Vida , porque - no mais fundo do verdadeiro Eu - criamos ambos os opostos com o objetivo de jogarmos um grande jogo de damas cósmico .
Essa , pelo menos , é a resposta " teórica " que os místicos quase sempre dão . " Não-dualidade " , como citada nos Upanishads , é " libertar-se dos pares " . Isto é , a suprema libertação consiste em livrar-se dos pares de opostos , da dualidade - e encontrar , ao invés , o não-dual Um Sabor que dá origem a ambos . Isto é libertação , porque paramos de acalentar o impossível e doloroso sonho de passarmos nossas vidas inteiras tentando encontrar acima sem abaixo , dentro sem fora , bem sem mal , prazer sem a inevitável dor .
Pathways : Você disse que também tem uma resposta mais pessoal .
Ken Wilber : Sim . Quando experienciei pela primeira vez , embora de maneira fugaz , " nirvikalpa samadhi " - que significa absorção meditativa no Uno informe - lembro-me de ter tido o vago sentimento - muito sutil , muito fraco - que não gostaria de estar sozinho nessa maravilhosa extensão . Recordo-me de sentir , de maneira muito difusa mas muito insistente , que gostaria de compartilhá-la com alguém . Então , o que se poderia fazer em um tal estado de solidão ?
Pathways : Criar o mundo .
Ken Wilber : Assim me parece . E eu soube , embora amadoristicamente , que se me originei do Uno informe e reconheci o mundo do Muito , então teria que sofrer , porque o Muito sempre fere os outros , assim como os ajuda . E sabe de uma coisa ? Fiquei feliz de render-me à paz do Um , mesmo que isso significasse a dor do Muito . Agora , isto é uma pequena degustação daquilo que os grandes místicos sentem , mas minha limitada experiência parece estar de acordo com sua profunda declaração : Você é o Um transformado livremente no Muito - para a dor e o prazer , e todos os outros opostos - porque você decidiu não se conformar com a maravolhosa solidão do Infinito e não quer jantar sozinho .
Pathways : E a dor envolvida ?
Ken Wilber : É escolhida livremente como parte necessária do Jogo da Vida . Você não pode ter um mundo criado sem todos os opostos de dor e prazer . E para livrar-se da dor - o pecado , o sofrimento , duhka - você deve lembrar-se de quem e o que você realmente é .
Esta lembrança , esta recordação , esta anamnese - " Faça isto em Minha Memória " - significa " Faça isto em Memória do Eu que Você É " - Tat Tvam Asi . As grandes religiões místicas do mundo consistem de uma série de práticas profundas para aquietar o pequeno eu que fingimos ser - que causa a dor e o sofrimento que sentimos - e despertar o Grande Eu que é nossa verdadeira essência , objetivo e destino - " Deixe esta consciência estar em você como esteve em Jesus Cristo . "
Pathways : Este despertar é um negócio de tudo-ou-nada ?
Ken Wilber : Normamente , não . Usualmente , é uma série de vislumbres do Um Sabor - vislumbres do fato de que você é um com absolutamente todas as manifestações , nos seus aspectos bons e maus , frios e quentes , no prazer e na dor . Você é , literalmente , o Kosmos . Mas você tende a compreender este fato definitivo num crescendo de vislumbres do infinito que você é , e passa a entender exatamente porque começou este maravilhoso e horrível Jogo da Vida . Mas , absolutamente , não é um Jogo cruel , porque , em última instância , você sozinho , instigou este Drama , esta Lila , esta Gnose .
Pathways : Mas o que você me diz da opinião de que essas experiências do " Um Sabor " ou " Consciência Kósmica " são apenas um subproduto da meditação e , desse modo , não são " realmente reais " ?
Ken Wilber : Bem , isso pode ser dito de qualquer tipo de conhecimento que dependa de um instrumento . " Consciência Kósmica " normamente depende do instrumento da meditação . E daí ? Ver o núcleo de uma célula depende de um microscópio . Você diria que o núcleo de uma célula não é real somente porque é subproduto de um microscópio ? Podemos afirmar que as luas de Júpiter não são reais porque dependem de um telescópio ? As pessoas que levantam essa objeção são quase sempre aquelas que não querem olhar através do instrumento da meditação , do mesmo modo que os Homens da Igreja recusam-se a olhar pelo telescópio de Galileu para confirmar a existência das luas de Júpiter . Deixe-os viver com sua recusa . Mas que nós - com o melhor da nossa habilidade e , espero , guiados pelo melhor da caridade ou compaixão - tentemos convencê-los a olhar , somente uma vez , e ver por si próprios . Não coagi-los , apenas convidá-los . Suspeito que um mundo totalmente diferente abrir-se-ia para eles , um mundo que tem sido abundantemente verificado por todos que olham pelo telescópio , e microscópio , da meditação .
Pathways : Você poderia nos dizer . . .
Ken Wilber : Permita-me interrompê-lo . Posso citar-lhe uma das minhas passagens favoritas de Aldous Huxley ?
Pathways : Por favor .
Ken Wilber : Esta é de After Many a Summer Dies the Swan ( Após Muitos Verões Morre o Cisne ) :
" Gosto das palavras que tenham alguma relação com fatos . Daí porque me interesso pela eternidade - eternidade psicológica . Porque é um fato . "
" Para você talvez , " respondeu Jeremias .
" Para qualquer um que deseje satisfazer as condições sob as quais ela possa ser experienciada
" E por que alguém desejaria satisfaze-las ? "
" Por que alguém desejaria ir a Atenas para ver o Parthenon ? Porque vale a pena . E o mesmo é válido para a eternidade . A experiência do bem eterno vale todos os desconfortos envolvidos . "
" Bem eterno . " Jeremias repetiu com desdém . " Não entendo o que essas palavras significam . "
" Por que você deveria ? " retrucou Mr . Propter . " Você nunca comprou sua passagem para Atenas . "
Pathways : Assim , contemplação é a passagem para Atenas ?
Ken Wilber : Você não acha ?
Pathways : Com certeza . Fico pensando se você não poderia nos falar um pouco mais sobre sua passagem para Atenas . Poderia nos contar a história de suas experiências com meditação ? O que é " prática integral " e o que ela oferece para o moderno buscador espiritual ?
Ken Wilber : Bem , não tenho certeza se posso dizer algo significativo sobre minha história num curto espaço . Venho meditando há vinte e cinco anos e acho que minhas experiências não são muito diferentes das de todos os que trilharam o mesmo caminho . Mas tentarei dizer alguma coisa sobre " prática integral " , porque suspeito que seja a onda do futuro . A idéia é muito simples , e Tony Schwartz - autor de What Really Matters : Searching for Wisdom in America ( O Que Realmente Interessa : À Procura da Sabedoria na América ) - a resumiu como uma tentativa " de casar Freud e Buda . " Isto significa , simplesmente , a tentativa de integrar as contribuições da " psicologia da profundidade " ocidental com a grande sabedoria das tradições da " psicologia da altura " - a tentativa de integrar id e Espírito , sombra e Deus , libido e Brama , istinto e Deusa , inferior e superior - acho que a idéia é suficientemente clara , independentemente dos termos que sejam usados .
Pathways : Como uma prática concreta ?
Ken Wilber : Sim , a prática concreta é baseada em algo assim : dada a Grande Cadeia do Ser - que vai da matéria para o corpo , para a mente , para a alma , para o espírito - como podemos reconhecer , honrar e exercitar todos esses níveis em nosso próprio ser ? E se o conseguirmos - se nos engajarmos em todos os níveis do nosso potencial - isso não nos facilitará relembrar a Fonte do grande Jogo da Vida , que não é outra senão nosso próprio Eu profundo ( Self ) ? Se o Espírito é a Essência e o Objetivo de todos esses níveis , e se , em verdade , somos Espírito , o engalamento sincero em todos eses níveis não nos ajudará relembrar quem e o que realmente somos ?
Bem , essa é a teoria , que , acho , coloquei em palavras muito secas . Concretamente , a idéia é : escolha uma prática ( ou práticas ) de cada um desses níveis e engaje-se sinceramente em todas elas . Para o nível físico você pode incluir ioga física , levantamento de peso , vitaminas , nutrição , corrida , etc . Para o nível corpo/emocional você pode tentar sexualidade tântrica , terapia que ajude a controlar o lado sentimental do seu ser , bioenergética , etc . Para o nível mental , terapia cognitiva , terapia narrativa , terapia da fala , terapia psicodinâmica , etc . Para o nível da alma , meditação contemplativa , ioga da divindade , contemplação sutil , oração centralizadora e assim por diante . E para o nível do espírito , as práticas mais não-dualísticas como o Zen , Dzogchen , Advaita Vedanta , Kashmir Shaivismo , misticismo cristão informe , etc .
Hesito em fornecer uma lista porque , como você sabe , há , literalmente , milhares de práticas maravilhosas para todos esses níveis e eu me arrepio com a possibilidade de excluir alguma . Mas , por favor , focalize simplesmente a idéia básica : assuma uma ou mais práticas para cada um dos níveis do seu ser - matéria para o corpo , para a mente , para alma , para espírito - e exercite todas elas da melhor forma possível , individual e coletivamente . Não só você , simplesmente , passará a sentir-se melhor no nível mundano , como também aumentará dramaticamente suas chances de começar a entender seu próprio Estado radical , que é o próprio Espírito , sua mais profunda identidade e impulso .
Pathways : Atualmente , há professores para este tipo de prática integral ?
Ken Wilber : Bem , infelizmente , nos dias de hoje , ainda não há muitos professores . Em parte , este tipo de prática integral é uma união do Ocidente com o Oriente , e eles foram apresentados um ao outro só recentemente . Mas há professores estupendos trabalhando com um ou mais níveis - e , assim , neste momento , você simplesmente tem que " escolher a roupa adequada " - ou escolher os melhores professores para cada um dos níveis . Encontre um bom exercício físico que o agrade , e um programa nutricional decente . Tente empenhar-se em uma boa prática psicoterapêutica - poderá ser simplesmente escrever seus sonhos ou fazer parte de um grupo de debate . Tente uma boa prática de meditação e preste um serviço comunitário . Não quero que isto pareça uma coisa terrivelmente fascista - mas tente , o melhor que puder , empenhar-se totalmente a fim de despertar totalmente .
Pathways : Pelo menos há professores que estão buscando essa prática integral ?
Ken Wilber : Sim . Há alguns escritores que , hoje , estão enfatizando a importância de uma abordagem integral , e embora todos ainda estejam num nível muito preliminar , são um bom lugar para começar . Você pode tentar The Life We Are Given de Michael Murphy e George Leonard , What Really Matters de Tony Schwartz , Paths Beyond Ego de Roger Walsh e Frances Vaughan e o meu The Eve of Spirit .
Mas a idéia é muito simples : praticando somente em um nível , seu ser não se iluminará totalmente . Se simplesmente meditar , seu " lixo " psicodinâmico não irá automaticamente embora . Se você só meditar , seu emprego ou seu relacionamento com sua esposa não irão , automaticamente , melhorar . Por outro lado , se só fizer psicoterapia , não pense que sentir-se-á aliviado da carga da morte ou do medo . Dê a Freud o que é de Freud e a Buda o que é de Buda . E , acima de tudo , se dê completamente ao Divino , empenhando tudo o que você é .
Oh , puxa , está parecendo até um comercial dos Fuzileiros Navais : " Seja o melhor que puder " . Mas , realmente , o ponto é que quanto mais dimensões de si próprio estiverem empenhadas na busca da Fonte deste maluco Jogo da Vida , mais provavelmente irá descobrir o fato exepcionalmente belo de que você e somente você é o Autor deste Jogo . E isto não é uma afirmação teórica ; é a melhor oportunidade que temos para obter nossa passagem para Atenas .
Texto : Ken Wilber
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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

" A Visão " new-age " Sobre Doença e Carma "

( Excertos do livro Grace and Grit de ken Wilber )

Tradução de Ari Raynsford


Visão " new age " da doença : a doença é uma lição . Você está-se permitindo esta doença porque há algo muito importante a aprender com ela a fim de continuar seu crescimento espiritual e evolução . A mente sozinha causa a doença e somente a mente pode curá-la .
Voltei a escrever ! Em um mês e meio , trabalhando febrilmente dia e noite , produzi um livro de oitocentas páginas com o título provisório The Great Chain of Being : A Modern Introduction to the Perennial Philosophy and the Word's Great Mystical Traditions .
Meu velho demônio bom , após três anos de confinamento na prisão da minha mentira a mentira de culpar Treya - explodiu em cena cheio de energia e vontade . Deus , eu entrei em êxtase ! Treya ajudou-me enormemente com o livro , lendo cada capítulo saído ainda quente da impressora , dando-me inestimável retorno e , frequentemente , sugerindo que refizesse seções inteiras . Nos momentos de descanso , sentávamos aconchegados pensando em títulos bobos para o livro como , por exemplo , Who Is This God Person , Anyway ? ( Quem é este tal de Deus , afinal ? ) .
Nesse ínterim , trabalhei com vigor no livro . Um de seus capítulos , " Saúde , Totalidade e Cura " foi publicado na revista New Age junto com o artigo de Treya , com o título " Nós nos fazemos doentes ? " . Não repetirei o capítulo aqui , mas resumirei brevemente seus principais pontos , uma vez que representam a culminância de meus pensamentos em relação ao difícil problema pelo qual Treya e eu estávamos passando nos últimos três anos .
1. O argumento básico da filosofia perene é que homens e mulheres estão imersos na Grande Cadeia do Ser . Isto é , temos em nós matéria , corpo , mente alma e espírito .
2. Para cada doença , é extremamente importante tentar determinar que nível ou níveis primariamente a originam - físico , emocional , mental ou espiritual .
3. É muito importante usar procedimento do " mesmo nível " ( mas não necessariamente o único ) para o rumo inicial do tratamento . Use intervenção física para doenças físicas , terapia emocional para distúrbios emocionais , métodos espirituais para crises espirituais e assim por diante . No caso de uma mistura de causas , use uma mistura de tratamentos dos níveis apropriados .
4. Isto é especialmente importante porque se você errar no diagnóstico da doença pensando que ela origina-se num nível mais elevado , então gerará culpa ; se diagnosticá-la num nível inferior ao correto , gerará desespero . Em qualquer dos casos , o tratamento não será eficaz , com a desvantagem adicional de gerar no paciente culpa ou desespero devido somente a um erro de diagnóstico .
Por exemplo , se você for atropelado por um ônibus e quebrar a perna , esta é uma doença física com recursos físicos : coloca-se o osso no lugar e engessa-se a perna . É uma intervenção do " mesmo nível " . Você não se senta na calçada e visualiza sua perna curando-se . Esta é uma técnica do nível mental que não é efetiva para este problema do nível físico . E mais , se lhe disserem que a causa do seu acidente foram simplesmente seus pensamentos e que você deveria ser capaz de curar sua perna com seus pensamentos , então a única coisa que vai acontecer é que você sentirá culpa , irá autocondenar-se e sua auto-estima diminuirá . É um completo descasamento de níveis e tratamentos .
Por outro lado , se você está sofrendo , digamos , de baixa auto-estima por causa de certos papéis internalizados de que é fraco e um incompetente , este é um problema do nível mental que responde bem a intervenções do nível mental , tais como visualização ou afirmação ( reescrita do papel - exatamente o que a terapia cognitiva faz ) . Se usar intervenções do nível físico - tomar megavitaminas ou mudar sua dieta - não terá muito efeito ( a menos que você realmente esteja com um desbalanceamento vitamínico contribuindo para o problema ) . E se tentar usar somente tratamentos do nível físico , terminará em alguma forma de desespero , porque os tratamentos são do nível errado e simplesmente não funcionarão bem .
Assim , em minha opinião , a abordagem genérica para qualquer doença deve começar de baixo para cima . Primeiro , procure por causas físicas . Pesquise todas as possibilidades da melhor maneira . Depois , pesquise possíveis causas emocionais ; seja exaustivo . Então passe para causas mentais e , por fim , espirituais .
Isto é particularmente importante , porque muitas doenças que no passado eram creditadas a origens puramente psicológicas ou espirituais , hoje sabe-se que são causadas principalmente por componentes físicos ou genéticos . Antigamente , pensava-se que a asma se devia a uma " mãe asfixiante " . Hoje sabe-se que ela é principalmente biofísica nas causas e na emergência . Tuberculose era fruto de uma " personalidade consumptiva " ; gota , de fraqueza moral . Acreditava-se largamente em uma " personalidade artritóide " , que não resistiu ao teste do tempo . Tudo o que essas crenças faziam era gerar culpa em suas vítimas ; as curas não aconteciam simplesmente porque estavam sendo considerados os níveis errados .
Entretanto , isto não significa que os tratamentos dos outros níveis não sejam muito importantes como suporte ou coadjuvantes . Definitivamente , eles poderão ser . No exemplo simples da perna quebrada , técnicas de relaxamento , visualização , afirmação , meditação , psicoterapia se necessária - todas elas podem contribuir para uma atmosfera mais equilibrada na qual a cura física poderá ocorrer mais facilmente e rapidamente .
O que não ajuda é , considerando-se que todos esses aspectos psicológicos e espirituais podem ser muito úteis , afirmar-se que a razão de você ter quebrado sua perna é que lhe faltam , em primeiro lugar , essas características psicológicas e espirituais . Uma pessoa acometida de uma doença grave pode modificar-se profundamente em função da mesma ; daí não se pode inferir que ela contraiu a doença por falta de mudanças . Isto é o mesmo que pensar : se você está com febre e toma uma aspirina , a febre baixa ; portanto , ter febre deve-se a uma deficiência de aspirina .
Agora , obviamente muitas doenças não se originam de um simples nível isolado . O que quer que aconteça em um nível ou dimensão do ser afeta todos os outros níveis em maior ou menor grau . A composição emocional , mental e espiritual de uma pessoa com certeza pode influenciar na doença física e na cura física , do mesmo modo que a doença física pode repercutir fortemente nos níveis superiores . Quebre sua perna e este fato provavelmente acarretará efeitos emocionais e psicológicos . Na teoria de sistemas isto é chamado " causação ascendente " - um nível mais baixo produz certos eventos em um nível mais alto . E o inverso , " causação descendente " , é quando um nível mais elevado tem um efeito causal ou infuencia um nível mais baixo .
A pergunta , então , simplesmente é : quanta " causação descendente " nossa mente - nossos pensamentos e emoções - tem na doença física ? E a resposta parece ser : muito mais do que se pensava anteriormente , mas muito menos do que os adeptos da " new age " acreditam .
A nova escola da psiconeuroimunologia ( PNI ) tem descoberto evidências convincentes de que nossos pensamentos e emoções podem influenciar diretamente nosso sistema imunológico . O efeito não é grande , mas é detectável . Obviamente , isto é o que esperaríamos do axioma segundo o qual todos os níveis afetam todos os outros níveis de algum modo , embora secundariamente . Mas , uma vez que a medicina enveredou para uma ciência puramente do nível físico e desconsiderou a influência dos níveis superiores na doença nível-físico ( " o fantasma na máquina " ) , a PNI veio prover a correção necessária , oferecendo uma visão mais equilibrada . A mente pode afetar o corpo num grau pequeno , mas não insignificante .
Em particular , descobriu-se que formação de imagens e visualizações talvez sejam os mais importantes ingredientes na influência " pequena mas não insignificante " da mente sobre o corpo e sobre o sistema imunológico . Por que imagem ? Observemos a versão mais completa da Grande Cadeia do Ser , notando onde as imagens ocorrem : matéria , sensação , percepção , impulso , imagem , símbolo , conceito e assim por diante . A imagem é a mais baixa e a mais primitiva parte da mente , colocando-a diretamente em contato com a parte mais alta do corpo . Em outras palavras , a imagem é a conexão direta da mente com o corpo - suas tendências , seus impulsos , sua bioenergia . Nossos pensamentos e conceitos mais elevados podem ser traduzidos para baixo em simples imagens e estas , aparentemente , têm influência modesta , porém direta , nos sistemas do corpo ( via influência ou impulso , a dimensão inferior seguinte ) .
Então , todas as coisas consideradas , as tendências psicológicas representam algum papel em cada doença . E concordo que esse componente deve ser exercitado ao máximo .
Numa eleição , essas tendências podem ser suficientes para fazer pender o prato da balança em favor da saúde ou da doença , mas sozinhas , não são capazes de encher a urna de votos .
Assim , como Steven Locke e Douglas Colligan escreveram em The Healer Within ( O Curador Interno ) , com efeito , toda doença tem um componente psicológico e todo processo de cura é afetado pela psicologia . Mas , continuam os autores , o problema é que as pessoas confundem o termo psicossomático , que significa que um processo de doença física pode ser afetado por fatores psicológicos , com o termo psicogênico , que significa que a doença é causada somente por fatores psicológicos . Os autores afirmam : " No sentido correto da palavra , toda doença pode ser considerada psicossomática ; talvez seja a hora de aposentar definitivamente o termo psicossomático . [ Porque ] tanto o público como alguns médicos usam as palavras psicossomático ( significando que a mente pode influenciar a saúde do corpo ) e psicogênico ( significando que a mente pode causar doenças no corpo ) intercambiavelmente . Eles perderam de vista o verdadeiro significado de doença psicossomática . " Como Roberto Ader sugere , " Não estamos falando sobre a causação das doenças mas sim da interação entre eventos psicossociais e condições biológicas pré-existentes " .
Os próprios autores mencionam hereditariedade , estilo de vida , drogas , local , ocupação , idade e personalidade . É a interação de todos esses fatores - eu adicionaria fatores existenciais e espirituais - de todos os níveis que , juntos parecem influenciar a causa e o curso das doenças físicas . Escolher um desses fatores e ignorar os demais é uma simplificação absurda .
Então , de onde vem essa idéia dos divulgadores da " new age " de que sua mente sozinha causa e cura todas as doenças físicas ? Eles afirmam , afinal , ter uma sólida base nas grandes tradições místicas , espirituais e transcendentais do mundo . E , aqui , acho que eles se encontram num campo minado . Jeanne Achterberg , autora de Imagery in Healing ( que recomendo com empenho ) , acredita que esta noção pode ser historicamente rastreada até o Novo Pensamento , ou Pensamento Metafísico , que emergiu de uma leitura ( distorcida ) dos transcendentalistas da Nova Inglaterra , Emerson e Thoreau , os quais basearam muito da sua obra no misticismo oriental . As escolas do Novo Pensamento , das quais a Ciência Cristã é a mais famosa , confundem a noção correta " Deus cria tudo " com a noção " Desde que eu sou um com Deus , eu crio tudo . "
Esta posição apresenta dois erros e , acredito , teria a discordância veemente tanto de Emerson quanto de Thoreau . Primeiro , que Deus é um pai interveniente para o universo ao invés de Realidade , Essência ou Condição imparcial . E segundo , que o ego é um com esse Deus paternal e , portanto , pode intervir e ordenar o universo ao redor .
Não encontrei o menor suporte para estas noções em quaisquer das tradições místicas .
Os advogados da " new age " afirmam estar baseando esta idéia no princípio do carma , que diz que as circunstâncias da sua vida atual são o resultado de pensamentos e ações de uma vida passada . De acordo com o Hinduísmo e o Budismo , isto é parcialmente verdadeiro . Mas mesmo que fosse totalmente verdadeiro , o que não é , os adeptos da " new age " , em minha opinião , passaram por cima de um ponto crucial : conforme essas tradições , suas circunstâncias presentes são o resultado de pensamentos e ações de uma vida anterior e seus pensamentos e ações atuais afetarão , não sua vida presente , mas sua próxima vida , sua próxima encarnação . Os budistas dizem que na vida atual você está simplesmente lendo um livro que escreveu na vida passada e o que você está fazendo agora só se concretizará em sua próxima vida . Em nenhum dos casos , seu pensamento presente cria sua realidade atual .
Agora , acontece que , pessoalmente , não acredito nesta visão particular de carma . É uma noção muito primitiva , subsequentemente refinada ( e largamente abandonada ) pelas escolas superiores do Budismo , onde reconheceu-se que nem tudo que acontece com você é resultado das suas ações passadas . Como Namkhai Norbu , mestre do Budismo Dochen ( geralmente considerado como o pináculo do ensinamento budista ) , explica :
" Há doenças devidas ao carma ou a condições prévias do indivíduo . Mas também há doenças geradas por energias que vêm de outros , de fora . E há doenças provocadas por causas provisionais , como alimentos ou outras combinações de circunstâncias . E há doenças devidas a acidentes . Assim , há todos os tipos de doenças ligadas ao ambiente . "
Minha opinião é que nem a versão primitiva do carma nem os ensinamentos mais desenvolvidos dão suporte à visão " new age " .
Então , de onde realmente veio esta noção ? Aqui , afastar-me-ei de Treya e apresentarei minha teoria predileta sobre as pessoas que assim acreditam . Não irei falar com compaixão sobre os sofrimentos que essas idéias causam . Tentarei separá-las , categorizá-las , formular teorias sobre elas , porque creio que essas idéias são perigosas e precisam ser arrumadas , se não por qualquer outra razão , pelo menos para prevenir sofrimentos posteriores . E meus comentários não são dirigidos ao grande número de pessoas que acreditam nelas de um modo inocente , ingênuo e inócuo . Tenho mais em mente os líderes nacionais desse movimento , indivíduos que dão seminários criando sua própria realidade ; que desenvolvem " workshops " que ensinam , por exemplo , que o câncer é causado somente por ressentimento ; que ensinam que a pobreza é responsabilidade sua e a opressão , algo que você trouxe consigo . Talvez sejam pessoas bem-intencionadas , mas , de qualquer modo , em minha opinião , perigosas , uma vez que desviam a atenção dos níveis reais - físico , ambiental , legal , moral e sócio-econômico , por exemplo - onde há muito trabalho a ser realizado urgentemente .
Para mim , essas crenças - particularmente a crença de que você cria sua própria realidade - são crenças do nível dois . Elas têm todas as marcas autenticadoras da visão de mundo infantil e mágica das desordens de personalidade narcisísticas . A idéia de que os pensamentos não só influenciam a realidade como também a criam é o resultado direto , em minha opinião , da diferenciação incompleta da fronteira do ego que define o nível dois . Pensamentos e objetos não são claramente separados ; assim manipular o pensamento é manipular de modo onipotente e mágico o objeto .
Acredito que a cultura hiperindividualista da América , que atingiu seu apogeu na " década do eu " , incentivou a regressão para os níveis narcisístico e mágico . Creio ( como Robert Bellah e Dick Anthony ) que o colapso de estruturas sociais mais coesivas levou os indivíduos de volta a seus próprios recursos , e isto também ajudou a reativar tendências narcisísticas . E acredito , junto com psicólogos clínicos , que por baixo da superfície do narcisismo , furtivamente está a raiva , particularmente , mas não somente , expressa pela crença : Não quero machucar você , eu a amo ; mas se você discordar de mim contrairá uma doença que a matará . Concorde comigo , concorde que pode criar sua própria realidade e você melhorará , você viverá . " Isto não tem nenhuma base nas grandes tradições místicas do mundo ; baseia-se em patologia narcisística e limítrofe .
Enquanto a maioria da correspondência e resposta da revista New Age concordava com meu sentimento de insulto moral com respeito ao que essas idéias estavam fazendo a tanta gente inocente , os new agers radicais reagiram furiosamente dizendo coisas como : se eu e Treya pensávamos daquela maneira ela merecia estar com câncer ; ela o estava gerando em si mesma com esses pensamentos .
Esta não é uma condenação cega de todo o movimento " new age " . Há aspectos dele - acima de tudo é uma besta grande e variada - que efetivamente baseiam-se em genuínos princípios místicos e transpessoais ( como a importância da intuição e a existência da consciência universal ) . O problema é que qualquer movimento genuinamente transpessoal sempre atrai um grande número de elementos pré-pessoais , simplesmente porque ambos são não-pessoais ; é exatamente esta confusão entre " pré " e " trans " um dos pricipais problemas do movimento " new age " em minha opinião .
Eis um exemplo concreto baseado em pesquisa empírica . Durante os tumultos em Berkeley em protesto contra a guerra do Vietnam , um grupo de pesquisadores aplicou o teste de desenvolvimento moral de Kohlberg a uma amostra representativa de estudantes . Os estudantes , enfim , afirmavam que sua maior objeção à guerra era por ser ela imoral . Ora , em que estágios de desenvolvimento moral os estudantes estavam operando ?
O que os pesquisadores descobriram foi que uma pequena percentagem de estudantes , algo como 20% , estava efetivamente operando nos estágios pós-convencionais ( ou estágios transconvencionais ) . Isto é , suas objeções eram fundamentadas em princípios universais de certo e errado ; eles não se baseavam em padrões de uma sociedade particular ou em caprichos individuais . Suas crenças sobre a guerra poderiam estar certas ou erradas , mas sua argumentação denotava um elevado desenvolvimento moral .
Por outro lado , a grande maioria dos protestantes - cerca de 80% - era pré-convencional , o que significa que sua argumentação moral fundamentava-se em motivos pessoais extremamente egoístas . Eles não queriam lutar , não porque a guerra era imoral , não porque se preocupassem com o povo vietnamita , mas sim porque não queriam ninguém dizendo-lhes o que fazer . Seus motivos não eram universais ou mesmo sociais , mas simplesmente egoístas . E , como esperado , não havia quase estudantes no nível convencional , o nível do " meu país certo ou errado " ( simplesmente porque estes estudantes não teriam do que protestar , em primeiro lugar ) . Em outras palavras , um pequeno número de estudantes verdadeiramente pós ou transconvencionais atraiu um grande número de tipos pré-convencionais , porque o que ambos tinham em comum era o fato de serem não-convencionais .
Do mesmo modo , creio que , no movimento " new age " , uma pequena percentagem de genuínos elementos e princípios místicos , transpessoais ou transracionais ( níveis sete a nove ) atraiu um grande número de elementos pré-pessoais , mágicos e pré-racionais ( níveis um a quatro ) simplesmente porque ambos são não-racionais , não-convencionais , não-ortodoxos . E , então , esses elementos pré-pessoais e pré-racionais afirmam , como fizeram os estudantes pré-convencionais , que possuem a autoridade e o suporte de um estado " superior " , quando o que realmente estão fazendo , temo dizer , é racionalizar sua própria postura egoísta . Como Jack Engler enfatizou , eles são atraídos pelo misticismo transpessoal como um modo de racionalizar suas inclinações pré-pessoais . É uma clássica " falácia pré-trans " .
Concluiria também , com William Irwin Thompson , que cerca de 20% do movimento " new age " é transpessoal ( transcendental e genuinamente místico ) ; cerca de 80% , pré-pessoal ( mágico e narcisístico ) . Normalmente descobrem-se os elementos transpessoais porque eles não gostam de ser chamados de " new age " . Não há nada de " novo " ( new ) neles ; eles são perenes .
No campo da psicologia transpessoal , constantemente temos que lidar com as tendências pré-pessoais do modo mais gentil e delicado possível , porque elas conferem ao campo toda uma reputação de " esquisito " ou " bobo " . Não temos nada contra crenças pré-pessoais ; simplesmente sentimo-nos incomodados quando nos pedem para adotar essas crenças como se fossem transpessoais .
Nossos amigos " esquisitos " ficam danados conosco porque pensam existir somente dois campos no mundo : racional e não-racional ; assim , deveríamos juntar-nos a eles contra o campo racionalista . Mas há de fato três campos : pré-racional , racional e transracional .
Na realidade , estamos mais próximos dos racionalistas do que dos pré-racionalistas . Os níveis superiores transcedem mas incluem os inferiores . O Espírito é translógico , não antilógico ; ele abrange a lógica e vai além , e não simplesmente rejeita a lógica . Todo princípio transpessoal tem que passar pelo teste da lógica e , então , e somente então , seguir em frente com seus insights adicionais . O Budismo é um sistema extremamente racional que complemente a racionalidade com a consciência intuitiva . Alguns dos princípios " esquisitos " não estão além da lógica , mas aquém .
Assim , estamos tentando separar os elementos genuínos , universais , " testados em laboratório " , do desenvolvimento místico das tendências mais idiossincráticas , mágicas , narcisísticas . Esta é uma tarefa complicada e nem sempre chegamos a bom termo .
Líderes nesta área são Jack Engler , Roger Walsh , William Irwin Thompson e Jeremy Hayward .
Mas deixe-me concluir esta discussão reafirmando meu ponto original : ao tratar qualquer doença , esforce-se ao máximo para determinar de quais níveis estão provindo os seus vários componentes e use os tratamentos do mesmo nível para lidar com eles . Se você identificar corretamente os níveis , você gerará ação que terá a mais alta chance de ser curativa ; se você errar , gerará somente culpa ou desespero .
Texto : Ken Wilber
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domingo, 6 de fevereiro de 2011

" Mergulhados no Equívoco "

As formas de percepção empírica ou seja , o conhecimento pelos sentidos produz pensamentos sobre estes objetos de percepção . O conhecimento pelo intelecto , Raciocínio lógico produz pensamentos e aqui , de uma maneira muito sutil ou melhor de uma maneira bastante misteriosa , estamos mergulhados neste equívoco chamado pensamento e sequer notamos isso . Ao Ultrapassar estes dois modos de conhecimento , o homem supera os objetos de percepção sensorial , os chamados convencionalmente objetos " externos " . E , para este homem , o próprio pensamento que desfila em sua mente ou , como diz David Bohm o " Sistema do Pensamento " é tido como objeto de percepção " interno " . Sendo assim , podemos notar que ao ultrapassarmos estes dois modos de conhecimento , abandonamos ou melhor emergimos do mergulho que estávamos nos sentidos físicos e no mundo dos próprios pensamentos .
Agora perceba bem que ao abandonarmos o sutil e misteriosos mundo do pensamento , acontece a tão chamada morte para o ego . Ego este que a princípio começou a conhecer pelos sentidos e em seu desenvolvimento como conhecedor passou pelo mundo do pensamento ( Racional Lógico , Intelectual ) e culminou no silêncio da meditação ou Yoga como você preferir . Acontece que ultrapassar aos sentidos físicos já é por si só uma tarefa das mais difíceis .
Aquele que o faz , abandona as forças dos instintos que nos habitam ou melhor , supera-as . Contudo , se já estava também no mundo do pensamento , ele ainda permanece no mesmo só que agora agarrado aos próprios pensamentos e todo o " seu sistema Maculador " . O mais interessante de tudo isto é que , aqui nesta tentativa de demonstrar o problema no qual estamos envolvidos , os meios que utilizo ou seja , todos os símbolos e conceitos estão contidos no próprio problema . O que se seque é para tentar demonstrar o problema eu estou colocando vocês a fazer justamente aquilo que vai impedi-los de entender a questão ou seja , pensar . Então qual a saída ? . Se a solução não for alcançada pensando , talvez eu a alcance no silêncio . Talvez o silêncio a solucione ! ? . Pensemos , pensemos , pensemos mas finalmente silenciemo-nos ! Observe que não estamos falando do silêncio dos ruídos verbais das palavras . Também não estamos falando do silêncio dos ruídos externos . Estamos falando do silêncio dos ruídos do próprio " sistema Maculador " . Estamos falando do silêncio dos ruídos do próprio sistema sutil que é o pensamento em nós e que esta em relação constante com nossa capacidade intelectiva racional ( Intelécto ) . Então perceba ( você só perceberá de verdade no silêncio ) que ao abandonar ou superar os sentidos ( Instintos vital ) , caio na malha ( já estou nela ) do sistema maculador dos meus próprios pensamentos . O problema sou eu e meu modo de questionar e contudo eu sequer percebo isso . O próprio pensamento em mim me engana e eu sequer percebo !
Contudo , se ao abandonar os pensamentos em mim mesmo , substituí-lo pelo silêncio como colocamos acima , faço uma emersão do mergulho enganador que o pensamento e suas emoções , pré-conceitos sustentados por símbolos e conceitos alimentados pelas massas sociais , contextos históricos , pelo próprio modo convencional de conhecer ( sentidos e raciocínio lógico ) etc . . . e por todas as forças que este sistema sustenta . Então , não é isto a liberdade ? .
Ao sair do sutil mundo do pensamento ou melhor , ao transcender , ultrapassar o próprio pensamento acoplado a existência finita ou seja , ao mundo físico que adentramos ao nascer e que , abandonaremos ao morrer , teremos então , em vida realizado o terceiro modo de conhecer , A Consciência do Cristo , pelo silêncio .
Tanto o padre para os católicos quanto a bíblia para os evangélicos estão contidos , no sistema maculador que é o pensamento e o raciocínio lógico . O senso comum e o senso crítico , também o estão . Se acredita ter um senso crítico convincente , seu pensamento o engana porque você é seu próprio pensamento neste momento ! Eu não estou nem um pouco interessado em servir a este sistema a não ser , para indica-los ao silêncio como aqui coloquei .
" Quando orardes , entre em sua casa e ore em silêncio ao seu Pai . . . Não fique nas esquinas para que o vejam " . ( Jesus o Cristo )
Não devemos nos agarrar nem a padres , papas , igrejas ou bíblias objétos " externos e internos sutis do sistema maculador " . Ao fazermos isto , corremos o risco de agarrarmos a vela contudo , a luz estará mais acima queimando no barbante silenciosamente . Porem se não consegue largar a vela é melhor permanecer aí até que esta muleta não lhe seja mais necessário e isto só vem pela compreensão que o silêncio nos traz .
A Inteligência do Cristo está muito alem de uma fé cega e é necessário um comprometimento muito maior onde todos os seres estejam inclusos . Seu pensamento pode estar te enganando e você , sendo ele não percebe ! Não penseis que apenas o seu rebanho tem direito ao Céu ! .
Texto : Marcos Modesto aluno de filosofia do Claretiano ( Crítica ao Dogmatismo )
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