quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

" Os Arquétipos de Jung Por Ken Wilber "

1 ) Excertos da entrevista de Ken Wilber à jornalista alemã Edith Zundel ( do livro Grace and Grit - Graça e Determinação )
EZ : Eu , Rolf e nossos leitores estamos particularmente interessados na interface entre psicoterapia e religião .
KW : E o que significa para você a palavra religião ? Fundamentalismo ? Misticismo ? Exoterismo ? Esoterismo ?
EZ : Bem , este é um bom ponto para começarmos . Se não me engano , em Um Deus Social você apresentou onze diferentes definições para religião ou onze diferentes maneiras como é usada a palavra religião .
KW : Sim , e minha opinião é que não podemos falar de ciência e religião , ou de psicoterapia e religião , ou de filosofia e religião antes de definir o que entendemos pela palavra religião . E visando ao nosso objetivo , no momento , penso que devemos distinguir pelo menos entre o que é conhecido por religião exotérica e religião esotérica . A religião exotérica ou " exterior " é religião mítica , religião que é terrivelmente concreta e literal , que realmente acredita , por exemplo , que Moisés abriu o Mar Vermelho , que Cristo nasceu de uma virgem , que o mundo foi criado em seis dias , que um dia , literalmente choveu maná do céu , e assim por diante . Em todo o mundo , religiões exotéricas consistem desses tipos de crenças . Os hindus acreditam que a Terra deve estar apoiada em algo ; assim , crêem encontrar-se sobre um elefante que , também necessitando de suporte , está sobre uma tartaruga ; esta , por sua vez , encontra-se sobre uma serpente . E quando surge a pergunta " Em que a serpente está apoiada ? " , a resposta dada é " Mudemos de assunto " . Lao Tsé nasceu com novecentos anos , Krishna acasalou-se com quatro mil vacas , Brahma nasceu da quebra de um ovo cósmico etc . Isto é religião exotérica , uma série de estruturas de crenças que tentam explicar os mistérios do mundo em termos míticos ao invés de termos testemunhais ou de experiência direta .
EZ : Assim , a religião exotérica ou exterior é , basicamente , uma questão de crença , não de evidências .
KW : Sim . Se você acredita em todos os mitos , será salvo ; se não , vai para o Inferno - sem discussão . Esse tipo de religião é encontrado no mundo inteiro - fundamentalismo . Não tenho nada contra , apenas este tipo de religião , religião exotérica , nada tem a ver com a religião mística , ou religião esotérica , ou religião experiencial , que é o tipo de religião ou espiritualidade que me interessa .
EZ : O que significa esotérico ?
KW : Interior ou oculto . O fato de a religião esotérica ou mística ser oculta não é porque seja secreta ou algo assim , mas sim porque é uma questão de experiência direta ou percepção pessoal . A religião esotérica não pede que você acredite em nada na base da fé ou que engula obedientemente qualquer dogma . Ao contrário , a religião esotérica é um conjunto de experimentos pessoais conduzidos cientificamente no laboratório da sua própria consciência . Como toda boa ciência , é baseada na experiência direta , não em simples crenças ou desejos , e pode ser verificada e validada por outras pessoas que também tenham executado o experimento . O experimento é a meditação .
EZ : Mas meditação é privada .
KW : Não , não é . Não mais do que , digamos a matemática . Não há , por exemplo , nenhuma prova de que menos um elevado ao quadrado é igual a um ; não há nenhuma prova sensória ou empírica para isso . É verdadeiro , mas somente é provado por uma lógica interna . Você não consegue encontrar menos um no mundo exterior ; somente o encontra na sua mente . Mas isto não significa que não seja verdade , que seja conhecimento privado que não possa ser validado publicamente . Significa somente que esta verdade é validada por uma comunidade de matemáticos treinados , por todos aqueles que sabem como funciona o experimento lógico que irá definir sua veracidade . Do mesmo modo , o conhecimento meditativo é conhecimento interno , mas conhecimento que pode ser validado publicamente por uma comunidade de meditadores treinados , aqueles que conhecem a lógica interna da experiência contemplativa . Não se admite que qualquer pessoa opine sobre a verdade do teorema de Pitágoras ; somente matemáticos treinados estão capacitados a fazê-lo . Da mesma maneira , a espiritualidade meditadora faz certas afirmações - por exemplo , que se você olhar profundamente para o seu eu interior sentirá que ele é uno com o mundo exterior - mas a veracidade delas deve ser verificada por você e qualquer outra pessoa que tente fazer o experimento . E após algo como seis mil anos em que este experimento vem sendo realizado , sentimo-nos perfeitamente tranquilos em tirar certas conclusões , em desenvolver certos teoremas espirituais , por assim dizer . E esses teoremas espirituais são o núcleo das tradições da sabedoria perene .
EZ : Mas por que ela é chamada " oculta " ?
KW : Porque se você não realiza o experimento , então não sabe o que está acontecendo , não está em condições de opinar , do mesmo modo que se você não aprende matemática , não consegue discutir a veracidade do teorema de Pitágoras . Quero dizer , você pode ter opinião a respeito , mas o misticismo não está interessado em opiniões , mas sim em conhecimento . A religião esotérica ou misticismo encontra-se oculta para a mente daqueles que não realizam o experimento ; é isso que significa a palavra " oculta " .
EZ : Mas as religiões variam muito entre si .
KW : As religiões exotéricas variam tremendamente entre si ; as religiões esotéricas são virtualmente idênticas em todo o mundo . Como já vimos , o misticismo ( ou esoterismo ) é científico , no sentido mais amplo da palavra , e do mesmo modo que não se tem química alemã versus química americana , não existe ciência mística hinduísta versus ciência mística islâmica . Ao contrário , elas concordam funadamentalmente no que diz respeito à natureza da alma , à natureza do Espírito e à natureza da sua suprema identidade , entre outras coisas . Isto é o que os eruditos chamam de " unidade transcendental das religiões do mundo " - eles referem-se às religiões esotéricas . É claro , suas estruturas superficiais variam tremendamente , mas suas estruturas profundas são virtualmente idênticas , refletindo a unanimidade do espírito humano sobre as leis desveladas fenomenologicamente .
EZ : Mas alguns seguidores das religiões míticas interpretam de fato seus mitos alegórica ou metaforicamente .
KW : Sim , esses são os místicos . Isto é , os místicos são aqueles que dão um significado esotérico ou " oculto " para os mitos e esses significados são descobertos através da experiência direta , interior e contemplativa , e não de algum sistema exterior de crença , símbolo ou mito . Em outras palavras , eles não são crentes míticos , mas sim fenomenologistas contemplativos , místicos contemplativos , cientistas contemplativos . Isto explica porque historicamente , como salienta Alfred North Whitehead , o misticismo tem sempre se aliado à ciência contra a Igreja , uma vez que ambos , misticismo e ciência , dependem de evidências diretas consensuais . Newton foi um grande cientista ; foi também um místico profundo , e não havia , como não há , nenhum conflito nisso . Por outro lado , você não pode ser um grande cientista e um grande crente mítico ao mesmo tempo .
Além disso , os místicos são aqueles que concordam que sua religião é basicamente idêntica em essência a outras religiões místicas - " eles chamam de muitas maneiras Aquele que realmente é Um . " Agora , você não encontra um crente mítico , por exemplo um Protestante fundamentalista , dizendo que o Budismo também é um caminho perfeito para a salvação . Crentes míticos afirmam que eles possuem o único caminho porque baseiam sua religião em mitos exteriores , que são diferentes entre si ; eles não compreendem a unidade interior oculta nos símbolos exteriores ; os místicos o fazem .
EZ : Sim , entendo . Então você não concorda com Carl Jung que os mitos carregam arquétipos e , nesse sentido , importância mística ou transcendental .
KW : Jung descobriu que os homens e mulheres modernos podem , espontaneamente , produzir virtualmente todos os principais temas das religiões míticas do mundo ; eles o fazem em sonhos , em imaginação ativa , em associação livre e assim por diante . Daí , ele deduzir que as formas míticas básicas , que ele chamou de arquétipos , são comuns a todas as pessoas , são herdadas por todas as pessoas e são transmitidas por aquilo que ele chamou de inconsciente coletivo . Cito sua afirmação : " misticismo é experiência de arquétipos " .
Em minha opinião , há vários erros cruciais nessa visão . Primeiro , é totalmente verdadeiro que a mente , mesmo a mente moderna , pode produzir espontaneamente forma míticas que são , em essência , similares àquelas encontradas nas religiões míticas . Como já disse , os estágios pré-formais do desenvolvimento da mente , particularmente os pensamentos pré-operacional e operacional concreto são , pela sua própria natureza , produtores de mitos . Uma vez que todos os homens e mulheres modernos passam por esses estágios de desenvolvimento na infância , naturalmente todos os homens e mulheres têm acesso espontâneo a esse tipo de estrutura de produção de pensamento mítico , especialmente em sonhos , onde os níveis primitivos da psique podem vir à tona com mais facilidade .
Mas não há nada de místico nisso . De acordo com Jung , arquétipos são formasmíticas básicas destituídas de conteúdo ; misticismo é consciência sem forma . Não há ponto de contato .
Segundo , há o próprio uso que Jung faz da palavra " arquétipo " , conceito que ele tomou emprestado de grandes místicos , como Platão e Agostinho . Mas o modo como Jung usa o termo não é o modo que esses místicos o usam , nem mesmo , de fato , é o modo que místicos do mundo inteiro o usam . Para os místicos - Shankara , Platão , Agostinho , Eckhart , Garab Dorje e outros - arquétipos são formas sutis primordiais que aparecem à medida que o mundo se manifesta a partir do Espírito informe e não-manifesto . Eles são os padrões sobre os quais todos os outros padrões de manifestação se baseiam . Do grego arche typon , padrão original . Formas sutis , transcendentais que são as formas primordiais de manifestação , não importa se a manifestação é física , biológica , mental etc . E na maioria das formas de misticismo , esses arquétipos são , basicamente , padrões radiantes ou pontos de luz iluminações audíveis , formas e luminosidades brilhantemente coloridas , arco-íris de luz , som e vibração - através dos quais , em manifestação , o mundo material é condensado , se assim podemos nos expressar .
Mas Jung usa o termo para certas estruturas míticas básicas que são comuns à experiência humana como o trickster ( trapaceiro , vigarista , brincalhão ) , a sombra , o Velho Sábio , o ego , a persona , a Grande Mãe , a anima , o animus etc .
Eles são mais existenciais do que transcendentais . São simplesmente facetas das experiências comuns do dia-a-dia da condição humana . Concordo que essas formas míticas são herdadas coletivamente pela psique . E também concordo inteiramente com Jung que é muito importante chegar a um acordo com esses " arquétipos " míticos .
Por exemplo , se estou tendo problemas psicológicos com minha mãe , se sofro o assim chamado complexo materno , é importante entender que muito dessa carga emocional não decorre da minha mãe individual , mas sim da Grande Mãe , uma poderosa imagem do meu inconsciente coletivo que é , em essência , a destilação das mães de todo o mundo . Isto é , a psique vem com a imagem da Grande Mãe embutida nela , do mesmo modo como já vem equipada com as formas rudimentares de linguagem e de percepção , e de variados padrões instintivos . Se a imagem da Grande Mãe for ativada , não estarei interagindo somente com minha mãe individual , mas sim com milhares de anos da experiência humana com a maternidade em geral ; assim a imagem da Grande Mãe carrega uma carga e tem um impacto muito além daqueles que minha própria mãe poderia gerar . Entrar em acordo com a Grande Mãe pelo estudo dos mitos do mundo é um bom caminho para tratar com aquela forma mítica , torná-la consciente e diferenciar-se dela . Concordo inteiramente com Jung neste ponto . Mas essas formas míticas nada têm a ver com misticismo , com a genuína consciência transcendental .
Deixe-me explicar de maneira mais simples . Em minha opinião , o principal erro de Jung foi confundir coletivo com transpessoal ( ou místico ) . Simplesmente porque minha mente herda certas formas coletivas não significa que essas formas são místicas ou transpessoais . Por exemplo , todos herdamos coletivamente dez dedos dos pés , mas se experiencio meus dedos não estou tendo uma experiência mística ! Os " arquétipos " de Jung virtualmente nada têm a ver com a genuína consciência espiritual , transcendental , mística , transpessoal ; ao contrário , são formas coletivamente herdadas que distilam alguns dos mais básicos encontros existenciais do dia-a-dia da condição humana - vida , morte , mãe , pai , sombra , ego etc . Nada místico . Coletivo , sim ; transpessoal , não .
Há o coletivo pré-pessoal , o coletivo pessoal e o coletivo transpessoal ; Jung não os diferencia com a clareza necessária ; e isso gera um desvio em todo o seu entendimento do processo espiritual , em minha opinião .
Assim , concordo com Jung que é muito importante entrar num acordo com as formas de ambos os inconscientes míticos , o pessoal e o coletivo ; mas nenhum deles tem muito a ver com o misticismo real que , primeiro , descobre a luz além da forma para , depois , chegar ao informe além da luz .
Ken Wilber - Arquétipos ( 30 30 America / Sao_Paulo dezembro 30America /Sao_Paulo 2009 )
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Ken Wilber é o pensador americano que criou a Psicologia Integral .
A obra dele se concentra na integração de todas as áreas do conhecimento ( ciência , filosofia , arte , ética e espiritualidade ) . Essa preocupação em juntar ciência com religião se apoia na própria experiência dele , e também na de diversos místicos de todas as grandes tradições de sabedoria , tanto ocidentais quanto orientais . Ken Wilber junta essas experiências com a releitura transpessoal que ele faz da psicologia analítica do Carl Gustav Jung .

















terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

" Três Tipos de Ciência "

A ciência é a religião de hoje . Se a ciência estabelecer algo , deve ser verdadeiro . Se a ciência não estabelecer algo , não pode ser verdadeiro . É assim que a filosofia moderna a tem . Mas a ciência abrange toda a realidade ? Já que a ciência é baseada no que os sentidos físicos ( geralmente com a ajuda dos instrumentos ) nos dizem , é sensato depender totalmente desta fonte de conhecimento ? Quem já enxergou as emoções ou os pensamentos com o olho físico ? Isso é razão suficiente para negar a existência deles ? Ou estamos deixando algo escapar ?
" Ausência de prova não é prova de ausência " , podemos dizer .
Acreditar que a ciência abrange TODA a realidade não é algo realmente científico , porque temos que negar outras formas de experiência humana , como nossos sentimentos de identidade mais profundos . Isso é o que podemos chamar de " cientismo " .
Veja que a própria ciência não tem rejeitado a crença na alma , nas esferas superiores , nas realidades transcendentais , como muitas pessoas instruídas acreditam . Está na hora de corrigirmos este status extremamente desigual .
Basicamente , a realidade abrange pelo menos três domínios :
1. aquele que podemos ver com nossos sentidos ,
2. aquele que podemos ver com nosso " olho interior " ,
3. aquele que vê , tanto externamente quanto interiormente : o self .
Repare que todos os três podem ser estudados de uma maneira científica ! Mas qual é o significado de " científico " ?
Wilber argumenta que a ciência de maneira alguma deve implicar em materialismo . Na verdade , ciência envolve três elementos :
1. Seguir uma instrução , injunção ou paradigma
2. Apreender algo sobre esta realidade específica
3. Comparar nossas descobertas com as dos outros
Esses três " elementos " operam na ciência de uma forma óbvia : um astrônomo ( 1 ) olha através de um telescópio , ( 2 ) observa uma certa região do universo e ( 3 ) discute suas descobertas com colegas astrônomos ( e NÃO conosco , meros mortais , um ponto muito importante ) .
Wilber defende a existência de dois outros tipos de ciência , que seguem o mesmo procedimento formal : A ciência mental ou social ( o que os europeus chamam de Geisteswissenschaft ) não observa os objetos físicos , mas os significados mentais , que podem ser encontrados em documentos , estórias , mitos , relatos e livros . O significado de um texto não pode ser visto com o olho físico , mas apenas com o " olho da razão " . Seguindo os três fios da ciência , a ciência mental é perfeitamente científica . ( Lógico , os objetos mentais não são tão concretos quantos os físicos . Assim , as conclusões da ciência mental não podem equiparar às da física . Mas e daí ? ) .
E há um terceiro tipo de ciência , segundo Wilber . Pois afinal a realidade compreende apenas coisas e pensamentos ? E o princípio em nós que vê e pensa ? O self que vê e pensa não pode ser visto e não é um pensamento . Mas pode ser abordado experimentalmente na meditação . Assim , a " ciência espiritual " nasce . A meditação e a yoga contam como " ciência " porque elas também seguem os três fios : ( 1 ) instrução - sentamos numa alfofada por horas , ( 2 ) observação - percebemos um estado da mente , e ( 3 ) confirmação - discutimos nossas descobertas com colegas que também meditam .
Para concluir : Wilber defende três tipos de ciência , já que a realidade é composta de pelo menos três domínios , e todos os três domínios podem ser abordados de uma maneira experimental e , portanto , científica .
Texto : Ken Wilber
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domingo, 30 de janeiro de 2011

" BUDISMO "

[ Os trantas ] descrevem as várias categorias da mente ou consciência , das mais grosseiras às mais sutis . Os estados sutis da mente são mais poderosos e efetivos quando aplicados na prática espiritual . O nível grosseiro da consciência percebe as coisas pelos olhos , ouvidos , nariz , língua e corpo . [ . . . ] A não ser em estados extraordinários de meditação , a consciência mais sutil ou profunda manifesta-se quando estamos morrendo . Os níveis mais sutis de consciência também aparecem de maneira resumida quando começamos a dormir , terminamos um sonho , espirramos , bocejamos e durante o orgasmo .
( Dalai Lama , Como Praticar )
Sem o livre espírito de renúncia , [ o praticante ] ficará muito constringido para ser capaz de manter as disciplinas tântricas , por causa do desejo sensual e dos impulsos biológicos excessivos . Este pré-requisito de renúncia é particularmente importante nos trantas superiores , que são expressados com imagens sexuais .
[. . . ] [ A segunda qualidade ] , a grande compaixão da bodhichitta , é necessária para transformar a prática em uma causa de onisciência . Novamente , como muitas imagens das yogas dos trantas superiores são violentas , um praticante não saturado com grande compaixão pode ter facilmente uma idéia errônea . A terceira qualidade , uma compressão correta da doutrina da vacuidade , é fundamental para a prática tântrica . Cada prática é começada , estruturada e terminada com uma meditação sobre a vacuidade . [ . . . ] Apesar de se dizer que o Vajrayana é um caminho rápido quando praticado corretamente sobre uma base espiritual adequada , ele é perigoso para os espiritualmente imaturos . Este tipo de perigo é um dos motivos pelos quais o Vajrayana deve ser praticado sob a supervisão de um mestre vajra adequado .
( Dalai Lama , The Path to Enlightenment )
A importância de meditar sobre a vacuidade é universal entre as escolas do budhismo tibetano . Na escola Nyingma , a prática do Dzogchen ( particularmente as práticas de Trekcho e Togal ) incluem um processo preliminar que é descrito como encontrar a origem , a permanência e a dissolução da natureza da mente . A meditação sobre a vacuidade acontece no contexto desta busca . De modo similar , os ensinamentos kagyu sobre o Mahamudra falam sobre a " unidirecionalidade " , " transcendência de elaborações conceituais " , " sabor único " e " além da meditação " . Neste contexto , unidirecionalidade refere-se ao cultivar da permanência calma [ sânsc . shamatha ] , onde a primeira parte do cultivo da transcendência de elaborações conceituais é realmente a meditação sobre a vacuidade . O ensinamento Sakya sobre o seltong sungjug refere-se à não-dualidade e à união da profundidade e claridade - profundidade refere-se aos ensinamentos sobre a vacuidade , claridade refere-se à natureza da mente . Na Gelug , precisamos cultivar a sabedoria da vacuidade em conjunção com a experiência de êxtase no contexto da prática de cultivo da sabedoria que é a união indivisível de êxtase e vacuidade . Em todas as quatro escolas , a vacuidade que é ensinada é aquela que Nagarjuna apresentou em seus Fundamentos do Caminho do Meio . A apresentação da vacuidade de Nagarjuna é comum tanto ao Paramitayana quanto ao Vajrayana . No Vajrayana , entretanto , uma prática única coloca ênfase específica sobre o cultivo da experiência subjetiva da sabedoria da vacuidade ; a vacuidade que é objeto é comum tanto ao sutra quanto ao tantra .
( Dalai Lama , Illuminating the Path to Enlightenment )
A moralidade da libertação individual [ sânsc . pratimoksha ] é praticada principalmente ao se evitarem ações físicas e verbais que prejudiquem os outros . Esta prática é chamada de " individual " porque fornece um meio para que as pessoas possam se mover para além da rotina repetitiva de nascimento , envelhecimento , doença e morte , que os budhistas chamam de existência cíclica ou samsara . A moralidade da consideração pelos outros [ sânsc . bodhichitta ] - chamada moralidade dos bodhisattvas ( seres essencialmente preocupados em ajudar os outros ) - é praticada principalmente ao não deixar a mente cair no egocentrismo . Para os praticantes da moralidade do bodhisattva , o ponto essencial é evitar a auto-indulgência , mas também evitar as ações nocivas do corpo e da fala . A moralidade do tantra [ sânsc . samaya ] está centrata em técnicas específicas do corpo e da mente para ajudar os outros . Ela fornece um meio para evitar e , assim , transceder nossa percepção limitada de nossos corpos e mentes , de modo que possamos nos perceber irradiano sabedoria e compaixão .
( Dalai Lama , Como Praticar )
O caminho da moderação [ Hinayana ] é praticado externamente ;
O espírito de bodhisattva [ Mahayana ] é praticado internamente ;
Os métodos esotéricos do mantra [ Vajrayana ] são praticados secretamente .
( Lama Je Tsongkhapa )
Alguns de vocês podem perguntar , " Por que precisamos desde processo de purificação ? Por que precisamos de métodos e práticas se o fundamento e resultados reais já são perfeitamente puros ? A pergunta é também a resposta .
Assim que vocês conhecerem sua natureza verdadeira , perfeita , quando quer que isto seja - talvez hoje à noite , ou de manhã - vocês não precisarão mais praticar ou ficar preocupados com os objetos e métodos de purificação . Vocês não precisarão ficar preocupados com o processo de purificação porque já estarão em um estado desperto puro , primordial . Até então , vocês continuarão a ter muitos pensamentos e conceitos pertubadores . Até que estas pertubações sejam pacificadas , vocês farão um favor a vocês mesmos se contarem com o processo da prática , encontrando o objeto a purificar e atingindo o resultado .
( Gyatrul Rinpoche , Generating the Deity )
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sábado, 29 de janeiro de 2011

" A Dinâmica da Espiral "

Primeiro vamos fazer uma breve explicação sobre o que é a Dinâmica da Espiral . Essa teoria , baseada em inúmeras pesquisas e em um número massivo de dados empíricos ( observações , no caso dados clínicos ) , nos mostra que a consciência humana parece se organizar e se desenvolver numa lógica de ondas ou estágios de desenvolvimento que os autores supracitados chamaram de Memes . Assim , podemos indicar 9 níveis principais e realacioná-los a etapas da evolução da humanidade e perceber também que cada um de nós passa ou passará , quando estiver preparado , por cada uma destas ondas . As ondas da Dinâmica da Espiral se agrupam em 3 grandes ordens , e tem as seguintes características :

1ª Ordem
1- Meme Bege ( Instintos e sentidos inatos )
Foi vivenciado pela humanidade no início nômade do homo sapiens , período das cavernas , etc . Quando era mais importante sobreviver e os instintos formavam a identidade central do ser . Ainda é vivido pelas crianças nos estágios iniciais do desenvolvimento . Consciência arcaica .
2- Meme Púrpura ( busca harmonia e segurança viver num mundo misterioso )
Foi vivenviado pelo humanidade na formação das primeiras tribos , onde a coletividade se mostrava importante para a sobrevivência . Ainda é vivido pelas crianças mais ou menos no período que ingressam nas escolas . Consciência tribal .
3- Meme Vermelho ( expressa-se impulsivamente , rompe as amarras , é forte )
Foi vivenviado pela humanidade quando uma tribo percebeu o que outras tribos possuíam e decidiam tomar posse do que era do outro . Ainda é vivido na política de países que decidem que podem tomar posse dos territórios ou petróleo dos outros e as conhecidas gangues de atletas ( típico dos centros universitários dos EUA que vemos nos filmes ) e dos adolecentes que " roubam " namorados uns dos outros . Consciência de guerra .
4- Meme Azul ( encontra propósito , instaura ordem , assegura o futuro )
Foi vivenciado pela humanidade no período de emergência do pensamento etnocêntrico do tipo " nosso povo é o escolhido por Deus " , " nossa religião é que é a autêntica " , " nossa ordem é a ordem superior " , ou ainda " o estilo X é melhor que o estilo Y " . Surge aqui a lógica de organização e hierarquização rígida que por exemplo criaram as castas e classes sociais rígidas . As nossas empresas e a maioria das instituições ainda são assim , primeiro você é soldado , depois cabo , depois sargento , depois tenente , etc . Ainda é vivido pelos adultos jovens que percebem que é necessário dar ordem e organização à vida , estabelecer-se numa profissão , situar-se num cargo profissional , etc . Consciência tradicional .
5- Meme Laranja ( analisa e cria estratégias para a prosperidade )
Foi vivenciado pela humanidade desde o Iluminismo e Revolução Industrial , reunindo como característica o impulso para a realização , a burocratização , a competição , a quantificação , racionalização e o poder sobre a natureza . Inicia o processo de pensamento universalista e gera o pensamento sociocêntrico . Ainda é vivido pelos adultos que especializam-se numa determinada área profissional , dedicam-se às ciências , etc . Consciência moderna .
6- Meme Verde ( explora o interior e busca a igualdade )
Foi vivenciado pela humanidade desde a década de 1960 , com a geração chamada de Boomers ( que incluía os hippies e outros grupos sociais que impulsionaram grandes transformações culturais ) . Surge aqui a lógica de pensamento pluralista e globalizador .
Como efeito colateral , o ponto de vista pluralista exacerbado causa inúmeros atravancamentos sociais , sendo um bom exemplo os grupos que fazem reuniões e após longas discussões decidem que uma nova reunião deve ser feita para decidir o assunto .
Um dos produtos desse nível de consciência são os " Direitos Universais do Homem " ( Direitos Humanos ) e o " Greenpace " . É vivido por uma boa parcela das pessoas que transcedem o pensamento do Meme laranja e iniciaram a viagem da consciência verdadeiramente democrática . Consciência pós-moderna .

2ª Ordem
7- Meme Amarelo ( integra e sintoniza sistemas )
É vivenciado pela pequena parcela da humanidade que deu o " salto quântico " para o pensamento de 2ª Ordem e inicia o pensamento integrativo que está por vir . É a primeira onda do pensamento holístico . Início do pensamento mundicêntrico . Consciência integral .
8- Meme Turquesa
É presente em uma parcela ainda menor da população mundial . Estabiliza o pensamento holístico voltando-se para uma individualidade coletiva . Percebe o mundo de forma transracional e reconhece-o como incompreensível . Inicia o pensamento kosmocêntrico .
Consciência pós-integral .

3ª Ordem
9- Meme Coral
Vivenciado por poucos indivíduos na história , é o Meme do pensamento unitivo . O padrão estável de consciência atingido apenas em experiências de pico , que passa pelas sub-ondas : psíquica , sutil , causal e não-dual . Consegue viver diferentes possibilidades do ser , ativando o Meme adequado a cada situação , dançando com o viver . Consciência extática .
É importante lembrar que inúmeros teóricos importantes criaram modelos que se relacionam e encaixam com a teoria das ondas ou Memes , entre eles : Richard Commons , Jean Piaget , Sri Aurobindo , Paul Kegan , Jane Loevinger , Abraham Maslow e Susanne Cook-Greuter .
Texto : Ken Wilber
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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

" Budismo Vajrayana "

Um sinônimo para Vajrayana é Mantra Secreto ( sânsc . Guhyamantra ) . " Secreto " refere-se ao fato de que sua própria natureza é um segredo para a mente confusa . O fato de que a realização pode ser alcançada dentro de alguns anos ou dentro desta mesma vida está inteiramente conectado com a realização desta natureza da mente e isto requer confiança e devoção .
( Da introdução de Chokyi Nyima Rinpoche em The Dzogchen Primer )
O Vajrayana nos diz que a natureza da mente de todos os seres está coberta por dois obscurecimentos . Um é chamado " obscurecimento emocional " - desejo , raiva e ignorância . O segundo , o " obscurecimento cognitivo " , é o apego sutil ao sujeito , objeto e interação , no qual o estado desperto desvia-se em apego dualista . Estes dois tipos de obscurecimento precisam ser dissolvidos e purificados . Isto é realizado reunindo-se as duas acumulações - a acumulação de mérito e a acumulação de sabedoria , o treinamento no despertar original . Reunido as duas acumulações , desvelamos os dois tipos de conhecimento supremo - o conhecimento que percebe o que quer que possivelmente exista e o conhecimento que percebe a natureza como ela é . Desvelando os dois tipos de conhecimento supremo , realizamos os dois Kayas , dharmakaya e rupakaya . Rupakaya significa " corpo da forma " e tem dois aspectos : sambhogakaya , que é a forma da luz de arco-íris , e nirmanakaya , que pode tomar a forma física .
( Tulku Urgyen Rinpoche , As lt ls - Volume II )

Mensagem de Paul Brunton

Todo aquele que percebe a inferioridade de seu ambiente em relação ao que poderia ser , assim como a imperfeição de sua natureza à luz de suas possibilidades não desenvolvidas , e que se propõe a melhorar o primeiro e sanar a segunda , deu o primeiro passo para a busca . . .
Num dia decisivo , ele vai perceber , com pesar , que está preso pelas atividades externas como se fosse por um polvo . Vai então empunhar a faca da determinação penetrante e implacável e cortar de uma vez por todas os tentáculos que o prendem . . . Os que se interessam por idéias avançadas o suficiente para persegui-las a despeito do desprezo social , assim como os que têm coragem para explorar o que está além das idéias já aceitas , tornaram-se um contingente significativo de buscadores . . . A massa é apática diante da Busca : os pobres por uma série de razões , os ricos por outra . Apenas os poucos capazes de ter juízo individual , os pensadores independentes e ousados , serão capazes de se destacar da massa . . . Ele vai precisar de muita coragem para a Busca , porque será confrontado por dois inimigos poderosos . Um é ele próprio ; o outro , a sociedade . No interior de si mesmo , vai ter que travar batalha contra os grandes desejos . No interior da sociedade , vai ter que lutar contra as grandes tradições . . . Não são muitos os que estão prontos para essa independência de atitude e de vida . É necessário , antes de tudo , certa força interior e , evidentemente , uma disposição natural ou adquirida para desertar do rebanho se necessário .
( Paul Brunton
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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

" BODISATIVA "

" Para mim , a beleza dos conceitos gêmeos de evolução e individualidade composta é esta : minha existência hoje , embora não redutível aos níveis mais baixos nem originais deles , todavia deles depende e se apóia nesses níveis , cujas lutas e sucessos iniciais abriram caminho para meu surgimento . Sou grato a eles por isso . Da mesma forma , eles são gratos a mim , pois , em minha própria individualidade composta , o mineral , o vegetal e o animal participam ou são parte de uma consciência mental mais elevada , algo que nunca poderiam alcançar sozinhos . Em última instância , na individualidade composta do sábio , todos os níveis inferiores tem permissão para participar em iluminação absoluta e banhar-se na glória do Espírito . O mineral , como mineral , o vegetal , como vegetal , e o animal , como animal , nunca conseguiram iluminar-se - mas o bodisativa carrega todas as manifestações com ele para o Paraíso , e o voto de bodisativa é nunca aceitar a iluminação até que todas as coisas participem do Espírito . Não há , em minha mente nenhuma concepção mais nobre que essa "
Ken Wilber - Livro - Éden queda ou ascensão - pag 404 . Edit . Verus
" Eu tenho uma grande regra : todo mundo está certo . Mais especificamente , todo mundo - eu incluso - possui alguns importantes pedaços da verdade , e todos precisam ser honrados , valorizados e incluídos em um abraço grandioso , espaçoso e compassivo "
Ken Wilber
Em seus primeiros estudos , Wilber chegou a um impasse . Deparou-se com Freud dizendo que para ser feliz você precisa fortalecer seu ego enquanto Buda ensinava que para ser feliz você deve , metaforicamente , morrer para o seu ego . Ou seja , duas afirmações aparentemente contraditórias .
Qualquer pessoa diria que Freud está certo e Buda errado ou vice-versa .
Ken Wilber
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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

" A parábola dramatizada do pão e do vinho " ( Mt 26 , 26 - 29 ; Mc 14 , 22 -25 ; Lc 22 , 18 - 20 )

Instituição da Eucaristia . Durante a ceia tomou Jesus o pão , benzeu -o , partiu - o e deu - o a seus discípulos , dizendo : " Tomai e comei ; isto é o meu corpo " .
Depois , tomou o cálice , deu graças e o apresentou aos discípulos , dizendo : " Bebei dele todos ; porque isto é o meu sangue , do testamento que é derramado por muitos , em remissão dos pecados . Digo - vos , todavia , que a partir de hoje não mais beberei deste fruto da videira , até ao dia em que convosco o beber , novo , no reino de meu Pai ".




Pela fé assimila a alma o Cristo divino

Na última ceia dramatizou Jesus a mais misteriosa de todas as suas parábolas .
Até hoje , quase 2000 anos depois , a cristandade não compreendeu devidamente a parábola do pão e do vinho .
Já na Sinagoga de Cafarnaum , como consta no capítulo 6 do Evangelho de João , havia o Mestre aludido a esse misterioso paralelo : a relação entre o alimento e a vida , por um lado - e , por outro , a pessoa física do Jesus humano e o espírito do Cristo divino .
Através de uma parábola esotérica faz Jesus ver que a essência vitalizante do espírito do Cristo só pode ser assimilada pela alma humana por meio da fé .
Que se entende por fé ?
A palavra latina fides é o radical de fidelidade , a alta fidelidade , harmonia , sintonia . Este substantivo latino não tem verbo ; de maneira que a Vulgata Latina recorreu a um verbo de outro radical , credere , crer , em vez de " ter fé " , e com isto começou a tragédia milenar da cristandade . Crer , no sentido usual , nada tem de ver com ter fé . O substantivo grego pistis , que figura no original do Evangelho do 1º século , tem o verbo pisteuein , que poderíamos traduzir por fidelizar .
Pisteuein , fidelizar , ter fé , quer dizer estabelecer perfeita fidelidade entre a alma humana e o espírito de Deus . O conhecido tópico " quem crer será salvo " é um absurdo ; mas " quem tiver fé ( fidelidade ) será salvo " é perfeitamente lógico .
Quando o homem , no plano físico , vitaliza o seu corpo pelo alimento , não transfere ele para seu organismo a substância material que ingere , mas pelo misterioso processo da digestão e assimilação , extrai da substância material da comida as " calorias " , como a ciência chama essa alma imaterial da matéria . Caloria é a energia solar que pela fotossíntese foi armazenada na substância comestível , e que , pela digestão , é extraída do alimento e transferida para o organismo humano . Caloria , a energia do calor e da luz solar - que também poderíamos chamar luceria - é algo relacionado com a vida . Essa energia solar vitaliza o corpo e lhe dá força , beleza , alegria . Se o organismo não tivesse fidelidade vital ( fides , fé ) com a energia solar , não poderia assimilar essa vibração do Sol . Um corpo morto , embora exposto à energia solar , não a assimila ; somente um corpo vivo é capaz de assimilar a energia solar ; só ele tem fides , afinidade com o Sol ; só um corpo vivo fideliza , é fiel à alma solar ; só ele é vitalizado pelo calor e pela luz do Sol .
Segundo Einstein , luz é energia descondensada , e energia é matéria descongelada .
Vida é luz altamente potencializada , vida é luz vitalizada , e por esta razão não pode a vida assimilar a matéria grosseira como tal , mas somente a alma cósmica da matéria , que é luz , luceria ou caloria imaterial .
Homens altamente intuitivos sabiam , e sabem , por uma visão interna , o que outros procuram descobrir através de laboriosas análises intelectuais . Antecipam verdades que a ciências descobre séculos e milênios mais tarde . Cerca de 3500 anos antes de Einstein , escreveu Moisés que , no primeiro yom , creou Deus a luz , e que da luz vieram todas as outras coisas . Só no século 20 provou Einstein que a luz é a base dos 92 elementos da química e de todas as coisas .
A julgar pelos relatos do Evangelho , era Jesus de Nazaré o homem mais intuitivo que a história conhece . Ele sabia , por uma visão interna , verdades que os cientistas descobrem ( ou deixam de descobrir ) milênios mais tarde .
Todo o paralelo entre o Jesus humano e o Cristo divino se baseia nessa intuição . Assim como a substância material de um alimento não pode ser assimilada pelo corpo humano se a sua parte material não for primeiro destruída pela trituração e digestão - assim o espírito do Cristo não pode ser assimilado pela alma na forma da pessoa física do Jesus humano . Ninguém pode assimilar o Jesus humano . Por isto , insiste ele em dizer : " As palavras que vos digo são espírito , são vida - a carne de nada vale " . Por isto afirma ele a seus discípulos : " Convém a vós que eu me vá ( seja destruído ) , porque , se não for , o espírito da Verdade não pode vir a vós " .
Somente um Jesus cristificado é que pode servir de alimento vitalizante às almas humanas , como aconteceu na gloriosa manhã do Pentecostes , quando 120 pessoas homens e mulheres , como refere mestre Lucas nos " Atos dos Apóstolos " , foram vitalizados pelo espírito do Cristo cósmico , chamado Espírito Santo . Quando , após 9 dias de " oração permanente " , essas 120 pessoas atingiram o máximo da sua sintonização crística , da sua fides , ou alta fidelidade , então assimilaram eles o espírito do Cristo . Durante os três anos precedentes , nenhum dos discípulos de Jesus assimilara o espírito do Cristo , porque eles só viam a pessoa humana de Jesus , do qual esperavam a proclamação da independência nacional de Israel .
Somente após 9 dias de sintonização cósmica , no cenáculo de Jerusalém , crearam eles suficiente fidelidade ou sintonização para sentir a presença do Cristo espiritual ; mesmo na ausência do Jesus material , sentiram e viveram a metafísica para além da física .
Essa manhã de domingo do ano 33 , no décimo dia após a ascensão , marca o início do verdadeiro Cristianismo , o despertar do Cristo nas almas de seus discípulos .
Já um ano antes , como refere João no seu Evangelho , capítulo 6 , na Sinagoga de Cafarnaun , retificara Jesus o equívoco dos ouvintes de que devessem comer a carne dele . A esse equívoco respondeu o Mestre : " As palavras que vos digo são espírito e vida , a carne de nada vale " , por sinal que toda a referência à " carne " dele , como alimento , é uma alegoria simbólica . É pela fé no Cristo , espírito e vida , que o homem comunga o seu corpo e sangue , como revelou o grandioso acontecimento de Pentecostes , onde 120 pessoas , homens e mulheres , depois de 9 dias de meditação e silêncio , comungaram o Cristo carismático .
Em quase 2000 anos , as igrejas cristãs não foram capazes de vislumbrar esta grande verdade , ainda que cristãos individuais a tenham vivido em todos os séculos . As igrejas - quiça por motivos humanos - se agarraram ao símbolo material do pão e do vinho , do corpo e do sangue do Jesus humano , e não compreenderam o simbolizado espiritual do Cristo divino . Os teólogos excogitaram o dogma da transubstanciação do pão e do vinho no corpo e sangue de Jesus - como se o corpo e o sangue do Jesus humano , fisicamente ingeridos pelo comungante , pudessem espiritualizar a alma . Para assimilar o espírito do Cristo não é necessária nenhuma ingestão física , mas sim a sintonização metafísica , a fides , ou alta fidelidade , entre a alma humana e o espírito do Cristo . Aliás , dos 120 cristificados presentes na manhã do primeiro Pentecostes , apenas 11 haviam ingerido o pão e o vinho na Santa Ceia ; os outros 109 comungaram o Cristo espiritual na ausência do Jesus material ou seus símbolos . E todos esses 120 Cristo-comungantes foram as primícias do verdadeiro Cristianismo . Nenhum deles traiu o Mestre , nenhum deles o negou , nenhum deles fugiu covardemente ; pelo contrário , diz o livro dos " Atos " , quando foram flagelados em praça pública pelo fato de anunciarem o Cristo , retiraram-se exultando de júbilo por terem sido achados dignos de sofrerem por amor ao Cristo .
Haviam comungado o Cristo Carismático , em espírito e verdade .


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Vai nesta parábola , embora veladamente , outro aspecto : não pode o nosso ego humano conscientizar o Eu divino se aquele não for devidamente desintegrado , assim como o alimento só se integra na vida do corpo depois de ser desintegrado .
" Se o grão de trigo não morrer ficará estéril , mas se morrer produzirá muito fruto . "
" Eu morro todos os dias , e é por isto que eu vivo , mas já não sou eu que vivo , o Cristo é que vive em mim . "
A rainha das parábolas de Jesus é , sem dúvida , esta , embora o grosso da cristandade não esteja ainda em condições de compreendê-la .
Possivelmente , daqui a mais 20 séculos , lá pelo ano 4000 , a cristandade compreenderá a mística desta parábola do pão e do vinho .
Por ora , a cristandade terá de contentar-se com o corpo do símbolo material , sem compreender a alma do simbolizado espiritual .
Por ora , o corpo exotérico da Santa Ceia eclipsa a alma esotérica do Pentecostes .
Por ora , teremos de repitir isto " em memória de Jesus " , " até que o Cristo venha " , como Paulo de Tarso escreve aos cristãos do primeiro século .
Mas após a vinda do Cristo divino , pela comunhão carismática , cessará o símbolo da comunhão eucarística do Jesus humano .
E então compreenderemos o que o Mestre quis dizer com as palavras finais da Santa Ceia : " Não mais beberei deste fruto da videira até o dia em que convosco o beber , novo , no Reino de meu Pai " .
Maran-atha !
Vem , Senhor !


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Em síntese elucidativa :
Após a suposta primeira missa , ordenação sacerdotal e primeira comunhão , os doze apóstolos de Jesus cometeram os atos mais vergonhosos e anticrísticos da sua vida : um deles consumou a planejada traição , o diabo entrou nele e ele se suicidou ; outro neo-sacerdote e neocomungante , que parecia o chefe da turma , negou descaradamente o Mestre , jurou que não era discípulo dele e rogou pragas sobre si ; e todos esses supostos neo-sacerdotes e neocomungantes fugiram covardemente , com medo do sofrimento , à exceção de um só .
E , o que é totalmente incompreensível , Jesus , depois da ressurreição , não estranhou esse vergonhoso procedimento dos seus discípulos , nem os repreendeu por isto - por sinal que nenhum efeito espiritual esperava dessa suposta primeira missa , ordenação sacerdotal e primeira comunhão .
A mais comezinha lógica nos obriga a não aceitar o que uma teologia quase bimilenar impingiu à cristandade como sendo a verdade do Evangelho .
Não houve , no cenáculo da quinta-feira santa , nenhuma primeira missa de Jesus , não houve ordenação sacerdotal , não houve transubstanciação do pão e do vinho , não houve primeira comunhão dos apóstolos .
O que ocorreu foi uma parábola dramatizada , cujo simbolizado espiritual se cumpriu na gloriosa manhã do Pentecostes , quando 120 pessoas , homens e mulheres , como refere Lucas nos " Atos dos Apóstolos " , comungaram realmente o Cristo Carismático , em espírito e verdade .


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A explicação que acabamos de dar dos eventos da Santa Ceia em forma de parábola é indubitavelmente exata . Se assim não fosse , se os 12 discípulos de Jesus tivessem sido ordenados sacerdotes e comungado realmente a carne e o sangue de Jesus , seria absolutamente incompreensível , repetimos , o que aconteceu logo depois dessa suposta ordenação sacerdotal e primeira comunhão : traição , suicídio , negação , juramento falso , blasfêmia , fuga covarde dos apóstolos - um caos de paradoxos , um inferno de pecados ...
E tudo isto sem que Jesus estranhasse com uma só palavra esse efeito flagrantemente negativo e contraproducente em seus discípulos ...
É , pois fora de qualquer dúvida , que não houve nenhuma primeira missa , ordenação sacerdotal e primeira comunhão no cenáculo da quinta-feira santa .
Mas como então justificar a interpretação tradicional de certa teologia ?
Essa teologia tradicional é mais ou menos compreensível em face de uma humanidade incapaz de compreender o simbolizado espiritual de uma parábola profundamente metafísica e mística . A cristandade dos primeiros séculos era quase totalmente composta de escravos do Império Romano e povos bárbaros - godos , vândalos , hunos etc . - que invadiram o decadente Império dos Césares , povos mental e espiritualmente analfabetos , dos quais não se podia esperar compreensão , mas de que se devia exigir obediência a seus chefes espirituais . Uma ingênua pedagogia infantil era para esses neófitos mil vezes mais importante do que a grandiosa metafísica da verdade do Evangelho .
Se a mensagem de Jesus tivesse sido difundida , de início , pelos países do Oriente - Índia , China , Japão etc . - de avançada cultura metafísica e espiritual , completamente diferente teria sido o destino histórico e teológico do nosso cristianismo . Em nenhum dos países orientais existe , até hoje , segundo estatística oficial , 1% de cristãos , a despeito de séculos de trabalhos missionários . Fala por todo o Oriente Mahatma Gandhi , que dizia aos missionários cristãos que tentavam convertê-lo ao nosso cristianismo : " Aceito o Cristo e seu Evangelho - não aceito o vosso cristianismo " .
Fala ainda , em nome do Oriente cristão , Albert Schweitzer , quando escreve : " Nós injetamos nos homens o soro da nossa teologia , e quem é vacinado com o soro da teologia cristã está imunizado contra o espírito do Cristo " .
É que o nosso cristianismo teológico foi , desde o princípio , padronizado para uma humanidade espiritualmente infantil - e , estranhamente , até hoje não ultrapassou ainda esse padrão primitivo .
Para certa igreja cristã , o maior teólogo é Tomás de Aquino , que codificou quase toda a teologia tradicional do Ocidente ; mas esse mesmo teólogo , depois de escrever a Summa Theologiae e a Summa Contra Gentiles , teve uma visão ou revelação , depois da qual nunca mais escreveu uma palavra , e , interrogado pelo motivo desse silêncio , respondeu : " Tudo o que escrevi é palha " .
Entretanto , essa " palha " continua a ser o alimento de centenas de milhões de cristãos como sendo verdade divinamente revelada . Possivelmente , o " príncipe da teologia medieval " , se reaparecesse , aplaudiria a explicação que estamos dando dos eventos da Santa Ceia .
A comunhão do Cristo Carismático , ocorrida na gloriosa manhã do primeiro Pentecostes , em Jerusalém , é perfeitamente aceitável para qualquer homem , ao passo que a suposta comunhão eucarística do corpo e sangue de Jesus na Santa Ceia não será jamais aceita por nenhum homem sinceramente espiritual .
Não afirmamos que os nossos teólogos tenham agido de má-fé .
A cristandade dos primeiros séculos , depois de sair das catacumbas , necessitava , repetimos , mais de uma pedagogia teológica do que de uma metafísica crística - mas não se compreende por que essa pedagogia primitiva seja mantida em plena adultez da cristandade do século 20 . Por que não dizer à cristandade do nosso século o que o principal codificador dessa pedagogia teológica confessou explicitamente que tudo o que escreveu é palha ?
Não disse o Mestre : " Conhecereis a verdade , e a verdade vos libertará " ?
Hoje , no ocaso do Segundo Milênio da Era Cristã , e quase na alvorada do Terceiro Milênio , a elite espiritual da humanidade espera que lhe seja proclamada a verdade libertadora da mensagem do Cristo . Se , segundo as palavras de Paulo de Tarso , é necessário dar leite aos infantes em Cristo , por que não dar aos adultos em Cristo comida sólida ?
O simbolizado espiritual da parábola do pão e do vinho eclodiu na gloriosa manhã do primeiro Pentecostes , quando 120 heróis e heroínas comungaram o espírito do Cristo Carismático e iniciaram a epopéia do verdadeiro cristianismo .
Essa iniciação crística se deu no ano 33 após 9 dias de silêncio e interiorização espiritual , no cenáculo de Jerusalém , que pode ser considerado como o primeiro ashram ou Santuário de Iniciação da Cristandade .
Se a humanidade do Terceiro Milênio quizer realizar a mensagem do Cristo , terá de encontrar o seu Cristo interno em profunda meditação e comungar o Cristo Carismático em espírito e em verdade - e então será proclamado o Reino de Deus sobre a face da Terra e haverá um novo céu e uma nova terra .
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Ainda uma pergunta final , para sincero exame de consciência : teriam os nossos teólogos sustentado , através de séculos , o dogma da transubstanciação eucarística , se esse suposto milagre não fosse monopólio exclusivo deles e a base de todo o seu poder e prestígio ?
Não teriam eles concordado com Tomás de Aquino , o maior defensor da transubstanciação , confessando : " Tudo o que escrevemos é palha " ?
Texto : Huberto Rohden
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